Life is beautiful. Really, it is. Full of beauty and illusions. Life is great. Without it, you’d be dead. (Tradução livre: A vida é Bela. Realmente, é. Cheia de beleza e ilusões. A vida é ótima. Sem isso, você estaria morto, Gummo, 1997).

Eu não sei se fiz uma boa escolha para estrear aqui no blog, mas, como foi dito em uma postagem aqui na página, temos o intuito de externalizar aquilo que assistimos, ouvimos ou lemos. Por isso,escolhi o filme Gummo, que assisti estes dias atrás e me despertou a necessidade de escrever sobre ele. Sabe aqueles filmes que a você assiste e fica por dias na sua cabeça? Esse é um deles. Tentarei passar para o papel as sensações que esse filme me causou.

Digo de antemão que Gummo foi feito para chocar e as mentes mais preparadas e principalmente os estômagos mais preparados podem ser pegos de surpresa. (confesso que não sou nenhum pouca preparada nos dois sentidos). Confesso que não é fácil digeri-lo,pois é um filme difícil (não sei o que vai ser desta resenha). Escrevendo-a, agora, lembrando e assistindo novamente algumas cenas, sinto uma náusea que faz meu estômago embrulhar.

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O longa foi lançado em 1997, sendo o primeiro filme dirigido por Harmony Korine, mesmo autor de Kids. Sua estréia na direção com Gummo recebeu críticas negativas do público e dos críticos, mas,curiosamente, arrancou elogios de ninguém menos que o grande cinegrafista Jean-Luc Godard.

Gummo começa com a voz rouca de um garoto, que narra acontecimentos sobre um tornado (verídico) que devastou a cidade de Xenia, Ohio, nos Estados unidos. Durante a narração, várias cenas cabreiras que mostram os efeitos que o tornado causou a cidade, gravadas em vídeos amadores, vão passando…

No início, a partir dessas imagens, somos conduzidos às primeiras cenas, para conhecer as várias personalidades, as várias histórias, aleatórias, que permeiam o longa-metragem. Essas tiradas mostram, por exemplo, o que as pessoas fazem para matar o tempo inseridas em um ambiente pós-apocalíptico, procurando, talvez, por algo que faça sentido ou alguém para descontar toda a raiva sentida (e acumulada) por viver em uma cidade caótica e doente.

Diante disso, notamos que todos os personagens têm uma problemática, são crianças jogadas no mundo sem nenhum laço familiar, alguns são anões, outros são portadores de doenças ou albinos e, ainda, há um menino de 13 anos, mais ou menos, que, em particular, me chamou muita a atenção,já que ele anda sozinho, a esmo, com uma orelha de coelho pela cidade, com um Marlboro vermelho em mãos e um semblante sério e triste.

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Nesse ínterim, entre todo o caos, a cidade Xenia nos é apresentada. Ela é uma cidade condenada e, consequentemente, os seus habitantes também. Podemos ver que o desastre não foi só material, por destruir uma cidade inteira, mas também psicológico, visto que nos deparamos com vários personagens que cometem atos imorais perante o olhar da sociedade, mas que são (quase) justificáveis considerando a circunstância em que vivem. Vemos, assim, cenas que vão desde caçar e matar gatos por hobby,a atitude – doentia – de dois meninos, que pagam para fazer sexo com uma menina portadora de síndrome de down até a reação dos personagens diante de uma situação que eles se deparam, como quando dois meninos invadem uma casa e encontram uma senhora que sobrevive com ajuda de aparelhos: Tummler, um dos meninos, desliga o aparelho e usa do discurso – para alguns um assunto polêmico, para outros um ato de amor – de que viver naquelas condições é algo mais triste que a própria morte. Pode ser chocante ver um adolescente com tal mentalidade, mas, para ele, em sua visão de mundo e o contexto em que ele está inserido, é apenas uma atitude racional.

Percebemos, então, que o sentido do filme é fazer com que o público se sinta o mais desconfortável possível, Korine joga todas essas situações na nossa cara e diz “lidecom isso, sociedade”.Por meio depersonagens estranhos demais e cenas incoerentes, se formos comparar com a realidade social, (mas que provém dela, porque podemos facilmente encontrar – ou imaginar – pessoas e situações como aquelas, na vida real) faz com que a obra de Korine se torne surreal, mas verossímil.

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O criador filmou e dirigiu essa obra com uma equipe de não-atores, livres para ‘atuarem’ e darem vida aos seus papéis. O interessante, ainda, é saber que Korine raramente cortava as cenas gravadas.Com essa estratégia, o responsável por esse longa mergulha no submundo, na subcultura retratando, de forma crua, os mais diversos grupos sociais, como crianças abandonadas, skinheads, homossexuais, prostitutas, alcoólatras, etc.

Entre este amontoado de imagens, encontramos também resquícios simbólicos que nos levam à presença religiosa no filme, como algumas imagens de demônios aparecem aleatoriamente ao som de um metal pesado, enquanto uma portadora de problemas mentais diz para sua amiga que ela deve rezar.

Além disso, falando em metais pesados, a trilha sonora escolhida também tem o papel muito importante nessa montanha russa de sensações que é Gummo, a trilha vai do calmo, do feliz ao trash metal. As minhas preferidas são: Crying, de Roy Orbison e Everyday, de Buddy Holly, uma das mais calmas, porque, acredite, depois de tanto soco no estômago, ouvir uma música calma no filme é como estar assistindo no YouTube bebês fofinhos dando risada. Ah, e claro, Like a Prayer, da Madonna.

Enfim, acho que não sou mais capaz de escrever além disso sobre esse filme. No entanto, espero que este texto desperte a curiosidade em alguém e que assista e comente e acrescente algo a mais. Gummoé inspirador, é muito mais que um enredo sobre várias personagens, é sobre a sociedade, é sobre nós mesmos. Um filme daqueles que a gente leva para sempre.

  • Para quem interessar, tive como base para fazer a resenha, esse texto aqui (está em inglês, mas é de fácil compreensão).

 

 

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Um comentário sobre “Filme: Gummo

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