CD: A Sociedade do Espetáculo, O Teatro Mágico

Lead title: Uma sociedade é composta e formada por seres humanos, com isso surgem as relações, as manifestações e os hábitos sociais configurando e caracterizando uma cultura. Quer se aprofundar nessa minha afirmação? Então, venha ouvir A Sociedade do Espetáculo. A casa é sua!

teatro 01

Introdução/Contextualização:

Um dos maiores nomes do cenário musical alternativo, com uma base sólida de admiradores, O Teatro Mágico, como quase todos devem saber, é um grupo liderado por Fernando Anitelli que mistura circo, teatro, poesia, política e, claro, música. Tudo isso está presente em A Sociedade do Espetáculo, terceiro disco e último trabalho de uma trilogia do grupo iniciada com Entrada para raros (2003) e Segundo ato (2008). Ele foi lançado de forma independente no dia 6 de setembro de 2011.

“Esse é um álbum que consolida as questões da pluralidade, das parcerias e do colaborativo”, sintetiza Fernando Anitelli sobre as participações especiais. O CD contou com a presença de Sérgio Vaz (em Felicidade?), Pedro Munhoz (em Canção da terra), Alessandro Kramer (em Eu não sei na verdade quem eu sou), Nô Stopa (em Folia no quarto), Leoni e do saxofonista da Dave Matthews Band, Jeff Coffin.

Além da contratação de um produtor, o Daniel Santiago, algo inédito na carreira do grupo, e que foi determinante para que a banda chegasse a uma síntese sonora maior. Outros dois músicos completam a lista dos ecléticos convidados do terceiro disco do grupo paulista: o gaitista Gabriel Grossi (em Até quando…) e o baterista Rafael dos Santos, na época, recente integrante da trupe. Masterizado no estúdio Sterling Sound, em Nova York, pelo engenheiro de som Chris Athens.

O conceito deste disco tem inspiração no livro La société du spectacle, do filósofo francês Guy Debord. No livro, o filósofo faz uma crítica teórica sobre a sociedade de consumo, a sociedade ocidental e o capitalismo. Assim, desta obra, além do título, a banda tirou ideias, que podem ser percebidas nas letras das músicas, e na capa, onde desenhos lembram ilustres conhecidos, como Nelson Mandela, Fidel Castro, Karl Marx e até mesmo Chapolin Colorado.

“Algumas ilustrações realmente são aquilo que você está vendo, outras são só sugestões. A ideia é justamente essa: confundir. Elas representam a sociedade do espetáculo que, na verdade, somos todos nós”, explica Anitelli, vocalista e mentor da banda, sobre a arte visual da capa.

teatro 02

Análise da obra no geral:

Com som mais amadurecido e várias letras politizadas proporcionando reflexões sobre os tempos modernos com o repertório, basicamente, recaindo na alienação, no consumo e no mundo moderno globalizado, mais do que sobre políticas públicas, o CD segue o estilo leve, harmônico e poético do grupo.

As influências para o disco são muitas e misturam folk rock e pop rock à MPB, com uma vibe acústico, além de claras referências à literatura. Essa parafernália ideológica, essa cativante sonoridade melódica interiorana, estabelece um clima ambiente, com ela você se sente em casa, mesmo com alguns assuntos que causam certo desconforto.

Os instrumentos também estão muito bem encaixados e produzem um som descomplicado, franco, sem exageros ou truques musicais. Por outro lado, o resultado final, bruto e completo, peca pelo excesso de músicas, algumas poderiam ter ficado de fora. Penso que devido a todo estudo realizado, eles tinham muito conteúdo para expor e nós, ouvintes, podemos nos perder no meio disso tudo. Destaque para os vocais de Fernando Anitelli, que alterna timbres suaves com alguns esparsos momentos de aspereza.

Análise das letras (Conteúdo, Temas e Composição):

Primeira vez que o ouvi eu tinha 15 anos e de acordo com minha maturidade e conhecimento de mundo tive uma leitura, nem entendia as letras em sua completude. Retornando a ouvi-lo, agora mais velho, consequentemente com conhecimento de mundo mais maduro, surgiu uma leitura totalmente nova. Se você tem um pouco de conhecimento sobre história, filosofia, sociologia compreenderá de onde surgiu e de onde Fernando se inspirou para criar, para compor.

Na obra algumas letras são extensas com os versos curtos, apresentando verbos no infinitivo, característicos de Anitelli, dominando as letras politicamente engajadas: “semear o amor” “apoderar-se de si”, “resistir”, “ser plural”, “repartir o acúmulo”… Em vez de ordenar ao rebanho que faça o que ele diz, ele prefere sugerir, com sutileza, um comportamento coletivo, colaborativo, compartilhado. Quando você pensa no que eles querem passar, quando você leva pra interpretação, tudo se amplia, como um universo além, ligado ao universo do disco.

Podemos dividir as faixas de acordo com seu foco temático:

O Ser Humano presente em: Além, porém, aqui; Da Entrega; Transição; Eu Não Sei Na Verdade Quem Eu Sou; Novo Testamento; e Nas Margens de Mim.

A Sociedade em: Amanhã, será?; Felicidade; O Que Se Perde Enquanto os Olhos Piscam; Folia no Quarto; e Esse Mundo Não Vale o Mundo.

O Ser e A Sociedade em: Canção da Terra,

Amor/Relações Humanas em: Quermesse; Nosso Pequeno Castelo; Fiz uma Canção pra Ela; Tática e Estratégia; e Você me Bagunça.

Entre os temas das 16 canções e três vinhetas (interludes), contam-se menções ao Movimento Sem-Terra (em Canção da Terra), referências às revoltas populares no Oriente Médio em que depuseram ditadores (em Amanhã… Será?), críticas à “heterointolerância branca” (em Esse mundo não vale o mundo), canções suavemente feministas, e assim por diante, assuntos que estão bem em voga atualmente.

teatro 03.jpg

Análise da instrumentalização:

A instrumentalização em geral é composta por cordofones (violões, baixo, guitarras, e violino), percussão (bateria, tambores-guizá e pandeiro) aerofones (flautas, acordeon), idiofones (triângulo, carrilhão, cascata, caxixi), teclado percussor, slide guitar e palmas. Logo nas quatro primeiras músicas a maior parte deles já está presente.

Dessa vez não entregarei tudo e não explanarei sobre todas as canções, a partir de todas análises anteriores você já tem uma base e aprofundamento que te auxiliará na audição e bem como, na sua leitura e interpretação. Está bem? Descreverei somente algumas:

A 1º faixa intitulada Proscênio, é uma intro. Inicialmente, ouvimos alguns cochichos e pessoas se acomodando, em seguida, uma campainha avisando que o espetáculo vai começar. Logo a cortina se abre para as infinitas possibilidades de imaginações que acontecerão em sua mente por causa do canto de Fernando Anitelli, e aí, meu caro, nesse segundo, já não tem mais volta, porque se escuta:

Senhoras e senhores
Respeitável público pagão
Bem-vindos ao Teatro Mágico

Com o título “Proscênio”, ele está nos situando, pois é o nome que denomina o espaço entre o palco e a plateia. É ali, onde está o anfitrião.

“Nosso Pequeno Castelo” possui uma levada mais swingada, nordestina, e a voz em dueto é de Ivan Parente, que, como Galldino (violinista) disse, tem registro de voz agudo, algo feminino.

Em “O Novo Testamento” o arranjo tem inspiração do funk carioca, do pop, com beatbox, bateria, baixo, teclados, agogô e tambores.

“Felicidade”, com sua letra que mais parece uma anedota, também é um questionamento de conceitos e papéis sociais.

“Tática e Estratégia” tem a letra em dois idiomas, português e espanhol, por isso a levada latina na música.

“Folia no quarto”, com uma melodia muito bem construída essa faixa contém a única voz feminina do CD, de Nô Stopa, filha do cantor e compositor Zé Geraldo. Quem sente tanta falta da infância se identificará com ela, sempre me deixa nostálgico. Engraçado isso, porque o disco fala de coisas atuais e vem essa pra te deixar assim.

A partir daqui os próprios irão nos dizer sobre algumas músicas (coletei de uma entrevista):

“Amanhã… Será?” – A inspiração, aqui, são as mobilizações populares em países do Oriente Médio, na Espanha e no Brasil. Os integrantes do Teatro Mágico costumam frequentar as marchas em São Paulo caracterizadas, em contato direto e íntimo com a multidão. “Essa revolução, na verdade, é interior”, filosofa Fernando.

“Quem diz que a revolução está saindo da internet está enganado, ela ainda vem do povo, a rede é só uma ferramenta. A insurreição está em nós e a primavera árabe traduziu isso muito bem”, diz Anitelli sobre a terceira faixa do CD.

Em “O Novo Testamento”, opção do funk explicada pelo coprodutor do disco e coautor da faixa, Daniel Santiago, músico do celebrado quinteto de Hamilton de Holanda: “O ritmo veio da capoeira, do maculelê, é totalmente brasileiro. Funk definitivamente é uma linguagem e uma manifestação cultural brasileira, veio pra ficar”.

“Fiz uma Canção pra Ela” – Parceria de Fernando com Galldino é uma canção de amor com viés politizado: “Fiz uma canção pra ela/ na mais bela tradução de igualdade e autonomia/ ao teu corpo e coração”. “A mulher não tem autonomia sobre o próprio corpo, quando se fala de aborto, de postura”, argumenta Fernando. “Se a menina usa roupa curta, tem culpa por ser estuprada?, peraí. É uma canção de amor à mulher, mas colocando ela como liberta, não como uma mulher que precisa ser protegida, carente, solitária, pobre, fraca, indefesa, santa, mãe. É amor, mas de igual pra igual”.

“Esse Mundo Não Vale o Mundo” – “Esta hetero-intolerância branca te faz refém”, diz a canção que trata de temas que várias do gênero pop em geral simulam não gostar. “Contaminam o chão família e tradição”, provoca o rock meio celta (segundo Fernando) que fala de “ter direito ao corpo” e à “terra-mãe que nos pariu”.

teatro 04

Resumão:

Olha só, mais uma vez a sociedade e seus os acontecimentos, influenciando o indivíduo inserido num determinado contexto a produzir coisas de volta pra sociedade por meio da arte, independente do tipo ou modalidade. Diante disso, surge a seguinte questão: A vida imita a arte ou a arte imita a vida? Essa clássica questão já dividiu várias opiniões e, certamente, continuará dividindo, porém o que parece correto é que ambas se inter-relacionam, levando a uma resposta dicotômica, ou seja, tanto a arte influencia a vida como o inverso. Esse é o poder dela, de nos causar o efeito catártico, da catarse. O álbum serve, também, para perceber como arte é atemporal, as reflexões sobre os tempos modernos, incluindo o homem moderno, suas atitudes e comportamentos refletem bem, não só o ano da publicação dessa resenha, mas de muitas décadas, marcadas por revoluções, conquistas e muito mais.

Será que A Sociedade do Espetáculo consistirá em mais uma obra que se expressará através dos tempos e será que ela não ficará presa só no contexto da época de produção? Para refletirmos, fica esse questionamento final.

índice

Dou uma pontuação de 4 estrelas de 5.

Na discografia de O Teatro Mágico, ainda se inclui “Grão do Corpo” (2014) e “Allehop” (2016).

Anúncios

CD: A Casa Amarela, Veveta e Saulinho

 

Introdução/Contextualização:

No dia 17 de outubro de 2008 os amigos e parceiros musicais, Ivete Sangalo e Saulo Fernandes lançaram o primeiro projeto infantil de suas carreiras, intitulado A Casa Amarela, em todo o Brasil. Eles adotaram seus apelidos de infância que dão bem o tom do CD infantil lançado. O álbum foi indicado ao Grammy Latino 2009 na categoria: Melhor Álbum Infantil.

cd-ivete-sangalo-veveta-e-saulinho-a-casa-amarela-lacrado-540301-MLB20289708404_042015-F

Com a direção assinada por Alexandre Lins e composto por onze faixas inéditas em 31 minutos, trata-se de um trabalho que certamente teve grande aceitação junto ao público consumidor, mas muito mais pelo inquestionável prestígio atual da dupla do que pela homogeneidade do trabalho apresentado.

Análise da obra no geral:

Se sua infância e/ou adolescência foi durante os anos 80, 90, 2000 ou 2010 sabe muito bem que o universo infantil musical envolve, basicamente, músicas pop-comercial, para exemplificar alguns: Trem da alegria 80’s, Chiquititas 90’s, Turma do Balão Mágico, Eliana, Angélica, Xuxa, Mara Maravilha, Sandy & Junior, Trem da alegria 2000, Vitor & Vitória, Carrossel 2010, Chiquititas 2014, e sabe também que é raro encontrar produções MPB-infantil com conteúdos tão enriquecedores e relevantes, só pra citar temos Saltimbancos, Xico Bezerra, Vinicius de Moraes, Palavra Cantada, Adriana Partimpim, Pato Fu, Banda de Boca com MPB Pras Crianças, as trilhas sonoras de Sítio do Pica Pau Amarelo, Bia Bedran, Hélio Ziskind, Castelo Rá-Tim-Bum, Jair Oliveira com Grandes Pequeninos, são músicas que não chegam aos ouvidos da grande massa popular, é seleto, se estreita, infelizmente.

O álbum A Casa Amarela possui características dos dois grupos, mesmo assim não espere por um grande CD (e aqui não falo nem da pequena quantidade de faixas, nem da curta duração das mesmas). É que as composições soam insossa (não todas!), chegando a soar tatibitati. A criatividade das canções, lamentavelmente, fica a desejar em algumas específicas e não é porque se trata de um álbum voltado para as crianças que as ideias devem ser rasas, porque já encontramos produções para as crianças com criatividade e com discernimento, inclusive várias estão citadas na lista acima. Sonoricamente, o disco mistura MPB à músicas clássicas. O som, no geral, é leve, agradável. Os cantores assinam 8 das 11 faixas e dividem os vocais apenas na primeira canção, Bichos. A faixa Sono conta com a especial participação de Xuxa e o reggae está presente em É Bom Viajar.

ivete20e20saulo20corpo20inteiro-0014-edit__bx.jpg

 Análise das letras (Conteúdo, Temas e Composição):

Após a análise das letras das músicas Frufru, Fantasia, Mundo de Lela e Casa Amarela de Veveta e Saulinho constatei que elas apresentam eu líricos infantis consumistas, mimados e de classe alta. Assim, o CD não ensina, não estimula, não apresenta diferentes culturas às crianças e foi produzido para um grupo seleto de brasileiros, não foi feito para todo o tipo de público.

Acabaram limitando-o e talvez essa nem foi a intenção. Só faltou um pouco de estudo, aprofundamento e inspiração, seria até mais salutar para todos, para as crianças e para eles próprios. Os cantores têm potencial, sabemos disso, para fazer um disco bem legal como intérprete de músicas infantis sem ser infantistóides.

Em contrapartida, na outra metade do projeto encontramos salvações, letras que não limita, que retratam a beleza de ser criança, com suas imaginações, como em Bicho, Sensacional, É Bom Viajar, Maria Flor e Enfim Vencer

Análise do artista como intérprete das suas canções (Voz, notas, modo de cantar e tons):

Pra interpretação, os cantores fizeram tudo bem singelo, pra conquistar o público infantil ou até mesmo em geral, não foi tão necessário realizar todos aqueles melismas. Parece que foi sem pretensão? De maneira alguma, dá pra perceber que estavam curtindo, se divertindo e fazendo aquilo com muito gosto e prazer. A Ivete e o Saulo, juntos, é gol sempre – quem não se lembra de Não Precisa Mudar (2006)? -, não há como resistir aos seus timbres afinados e calorosos. Cantando canções de forma suave (“Maria Flor” e “Fantasia”, respectivamente), o que ressalta os bonitos timbres vocais de ambos.

i70575

Análise da instrumentalização especificamente:

Da instrumentalização eles tem muito do que se orgulhar, pense numa produção cuidadosa, parecem trilhas sonoras de filmes de animação. Dentro da obra, temos até bossa nova, jazz e soul, essa construção musical proporcionada pelos metais (instrumentos de sopro), piano Yamaha (clássico/comum), piano Rhodes, teclado Celesta, teclado Escaleta, bateria, baixo, contrabaixo, violinos e violão.

Clique no nome para ouvir:

Bicho é um ótimo jazz.

Se inicia com um metal, deixando um suspense e uma introdução para a criação. Posteriormente, já se apresenta tudo o que temos direito, incluindo piano Rhodes, maior variedade de metais, baixo, contrabaixo, bateria e guitarra. Por incrível que pareça, é a única em que os dois artistas cantam juntos, dividem os vocais.

Fantasia

Foi uma boa escolha colocá-la na lista de faixas como a seguinte e a próxima de Bicho, porque completa a primeira. É uma bossa nova e uma das que parecem música de trilha sonora. Somente Saulo canta e é constituída por piano Rhodes, celesta, violinos, violão e flautas. O eu lírico gosta de cultura pop, de super-heróis:

Se eu pudesse me vestia
Todo dia                              
Cada dia uma fantasia diferente
Ser um super-homem
Ou um lobisomem
Mas também
Eu me transformava
Num robô

 Em Frufru Ivete divide os vocais com uma menina, chamada por ela de Lelé. A canção possui saxofone, baixo, guitarra, bateria, piano Rhodes, palmas e um coral infantil. Como exposto anteriormente, essa é uma das que apresenta eu líricos um pouco mimados:

Tudo que eu gosto
Tem frufru
Tudo que eu quero
Tem detalhe
A lantejoula
Pode ser azul
Mas o lacinho
Tem que ser rosa

A Casa Amarela

Nessa é Saulo quem canta e nas duas estrofes primeiras ele afirma que seu pai pintou a casa de amarelo, em seguida no refrão revela que foi apenas um sonho e que nele os seus pais o tratavam como um rei. Vê se pode? Ela tem guitarra, pandeiro, baixo, agogô, xilofone e trombone. Nos 02:05 os instrumentistas tocam, logicamente, vários instrumentos, entretanto de forma aleatória e se encaixou ao todo. É gostoso ouvir essa “bagunça-organizada”.

Mundo de Lela

Sonoricamente, é outro jazz e também parece música de trilha sonora de filmes da Disney pela instrumentalização totalmente orquestrada e arranjada. Liricamente, apresenta uma rotina de preparação para algum compromisso no período da manhã. Esse eu lírico infantil, de início, parece mais uma criança um pouco mimada, leia e repare nos verbos:

Peço pra mamãe
Pegar o meu vestido
(…)

Também traz
Aquele seu perfume
(…)
A sandália?
Pega a cor-de-rosa
(…)
Oh, papai
Vem correndo me pegar
(…)
Você demora de chegar
Fico emburrada
(…)

Ela fala como se sua mãe fosse uma sua serva ou estou lendo errado? Somente ouvindo, nem parece isso, Ivete canta de forma suave Só quando acompanhei pela letra, me veio essa leitura.

Sensacional

É a minha preferida, parece que foi tirada da animação Ratatouille. Ela possui na instrumentalização acordeon, bandolim, trombone, flauta e bateria. Essa também é em primeira pessoa, mas bem diferente os gostos desse eu lírico:

Gosto de sentir
O vento forte
Carregando tudo
Pelo ar
Me levando alto
Num instante
Sinto a alegria
De voar

 Me lembrou Peter Pan.

É Bom Viajar é um reggae. Ela tem bateria, guitarra, teclado, agogô e reco-reco, além de barulhos de brinquedos que precisam de dar corda para funcionar.

Em Funk do Xixi batidas eletrônicas aliadas a de percussão e metais formam o arranjo. Como é comum nesses estilos de música há muita repetição dos versos para grudar na cabeça. É uma sátira, porém mesmo assim não é tão boa, não acrescenta tanto, acaba destoando e não faria falta no contexto da obra.

Maria Flor

Como foi Saulo que a compôs, é um diálogo dele com sua filha, mas quem canta é Ivete. Muito bonita e singela:

Nasceu uma flor
Aqui no meu jardim
Uma rosa pequenina
Me dizendo assim

Pai, estou aqui

Vim pra te amar
Você e mamãe
São os meus presentes
De Deus

Em sua instrumentalização possui apenas o piano Rhodes e escaleta. Ah, que sensação boa ela proporciona. Ouça ela!

Sono

Sua sonoridade é composta somente pelo Celesta. Liricamente, da mesma forma que a maior parte das outras faixas é em primeira pessoa e descreve o que acontece quando está com sono:

Quando estou com sono
Esfrego os olhos
Não me entrego nunca

Enfim Vencer

É a mais madura em seu conteúdo, deixará você com uma reflexão para encerrar a delicadeza do acalanto que é essa canção. Constitui de violão, piano, assovio e celesta de início para introduzi-la. Ela segue os fatos linearmente, em cada estrofe algo diferente é narrado. A penúltima estrofe intermediária é uma oração:

Oh, amado Deus
Dá-me mais
Força pra seguir
Ao lado seu
Me ensina
Perdoar a quem
Um dia me fez
Algum mal
Ou quis magoar
Mostra como
Faz o amor
Planta
No seu coração
Uma flor

Resumão:

 A Casa Amarela pode não ser a maior, mas isso não quer dizer que ela seja pequena. Com construções melódicas pouco definidas e ideias de letra quase sempre não desenvolvidas a contento contribuem para que o resultado final fique aquém do esperado, mesmo se reconhecendo que, em si, a ideia é bacana.

A primeira impressão foi tão boa, foi a de um disco divertido, porém depois (muito) pueril e a dupla, apesar de bem intencionadas (prefiro acreditar nisso) não o foram. Todavia,  lembre-se que foi somente metade do disco, por causa do conteúdo de algumas letras, ainda se têm as vozes e a instrumentalização. Eu gostava muito desse CD até perceber isso nas letras, problematizando. Isso não quer dizer que não mais o ouço, tanto que tenho até minhas preferidas. Novamente, olhe pela instrumentalização que rica.

3-estrelas1

Dou uma pontuação de 3,0 estrelas de 5.

Filme: Gummo

Filme: Gummo

Life is beautiful. Really, it is. Full of beauty and illusions. Life is great. Without it, you’d be dead. (Tradução livre: A vida é Bela. Realmente, é. Cheia de beleza e ilusões. A vida é ótima. Sem isso, você estaria morto, Gummo, 1997).

Eu não sei se fiz uma boa escolha para estrear aqui no blog, mas, como foi dito em uma postagem aqui na página, temos o intuito de externalizar aquilo que assistimos, ouvimos ou lemos. Por isso,escolhi o filme Gummo, que assisti estes dias atrás e me despertou a necessidade de escrever sobre ele. Sabe aqueles filmes que a você assiste e fica por dias na sua cabeça? Esse é um deles. Tentarei passar para o papel as sensações que esse filme me causou.

Digo de antemão que Gummo foi feito para chocar e as mentes mais preparadas e principalmente os estômagos mais preparados podem ser pegos de surpresa. (confesso que não sou nenhum pouca preparada nos dois sentidos). Confesso que não é fácil digeri-lo,pois é um filme difícil (não sei o que vai ser desta resenha). Escrevendo-a, agora, lembrando e assistindo novamente algumas cenas, sinto uma náusea que faz meu estômago embrulhar.

gummo-movie-poster-1997-1020236356

O longa foi lançado em 1997, sendo o primeiro filme dirigido por Harmony Korine, mesmo autor de Kids. Sua estréia na direção com Gummo recebeu críticas negativas do público e dos críticos, mas,curiosamente, arrancou elogios de ninguém menos que o grande cinegrafista Jean-Luc Godard.

Gummo começa com a voz rouca de um garoto, que narra acontecimentos sobre um tornado (verídico) que devastou a cidade de Xenia, Ohio, nos Estados unidos. Durante a narração, várias cenas cabreiras que mostram os efeitos que o tornado causou a cidade, gravadas em vídeos amadores, vão passando…

No início, a partir dessas imagens, somos conduzidos às primeiras cenas, para conhecer as várias personalidades, as várias histórias, aleatórias, que permeiam o longa-metragem. Essas tiradas mostram, por exemplo, o que as pessoas fazem para matar o tempo inseridas em um ambiente pós-apocalíptico, procurando, talvez, por algo que faça sentido ou alguém para descontar toda a raiva sentida (e acumulada) por viver em uma cidade caótica e doente.

Diante disso, notamos que todos os personagens têm uma problemática, são crianças jogadas no mundo sem nenhum laço familiar, alguns são anões, outros são portadores de doenças ou albinos e, ainda, há um menino de 13 anos, mais ou menos, que, em particular, me chamou muita a atenção,já que ele anda sozinho, a esmo, com uma orelha de coelho pela cidade, com um Marlboro vermelho em mãos e um semblante sério e triste.

Gummo1

Nesse ínterim, entre todo o caos, a cidade Xenia nos é apresentada. Ela é uma cidade condenada e, consequentemente, os seus habitantes também. Podemos ver que o desastre não foi só material, por destruir uma cidade inteira, mas também psicológico, visto que nos deparamos com vários personagens que cometem atos imorais perante o olhar da sociedade, mas que são (quase) justificáveis considerando a circunstância em que vivem. Vemos, assim, cenas que vão desde caçar e matar gatos por hobby,a atitude – doentia – de dois meninos, que pagam para fazer sexo com uma menina portadora de síndrome de down até a reação dos personagens diante de uma situação que eles se deparam, como quando dois meninos invadem uma casa e encontram uma senhora que sobrevive com ajuda de aparelhos: Tummler, um dos meninos, desliga o aparelho e usa do discurso – para alguns um assunto polêmico, para outros um ato de amor – de que viver naquelas condições é algo mais triste que a própria morte. Pode ser chocante ver um adolescente com tal mentalidade, mas, para ele, em sua visão de mundo e o contexto em que ele está inserido, é apenas uma atitude racional.

Percebemos, então, que o sentido do filme é fazer com que o público se sinta o mais desconfortável possível, Korine joga todas essas situações na nossa cara e diz “lidecom isso, sociedade”.Por meio depersonagens estranhos demais e cenas incoerentes, se formos comparar com a realidade social, (mas que provém dela, porque podemos facilmente encontrar – ou imaginar – pessoas e situações como aquelas, na vida real) faz com que a obra de Korine se torne surreal, mas verossímil.

8

O criador filmou e dirigiu essa obra com uma equipe de não-atores, livres para ‘atuarem’ e darem vida aos seus papéis. O interessante, ainda, é saber que Korine raramente cortava as cenas gravadas.Com essa estratégia, o responsável por esse longa mergulha no submundo, na subcultura retratando, de forma crua, os mais diversos grupos sociais, como crianças abandonadas, skinheads, homossexuais, prostitutas, alcoólatras, etc.

Entre este amontoado de imagens, encontramos também resquícios simbólicos que nos levam à presença religiosa no filme, como algumas imagens de demônios aparecem aleatoriamente ao som de um metal pesado, enquanto uma portadora de problemas mentais diz para sua amiga que ela deve rezar.

Além disso, falando em metais pesados, a trilha sonora escolhida também tem o papel muito importante nessa montanha russa de sensações que é Gummo, a trilha vai do calmo, do feliz ao trash metal. As minhas preferidas são: Crying, de Roy Orbison e Everyday, de Buddy Holly, uma das mais calmas, porque, acredite, depois de tanto soco no estômago, ouvir uma música calma no filme é como estar assistindo no YouTube bebês fofinhos dando risada. Ah, e claro, Like a Prayer, da Madonna.

Enfim, acho que não sou mais capaz de escrever além disso sobre esse filme. No entanto, espero que este texto desperte a curiosidade em alguém e que assista e comente e acrescente algo a mais. Gummoé inspirador, é muito mais que um enredo sobre várias personagens, é sobre a sociedade, é sobre nós mesmos. Um filme daqueles que a gente leva para sempre.

  • Para quem interessar, tive como base para fazer a resenha, esse texto aqui (está em inglês, mas é de fácil compreensão).