“Algumas vezes sonho em salvar o mundo. Salvar todos da mão invisível. A que nos marca com um crachá de empregado. A que nos força a trabalhar para eles. A que nos controla todos os dias sem nós sabermos disso. Mas não posso pará-la. Não sou tão especial. Sou um anônimo. Estou sozinho.
[…]
Alguma coisa disso é real? Olhe para isso. Olhe! Um mundo construído em fantasia. Emoções sintéticas em forma de pílulas. Guerra psicológica em forma de propagandas. Produtos químicos que alteram a mente em forma de… comida! Seminários de lavagem cerebral em forma de mídia. Bolhas de controle em forma de redes sociais. De verdade? Quer falar sobre realidade?” (Elliot, Mr. Robot)

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Faz tempo que não escrevo sobre algo publicável, não é mesmo? Mas hoje pensei em uma série, que há alguns meses ensaio para falar sobre ela. Devo adiantar que, mesmo assistindo várias séries como habitual, nenhuma me impressionou tanto quanto Mr. Robot.

Mr. Robot, produção da emissora norte-americana USA e criação de Sam Esmail, mostra Elliot Alderson (Rami Malek), um engenheiro de segurança da informação, que, nas horas vagas, trabalha como um hacker “bem intencionado”. De início, percebemos que há algo meio incomum com o rapaz, pois, logo em sua primeira aparição, que é filmada de maneira não cronológica, ele é perseguido por vários homens de ternos preto, que, talvez, nem existam. Além disso, o perturbado personagem faz de nós uma espécie de “amigo imaginário”, o qual serve como fio condutor para a narrativa de Elliot e também como testemunha de alguns fatos apresentados por ele.

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Diferente de House of Cards,  a quebra da quarta parede é feita para que haja uma ligação entre Elliot seus espectadores, mas não com uma comunicação direta, como ocorre com Frank, mas sim por meio de uma comunicação realizada a partir de pensamentos e narrativas em off.  Isso funciona, aqui, porque Elliot é um personagem extremamente depressivo, ele não manteria uma conversa agradável com o telespectador, como o personagem espirituoso Underwood, de House of Cards.

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A série é permeada por uma trama complexa (com vocabulários técnicos da informática, telas pretas de comando etc.), que se desdobra em camadas e amplia o roteiro a cada episódio, seja pelos capítulos que se passam na mente drogada de Elliot ou pelos quais descobrimos a real natureza do protagonista. Enquanto a produção se “esconde” atrás da mente do hacker, ela aproveita para discutir várias críticas sobre o sistema capitalista, presente, principalmente, em grandes corporações, referenciando, desse modo, produções como The Matrix, V for Vendetta, 1984. Mesmo sendo críticas facilmente refutadas, é interessante ver uma produtora como a USA tocando em assuntos como esse, ainda mais com o foco em uma área tecnológica.

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Além da sua temática, Mr. Robot conta ainda com figuras igualmente interessantes e interpretadas por pessoas muito talentosas – e desconhecidas -, como Tyrell Wellick (Martin Wallström), Angela Moss (Portia Doubleday), o próprio Mr. Robot (Christian Slater) e  Whiterose (B.D. Wong), que contribuem para que a série tenha uma imprevisibilidade a cada episódio/momento. Um destaque super válido é a atuação de Rami Malek pois o ator, semi-desconhecido, fez um trabalho digno, marcante e super maduro. É impossível, portanto, não se cativar pela paranoia (desequilíbrio, em alguns casos) tão bem atuada pelo ator.

Mesmo com um quadro de atores tão geniais, os aspectos técnicos – da direção, da fotografia, do figurino à trilha sonora – merecem destaque também, por jamais subjugar a inteligência e senso crítico de seu espectador. Embora não seja uma obra prima visual como Hannibal ou Breaking Bad, vemos, em Mr. Robot, belos enquadramentos, com ângulos diferentes, que servem, em determinados momentos, para ilustrar o sentimento de superioridade ou inferioridade de um personagem. Há destaque ainda nos bem construídos diálogos e até nos títulos episódicos nomeados, pensados para que parecessem arquivos de vídeo.

Temos, dessa maneira, nessa produção, várias coisas que contribuem para sua maravilhosidade: um quadro grandioso de atores, uma direção primorosa e fatores estéticos geniais. Entretanto sua beleza, por incrível que pareça, vai além disso, porque há cenas, quando Elliot faz uso de algumas substâncias alucinógenas, que parece que estamos assistindo um filme gravado por Gaspar Noé. Temos a mostra do relacionamento entre Tyrell e sua esposa, que não consegui determinar o quão doentia é, e não sei dizer se ela se encaixaria numa relação dominadora/dominado. Há ainda a presença de um ator trans, Whiterose, (o Hacker do tempo), que drena a cabeça de qualquer pessoa, com um diálogo de 3 minutos, sobre, é claro, a concepção do tempo.

Não dá pra deixar de avisá-los, que a série é um tanto parecida com o filme Fight Club. Essa semelhança não é mero acaso, pois ela traz inúmeras referências externas no decorrer do drama. A temática de Mr. Robot é a mesma de Clube da Luta, o objetivo da fsociety é o mesmo que o do Projeto Caos, a narrativa de amigo imaginário é muito semelhante a narrativa em off do estilo “Eu sou o Câncer de Jack”, os valores anticapitalista e extremos são os mesmos em ambos e existe na fsocietyaté uma versão da 1° e 2° regra do filme. Depois disso tudo, o episódio 8 apresenta o Elliot e seu plot-twist. E isso dá até dor no estômago no espectador, pela mudança brusca de narrativa e perspectiva (nesse ponto, vale a pena voltar ao início da série e rever os episódios). No entanto, de modo diferente do filme de David Fincher, Mr. Robot, faz questão de tratar a revelação do plot-twist não como fim, mas como um meio, para que, no decorrer da segunda metade da temporada, a trama se desenvolva e reste “pontas soltas” para a segunda temporada da produção (que teve estréia, no Brasil, no dia 14 de julho).

Algumas resenhas sobre o filme: omelete, ligadoemsérie, businessinsider

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Esse home é tão maravilhoso que eu ficaria aqui colocando fotos dele até amanhã!
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