CD: Mahmundi, Mahmundi

Lead title: Já adianto: o disco conta uma história, me acompanhe para saber se ela terá um final feliz.

 mahmundi-capa

Introdução/Contextualização:

Mahmundi é o codinome artístico adotado por Marcela Vale (vocal, bateria, sintetizadores, percussão), cantora, musicista e compositora de 29 anos da nova safra de artistas brasileiros. Desde 2010 ela já buscava uma carreira solo, mas só em 2012 lançou o seu primeiro EP de forma independente, o Efeito das Cores. Depois de integrar uma banda, a Velho Irlandês, de trabalhar como técnica de som no espaço cultural Circo Voador e lançar independentemente dois EPs, Mahmundi com todo esse acúmulo de experiências e amadurecimento junto com seus parceiros Lucas de Paiva (teclados, pianos, Rhodes, programações e samplers) e Felipe Vellozo (baixo e efeitos) se sentiu pronta pra lançar seu primeiro LP (long play) de estreia, o homônimo Mahmundi lançado no dia 06 de maio de 2016.

Das dez composições entregues pela cantora, apenas cinco foram produzidas especialmente para o registro. Quase sempre, Calor do Amor e Desaguar, resgatadas de Efeito das Cores; e Leve foi inicialmente apresentada no EP Setembro, todas elas receberam uma nova roupagem, um upgrade, sendo retrabalhadas.

Atualmente, o álbum está disponível apenas em formato digital para todas as plataformas principais do ramo e muito em breve ele chegará a seu formato físico pela Skol Music/Stereomono. Produzido pela própria Mahmundi sob a direção artística de Carlos Eduardo Miranda, com supervisão de Alexandre Kassin.

Análise da obra no geral:

É muito difícil classificar algo definitivamente (formar uma opinião definitiva) e generalizar, porque muitos estilos se fundem, se interligam e se mesclam. Nesse, por exemplo, você encontra upbeats, synthpop, trip hop, trance, new wave, indie e R&B com uma melodiosidade característica de sons industriais e menos orgânicos, embora vários apareçam apenas brevemente para dar algum efeito numa passagem específica. De maneira geral, o álbum está repleto de faixas de fácil assimilação, de digestão e assim acessíveis aos mais variados públicos e contato no que tange ao aspecto auditivo. Nem por isso perdem seu sentido, suas atrações. Todos esses gêneros e estilos mesclados produziram uma sonoridade oitentista no álbum, vários especialistas classificam isso desde 2012 como a retromania. Mesmo assim o álbum escapa da sina de soar datado, mesmo que o arranjo da maioria das dez composições autorais reprocesse o som sintetizado dos anos 80. Corroborando ao conteúdo das letras, na instrumentalização há a consonância nos momentos alegres e tranquilos. Por outro lado, nos momentos tristes há a dissonância para deixar o som mais instável. Até o próprio estilo musical trance é classificado em geral, com a maioria das canções calmas e de efeito lento em constante na energia-alma e no estado de pensamento. A tradução literal do termo trance para português é transe.

Ela amadureceu muito dos dois EPs para Mahmundi, esse novo álbum. A música dela no novo disco encontra-se um pouco mais ousada, com ideias mais interessantes. A cantora trabalha com boas bases eletrônicas e ritmos empolgantes em canções como Eterno Verão, Desaguar e Calor do Amor. Isso, porque quando o ouvi pela primeira vez foi sem pretensão alguma, sem saber qual a sua sonoridade específica e tive uma audição de um som que exala o frescor e alegria nos arranjos cheios de ousadia e boas referências nas canções. Na parte da tracklist, Mahmundi traz alguns bons complôs eletrônicos, casados com sacadas rítmicas bem inteligentes, por isso a presença das várias faixas empolgantes e profundas que chamam muita atenção ao envolver o ouvinte do início ao fim. A produtora é uma das que pegaram o bonde da retromania e fez de seu som uma experiência atual, coerente e bastante autêntica.

Sem saber em qual das etapas eu devo colocar essa análise a deixo aqui, mas você entenderá os motivos dessa conclusão posteriormente, digamos que por enquanto ela ficará subentendida: Em razão de a obra musical sempre ter, necessariamente, a sua representação direta também no trabalho visual, por exemplo, na capa, no encarte e na contracapa, muito do disco já está nele de forma simplista e minimalista. Como ele foi feito no Brasil e a artista é carioca o clima é total praiano, quando você o visse na prateleira da loja a capa já te revelaria isso devido ao fundo solar, em tom laranja, isto é, em tom veranesco do disco. Contudo, a sombra em perfil da cantora representa “silenciosamente” o lado sóbrio de algumas composições.

Análise das letras (Conteúdo-Temas-Composição):

Nesta produção, como eu já revelei, você irá acompanhar uma história, com início (introdução), meio (desenvolvimento) e fim (conclusão), uma trama em primeira pessoa relatando uma trajetória romântica do lado feminino de um casal. Desse modo, o seu mais profundo eu, o seu interior, seu subconsciente está sempre presente. O ouvinte passará, também, a conhecer quase todo esse percurso e pensamentos, de forma muito clara e íntima quando ela nos quer revelar, quando se sente à vontade para nos revelar. Por ter um tema tão subjetivo, as letras são intensas, minuciosas e reveladoras, explorando diferentes paisagens sonoras e assuntos; revelando inúmeros focos temáticos, como desejo, amor, aventuras, vontades, pegação, desilusão, lamúrias, a penumbra e o poente. Regendo o álbum, tudo se projeta como uma colcha de retalhos sentimentais e declarações românticas em tom confessional. Várias letras possuem as palavras Mar, Verão, Vento, Noite, Dia e Amanheceu, usadas para nos situar. Uma vez que acompanharemos todo o seu percurso, passaremos pelo momento em que Mahmundi se apaixona, do momento de conseguir estar ao lado da sua paixão e até dos pontos altos e baixos desse romance.

Análise do artista como intérprete das suas canções (Voz, notas, modo de cantar e tons):

Mahmundi não possui uma extensão vocal tão elevada e nem por isso usou de artifícios tecnológicos, como o Auto-Tune, para alcançar notas que não executaria facilmente, como já ouvi cantores usando e com isso deixando o seu trabalho muito artificial. Os produtores souberam colocar bem os tons e as notas dos instrumentos de acordo com sua voz, ela foi honesta consigo mesma e é sinal de que sabe da fonte que está bebendo, certamente as músicas se adaptaram à realidade extensiva da cantora.

Dado que todo o conhecimento com relação à história é em primeira pessoa e, portanto, entramos no subconsciente de Marcela, há a presença da técnica overdub na maior parte do álbum, produzindo camadas (ao menos duas, contando com lead vocals) sobrepostas de sua voz, proporcionando suporte e texturas. Argumento repetido: Além disso, há efeitos sonoros encontrados em diversas canções, que, por meio de eco ou de vozes distorcidas, encontramos um efeito auditivo de como se estivéssemos mesmo em alguma mente ou no cérebro de alguém, revelando e descobrindo o seu eu mais profundo.

Análise do projeto profundamente:

A música que abre o álbum é intitulada Hit, ela de prontidão nos fornece a marcação temporal principal da obra logo no primeiro verso: “final de verão”. Mesmo com o ditado “amor de verão não sobe a serra”, ela se apegou a alguém e passa a canção inteira descrevendo isso em tom de diálogo:

Fiz um hit pra entoar você
As horas parecem não ter fim
Na cidade…

Partindo pra segunda chamada Azul, que aliás me inquietou o fato de que em nenhum momento essa palavra aparece na letra, somente no título. E não é que faz sentido ser intitulada assim? Vamos entender o porquê: “A cor azul significa tranquilidade, serenidade e harmonia, mas também está associada à frieza, monotonia e depressão. Simboliza a água, o céu e o infinito. Um ambiente azul favorece o exercício intelectual e tranquiliza.” Corroborando esse significado com o do gênero trance da música e ainda com a letra se confirma que deveria mesmo se chamar assim.

Até agora as duas primeiras músicas têm marcação temporal: Essa noite acontecer. Na letra dessa faixa a cantora entrega seu desejo de tê-lo de volta depois do verão. Ela tem certeza que vai conseguir depois dessa noite relatada:

Quando tudo terminar
Essa noite acontecer
Na verdade, é pra dizer
Que meu coração te chama

Imaginando que a quem ela se apegou está na sua frente ouvindo toda declaração demora, exatamente, 10 segundos para entrar no refrão e é esse o tempo da decisão. Com essa atitude, o tom vocal sobe, o modo de cantar fica mais agressivo e quase grita pra ele implorando:

Te espero, te espero, te espero
Não váááá
É tudo sobre um dia aqui

Em seguida, para marcar o tempo passando ao fundo o sintetizador é tocado como se estivesse falhando, ele inicia aos 00:54 segundos.

Na ponte musical (bridge) aos 03:40 depois dessa toda revelação de amor ela está esperando a resposta dele e somente alguns instrumentos permanecem tocando, porque cada um representa algo: a bateria o coração ou o ponteiro do relógio passando pelos segundos, o synth e o baixo representa os pensamentos, o subconsciente.

Em Eterno Verão só para nos enganar ela inicia com sons graves do piano, em notas terça menor e acordes menores, mais escuros e também com o baixo causando a sensação de tensão e angústia. Como não tivemos a resposta do rapaz na música anterior, eu, pelo menos, fiquei curioso em saber como seria a próxima canção, pelo título “Eterno Verão”, pensei o seguinte: “Quer ver que o cara a marcou tanto e, assim, ela não conseguiu se desprender daquele verão? Por isso ele se tornou eterno.” E por causa das disposições dos dois instrumentos, logo concluí: “Vai ser outra revelando desejo e sofrimento.” Na verdade, foi só uma estratégia para nos enganar. Logo depois, já se anima, muda o ritmo e a sua levada. Porque, adivinhe só? Ela conseguiu! Não foi só naquela noite em Azul. Os dois estão juntos, mas precisa esperar até o refrão para tudo se confirmar, especificamente no último verso dele:

E é tão fácil
É tão mágico
Se perder numa canção
Com você


O eterno verão que ela se refere em vários momentos é a lembrança e a sensação causada pelo relacionamento do casal no eu lírico, por isso, também, a levada mais animada. Esse solo de guitarra colocado na música aos 01:59 minutos  foi de uma maneira muito inteligente.

Dando continuidade, Desaguar é a quarta faixa e se comparar com as músicas anteriores tem um uso maior de instrumentos e uma melodia que caminha junto com a voz, ótima. Tem um refrão muito legal, pra ser cantado em qualquer lugar, passa uma vibe positiva. Posto que tinha o desejo de encontrar um lugar pra descansar na canção anterior, nessa ela encontra.

Em Meu Amor você encontra influência de algo meio soul, groove, R&B, um funk norte-americano. Algo por aí. Tem uma base repetitiva e um ritmo pouco empolgante. Ela inicia num ritmo mais lento, talvez pra alusão do despertar, do acordar sempre mais preguiçoso. Essa é a continuação de Desaguar, depois da noite que passaram juntos. A letra mantém sempre o vocativo do título. Passado um tempo juntos, dessa noite juntos (de relação), depois do que aconteceu em Desaguar, amanheceu, a hora está passando e ela precisa ir embora:

Meu amor, eu me vou
Preciso refazer o meu lar.

Até agora, em nenhuma vez vimos o lado dele, somente o dela. Na letra inteira é ela explicando seus motivos por ir embora, mas não são muitos, porque a sua estrutura é composta por uma estrofe de 11 versos. Olha só o significado do número 11: “É um número espiritual e de intuição. O 11 é o idealismo, o perfeccionismo e a colaboração. É um número de forte magnetismo e caracteriza as pessoas idealistas, inspiradoras, de sensibilidade extrema”. Tudo a ver com a letra e com Marcela Vale. Mais um aspecto externo corroborando ao todo da obra.

Novamente, no final afirma ser eterno:

Nesse inverso dessa noite sem fim
É eterno, é eterno

Na segunda parte, quando o ritmo fica mais rápido, ela pode já estar se arrumando pra sair, enquanto conversa com ele.

Em Calor do Amor ela está tão feliz por esse romance estar presente em sua vida que toda instrumentalização, produção, melodia, ritmo e letra foram feitos também pra transmitir o que está sentindo e essa música, sim, te contagia. Aos poucos você já se pega balançando o pé. Esse é o calor do amor! Se você perceber, mais uma com marcação temporal, só que nessa é um dia completo, na 1° estrofe tem “Amanheceu o dia” e depois na penúltima “a noite chegou“.

Leve somente construída por quatro toques de guitarra tocados paralelamente, ou seja, com uma instrumentalização bem simples e o destaque para sua voz, que se desenvolve muito bem, explorando a voz mais limpa do que nas anteriores, a canção é mais uma a criar um clima muito legal na audição. A instrumentalização vai se construindo aos poucos e como as anteriores, a letra também corresponde ao arranjo: dado que ela está leve, tudo ao seu redor fica leve:

Seus olhos riam pra mim
Seus olhos riram pra me mostrar
A sua beleza e assim me encantar
(…)
Leve, eu ficarei mais leve
Me leve, me leve, eu ficarei mais leve

Infelizmente, como eu disse, “amor de verão não sobe a serra” e dessa vez não foi diferente. Nas faixas anteriores não sabemos completamente tudo o que aconteceu entre os dois, detalhadamente, por isso, muitas coisas ficam subentendidas e a partir de agora em Quase Sempre só sabemos que não há mais um casal:

Quase sempre nos damos conta
Só depois
Que estamos sós e que já não somos dois
(…)

No refrão ela questiona:
Cadê você para o jantar?
Preparei um mesa farta
E o que sobra é a sua falta

O que aconteceu, será? Até a sua construção já é mais melancólica, bucólica e esse sentimento incomodando, a arranhando, deixando marcas é feito pelo chocalho, um chiado em toda música.  É uma bela balada pautada pela saudade que demonstra um lado mais sentimental da cantora, com uma letra singela e é outra canção que demonstra o upgrade da cantora com relação às suas baladas.

Em sequência, Wild (selvagem, em inglês) corrobora com a introdução dela constituída por um som mais “sujo” feito por tambores tribais e um som metálico batido até os 14 segundos para tudo ficar em silêncio e logo retornar, é a penúltima faixa do álbum e o piano a deixa mais dramática:

Tudo fora do lugar
Longe daqui
Só quero estar
Num lugar mais breve pra viver

Olha só agora:
Longe do tempo ruim (marcação temporal, mas pelo término, com certeza é interior)
Longe daqui

Novamente, ela:

Só me interessa
Um dia mais perto de você
(…)
Quero um dia breve pra viver
Sobre você e me distrair

(…)
Sobre você que me faz feliz

Sentimento é o resultado final, literalmente, de tudo o que passou. Após as suas experiências, ela está definindo a todo o momento o que é o sentimento amor:

O amor é um mar difícil
Tão fácil de se ver e admirar

Todo amor tem um artifício
Que não acaba e ninguém pode mudar

Você pensa que por ser a última ela já superou? Nada disso, tem uma estrofe ainda:

Guardo tanto tempo em mim
Tudo só pra te mostrar
Que vai valer a pena de verdade

Que o amor é tudo que me interessa

Devido às duas anteriores serem melancólico-dramáticas essa já possui um som mais otimista, penso que ela está perto de superar. Não superou completamente, ainda, mas está quase. Encerrou bonito. Essa música em sua completude tem cara de música final.

Pontos negativos:

Quando vai chegando ao final dá para perceber na primeira audição, às músicas caem um pouco na qualidade e fica também um pouco tedioso a ouvi falar mais e mais sobre o amor. Um disco inteiro sobre isso é um pouco cansativo. Em outras palavras: Ouvi-la só falando do sentimento amor e suas causas, como desilusões, desejos, sofrimentos, lembranças por tanto tempo pode ser um pouco entediante, poderia ter variado nos focos temáticos. Talvez seja só pelo fato de eu tê-lo estudado a fundo, porque quando você o escuta executando alguma atividade ou só pra passar o tempo, todo o ar de extrema romanticidade passa quase despercebido.

Resumão:

Em síntese, como toda experiência a fez bem e como ela soube usá-las a seu favor, esse álbum é mais do que adequado para ser seu debut, afinal ela traz tudo que testou antes nos EPs e mais um pouco, tudo fruto de um mundo vivido, o mundo de Marcela. É como se fosse uma coletânea de hits que ela passou colecionando nos últimos quatro anos. Por se tratar de uma obra relatada em primeira pessoa, as suas experiências, o disco é redondinho, fechado em si mesmo, até nos gêneros musicais, arranjos e construção musical, eles não se destoam de uma música para a outra.

Acompanhar uma fase, um ciclo de alguém não é fácil, sempre terá seus percalços. Isso é com todos, mas sempre depois de cada experiência e processo, aprendemos muito, não é mesmo? Tiramos tanto daquilo, nos faz evoluir quanto seres humanos. Mahmundi, além da sua experimentação ainda dividiu conosco seus momentos de desejos, de alegrias, seus anseios e suas tristezas. Pode ser que não seja verídico? Claro, mas muitos já passaram por isso, com certeza. Foi algo acontecido com um indivíduo específico, porém a partir do momento que se externalizou se torna de qualquer um.

Tão bom ver brasileiros fazer músicas de qualidade sem soar cópias baratas, rasas ou farofas, proporcionando uma quebra de barreiras entre as fronteiras e isso deixa o projeto, simultaneamente, internacional devido ao som e nacional por causa das letras em português. Para a arte não há limites.

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