CD: Amor Geral, Fernanda Abreu

O Lead title dessa semana vem do Instagram da própria artista: Amor entre os homens: eterno enigma a ser decifrado. https://www.instagram.com/p/BE1ZevGIEDt/?taken-by=fernandaabreureal

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Introdução/Contextualização:

No dia 20 de maio de 2016, Fernanda Abreu lançou Amor Geral, o oitavo álbum de estúdio da sua carreira pelo seu próprio selo, chamado Garota Sangue Bom, em parceria e com distribuição pela Sony Music após um período de dez anos sem um disco de inéditas. Ele levou dois anos e meio para ser finalizado e contou com parceiros antigos da cantora para sua produção, como o produtor Liminha, o DJ Memê, Laufer e o compositor Fausto Fawcett. Também há novos parceiros, como os compositores Qinho, Donatinho e Tuto Ferraz, e os produtores Wladimir Gasper, Sergio Santos, Rodrigo Campello e T.R.U.E. Ela ficou a cargo e responsável pela produção executiva e direção musical do CD e a mixagem foi feita por Sérgio Santos e Vitor Farias, enquanto a masterização ficou a cargo do Tom Coyne (Sterling Sound, NY).

O álbum veio precedido da música de trabalho Outro Sim. (Clique aqui para ver toda a ficha técnica)

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Capa do single

Ele foi lançado durante o programa Vídeo Show (Rede Globo) e, em seguida, publicado no canal VEVO da artista. Por conta disso, ela causou uma euforia nas redes sociais e uma expectativa quanto ao lançamento do álbum, evidenciando seu papel na música brasileira e chamando atenção para o seu retorno ao mundo fonográfico. Além disso, ela recebeu muitos elogios e saudações, até mesmo por quem ainda não a conhecia.

O conceito da produção me remeteu a outro clipe, o “Limpido” (2013) da Laura Pausini, lançado para divulgar sua coletânea em comemoração aos 20 anos de sua carreira e aos seus antigos sucessos.

Análise da obra no geral:

Durante o seu período de hiato, sem nenhum CD de inéditas, foi o momento que eu estava me inserindo nesse mundo do meio musical e, por isso, não acompanhei o processo de nenhum trabalho dela anterior a 2008. Todavia, em 2015 ela anunciou seu retorno aos estúdios via a rede social facebook e a partir daí a ansiedade e a expectativa era tremenda e pude acompanhar o tão desejado processo de lançamento e divulgação de ao menos um projeto da sua carreira longeva. Quando a hashtag #FernandaAbreuNoVideoShow entrou no Trending Topics do Twitter no dia 15 de abril desse ano fiquei em êxtase, porque sabia de toda influência, reverência e respeito entre o público, a mídia e a crítica especializada sobre seus trabalhos e sobre a própria Fernanda e logo em seguida encontrei, em um tweet aleatório, o link direcionado para a página do videoclipe de Outro Sim e essa nova empreitada artística tão atual, não tinha como vir em outro momento. Por sinal, toda aclamação merecida em torno desse disco é reflexo do quanto a música pop brasileira estava carente das músicas dela que sempre priorizou pela qualidade, inovação, inventividade, versatilidade e criatividade, pois cada disco veio com um conceito novo.

Agora, depois de tanto tempo, nos presenteou novamente com um ótimo CD. Na sua distinção, ele é sofisticado, de uma elegância e muito verdadeiro. Uma produção polida, com batidas infecciosas, já que ela sempre usou de uma unidade intercultural, de incursões ao funk, sempre de forma natural, sem parecerem forçadas. Na música pop-comercial desde os anos 2000 é raridade encontrar nas rádios brasileiras alguém que sempre mantém a qualidade poética e reflexiva em suas letras em sintonia com o balanço sofisticado dos arranjos. Aguerrida e com autonomia suficiente para oferecer música de qualidade, ela sempre se diferencia e ocupa o topo das artistas autênticas, passa longe de ser uma pseudoartista. Marca característica de Abreu é a cuidadosa curadoria de transpirar a máxima legal e o essencial em cada pedaço, em cada parte, de suas obras.

De mãos dadas com o eletrônico, Fernanda conseguiu transformar a dor, as vivências e suas percepções em pop. O álbum contém canais diferentes de eras da música, incluindo a moderna, a retrô, a década de 1980 e 1990, enquanto os humores do álbum variam e se inclinam de baladas lentas para mid-tempos até para up-tempos. O registro reflete uma renovação no som da artista, mas ao mesmo tempo há uma assinatura do estilo que a cantora desenvolveu em seus discos anteriores, ou seja, a sua essência ainda continua presente. Harmonizando uma mistura de elementos de uma série de gêneros, incluindo soul, dub, elementos eletrônicos, percussão tribal, groove disco e, claro, como ela foi a maior saudosista do funk carioca, ele também não podia faltar. As músicas são magistralmente trabalhadas e suntuosamente produzidas com cada elemento em perfeito equilíbrio – letra, melodia e produção – para mim, particularmente, não tem nada fora do lugar. Talvez eu até possa dizer: “é Fernanda em sua melhor forma.” Foi um retorno muito esperado e ainda bem que ela supriu as expectativas e trouxe um álbum agradável.

Mesmo que o todo pareça muito esparso e aleatório algumas vezes, olhando superficialmente, há todo um conceito regendo a obra – falarei mais a frente sobre ele. Certamente, com a finalidade a que Abreu se propôs, isso faz cada canção ser tipos diferentes de pensamentos e, como consequência, elas demonstram fortes abordagens dos diferentes estados de espírito, diferentes emoções, por isso te faz sentir coisas diferentes por meio de cada faixa. Assim sendo, a produção possui uma diversificação rítmica, de métrica, de assuntos, de sons e gêneros, evidenciando mais uma vez quanto nós somos plurais, por essa razão o trabalho não podia ser redondo, fechado em si, mas geral. Penso que ela não quis limitar, uma vez que todos possuem o amor, ele é geral. Além de que com maior variedade rítmica, o álbum fica menos monótono, são várias as extensões temáticas.
. Não custa avisar: ele é ideal para audição com fones de ouvido por causa dessa riqueza sonora e pelos sons que viajam pelos dois lados do estéreo do objeto para, assim, você poder apreciar, curtir e desvendar os mínimos detalhes de cada faixa a todo o momento.

Análise das letras (Conteúdo-Temas-Composição):

Entre 2008 a 2014 Fernanda Abreu passou por diversas situações em diferentes momentos, como a separação de um casamento de 27 anos com o artista plástico Luis Stein, a perda de sua mãe, após um coma de seis anos e o encontro de um novo namorado, o baterista Tuto Ferraz, além dos fatos sociais com o advento da intolerância no meio digital. Tudo isso está presente nesse disco, por esses motivos ele pode ser considerado o álbum mais intimista da sua carreira com canções muito pessoais para a artista, sem as crônicas características em terceira pessoa dos projetos anteriores.

No release publicado no site oficial, ela afirmou: “Amor Geral” é um álbum fortemente autobiográfico onde o tema é o amor. Centrado não em mim, mas no outro. O outro como ponto de partida e o amor como ponto de chegada. Afinal são as pessoas que nos fazem sentir vivos e amados (ou desamados). É um disco sobre a vida onde o amor, que parece um tema banal, se afirma como a força fundamental que não deixa esmorecer a nossa fome de viver. Produzido no eixo RJ-SP, urbano por natureza, o disco seguiu musicalmente esse sentimento do eu-coletivo. Convidei vários produtores (já que cada faixa pedia arranjos e sonoridades diferentes), músicos, compositores, técnicos e amigos para contribuírem na gestação do álbum.”

Sendo dessa vez um disco autobiográfico, nessa produção as letras se concentram em momentos, sensações, experiências e em 10 canções a Garota Sangue Bom imprime histórias vividas e reflexões com letras auto-reflexivas-pessoais de endereçamento ao seu passado e ao seu presente. Ela captou bem o espírito dessa época, do momento atual. Há também uma ênfase na complexidade das relações humanas, com o amor e a sexualidade sendo um foco temático particular para algumas das canções que expressam o sentimento um pouco amargo, tocando em “um amor que é a dor”. Em outro trecho do release, Abreu expõe: Temos vivido dias de intolerância, ódio e agressividade desnecessários. As discordâncias e divergências existem e, nesse cenário, termos a capacidade de ouvir é tão importante quanto falar! “Não é fácil aceitar alguém e ser aceito pelo outro também.” Em uma entrevista ela acrescenta: “O disco é um antídoto contra esse momento de intolerância”.

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Fernanda Abreu lança “Amor Geral” uma década após o último CD Foto: Gio Paganini/Divulgação/ Arte: Giovanni Bianco

Análise do projeto visual:

Toda a arte e a produção visual foram dirigidas por Giovanni Bianco e as fotos são do profissional Gui Paganini. A capa, como você viu no início do texto, tem Fernanda com uma imprensa na pele, especificamente na mão direita. Em uma entrevista ao Programa do Jô ela falou que “os seres humanos, seres históricos, imprimem nas pessoas a sua história e a história do mundo vem imprensa em você também.” Em contrapartida, eu pensei o seguinte: Dado que a obra reflete a época atual e como os discursos populares não são mais feitos oralmente em sua maioria, mas, sim, pelas mãos, são elas que digitam todas as palavras, portanto, toda a mensagem, antes oral, neste momento vem transmitida por elas, por esses membros humano. Quase toda expressividade dos brasileiros referentes a determinados assuntos está vindo das mãos e dos emojis, caiu um pouco a frequência de conversas por olhares e das expressões faciais físicas hoje em dia, talvez até por isso no clipe de Outro Sim ela está com as mãos completamente vermelhas, em razão de ser uma cor forte, chamativa e vibrante, além do vermelho ser a cor do amor, da vida e do sangue pulsando. Se você assistir ele novamente, perceberá que Fernanda dança com as mãos, os seus primeiros movimentos corporais são com as mãos. Inclusive, é a parte principal do corpo onde o sentido do tato é mais perceptível.

Análise do artista como intérprete das suas canções (Voz, notas, modo de cantar e tons):

No álbum contém vocais da artista abordando diferentes humores, como o ferido, o libidinoso, o sereno, sofrido, o natural, o animado e o etéreo. Vocalmente, para contribuir para os efeitos de sentido, há várias canções com algum efeito na voz dela, não está tão limpa, alguns desses efeitos, como uma determinada música pede, ela está até sensual. Interessante notar que os backing vocals em Tambor, Deliciosamente e Antídoto são masculinos, ficou como músicas da época/era Motown. Várias vezes você encontra vozes dobradas em overdub ou reverberadas, com delay (em looping) e, novamente, em alguns de seus trabalhos, ela fez uso de codificadores vocais, como, por exemplo, do vocoder e da talkbox.

Análise da instrumentalização especificamente:

Na resenha sobre “A Sociedade do Espetáculo” há meus comentários e minhas descrições, além dos comentários e das descrições do próprio artista, não é? Nesse texto, essa etapa será da mesma maneira.

PS1: Os comentários da Fernanda também estão no release publicado na internet, ele pode ser lido na íntegra por este link: http://www.fernandaabreu.com.br/amor-geral/#

Outro Sim
Primeira faixa do disco foi produzida por Wladimir Gasper, acrescida de samples adicionais por Jonas Chagas e tem como produtor vocal Felipe Abreu.
Em sua composição, ela inicia com uma voz masculina, dizendo diversos: ”Ô”. Essa voz sai em um lado de cada vez, em cada lado diferente do estéreo e em seguida surge um som de algo eletrônico em processo ao fundo, sendo carregado/ativado/iniciado e/ou ligado para já aos 04 segundos entrar a bateria comum e o sintetizador. Um entrando paralelo e após o outro para formar a pequena introdução, mas isso não quer dizer que todos eles não permaneçam na canção.
Toda a música é basicamente eletrônica, apesar de apresentar instrumentos orgânicos. Além dos instrumentos já citados, há baixo, programadores, teclados, chocalho, drum machine e também dois tipos de vozes do Pedro Bernardes no vocoder em estrofes específicas para complementar o vocal principal da Fernanda, a dupla Daft Punk usa muito desse codificador vocal.
Durante a 3º e a 4º estrofe parece haver palmas abafadas. Tento decupar as bases e cada som, seja ele agudo ou grave, para descrever cada parte, mas é difícil. São muitos elementos de efeitos que entram e saem criados por Sérgio Santos (figura central do disco pela participação em seis das 10 faixas, e outros músicos e produtores) que se combinam e se mesclam. Isso criou uma variação muito grande, geralmente a cada duas ou três estrofes o ritmo varia em decidas e subidas.
Praticamente, pode-se dizer que é dividida em duas partes iguais, canta-se direto as seis estrofes pela primeira vez e depois ela repete as seis estrofes novamente. A letra não tem a estrutura comum-básica-habitual: estrofe 1, est. 2, pré-refrão (em algumas), refrão, est. 3, est. 4, refrão, ponte musical e refrão/final. Sua forma é: estrofe 1-2-3-4 e refrão 1-2 (2x/bis). Como para o refrão a faixa troca de ritmo, podem, sim, serem consideradas refrão mesmo que não pareça. O ouvinte decide. Porém, antes dele começar, há um efeito sonoro, “tin-tin”, de uma caixa registradora, depois da bateria. Eu fiquei pensando no motivo dela ter usado isso: Pensei algo como uma crítica, algo sobre o capital, em um ser que só pensa no dinheiro e não importa se está lidando com outro ser humano. A maioria dos conflitos são por causa do dinheiro, se você sempre for buscar a raiz do problema… Ah, meu caro… (sem trocadilhos)
Liricamente, Fernanda prova a pluralidade mundial, não só humana, mas de todas as espécies de seres vivos, de objetos, de países, de espaços, de estações, de possibilidades, de coisas e afins e enfins… Existe uma infinidade de “outros” no mundo, até o sim dela é outro:
A outro tanto a ti quanto a mim
Um outro bem, um outro amor, outro sim
Não é fácil aceitar alguém
E ser aceito pelo outro também

https://www.instagram.com/p/BEWP5K3IEGE/

Adendo: No videoclipe, se você assisti-lo de novo, aparecem diversas formas geométricas contrastando com a cantora e com os dançarinos (humanos), me parece também uma figura de linguagem, olha só: como a indústria e todas as religiões querem que você se encaixe em padrões, o videoclipe faz uma crítica, mostrando que podemos fazer diversos movimentos, há muitas possibilidades disponíveis a nós e que, você se moldar estaticamente a algo, não funciona. Nunca funcionou. Somos plurais e diversificados! Claro que tudo isso não deve ser deturpado, tudo tem que estar de acordo com os Direitos Humanos, com a ética e moralidade de cada país.

Continuando: É como se ela, também, dissesse: “Estou de volta outra vez (outrora), com mais outros discursos, com outras atitudes, com outros gestos, com outras histórias, com outras experiências, o que culminou em outra música e em outro videoclipe”. Até nessa resenha, aparece um outro instrumento, aparece outra palavra em algum outro verso das outras canções. Sempre e em qualquer lugar haverá um outro ou uma outra.

Durante as estrofes do refrão ela faz um jogo com palavras que estão intimamente interligadas e, ainda por cima, rimam:
Outra favela, novela
Outro barraco, buraco
Outra cachaça, manguaça em outro bar
(…)
Outra cabeça, sentença (Sempre que vejo esse verso me vem a música “Admirável Gado Novo” do Zé Ramalho, vem as chacinas sob os povos negros, os feminicídios e se você for um ser pensante para algumas culturas, principalmente do sexo biológico feminino, você possui uma sentença e, com isso, me vem à mente a garota Malala Yousafzai junto de toda sua história.)

(…)
Outro sentido ou saída
Outra maneira ou medida
De dar a volta por cima, querendo dá

“Querendo dar a volta por cima” pode ser mais uma pessoa querendo passar por cima dos outros ou um indivíduo que nasceu num lugar não muito propício para um bom desenvolvimento ou uma vida digna, com emprego estabilizado, por esse motivo quer dar a volta por cima de um estigma muito presente em países subdesenvolvidos ou qualquer sujeito que passa ou passou por uma crise, assim, precisa “dar a volta”.

Pra não dizer que nada se repete na música, apenas durante a finalização, justamente essa  frase, “querendo dar”, é repetida por cinco vezes até ficar somente os sons vocálicos /aaaaaa/ repetidos em números iguais da frase anterior.

Tambor (feat. Afrika Bambaataa)
Segunda faixa do disco foi produzida por Sérgio Santos e composta por um trio: Fernanda Abreu, Jovi Joviniano e Gabriel Moura.
Esses dias atrás eu vi um documentário em algum canal educativo do governo brasileiro apresentando o instrumento “Tambor” para diferentes culturas, o que ele é e o que seu som representa, em quais momentos se usa e os motivos do uso. Infelizmente não me recordo do nome e nem do canal. Só me lembro de que depois de assisti-lo e ouvir o início dessa música com a palavra “tambor” repetida por três vezes, cheguei a essa conclusão: o rapper e Abreu podem não só estar dizendo somente o nome da música, mas chamando tudo o que envolve esse instrumento tão importante para diversas manifestações culturais. Inclusive, em toda a letra Fernanda o exalta, expondo em quais lugares ele está presente. No release há o seguinte: “A faixa é uma homenagem ao Tambor, expressão primeira da cultura negra e da comunicação entre os homens.
Tá no enredo, tá no samba do terreiro
Na marujada, na avenida, na congada
(…)
Unicamente no refrão releva exatamente quem é, ou melhor, o que é:
E quando toca o tambor
É festa, eu canto, eu danço

(…)

Sonoricamente, a música se inicia com o som de um berimbau e logo surge a batida dos tambores com a percussão tribal também transitando pelo fone de ouvido em conjunto com a bateria eletrônica. Após essa introdução, o convidado manda seu nome e de Fernanda enquanto o instrumento descrito em toda a letra é anunciado.
Quando a canção toma forma, na primeira e na segunda estrofe ela se constitui de uma voz realizando um beatbox (fazendo a batida em ritmo de funk, assim, ele substituiu alguma percussão) dois violões conduzindo no canal direto, baixo e um agogô. Quando chega ao refrão, inclui um batidão no centro que o deixa em estilo total do funk carioca.
Antes de entrar na segunda parte, um cantor volta a chamar pelo outro com um som orgânico de fundo e com o berimbau em destaque. Diferentemente da primeira parte, a segunda tem um loop que entra e sai. É música pra tocar em qualquer balada.

Contêm três pontes musicais, com essa atitude, há uma transição de vários ritmos na música e só resta a você curtir e se movimentar junto, não dá pra ficar parado. (Risos) Uma delas é para o participante, outra para ela e a última quase não possui vocal algum, isto é, mais instrumental. A primeira começa aos 02min26seg em estilo funk nova-iorquino com um break e com uma levada kuduro para abrir espaço para o rap que Fernanda faz logo em seguida. Como é característico nesse gênero musical, o rapper ordena pelos seguintes versos traduzidos:
Há baile funk nessa casa
Você tem que mexer
Você tem que tremer
Você tem que quebrar

Ainda bem que eles estão em inglês na versão original, porque, mesmo que o cantor esteja muito animado e fez a diferença na música, esses versos quebraram um pouco toda a mensagem que ela queria passar nas duas partes anteriores. Segunda ponte, como disse, é o rap. Muito pop. Quando ela acaba tudo se transforma em um samba-pop, por causa do violão, mas ele se constitui de palmas, os tambores e da bateria eletrônica como se tivesse formado um circulo e alguém está dentro dele, dançando.

 PS2: A canção “Tambor” — um passeio pela história e pelas ancestralidades do funk carioca, com participação de Afrika Bambaataa — conversa com o disco “Da lata” (1995), possui até um rap feito pela Abreu, como em várias canções antigas.

 PS3: Parece que as faixas são enormes com essas duas descrições anteriores, mas não são. É que há muito mesmo a ser dito por elas, vários instrumentos e conteúdos nas letras, é tudo muito expansivo.

Deliciosamente
Terceira faixa do disco foi produzida por Liminha e composta por um trio: Fernanda Abreu, Alexandre Vaz e Jorge Ailton.
Ela já abre com um toque como um raio de um sintetizador/programador pra anunciar que chegou a fase com levada disco groove do álbum, feita muito pelo Jota Quest aqui no Brasil. A canção possui guitarra, baixo, teclados, pandeiro e bateria, incorporados às batidas funky hook e também, como já foi dito, às batidas grooves disco. É bem puxada para o charm e romântica dançante, há, também, na base um piano Fender Rhodes flutuando pelos dois canais, marcação de palmas eletrônicas no meio do refrão, graves, frases de synth e efeitos. Nada fora do lugar, tudo bem encaixado e colocado no momento exato. Até agora só foram acertos. Ah! Já ia me esquecendo: tem harpa chinesa na ponte musical, aos 02min37seg.
Em sua letra apaixonada, os compositores sem delimitar questões genéricas, só querem deixar o amor acontecer independente de classe social, sexo, idade, cor ou religião. Se é amor, tudo é válido, só querem sentir e deixar rolar, acontecer:
Deliciosamente
Boca, pele, mão
Tudo o que se quer dizer
Falar ao coração
(…)
Tudo o que te der prazer
Sem classificação
No início de cada estrofe, há advérbios indicando a forma, a maneira, como eles querem que tudo isso aconteça: perigosamente, demoradamente, religiosamente e deliciosamente. Ao final da estrofe 2, há os versos “Universo paralelo / Outra dimensão”. Devido a sua sonoridade e efeitos ela te transporta mesmo a outro lugar, pode ser à uma discoteca.

Saber Chegar
Quarta faixa do disco foi produzida por Liminha e composta por Fernanda Abreu, Donatinho, Tibless e Play.
É uma faixa lenta (slowed-down version) e dançante como a anterior, ela contém um piano viajante no começo, carrilhão abrindo espaço para voz da cantora, Fender Rhodes, sintetizadores/programadores, mellotron, estalos de dedos (eles remetem a algo burlesco), baixo, um tambor bem levinho, drum machine, bateria comum, chocalho, frases de synths em momentos específicos, guitarra base e efeitos. Ela apresenta uma camada sobreposta ao vocal principal, isso quer dizer, a voz de Fernanda está com dobras e tem algo carnal, leve-sensual, no vocal dessa música. Logo no inicio quem se apresenta é o vocal de Donatinho numa talkbox passeando pelo estéreo e ela se encerra da mesma forma que começou.
Liricamente, a letra fala, além da imprevisibilidade e da falta de controle quando o assunto é amor, a nós, homens, sobre os momentos de flertes. Ela é um recado, em uma vibe positiva, direcionado para aqueles que querem obrigar alguém a ficar com ele mesmo não sendo recíproco, mostrando que tudo pode valer a pena. É só saber chegar!

Antídoto
Quinta faixa do disco foi produzida pelo Rodrigo Campello e composta somente pela Fernanda Abreu.
É uma faixa experimental neo-pop-soul suavemente produzida com elementos de acústica. Em sua composição instrumental se constitui de harmônio, Rhodes, violão, sintetizadores, bateria comum e bateria eletrônica (drum machine). No seu início, parece que ela está despertando e olhando todo o espaço ao seu redor para depois começar a cantar. Enquanto o prato da bateria é batido bem leve ao fundo a partir da 2º estrofe, marcando o compasso, parece que são pequenos passos que ela dá, caminhando por um campo ou por um caminho, como diz na letra, até chegar ao céu. As disposições de cada instrumento, principalmente da harpa e do harmônio, cria uma ambientação muito vantajosa, favorável e conveniente ao que a letra se propõe.
A música envolve a voz de Abreu cantando melancolicamente através de uma névoa de efeitos, com a sua voz encharcada de reverb, apoiado e bem ambientado sonoramente por um piano, percussão leve, frases de synth no canal esquerdo, mellotron, loops e efeitos. Crua, real e agradavelmente fresca. Na segunda parte, surgem alguns backing vocals com vozes masculinas passeando pelos dois lados e isso a deixou com uma cara de músicas da era Motown e ainda angelical.
A letra de Antídoto é suave e discreta, busca a transcendência da dor pela beleza sentida no coração. Ela contou como foi processo de composição: “Numa das madrugadas tristes que passei pensando na condição terrível em que minha mãe se encontrava (num coma há anos), peguei o violão, deitada na cama, e comecei a tocar uns acordes que já vieram acompanhados de melodia e letra juntos. Nunca tinha me acontecido isso antes.”
A harpa chinesa ou cítara tocada por Rodrigo Campello traduz essa busca com toque etéreo que faz a canção subir ao céu na escalada imaginada nos poéticos versos do tema. Tem um refrão bem construído e produzido com destreza. A partir dessa letra tão atual, eu quero ver quem não se identifica:
Quero a poesia como companhia
Artifícios não
(…)
Quero um antídoto que cure a tristeza
Tarja preta não

O Que Ficou?
Sexta faixa do disco foi produzida pela T.R.U.E e composta por Fernanda Abreu, Thiago Silva e Qinho.
Estruturalmente, começa somente com o piano Fender Rhodes e logo se apresenta um breve teclado enquanto se ouve uma respiração cansada até os 24seg. Ela consta em sua instrumentalização de, principalmente, bateria eletrônica (drum machine), baixo, sintetizador e efeitos. A música tem um ritmo centrado no piano de Gui Marques. Muito calma, sensível e modesta.
Vocalmente, Abreu usa de tons suaves e discretos, possui um ar leve e delays na voz, por esse motivo produz efeitos de ecos. Uma vez que a letra é em primeira pessoa, ela indica um fluxo de consciência pela falta de refrão e possui somente um conjunto de versos de um modo semelhante ao hip-hop. Fernanda canta os versos de forma contínua, quase sem pausa, como um trem de pensamento, antes de terminar abruptamente.
A letra envolve as inconstâncias da vida. Uma espécie de acerto de contas com um amor que se foi e, ao final, expressa algumas dúvidas, além de revelar coisas e fatos que esse amor fez, ocasionou e provocou no eu lírico. Ela disse o seguinte: “Escrevi a letra pro Luiz Stein, que foi meu marido por 27 anos e é pai das minhas duas filhas.”
Em O que ficou? parece que ela está se vendo em frente ao espelho, olhando não só sua aparência, mas olhando para dentro de si, dentro da sua mente.

Double Love Amor em Dose Dupla
Sétima faixa do disco foi produzida por Sérgio Santos e composta pelos parceiros de longa data, Fausto Fawcett e Laufer.
Com duas músicas anteriores em slowed-down version, ela coloca na tracklist uma que já anima novamente. A canção possui baixo, bateria, beats de funk, teclados, sintetizadores, efeitos e guitarra no refrão. Em outras palavras: Fernanda com voz sedutora vai do rap das estrofes ao canto do refrão com a voz multiplicada e viajante pelos dois lados. Uma guitarra solta frases no canal esquerdo e, tem vocal em destaque, trocando de canais, seduzindo em um momento com:
je t’aime, moi nons plus.
Déjà vu. Moi nons plus.
Deixa vir. Vem meu amor.
Sentir o calor. Double Love.

Ela é pop-rock, rap e hip-hop junto ao funk, basicamente. Que mistura boa é essa? Nas palavras de Fernanda: “Tem uma malícia dançante e pulsante.” Já começa direto pulsante com as batidas da bateria em grande destaque, com o sintetizador e o baixo. Enquanto ela conversa com alguém citado somente como “Você”, a instrumentalização fica calma, simples e com volume baixo, mas quando chega ao refrão… Já volta o batidão com uma guitarra nervosa e o vocal. Possui a ponte musical formada por uma quebrada beatbox aliada ao sintetizador muito popular no passinho, no funk, depois dos versos em francês.

Por Quem?
Oitava faixa do disco foi produzida pelo Tuto Ferraz e composta por Fernanda Abreu e Qinho.
A canção é a única do CD que já tem uma entrada com bateria limpa e com diversos efeitos sonoros de aplicativos digitais para ajudar na criação de sentido e no entendimento da música, inclusive, ela abre com o ringtone do Skype. (será que ela pagou à empresa para usá-lo?) Alguns desses sons são de teclas – meio redundante – sendo tocadas, programas sendo abertos, arquivos sendo arrastados e outros até de redes sociais. Tem uma levada disco-funky, proporcionada pela bateria, por discretas guitarras funk na levada, baixo, Fender Rhodes, chocalho (ganzá ou caxixi) e por várias frases diferentes de teclado de acordo com cada estrofe. Vocalmente, Qinho faz, de novo, o uso do vocoder brincando pelos dois canais, em alguns momentos até acompanha Fernanda na voz. Todavia, na segunda repetição do refrão, ela própria faz uso da talkbox, falando sempre “hardware” (ferragens) e “software” (programas) após alguns versos. A estrofe pós-refrão vem antes da ponte musical (bridge) e se diverge do todo, porque ela é bem mais orgânica, ela abre mais espaço para tambores, bateria e guitarras mais limpas, apesar de conter os efeitos do synth, no estilo de rodas de manifestações culturais ou religiosas. Muitas vezes, elas são feitas para iniciar ou encerrar algum processo, para fazer pedidos ou para rituais de oferenda e sacrifício, o que condiz com a letra – falarei mais adiante dela. Em seguida, para anunciar a ponte musical, colocaram o som de aviso de mensagem do WhatsApp aos 02min30seg e ainda possui um vocal com a talkbox sozinho acompanhado de sons de registros fotográficos e por um novo som agudo, feito por uma espécie de xilofone, do chocalho, da bateria e do baixo.
A letra romântica de Por Quem? faz referência ao mundo digital, o que condiz com a voz robótica inspirada na dupla Daft Funk e ao uso dos ringtones das redes sociais. Do mesmo modo que em O Que Ficou?, aqui ela também expressa algumas dúvidas. Em outra parte do release, revelou: “Mais uma letra tentando driblar a dureza de uma separação. Digerir, administrar e computar esse momento, com amor e leveza, é sempre um desafio.”
Para encerrar, o último som que se ouve é o de uma lixeira de algum computador sendo limpa. Talvez, para indicar que ela conseguiu processar a separação, conseguiu deletar esse momento de dureza.

Se ela não fosse autobiográfica, daria pra afirmar: ela foi feita pensando nos casais que surgem via mundo virtual, pelos encontros via aplicativos, como o Tinder, e, assim, desenvolvendo novas formas de se relacionar e de se envolver em um relacionamento amoroso.

 PS4: A elegância funky de Por quem? é filha de SLA radical dance disco club (1990).

Valsa do Desejo
Nona faixa do disco foi produzida pelo Tuto Ferraz e composta pela Fernanda Abreu e por Tuto Ferraz.
A música é uma piano-balada-retrô-intimista-orquestrada, porque é composta por um arranjo de cordas e também se complementa com alguns elementos eletrônicos, ou melhor, de bateria eletrônica. Esta é a faixa do casal. Combina o orgânico do quarteto de cordas e piano com discretas programações. Muito bem arranjada. Na segunda parte, têm momentos de um cello no canal esquerdo, as cordas envolvem a voz dela, que contêm efeitos em momentos determinados, numa cama romântica e sensível.  Veja os  elementos se coincidindo: a canção tem um compasso 4 por 4 (4X4), assim, ela é completa, como a forma geométrica quadrada, ou seja, quando ela encontrou o Tuto, os dois se completaram. Aliás e, por sinal, em uma valsa, os movimentos, para fazer uma volta completa, para formar o quadrado, dá um tempo de oito, assim: um-e-dois, três-e-quatro, cinco-e-seis e sete-e-oito. Oito, que é o símbolo do infinito, deixando subentendido: um amor eterno.  Será que ela pensou em tudo isso mesmo? No release: “Inspirada no meu momento amoroso e apaixonada, eu escrevi essa letra e comecei a criar a melodia acappella dançando uma valsa em casa. Fui pra SP e pedi ajuda pro Tuto, que sentou ao piano e criou essa harmonia linda e densa que, somada ao arranjo de cordas, criou a atmosfera que eu queria.
Liricamente, são somente pedidos dela a ele:
Me olha, imagina
Pra eu me sentir despida
(…)
Me beija de língua
Pra eu me sentir perdida

Amor Geral
Décima e última faixa do disco foi produzida por Sérgio Santos e composta pela Fernanda Abreu, Fausto Fawcett e Pedro Bernardes.
Ela disse: “Vinheta final, espécie de epílogo. Sintetiza a onda musical do disco misturando eletrônica com timbres e sons orgânicos. Como não podia deixar de ser, o samba aparece aqui, nas entrelinhas como parte do meu DNA. Samba urbano.”
Abreu usa, como música de fundo para o seu discurso e/ou desabafo, um sintetizador, drum machine e voz com efeito em eco. Ela recita a letra com efeitos de delay (parecem diversas Fernandas, juntas, ao seu redor) e um violão em estilo latino grave com teor mais sexual. Quando ela pede para ouvir o coração do mundo batendo, entra zabumba e tamborim, formando o seu samba urbano. Muito interessante ela ter encerrado com Amor Geral. Há variações de tons, às vezes a música está leve outras vezes pesada, há o sentir e o delicado em diferentes instrumentos.
Fernanda encerra com um discurso que resume tudo o que ouvimos nas faixas anteriores de forma clara, objetiva e sem figuras de linguagem. Ela soube deixar o seu recado, mesmo tratando de um tema tão amplo, com possibilidades de, a partir dele, discutir e debater tantos assuntos.

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Resumão (Avaliação Geral):

Em síntese, ela teve uma visão concisa de como seu trabalho deveria soar, de como ele deveria ser e o que ele deveria passar, foi o que deu uma unidade conceitual ao álbum. Sendo produtora executiva e diretora musical tudo saiu como ela esperava, como o público esperava e não deu outra, é um som dos melhores. Durante alguns relatos do release divulgado no seu site para a imprensa, ela descreve: É algo que me preocupei no disco: a frequência. Se você ouvir de fone, vai perceber que tem desde subgrave até agudo, passando por todas as frequências. Os arranjos têm que ter isso para ficar bacana. Se a música tem isso, você consegue levar a pessoa para uma viagem mais interessante.

Depois desse tempo em que Abreu ficou afastada, sem um trabalho de inéditas, muitas coisas aconteceram com o mundo e ela, claro, como o ser humano inserido nesse contexto, participou, acompanhou e vivenciou diversos momentos diferentes, inclusive em sua vida pessoal, como foi explanado durante toda a resenha. Mesmo assim, ela não se perdeu, ela soube delinear, delimitar, criar e seguir o caminho que ela construiu para a sua produção, tudo está dentro dos trilhos. Fernanda mesma disse em uma entrevista que tinha muito, agora, a dizer a essa nova geração que ainda não a conhecia. Ela é uma mulher consciente, que reconhece e sabe onde está inserida, está ligada com o que acontece ao seu redor e até se sentiu, olha só, na obrigação de transmitir uma mensagem, essa que traz o maior sentimento em todo o conceito da obra, o amor.
Diferentemente de Mahmundi, ela não contou o amor em um único ser, devido a isso sua obra não ficou redonda, fechada, completa em si mesma refletido em toda instrumentalização/produção, tudo não seguiu a linearidade concernente ao conceito proposto por ela e sem as faixas destoarem umas das outras. Por isso, até penso que seu som veio modificado, comparado as obras antigas, para atender os gêneros que estão em alta atualmente e, por meio deles, ela não causaria um estranhamento. À primeira impressão, eles já se identificariam com o som, com esse meio, com essa liga e um pequeno vínculo já se cria entre os ouvintes e ela. As belezas escancaradas das faixas têm o potencial de abrir os corações do povo para as possibilidades estéticas mais amplas de culturas fora de sua experiência habitual, do que só se ouve nas rádios e nos aparelhos televisivos (nos canais de televisão). Dessa maneira, ela pôde falar tranquilamente o que desejava. Sem chegar com o pé na porta, sem chegar metendo o dedo na cara de alguém, sem chegar criticando alguém, ou seja, criando conflitos desnecessários. Simplesmente, usou da sua arte, de artifícios líricos, para se expressar e como, consequentemente, somos seres racionais, a partir das nossas expressões nessas atuais arenas ideológicas o ouvinte escuta e logo começa a se relacionar, a dialogar, a refletir e também, claro, como não seria de se estranhar, a se posicionar, contrário ou favoravelmente.

Aqui, quanto somente à instrumentalização, ela segue uma ordem rítmica de três partes, criando uma estrutura, um desenho. Ele começa decaindo e depois volta a subir. Em outras palavras: De acordo com a audição de cada canção e como elas foram colocadas na lista de faixas, elas formam uma linha imaginária, como num gráfico, de tal forma que ela é delineada descendo até a metade do disco com a música O Que Ficou? e depois, com a seguinte, essa linha volta a subir. Esse percurso é todo influenciado pelos ritmos de cada uma. O trabalho começa animado, depois fica mais romântico e da segunda metade em diante volta para as batidas, para o ritmo mais acelerado, para as chamadas up-tempos. Metaforicamente, todo o processo de crise no mundo, tem um início que desencadeia determinadas “coisas”, faz os sistemas e a humanidade, ligadas a eles, irem decaindo também, até que com estratégias, relações humanas, mudanças, períodos de turbulência, incluindo até mesmo tragédias, tudo contribui para começar a entrar nos eixos outra vez e, assim, voltar a se reerguer e fazer o desenho do disco subir sua linha, novamente. Na história da humanidade, isso já aconteceu incontáveis vezes, nem que seja com um sujeito social, uma empresa ou até mesmo com uma nação ou organização inteira. Dessa forma, restará só o aprendizado (no caso, a última faixa do CD) e devido a tudo, eu repito: ele pode não ser redondo, fechado em si mesmo ou completo, a humanidade não pára, ela está sempre em contínuos/constantes períodos de transições, sejam elas internas ou externas, leves ou intensas, extremas ou ínfimas. Só nos resta saber viver e aprender a lidar com tudo isso.

Série: Lovesick/Scrotal Recall

Série: Lovesick/Scrotal Recall

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Estes dias, terminei de ver a série Sherlock Holmes. Juro pra vocês que, dentro de mim, tem um turbilhão de coisas pra dizer sobre essa produção. Talvez seja por isso que, até agora, não consegui escrever sobre ela. Nessa onda de série britânica (com todo aquele sotaque lindo e humor delícia), assisti, ontem mesmo, uma série que estreou recentemente na Netflix, que se chama Lovesick.  Em 2014, essa série, que recebeu o nome, inicialmente de Scrotal Recall, foi exibida pela Channel 4. Como ela não atraiu muito público, consequentemente, ela seria cancelada pela emissora, se o nosso tão lindo site de streaming Netflix não tivesse se interessado por ela. Devido a esse interesse, a obra de Tom Edge foi exibida no portal e já tem previsão de estreia para a 2ª temporada. Eba!

Com apenas 6 episódios, de 20/24 minutos cada, é uma série para maratonar, ainda mais com a capacidade britânica de começar e terminar cada capítulo com uma boa coerência. Ela narra a história de Dylan Witter (Johnny Flynn), um jovenzinho de  e poucos anos, que é diagnosticado com clamídia, uma doença sexualmente transmissível.  A partir disso, ele começa a ligar e a se encontrar com antigas namoradinhas, para avisá-las sobre a doença. Desse modo, a série acontece em flashbacks, para mostrar o Dylan do presente e o Dylan de até anos atrás, retratando, assim, cada uma de seus relacionamentos, ao ponto do rapaz começar a repensar suas atitudes e a reavaliar sua vida.

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Para tanto, ele conta com dois melhores amigos: a maravilhosa Evie (Antonia Thomas, de Misfits) e o maravilhoso Luke (Daniel Ings). Luke é o contraste de Dylan. Enquanto o jovem loiro, que precisa de uma boa lavada de cabelo, é meigo, fofo, preocupado com os  seus relacionamentos, ao ponto de não conseguir lidar tão bem com o sexo casual, Luke é o típico lindo, que sabe que é lindo, que se aproveita de seus atributos físico, para conquistar as garotas, transar com elas e sumir antes que elas o conheçam o suficiente para saber que ele é vazio por dentro. Já Evie é o equilíbrio entre os dois. Ela os ajuda a entender as mulheres, ela atua como intermediária entre os problemas Dylan + Luke + mulheres e, assim, leva sua vida de fotografa, até encontrar um cara com quem vai se casar.

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lovesick-serie-netflix-critiqueUm dos pontos positivos é a dinâmica entre o trio principal. Mesmo o Johnny Flynn sendo um ator um tanto apático, ele coube perfeitamente no papel de Dylan, que é tão fofinho que chega a ser meio sem-gracinha. Quem brilha mesmo é Daniel Ings, como Luke. Esperto, super engraçado e completamente perturbado, Luke é o que dá vida à série e à vida de Dylan e Evie. Apesar da série ter seu brilho sozinha, as vezes parece que é o paquerador Luke que a segura.

Lovesick me pegou, de início (e claro), o fato de ser uma série de “comédia romântica” britânica. Depois disso, a ideia da doença do protagonista também é um ponto positivo, pois doenças venéreas ainda são um tabu em nossa sociedade, então, uma produção “romântica”, com a personagem doente, é um tanto audaciosa. Além disso, a série acerta no humor ácido, mas fácil; meio negro, mas sem ser pesado; e diferente de Love (outra série da Netflix que também tem a proposta de ser uma comédia romântica, mas que não produz um riso bobo como a produção britânica). Esse lado cômico é muito bem conduzido, principalmente, como quebras de situações dramáticas. Há também o rompimento do sentimento de leveza em partes inusitadas, principalmente, em seu episódio final, que é desnorteador e deixa a série tão intrigante.

Por fim e não menos importantes, a fotografia, a ambientalização, a trilha sonora (que tem no Spotify e nesse blog também) e o figurino são muito bem construídos. Assim, mesmo com a previsibilidade do romance e os personagens serem bem caricatos, é possível se cativar e torcer por cada um deles. No final, como uma moral, produz-se a sensação de “vivencie todos os sentimentos possíveis em um único episódio e na sua vida”.serie-netflix-lovesick-resenha-scrotal-recall-dancing

A segunda temporada está prometida para novembro, na Netflix.

QUADRINHO: Clube Da Luta 2

Clube da Luta 2 é a continuação direta do livro Clube da Luta, de 1996, escrito por Chuck Palahniuk, que revisita seu maior sucesso com arte de Cameron Stewart. Ainda inédito no Brasil, foi publicado em 10 partes pela editora Dark Horse Comics, entre maio de 2015 e março de 2016.

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Quando, em algum momento de 2014, Chuck Palahniuk anunciou a sequência de Clube da Luta, sua legião de fãs entrou em um misto de êxtase e desgosto. Principalmente pelo fato de que a sequência é (e se você ainda não sabe, segure-se à sua cadeira) UMA HISTÓRIA EM QUADRINHOS!

O autor explicou o motivo posteriormente em uma entrevista, dizendo que a razão (ou uma delas) para fazer da sequência uma graphic novel era que ele ao mesmo tempo queria escrever uma continuação para a história de Tyler Durden, mas não queria que houvessem comparações com Clube da Luta o livro ou Clube da Luta o filme.

Particularmente entendo que esse descontentamento se dá ao fato de que muitas pessoas ainda não olham para histórias em quadrinhos como uma meio a ser levado a sério. A minha primeira resenha aqui foi sobre A Playboy, de Chester Brown, e eu me lembro de ter visto uma entrevistadora de um talkshow canadense, apresentando-o em seu programa para uma conversa sobre a novela gráfica Pagando Por Sexo (Paying For It, a comic-strip memoir about being a john), tendo ainda que fazer aquela tão famosa introdução do tipo Falaremos sobre um quadrinho, mas esse quadrinho é para adultos também! Este quadrinho é coisa séria!, como se um quadrinho de humor e os para o público infantil não pudessem ser levados tão a sério ou postos na mesma mesa que um livro de Dostoievski.

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Talvez esse tipo de ideia tenha causado o desgosto de tantos para com a continuação. Se você alimenta um mínimo de um pensamento deste tipo, talvez seja difícil para você apreciar a sequência de Chuck e Cameron, e talvez as comparações sejam maiores quanto à mídias do que quanto à conteúdo. Quanto à mídia, fiquei contente em ver coisas na obra que só existiriam ali. Certas particularidades de histórias em quadrinhos como um cartunesco passarinho sorridente alegrando um dos painéis ao que se chega ao final da história, que funciona dentro de um gibi, mas não seria o mesmo em um filme ou livro.

Cameron Stewart consegue criar seu próprio mundo de Clube da Luta, à parte do livro e filmes, caracterizando bem os personagens com um visual mais próximo ao que imaginaríamos lendo o primeiro livro e se distanciando das figuras dos atores do filme, ainda que pontualmente trazendo imagens que nos remetem ao Clube da Luta de David Fincher, como o casarão na Paper Street, visualmente igual ao do filme, ou no uso de cores (por Dave Stewart) em tons pastéis contrastando com as cores vibrantes nas roupas de Tyler, ou mesmo nas explosões causadas por este. E assim como no livro, onde imagens eram descritas e davam força às ideias narradas, o mesmo acontece no quadrinho, onde a arte dá lugar às descrições.

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E insistindo em comparações ainda assim, em seu primeiro trabalho com quadrinhos, Palahniuk não perdeu as características de sua narrativa. Você vai encontrar a acidez de sempre tanto nos comentários de Tyler Durden quanto à (nossa) vida de Sebastian (Que é o novo nome inventado do personagem marcado como Jack no primeiro livro), como também nas imagens de cabeças explodindo e sangue por toda parte, entre outras menos óbvias. Clube da Luta foi e é, para o público, um conteúdo ideológico. Sua legião de fãs compra a ideia de Tyler, mesmo quando o protagonista percebe o absurdo de tudo aquilo e renuncia; ou mesmo em proporções diferentes. Nós aceitamos o Tyler como ícone, como nosso amigo imaginário compartilhado, porque ele conversa com cada um da mesma forma pessoal como conversa com o protagonista da história.

A história começa mostrando o que aconteceu com Jack e Marla. Casados, e com um filho, levam uma vida infeliz regada à remédios para adormecer o monstro escondido entre eles, o que afeta a criança e a aproxima de Tyler, sua herança hereditária ou maldição. Com isso como base, a história se desenrola em 10 edições que esmiúçam o imaginário Tyler Durden, como uma ideia, e uma ideia de muitos, e de destino incerto. E esse destino incerto é o final da história, onde esta se mostra ainda mais como um comentário particular do autor quanto à seu personagem mais notável.

Tudo isso porque alguns amigos imaginários nunca vão embora, quer você queria ou não. Então raspe a sua cabeça, prepare a sua mala com duas camisetas pretas, dois pares de calças pretas, um par de coturnos pretos, dois pares de meias pretas e um casaco preto pesado, e leia Clube da Luta 2. Sem se esquecer dos $300 para o seu próprio enterro, e de não falar sobre isso.

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Série: Grace and Frankie

Série: Grace and Frankie

Frankie: – This is not my recipe. And yes, my vagina can tell.
Brianna: – Ok. Adam, can you please give us a second?
Adam: – Oh, absolutely not. No. (he pick up his phone and start to filming)
Brianna: – What are you doing?
Adam: – Oh, I have a few friends that don’t believe Frankie’s real. So, just go on.
Frankie give a little smile to the camera (Grace and Frankie, 02×08).

Falar sobre idade, sobre a velhice que me aguarda e me espreita, realmente me apavora. Sempre apavorou. Apesar disso, sempre imaginei que esse momento vindouro seria delicioso pela liberdade que a terceira idade pode representar, pois, nesse período da vida, as pessoas deveriam se permitir mais, ousar mais, aproveitar mais… Entretanto, mesmo acreditando nisso, sempre tive uma certa ressalva, porque eu sei que, quando estamos nos 70 anos, a energia, a saúde, o fôlego etc., normalmente, não é o mesmo de agora, no pré-trinta.

Por conta desse meu receio (e medo) dos tempos que virão, eu sempre (sempre mesmo) fugi da série Grace and Frankie, quando via a sugestão na minha página inicial da Netflix. Por quê? Porque sempre pensava: “terei que lidar com a vida idosa um dia, por que observar isso desde agora, não preciso, não quero, ah…certo?” Errado. Devo dizer que essa série maravilhosa prendeu minha atenção por dois dias inteirinhos (tempo necessário para assistir as duas temporadas disponíveis na plataforma), de tanto fascínio e deslumbre.

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Não, não é só Unbreakable ou Sense8 ou Master of none ou as infinitas séries produzidas pelo canal que merecem destaque. Gracie and Frankie também merece ! Talvez eu tenha me apaixonado muito rápido pela série, talvez eu tenha sentido uma certa afinidade, empatia, pelas personagens tão bem construídas, talvez eu esteja só sensível. Mas o lance é: assistam. 

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Ambientada em San Diego, a série tem como trama a vida de duas mulheres, Grace e Frankie, que se aturam pelo bem comum dos maridos, que são sócios em uma empresa de advogados (pessoas bem sucedidas). Grace e Robert têm duas filhas (uma casada e outra solteira – que é ótima, por sinal!), e Frankie e Sol, que também têm dois filhos adotados. Essa família toda cresceu junta, cresceu perto, cresceu unida. Foi aí que, durante um casamento – hétero normativo – de 40 anos, os maridos viveram uma romance escondido durante 20 anos. Isso se deu até o momento em que os dois se deram conta de que já estavam com 70 anos e nunca puderam viver o amor deles livremente. É quando eles resolvem se assumir como casal, para a família, pedem o divórcio, cancelam os cartões de crédito das mulheres, vão morar juntos e viver a vida deles. Entretanto é a partir desse nó que a trama se desenvolve, até porque, as duas senhoras deixadas, são idosas, aposentadas, sem lar (mudam-se, juntas, para a casa da praia), sem ocupação (no caso da Grace, por sempre ter vivido com o marido, ela nem se conhece, processo que começa após a sua aproximação com Frankie) e sozinhas.

Produzida por Marta Kauffman (de Friends) e Howard J. Morris, Gracie and Frankie conta com um grupo de atores excepcionalmente bom, sendo os veteranos: Lily Tomlin (76 anos), como Frankie, Sam Waterston (75 anos), como Sol, Martin Sheen (75 anos), como Robert e Jane Fonda (79 anos), como Grace. É uma delícia vê-los atuar. São atores extremamente talentosos, que se preparam muito para estarem nesta produção, por exemplo, Fonda fez curso de atuação, mesmo com todas as suas experiências, para se sentir segura para interpretar o papel. Além disso, a afinidade dos quatro explode na tela e nos contagia, faz com que possamos acreditar em uma amizade, uma vida, e, inclusive, na possibilidade da existência de várias oportunidades/novidades na vida, independente do tempo.

A amizade de Kauffman e Fonda existe desde 1980, quando ambas atuaram no filme “9 to 5“. Na série, como eu já disse, as personagens das duas atrizes não se suportam, principalmente pela discrepância entre o estilo de vida das duas.

Frankie é uma senhora hippie, artista, que fuma maconha, que teve um casamento cheio de amor, pratica yoga, desconhece o uso da tecnologia, cheia das ideias revolucionárias e das frases de efeito. Já Grace, é o contrário. Ela foi uma mulher bem sucedida na carreira profissional, construiu uma empresa (que, depois de sua aposentadoria, Brienne – uma das filhas – gerencia), teve um casamento um tanto infeliz, criou umas filhas sem muito amor (tem uma cena na qual Frankie acusa a mulher de não ser capaz de amar incondicionalmente), faz várias dietas, é viciada em martíni, seco e com duas azeitonas.

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Mesmo com todos esses desencontros, Grace e Frankie dão um show de maravilhosidade. Enquanto buscam seus lugares no mundo, as personagens transam, visitam amigos de longa data, tomam porre para esquecer os problemas, fazem canal no YouTube, fumam maconha e bebem chá de procedência questionável, têm frio na barriga em encontros com novos paqueras, cozinham seus próprios frangos com batatas, tem suas discussões, seus momentos de pura amizade e companheirismo, fazem planos, têm ideias (como um lubrificante orgânico para as mulheres que ficam “secas” depois da menopausa e um vibrador para as mulheres que sofrem de artrite!) e, inclusive, saem pra balada para comemorar a noite do “sim”.

Essas ideias apresentadas pelas protagonistas servem para discussão sobre como as pessoas idosas são tratadas por nós atualmente, isto é, são vistas como incomodas, antiquadas, “caretas” etc., o que pode ser um engano, pois, embora haja limites, problemas (Robert sofre um ataque cardíaco, Grace quase quebra o quadril) e dificuldades (não saber usar o notebook, por exemplo), eles são sim, pessoas interessantes e que têm muita coisa a oferecer, desde que a sociedade saiba como tratá-las.

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Além do mais, a comédia da produção é finíssima, compensa pelas vááárias risadas que ela garante. A relação pai x filhos, filhos x mãe, ex-marido x ex-mulher, meio-irmãos x meio-irmãs é ótima! Tira lágrimas dos olhinhos de quem sonha com uma família peculiar e cheia de amor.

Por fim, vale a pena destacar que, mesmo com todos os problemas que as duas mulheres enfrentaram para superar todas as dificuldades que surgiram (até mesmo a morte de algumas pessoas queridas, cujo acontecimento acarretou no pensamento: posso ser a próxima a morrer!), elas seguiram em frente. Deram um jeito. Aprenderam, adaptaram-se, respeitaram as decisões e escolhas do outro. Cresceram. Encontraram-se, riram, divertiram-se muito e ainda ficaram unidas. E penso que ver esse processo todo, ver a luta constante de mulheres fragilizadas, tanto pelas circunstâncias, como pelo tempo, é inspirador. É reconfortante. Dá esperanças…

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 Sam Waterston and Martin Sheen in the Netflix Original Series “Grace and Frankie”. Photo by Melissa Moseley for Netflix.

Assista o trailer da segunda temporada:

Vale lembrar, por fim fim fim mesmo, que a série é um tanto fictícia mesmo. Até porque, em uma realidade como a nossa, dificilmente chegaremos à uma idade como a das protagonistas, com dinheiro, boa aposentadoria, morando à beira praia, com tempo para pensar em “que roupa vou usar pro encontro com meu próximo namorado?”. Mesmo assim, o mundo irreal é delicioso, chega a dar um certo conforto, um certo aconchego ao pensar que a vida futura pode, talvez, muito talvez mesmo, ser doce. Nem que seja você com a sua melhor amiga por perto (:

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Próxima temporada foi confirmada para 2017. Agora é só aguardar.

Série: Mr. Robot

Série: Mr. Robot

“Algumas vezes sonho em salvar o mundo. Salvar todos da mão invisível. A que nos marca com um crachá de empregado. A que nos força a trabalhar para eles. A que nos controla todos os dias sem nós sabermos disso. Mas não posso pará-la. Não sou tão especial. Sou um anônimo. Estou sozinho.
[…]
Alguma coisa disso é real? Olhe para isso. Olhe! Um mundo construído em fantasia. Emoções sintéticas em forma de pílulas. Guerra psicológica em forma de propagandas. Produtos químicos que alteram a mente em forma de… comida! Seminários de lavagem cerebral em forma de mídia. Bolhas de controle em forma de redes sociais. De verdade? Quer falar sobre realidade?” (Elliot, Mr. Robot)

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Faz tempo que não escrevo sobre algo publicável, não é mesmo? Mas hoje pensei em uma série, que há alguns meses ensaio para falar sobre ela. Devo adiantar que, mesmo assistindo várias séries como habitual, nenhuma me impressionou tanto quanto Mr. Robot.

Mr. Robot, produção da emissora norte-americana USA e criação de Sam Esmail, mostra Elliot Alderson (Rami Malek), um engenheiro de segurança da informação, que, nas horas vagas, trabalha como um hacker “bem intencionado”. De início, percebemos que há algo meio incomum com o rapaz, pois, logo em sua primeira aparição, que é filmada de maneira não cronológica, ele é perseguido por vários homens de ternos preto, que, talvez, nem existam. Além disso, o perturbado personagem faz de nós uma espécie de “amigo imaginário”, o qual serve como fio condutor para a narrativa de Elliot e também como testemunha de alguns fatos apresentados por ele.

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Diferente de House of Cards,  a quebra da quarta parede é feita para que haja uma ligação entre Elliot seus espectadores, mas não com uma comunicação direta, como ocorre com Frank, mas sim por meio de uma comunicação realizada a partir de pensamentos e narrativas em off.  Isso funciona, aqui, porque Elliot é um personagem extremamente depressivo, ele não manteria uma conversa agradável com o telespectador, como o personagem espirituoso Underwood, de House of Cards.

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A série é permeada por uma trama complexa (com vocabulários técnicos da informática, telas pretas de comando etc.), que se desdobra em camadas e amplia o roteiro a cada episódio, seja pelos capítulos que se passam na mente drogada de Elliot ou pelos quais descobrimos a real natureza do protagonista. Enquanto a produção se “esconde” atrás da mente do hacker, ela aproveita para discutir várias críticas sobre o sistema capitalista, presente, principalmente, em grandes corporações, referenciando, desse modo, produções como The Matrix, V for Vendetta, 1984. Mesmo sendo críticas facilmente refutadas, é interessante ver uma produtora como a USA tocando em assuntos como esse, ainda mais com o foco em uma área tecnológica.

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Além da sua temática, Mr. Robot conta ainda com figuras igualmente interessantes e interpretadas por pessoas muito talentosas – e desconhecidas -, como Tyrell Wellick (Martin Wallström), Angela Moss (Portia Doubleday), o próprio Mr. Robot (Christian Slater) e  Whiterose (B.D. Wong), que contribuem para que a série tenha uma imprevisibilidade a cada episódio/momento. Um destaque super válido é a atuação de Rami Malek pois o ator, semi-desconhecido, fez um trabalho digno, marcante e super maduro. É impossível, portanto, não se cativar pela paranoia (desequilíbrio, em alguns casos) tão bem atuada pelo ator.

Mesmo com um quadro de atores tão geniais, os aspectos técnicos – da direção, da fotografia, do figurino à trilha sonora – merecem destaque também, por jamais subjugar a inteligência e senso crítico de seu espectador. Embora não seja uma obra prima visual como Hannibal ou Breaking Bad, vemos, em Mr. Robot, belos enquadramentos, com ângulos diferentes, que servem, em determinados momentos, para ilustrar o sentimento de superioridade ou inferioridade de um personagem. Há destaque ainda nos bem construídos diálogos e até nos títulos episódicos nomeados, pensados para que parecessem arquivos de vídeo.

Temos, dessa maneira, nessa produção, várias coisas que contribuem para sua maravilhosidade: um quadro grandioso de atores, uma direção primorosa e fatores estéticos geniais. Entretanto sua beleza, por incrível que pareça, vai além disso, porque há cenas, quando Elliot faz uso de algumas substâncias alucinógenas, que parece que estamos assistindo um filme gravado por Gaspar Noé. Temos a mostra do relacionamento entre Tyrell e sua esposa, que não consegui determinar o quão doentia é, e não sei dizer se ela se encaixaria numa relação dominadora/dominado. Há ainda a presença de um ator trans, Whiterose, (o Hacker do tempo), que drena a cabeça de qualquer pessoa, com um diálogo de 3 minutos, sobre, é claro, a concepção do tempo.

Não dá pra deixar de avisá-los, que a série é um tanto parecida com o filme Fight Club. Essa semelhança não é mero acaso, pois ela traz inúmeras referências externas no decorrer do drama. A temática de Mr. Robot é a mesma de Clube da Luta, o objetivo da fsociety é o mesmo que o do Projeto Caos, a narrativa de amigo imaginário é muito semelhante a narrativa em off do estilo “Eu sou o Câncer de Jack”, os valores anticapitalista e extremos são os mesmos em ambos e existe na fsocietyaté uma versão da 1° e 2° regra do filme. Depois disso tudo, o episódio 8 apresenta o Elliot e seu plot-twist. E isso dá até dor no estômago no espectador, pela mudança brusca de narrativa e perspectiva (nesse ponto, vale a pena voltar ao início da série e rever os episódios). No entanto, de modo diferente do filme de David Fincher, Mr. Robot, faz questão de tratar a revelação do plot-twist não como fim, mas como um meio, para que, no decorrer da segunda metade da temporada, a trama se desenvolva e reste “pontas soltas” para a segunda temporada da produção (que teve estréia, no Brasil, no dia 14 de julho).

Algumas resenhas sobre o filme: omelete, ligadoemsérie, businessinsider

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Esse home é tão maravilhoso que eu ficaria aqui colocando fotos dele até amanhã!

CD: Mahmundi, Mahmundi

Lead title: Já adianto: o disco conta uma história, me acompanhe para saber se ela terá um final feliz.

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Introdução/Contextualização:

Mahmundi é o codinome artístico adotado por Marcela Vale (vocal, bateria, sintetizadores, percussão), cantora, musicista e compositora de 29 anos da nova safra de artistas brasileiros. Desde 2010 ela já buscava uma carreira solo, mas só em 2012 lançou o seu primeiro EP de forma independente, o Efeito das Cores. Depois de integrar uma banda, a Velho Irlandês, de trabalhar como técnica de som no espaço cultural Circo Voador e lançar independentemente dois EPs, Mahmundi com todo esse acúmulo de experiências e amadurecimento junto com seus parceiros Lucas de Paiva (teclados, pianos, Rhodes, programações e samplers) e Felipe Vellozo (baixo e efeitos) se sentiu pronta pra lançar seu primeiro LP (long play) de estreia, o homônimo Mahmundi lançado no dia 06 de maio de 2016.

Das dez composições entregues pela cantora, apenas cinco foram produzidas especialmente para o registro. Quase sempre, Calor do Amor e Desaguar, resgatadas de Efeito das Cores; e Leve foi inicialmente apresentada no EP Setembro, todas elas receberam uma nova roupagem, um upgrade, sendo retrabalhadas.

Atualmente, o álbum está disponível apenas em formato digital para todas as plataformas principais do ramo e muito em breve ele chegará a seu formato físico pela Skol Music/Stereomono. Produzido pela própria Mahmundi sob a direção artística de Carlos Eduardo Miranda, com supervisão de Alexandre Kassin.

Análise da obra no geral:

É muito difícil classificar algo definitivamente (formar uma opinião definitiva) e generalizar, porque muitos estilos se fundem, se interligam e se mesclam. Nesse, por exemplo, você encontra upbeats, synthpop, trip hop, trance, new wave, indie e R&B com uma melodiosidade característica de sons industriais e menos orgânicos, embora vários apareçam apenas brevemente para dar algum efeito numa passagem específica. De maneira geral, o álbum está repleto de faixas de fácil assimilação, de digestão e assim acessíveis aos mais variados públicos e contato no que tange ao aspecto auditivo. Nem por isso perdem seu sentido, suas atrações. Todos esses gêneros e estilos mesclados produziram uma sonoridade oitentista no álbum, vários especialistas classificam isso desde 2012 como a retromania. Mesmo assim o álbum escapa da sina de soar datado, mesmo que o arranjo da maioria das dez composições autorais reprocesse o som sintetizado dos anos 80. Corroborando ao conteúdo das letras, na instrumentalização há a consonância nos momentos alegres e tranquilos. Por outro lado, nos momentos tristes há a dissonância para deixar o som mais instável. Até o próprio estilo musical trance é classificado em geral, com a maioria das canções calmas e de efeito lento em constante na energia-alma e no estado de pensamento. A tradução literal do termo trance para português é transe.

Ela amadureceu muito dos dois EPs para Mahmundi, esse novo álbum. A música dela no novo disco encontra-se um pouco mais ousada, com ideias mais interessantes. A cantora trabalha com boas bases eletrônicas e ritmos empolgantes em canções como Eterno Verão, Desaguar e Calor do Amor. Isso, porque quando o ouvi pela primeira vez foi sem pretensão alguma, sem saber qual a sua sonoridade específica e tive uma audição de um som que exala o frescor e alegria nos arranjos cheios de ousadia e boas referências nas canções. Na parte da tracklist, Mahmundi traz alguns bons complôs eletrônicos, casados com sacadas rítmicas bem inteligentes, por isso a presença das várias faixas empolgantes e profundas que chamam muita atenção ao envolver o ouvinte do início ao fim. A produtora é uma das que pegaram o bonde da retromania e fez de seu som uma experiência atual, coerente e bastante autêntica.

Sem saber em qual das etapas eu devo colocar essa análise a deixo aqui, mas você entenderá os motivos dessa conclusão posteriormente, digamos que por enquanto ela ficará subentendida: Em razão de a obra musical sempre ter, necessariamente, a sua representação direta também no trabalho visual, por exemplo, na capa, no encarte e na contracapa, muito do disco já está nele de forma simplista e minimalista. Como ele foi feito no Brasil e a artista é carioca o clima é total praiano, quando você o visse na prateleira da loja a capa já te revelaria isso devido ao fundo solar, em tom laranja, isto é, em tom veranesco do disco. Contudo, a sombra em perfil da cantora representa “silenciosamente” o lado sóbrio de algumas composições.

Análise das letras (Conteúdo-Temas-Composição):

Nesta produção, como eu já revelei, você irá acompanhar uma história, com início (introdução), meio (desenvolvimento) e fim (conclusão), uma trama em primeira pessoa relatando uma trajetória romântica do lado feminino de um casal. Desse modo, o seu mais profundo eu, o seu interior, seu subconsciente está sempre presente. O ouvinte passará, também, a conhecer quase todo esse percurso e pensamentos, de forma muito clara e íntima quando ela nos quer revelar, quando se sente à vontade para nos revelar. Por ter um tema tão subjetivo, as letras são intensas, minuciosas e reveladoras, explorando diferentes paisagens sonoras e assuntos; revelando inúmeros focos temáticos, como desejo, amor, aventuras, vontades, pegação, desilusão, lamúrias, a penumbra e o poente. Regendo o álbum, tudo se projeta como uma colcha de retalhos sentimentais e declarações românticas em tom confessional. Várias letras possuem as palavras Mar, Verão, Vento, Noite, Dia e Amanheceu, usadas para nos situar. Uma vez que acompanharemos todo o seu percurso, passaremos pelo momento em que Mahmundi se apaixona, do momento de conseguir estar ao lado da sua paixão e até dos pontos altos e baixos desse romance.

Análise do artista como intérprete das suas canções (Voz, notas, modo de cantar e tons):

Mahmundi não possui uma extensão vocal tão elevada e nem por isso usou de artifícios tecnológicos, como o Auto-Tune, para alcançar notas que não executaria facilmente, como já ouvi cantores usando e com isso deixando o seu trabalho muito artificial. Os produtores souberam colocar bem os tons e as notas dos instrumentos de acordo com sua voz, ela foi honesta consigo mesma e é sinal de que sabe da fonte que está bebendo, certamente as músicas se adaptaram à realidade extensiva da cantora.

Dado que todo o conhecimento com relação à história é em primeira pessoa e, portanto, entramos no subconsciente de Marcela, há a presença da técnica overdub na maior parte do álbum, produzindo camadas (ao menos duas, contando com lead vocals) sobrepostas de sua voz, proporcionando suporte e texturas. Argumento repetido: Além disso, há efeitos sonoros encontrados em diversas canções, que, por meio de eco ou de vozes distorcidas, encontramos um efeito auditivo de como se estivéssemos mesmo em alguma mente ou no cérebro de alguém, revelando e descobrindo o seu eu mais profundo.

Análise do projeto profundamente:

A música que abre o álbum é intitulada Hit, ela de prontidão nos fornece a marcação temporal principal da obra logo no primeiro verso: “final de verão”. Mesmo com o ditado “amor de verão não sobe a serra”, ela se apegou a alguém e passa a canção inteira descrevendo isso em tom de diálogo:

Fiz um hit pra entoar você
As horas parecem não ter fim
Na cidade…

Partindo pra segunda chamada Azul, que aliás me inquietou o fato de que em nenhum momento essa palavra aparece na letra, somente no título. E não é que faz sentido ser intitulada assim? Vamos entender o porquê: “A cor azul significa tranquilidade, serenidade e harmonia, mas também está associada à frieza, monotonia e depressão. Simboliza a água, o céu e o infinito. Um ambiente azul favorece o exercício intelectual e tranquiliza.” Corroborando esse significado com o do gênero trance da música e ainda com a letra se confirma que deveria mesmo se chamar assim.

Até agora as duas primeiras músicas têm marcação temporal: Essa noite acontecer. Na letra dessa faixa a cantora entrega seu desejo de tê-lo de volta depois do verão. Ela tem certeza que vai conseguir depois dessa noite relatada:

Quando tudo terminar
Essa noite acontecer
Na verdade, é pra dizer
Que meu coração te chama

Imaginando que a quem ela se apegou está na sua frente ouvindo toda declaração demora, exatamente, 10 segundos para entrar no refrão e é esse o tempo da decisão. Com essa atitude, o tom vocal sobe, o modo de cantar fica mais agressivo e quase grita pra ele implorando:

Te espero, te espero, te espero
Não váááá
É tudo sobre um dia aqui

Em seguida, para marcar o tempo passando ao fundo o sintetizador é tocado como se estivesse falhando, ele inicia aos 00:54 segundos.

Na ponte musical (bridge) aos 03:40 depois dessa toda revelação de amor ela está esperando a resposta dele e somente alguns instrumentos permanecem tocando, porque cada um representa algo: a bateria o coração ou o ponteiro do relógio passando pelos segundos, o synth e o baixo representa os pensamentos, o subconsciente.

Em Eterno Verão só para nos enganar ela inicia com sons graves do piano, em notas terça menor e acordes menores, mais escuros e também com o baixo causando a sensação de tensão e angústia. Como não tivemos a resposta do rapaz na música anterior, eu, pelo menos, fiquei curioso em saber como seria a próxima canção, pelo título “Eterno Verão”, pensei o seguinte: “Quer ver que o cara a marcou tanto e, assim, ela não conseguiu se desprender daquele verão? Por isso ele se tornou eterno.” E por causa das disposições dos dois instrumentos, logo concluí: “Vai ser outra revelando desejo e sofrimento.” Na verdade, foi só uma estratégia para nos enganar. Logo depois, já se anima, muda o ritmo e a sua levada. Porque, adivinhe só? Ela conseguiu! Não foi só naquela noite em Azul. Os dois estão juntos, mas precisa esperar até o refrão para tudo se confirmar, especificamente no último verso dele:

E é tão fácil
É tão mágico
Se perder numa canção
Com você


O eterno verão que ela se refere em vários momentos é a lembrança e a sensação causada pelo relacionamento do casal no eu lírico, por isso, também, a levada mais animada. Esse solo de guitarra colocado na música aos 01:59 minutos  foi de uma maneira muito inteligente.

Dando continuidade, Desaguar é a quarta faixa e se comparar com as músicas anteriores tem um uso maior de instrumentos e uma melodia que caminha junto com a voz, ótima. Tem um refrão muito legal, pra ser cantado em qualquer lugar, passa uma vibe positiva. Posto que tinha o desejo de encontrar um lugar pra descansar na canção anterior, nessa ela encontra.

Em Meu Amor você encontra influência de algo meio soul, groove, R&B, um funk norte-americano. Algo por aí. Tem uma base repetitiva e um ritmo pouco empolgante. Ela inicia num ritmo mais lento, talvez pra alusão do despertar, do acordar sempre mais preguiçoso. Essa é a continuação de Desaguar, depois da noite que passaram juntos. A letra mantém sempre o vocativo do título. Passado um tempo juntos, dessa noite juntos (de relação), depois do que aconteceu em Desaguar, amanheceu, a hora está passando e ela precisa ir embora:

Meu amor, eu me vou
Preciso refazer o meu lar.

Até agora, em nenhuma vez vimos o lado dele, somente o dela. Na letra inteira é ela explicando seus motivos por ir embora, mas não são muitos, porque a sua estrutura é composta por uma estrofe de 11 versos. Olha só o significado do número 11: “É um número espiritual e de intuição. O 11 é o idealismo, o perfeccionismo e a colaboração. É um número de forte magnetismo e caracteriza as pessoas idealistas, inspiradoras, de sensibilidade extrema”. Tudo a ver com a letra e com Marcela Vale. Mais um aspecto externo corroborando ao todo da obra.

Novamente, no final afirma ser eterno:

Nesse inverso dessa noite sem fim
É eterno, é eterno

Na segunda parte, quando o ritmo fica mais rápido, ela pode já estar se arrumando pra sair, enquanto conversa com ele.

Em Calor do Amor ela está tão feliz por esse romance estar presente em sua vida que toda instrumentalização, produção, melodia, ritmo e letra foram feitos também pra transmitir o que está sentindo e essa música, sim, te contagia. Aos poucos você já se pega balançando o pé. Esse é o calor do amor! Se você perceber, mais uma com marcação temporal, só que nessa é um dia completo, na 1° estrofe tem “Amanheceu o dia” e depois na penúltima “a noite chegou“.

Leve somente construída por quatro toques de guitarra tocados paralelamente, ou seja, com uma instrumentalização bem simples e o destaque para sua voz, que se desenvolve muito bem, explorando a voz mais limpa do que nas anteriores, a canção é mais uma a criar um clima muito legal na audição. A instrumentalização vai se construindo aos poucos e como as anteriores, a letra também corresponde ao arranjo: dado que ela está leve, tudo ao seu redor fica leve:

Seus olhos riam pra mim
Seus olhos riram pra me mostrar
A sua beleza e assim me encantar
(…)
Leve, eu ficarei mais leve
Me leve, me leve, eu ficarei mais leve

Infelizmente, como eu disse, “amor de verão não sobe a serra” e dessa vez não foi diferente. Nas faixas anteriores não sabemos completamente tudo o que aconteceu entre os dois, detalhadamente, por isso, muitas coisas ficam subentendidas e a partir de agora em Quase Sempre só sabemos que não há mais um casal:

Quase sempre nos damos conta
Só depois
Que estamos sós e que já não somos dois
(…)

No refrão ela questiona:
Cadê você para o jantar?
Preparei um mesa farta
E o que sobra é a sua falta

O que aconteceu, será? Até a sua construção já é mais melancólica, bucólica e esse sentimento incomodando, a arranhando, deixando marcas é feito pelo chocalho, um chiado em toda música.  É uma bela balada pautada pela saudade que demonstra um lado mais sentimental da cantora, com uma letra singela e é outra canção que demonstra o upgrade da cantora com relação às suas baladas.

Em sequência, Wild (selvagem, em inglês) corrobora com a introdução dela constituída por um som mais “sujo” feito por tambores tribais e um som metálico batido até os 14 segundos para tudo ficar em silêncio e logo retornar, é a penúltima faixa do álbum e o piano a deixa mais dramática:

Tudo fora do lugar
Longe daqui
Só quero estar
Num lugar mais breve pra viver

Olha só agora:
Longe do tempo ruim (marcação temporal, mas pelo término, com certeza é interior)
Longe daqui

Novamente, ela:

Só me interessa
Um dia mais perto de você
(…)
Quero um dia breve pra viver
Sobre você e me distrair

(…)
Sobre você que me faz feliz

Sentimento é o resultado final, literalmente, de tudo o que passou. Após as suas experiências, ela está definindo a todo o momento o que é o sentimento amor:

O amor é um mar difícil
Tão fácil de se ver e admirar

Todo amor tem um artifício
Que não acaba e ninguém pode mudar

Você pensa que por ser a última ela já superou? Nada disso, tem uma estrofe ainda:

Guardo tanto tempo em mim
Tudo só pra te mostrar
Que vai valer a pena de verdade

Que o amor é tudo que me interessa

Devido às duas anteriores serem melancólico-dramáticas essa já possui um som mais otimista, penso que ela está perto de superar. Não superou completamente, ainda, mas está quase. Encerrou bonito. Essa música em sua completude tem cara de música final.

Pontos negativos:

Quando vai chegando ao final dá para perceber na primeira audição, às músicas caem um pouco na qualidade e fica também um pouco tedioso a ouvi falar mais e mais sobre o amor. Um disco inteiro sobre isso é um pouco cansativo. Em outras palavras: Ouvi-la só falando do sentimento amor e suas causas, como desilusões, desejos, sofrimentos, lembranças por tanto tempo pode ser um pouco entediante, poderia ter variado nos focos temáticos. Talvez seja só pelo fato de eu tê-lo estudado a fundo, porque quando você o escuta executando alguma atividade ou só pra passar o tempo, todo o ar de extrema romanticidade passa quase despercebido.

Resumão:

Em síntese, como toda experiência a fez bem e como ela soube usá-las a seu favor, esse álbum é mais do que adequado para ser seu debut, afinal ela traz tudo que testou antes nos EPs e mais um pouco, tudo fruto de um mundo vivido, o mundo de Marcela. É como se fosse uma coletânea de hits que ela passou colecionando nos últimos quatro anos. Por se tratar de uma obra relatada em primeira pessoa, as suas experiências, o disco é redondinho, fechado em si mesmo, até nos gêneros musicais, arranjos e construção musical, eles não se destoam de uma música para a outra.

Acompanhar uma fase, um ciclo de alguém não é fácil, sempre terá seus percalços. Isso é com todos, mas sempre depois de cada experiência e processo, aprendemos muito, não é mesmo? Tiramos tanto daquilo, nos faz evoluir quanto seres humanos. Mahmundi, além da sua experimentação ainda dividiu conosco seus momentos de desejos, de alegrias, seus anseios e suas tristezas. Pode ser que não seja verídico? Claro, mas muitos já passaram por isso, com certeza. Foi algo acontecido com um indivíduo específico, porém a partir do momento que se externalizou se torna de qualquer um.

Tão bom ver brasileiros fazer músicas de qualidade sem soar cópias baratas, rasas ou farofas, proporcionando uma quebra de barreiras entre as fronteiras e isso deixa o projeto, simultaneamente, internacional devido ao som e nacional por causa das letras em português. Para a arte não há limites.

CD: A Sociedade do Espetáculo, O Teatro Mágico

Lead title: Uma sociedade é composta e formada por seres humanos, com isso surgem as relações, as manifestações e os hábitos sociais configurando e caracterizando uma cultura. Quer se aprofundar nessa minha afirmação? Então, venha ouvir A Sociedade do Espetáculo. A casa é sua!

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Introdução/Contextualização:

Um dos maiores nomes do cenário musical alternativo, com uma base sólida de admiradores, O Teatro Mágico, como quase todos devem saber, é um grupo liderado por Fernando Anitelli que mistura circo, teatro, poesia, política e, claro, música. Tudo isso está presente em A Sociedade do Espetáculo, terceiro disco e último trabalho de uma trilogia do grupo iniciada com Entrada para raros (2003) e Segundo ato (2008). Ele foi lançado de forma independente no dia 6 de setembro de 2011.

“Esse é um álbum que consolida as questões da pluralidade, das parcerias e do colaborativo”, sintetiza Fernando Anitelli sobre as participações especiais. O CD contou com a presença de Sérgio Vaz (em Felicidade?), Pedro Munhoz (em Canção da terra), Alessandro Kramer (em Eu não sei na verdade quem eu sou), Nô Stopa (em Folia no quarto), Leoni e do saxofonista da Dave Matthews Band, Jeff Coffin.

Além da contratação de um produtor, o Daniel Santiago, algo inédito na carreira do grupo, e que foi determinante para que a banda chegasse a uma síntese sonora maior. Outros dois músicos completam a lista dos ecléticos convidados do terceiro disco do grupo paulista: o gaitista Gabriel Grossi (em Até quando…) e o baterista Rafael dos Santos, na época, recente integrante da trupe. Masterizado no estúdio Sterling Sound, em Nova York, pelo engenheiro de som Chris Athens.

O conceito deste disco tem inspiração no livro La société du spectacle, do filósofo francês Guy Debord. No livro, o filósofo faz uma crítica teórica sobre a sociedade de consumo, a sociedade ocidental e o capitalismo. Assim, desta obra, além do título, a banda tirou ideias, que podem ser percebidas nas letras das músicas, e na capa, onde desenhos lembram ilustres conhecidos, como Nelson Mandela, Fidel Castro, Karl Marx e até mesmo Chapolin Colorado.

“Algumas ilustrações realmente são aquilo que você está vendo, outras são só sugestões. A ideia é justamente essa: confundir. Elas representam a sociedade do espetáculo que, na verdade, somos todos nós”, explica Anitelli, vocalista e mentor da banda, sobre a arte visual da capa.

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Análise da obra no geral:

Com som mais amadurecido e várias letras politizadas proporcionando reflexões sobre os tempos modernos com o repertório, basicamente, recaindo na alienação, no consumo e no mundo moderno globalizado, mais do que sobre políticas públicas, o CD segue o estilo leve, harmônico e poético do grupo.

As influências para o disco são muitas e misturam folk rock e pop rock à MPB, com uma vibe acústico, além de claras referências à literatura. Essa parafernália ideológica, essa cativante sonoridade melódica interiorana, estabelece um clima ambiente, com ela você se sente em casa, mesmo com alguns assuntos que causam certo desconforto.

Os instrumentos também estão muito bem encaixados e produzem um som descomplicado, franco, sem exageros ou truques musicais. Por outro lado, o resultado final, bruto e completo, peca pelo excesso de músicas, algumas poderiam ter ficado de fora. Penso que devido a todo estudo realizado, eles tinham muito conteúdo para expor e nós, ouvintes, podemos nos perder no meio disso tudo. Destaque para os vocais de Fernando Anitelli, que alterna timbres suaves com alguns esparsos momentos de aspereza.

Análise das letras (Conteúdo, Temas e Composição):

Primeira vez que o ouvi eu tinha 15 anos e de acordo com minha maturidade e conhecimento de mundo tive uma leitura, nem entendia as letras em sua completude. Retornando a ouvi-lo, agora mais velho, consequentemente com conhecimento de mundo mais maduro, surgiu uma leitura totalmente nova. Se você tem um pouco de conhecimento sobre história, filosofia, sociologia compreenderá de onde surgiu e de onde Fernando se inspirou para criar, para compor.

Na obra algumas letras são extensas com os versos curtos, apresentando verbos no infinitivo, característicos de Anitelli, dominando as letras politicamente engajadas: “semear o amor” “apoderar-se de si”, “resistir”, “ser plural”, “repartir o acúmulo”… Em vez de ordenar ao rebanho que faça o que ele diz, ele prefere sugerir, com sutileza, um comportamento coletivo, colaborativo, compartilhado. Quando você pensa no que eles querem passar, quando você leva pra interpretação, tudo se amplia, como um universo além, ligado ao universo do disco.

Podemos dividir as faixas de acordo com seu foco temático:

O Ser Humano presente em: Além, porém, aqui; Da Entrega; Transição; Eu Não Sei Na Verdade Quem Eu Sou; Novo Testamento; e Nas Margens de Mim.

A Sociedade em: Amanhã, será?; Felicidade; O Que Se Perde Enquanto os Olhos Piscam; Folia no Quarto; e Esse Mundo Não Vale o Mundo.

O Ser e A Sociedade em: Canção da Terra,

Amor/Relações Humanas em: Quermesse; Nosso Pequeno Castelo; Fiz uma Canção pra Ela; Tática e Estratégia; e Você me Bagunça.

Entre os temas das 16 canções e três vinhetas (interludes), contam-se menções ao Movimento Sem-Terra (em Canção da Terra), referências às revoltas populares no Oriente Médio em que depuseram ditadores (em Amanhã… Será?), críticas à “heterointolerância branca” (em Esse mundo não vale o mundo), canções suavemente feministas, e assim por diante, assuntos que estão bem em voga atualmente.

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Análise da instrumentalização:

A instrumentalização em geral é composta por cordofones (violões, baixo, guitarras, e violino), percussão (bateria, tambores-guizá e pandeiro) aerofones (flautas, acordeon), idiofones (triângulo, carrilhão, cascata, caxixi), teclado percussor, slide guitar e palmas. Logo nas quatro primeiras músicas a maior parte deles já está presente.

Dessa vez não entregarei tudo e não explanarei sobre todas as canções, a partir de todas análises anteriores você já tem uma base e aprofundamento que te auxiliará na audição e bem como, na sua leitura e interpretação. Está bem? Descreverei somente algumas:

A 1º faixa intitulada Proscênio, é uma intro. Inicialmente, ouvimos alguns cochichos e pessoas se acomodando, em seguida, uma campainha avisando que o espetáculo vai começar. Logo a cortina se abre para as infinitas possibilidades de imaginações que acontecerão em sua mente por causa do canto de Fernando Anitelli, e aí, meu caro, nesse segundo, já não tem mais volta, porque se escuta:

Senhoras e senhores
Respeitável público pagão
Bem-vindos ao Teatro Mágico

Com o título “Proscênio”, ele está nos situando, pois é o nome que denomina o espaço entre o palco e a plateia. É ali, onde está o anfitrião.

“Nosso Pequeno Castelo” possui uma levada mais swingada, nordestina, e a voz em dueto é de Ivan Parente, que, como Galldino (violinista) disse, tem registro de voz agudo, algo feminino.

Em “O Novo Testamento” o arranjo tem inspiração do funk carioca, do pop, com beatbox, bateria, baixo, teclados, agogô e tambores.

“Felicidade”, com sua letra que mais parece uma anedota, também é um questionamento de conceitos e papéis sociais.

“Tática e Estratégia” tem a letra em dois idiomas, português e espanhol, por isso a levada latina na música.

“Folia no quarto”, com uma melodia muito bem construída essa faixa contém a única voz feminina do CD, de Nô Stopa, filha do cantor e compositor Zé Geraldo. Quem sente tanta falta da infância se identificará com ela, sempre me deixa nostálgico. Engraçado isso, porque o disco fala de coisas atuais e vem essa pra te deixar assim.

A partir daqui os próprios irão nos dizer sobre algumas músicas (coletei de uma entrevista):

“Amanhã… Será?” – A inspiração, aqui, são as mobilizações populares em países do Oriente Médio, na Espanha e no Brasil. Os integrantes do Teatro Mágico costumam frequentar as marchas em São Paulo caracterizadas, em contato direto e íntimo com a multidão. “Essa revolução, na verdade, é interior”, filosofa Fernando.

“Quem diz que a revolução está saindo da internet está enganado, ela ainda vem do povo, a rede é só uma ferramenta. A insurreição está em nós e a primavera árabe traduziu isso muito bem”, diz Anitelli sobre a terceira faixa do CD.

Em “O Novo Testamento”, opção do funk explicada pelo coprodutor do disco e coautor da faixa, Daniel Santiago, músico do celebrado quinteto de Hamilton de Holanda: “O ritmo veio da capoeira, do maculelê, é totalmente brasileiro. Funk definitivamente é uma linguagem e uma manifestação cultural brasileira, veio pra ficar”.

“Fiz uma Canção pra Ela” – Parceria de Fernando com Galldino é uma canção de amor com viés politizado: “Fiz uma canção pra ela/ na mais bela tradução de igualdade e autonomia/ ao teu corpo e coração”. “A mulher não tem autonomia sobre o próprio corpo, quando se fala de aborto, de postura”, argumenta Fernando. “Se a menina usa roupa curta, tem culpa por ser estuprada?, peraí. É uma canção de amor à mulher, mas colocando ela como liberta, não como uma mulher que precisa ser protegida, carente, solitária, pobre, fraca, indefesa, santa, mãe. É amor, mas de igual pra igual”.

“Esse Mundo Não Vale o Mundo” – “Esta hetero-intolerância branca te faz refém”, diz a canção que trata de temas que várias do gênero pop em geral simulam não gostar. “Contaminam o chão família e tradição”, provoca o rock meio celta (segundo Fernando) que fala de “ter direito ao corpo” e à “terra-mãe que nos pariu”.

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Resumão:

Olha só, mais uma vez a sociedade e seus os acontecimentos, influenciando o indivíduo inserido num determinado contexto a produzir coisas de volta pra sociedade por meio da arte, independente do tipo ou modalidade. Diante disso, surge a seguinte questão: A vida imita a arte ou a arte imita a vida? Essa clássica questão já dividiu várias opiniões e, certamente, continuará dividindo, porém o que parece correto é que ambas se inter-relacionam, levando a uma resposta dicotômica, ou seja, tanto a arte influencia a vida como o inverso. Esse é o poder dela, de nos causar o efeito catártico, da catarse. O álbum serve, também, para perceber como arte é atemporal, as reflexões sobre os tempos modernos, incluindo o homem moderno, suas atitudes e comportamentos refletem bem, não só o ano da publicação dessa resenha, mas de muitas décadas, marcadas por revoluções, conquistas e muito mais.

Será que A Sociedade do Espetáculo consistirá em mais uma obra que se expressará através dos tempos e será que ela não ficará presa só no contexto da época de produção? Para refletirmos, fica esse questionamento final.

índice

Dou uma pontuação de 4 estrelas de 5.

Na discografia de O Teatro Mágico, ainda se inclui “Grão do Corpo” (2014) e “Allehop” (2016).