Série: Lovesick/Scrotal Recall

Série: Lovesick/Scrotal Recall

the-best-comedy-show-youre-not-watching-is-hiding-behind-the-worst-title-on-netflix

Estes dias, terminei de ver a série Sherlock Holmes. Juro pra vocês que, dentro de mim, tem um turbilhão de coisas pra dizer sobre essa produção. Talvez seja por isso que, até agora, não consegui escrever sobre ela. Nessa onda de série britânica (com todo aquele sotaque lindo e humor delícia), assisti, ontem mesmo, uma série que estreou recentemente na Netflix, que se chama Lovesick.  Em 2014, essa série, que recebeu o nome, inicialmente de Scrotal Recall, foi exibida pela Channel 4. Como ela não atraiu muito público, consequentemente, ela seria cancelada pela emissora, se o nosso tão lindo site de streaming Netflix não tivesse se interessado por ela. Devido a esse interesse, a obra de Tom Edge foi exibida no portal e já tem previsão de estreia para a 2ª temporada. Eba!

Com apenas 6 episódios, de 20/24 minutos cada, é uma série para maratonar, ainda mais com a capacidade britânica de começar e terminar cada capítulo com uma boa coerência. Ela narra a história de Dylan Witter (Johnny Flynn), um jovenzinho de  e poucos anos, que é diagnosticado com clamídia, uma doença sexualmente transmissível.  A partir disso, ele começa a ligar e a se encontrar com antigas namoradinhas, para avisá-las sobre a doença. Desse modo, a série acontece em flashbacks, para mostrar o Dylan do presente e o Dylan de até anos atrás, retratando, assim, cada uma de seus relacionamentos, ao ponto do rapaz começar a repensar suas atitudes e a reavaliar sua vida.

serie-netflix-lovesick-resenha-scrotal-recall-anna

Para tanto, ele conta com dois melhores amigos: a maravilhosa Evie (Antonia Thomas, de Misfits) e o maravilhoso Luke (Daniel Ings). Luke é o contraste de Dylan. Enquanto o jovem loiro, que precisa de uma boa lavada de cabelo, é meigo, fofo, preocupado com os  seus relacionamentos, ao ponto de não conseguir lidar tão bem com o sexo casual, Luke é o típico lindo, que sabe que é lindo, que se aproveita de seus atributos físico, para conquistar as garotas, transar com elas e sumir antes que elas o conheçam o suficiente para saber que ele é vazio por dentro. Já Evie é o equilíbrio entre os dois. Ela os ajuda a entender as mulheres, ela atua como intermediária entre os problemas Dylan + Luke + mulheres e, assim, leva sua vida de fotografa, até encontrar um cara com quem vai se casar.

Cod36lEXYAAZUAflandscape-1469636852-scrotal-recall

lovesick-serie-netflix-critiqueUm dos pontos positivos é a dinâmica entre o trio principal. Mesmo o Johnny Flynn sendo um ator um tanto apático, ele coube perfeitamente no papel de Dylan, que é tão fofinho que chega a ser meio sem-gracinha. Quem brilha mesmo é Daniel Ings, como Luke. Esperto, super engraçado e completamente perturbado, Luke é o que dá vida à série e à vida de Dylan e Evie. Apesar da série ter seu brilho sozinha, as vezes parece que é o paquerador Luke que a segura.

Lovesick me pegou, de início (e claro), o fato de ser uma série de “comédia romântica” britânica. Depois disso, a ideia da doença do protagonista também é um ponto positivo, pois doenças venéreas ainda são um tabu em nossa sociedade, então, uma produção “romântica”, com a personagem doente, é um tanto audaciosa. Além disso, a série acerta no humor ácido, mas fácil; meio negro, mas sem ser pesado; e diferente de Love (outra série da Netflix que também tem a proposta de ser uma comédia romântica, mas que não produz um riso bobo como a produção britânica). Esse lado cômico é muito bem conduzido, principalmente, como quebras de situações dramáticas. Há também o rompimento do sentimento de leveza em partes inusitadas, principalmente, em seu episódio final, que é desnorteador e deixa a série tão intrigante.

Por fim e não menos importantes, a fotografia, a ambientalização, a trilha sonora (que tem no Spotify e nesse blog também) e o figurino são muito bem construídos. Assim, mesmo com a previsibilidade do romance e os personagens serem bem caricatos, é possível se cativar e torcer por cada um deles. No final, como uma moral, produz-se a sensação de “vivencie todos os sentimentos possíveis em um único episódio e na sua vida”.serie-netflix-lovesick-resenha-scrotal-recall-dancing

A segunda temporada está prometida para novembro, na Netflix.

Série: Grace and Frankie

Série: Grace and Frankie

Frankie: – This is not my recipe. And yes, my vagina can tell.
Brianna: – Ok. Adam, can you please give us a second?
Adam: – Oh, absolutely not. No. (he pick up his phone and start to filming)
Brianna: – What are you doing?
Adam: – Oh, I have a few friends that don’t believe Frankie’s real. So, just go on.
Frankie give a little smile to the camera (Grace and Frankie, 02×08).

Falar sobre idade, sobre a velhice que me aguarda e me espreita, realmente me apavora. Sempre apavorou. Apesar disso, sempre imaginei que esse momento vindouro seria delicioso pela liberdade que a terceira idade pode representar, pois, nesse período da vida, as pessoas deveriam se permitir mais, ousar mais, aproveitar mais… Entretanto, mesmo acreditando nisso, sempre tive uma certa ressalva, porque eu sei que, quando estamos nos 70 anos, a energia, a saúde, o fôlego etc., normalmente, não é o mesmo de agora, no pré-trinta.

Por conta desse meu receio (e medo) dos tempos que virão, eu sempre (sempre mesmo) fugi da série Grace and Frankie, quando via a sugestão na minha página inicial da Netflix. Por quê? Porque sempre pensava: “terei que lidar com a vida idosa um dia, por que observar isso desde agora, não preciso, não quero, ah…certo?” Errado. Devo dizer que essa série maravilhosa prendeu minha atenção por dois dias inteirinhos (tempo necessário para assistir as duas temporadas disponíveis na plataforma), de tanto fascínio e deslumbre.

grace-and-frankie-netflix-12.jpg

Não, não é só Unbreakable ou Sense8 ou Master of none ou as infinitas séries produzidas pelo canal que merecem destaque. Gracie and Frankie também merece ! Talvez eu tenha me apaixonado muito rápido pela série, talvez eu tenha sentido uma certa afinidade, empatia, pelas personagens tão bem construídas, talvez eu esteja só sensível. Mas o lance é: assistam. 

grace-and-frankie-.

Ambientada em San Diego, a série tem como trama a vida de duas mulheres, Grace e Frankie, que se aturam pelo bem comum dos maridos, que são sócios em uma empresa de advogados (pessoas bem sucedidas). Grace e Robert têm duas filhas (uma casada e outra solteira – que é ótima, por sinal!), e Frankie e Sol, que também têm dois filhos adotados. Essa família toda cresceu junta, cresceu perto, cresceu unida. Foi aí que, durante um casamento – hétero normativo – de 40 anos, os maridos viveram uma romance escondido durante 20 anos. Isso se deu até o momento em que os dois se deram conta de que já estavam com 70 anos e nunca puderam viver o amor deles livremente. É quando eles resolvem se assumir como casal, para a família, pedem o divórcio, cancelam os cartões de crédito das mulheres, vão morar juntos e viver a vida deles. Entretanto é a partir desse nó que a trama se desenvolve, até porque, as duas senhoras deixadas, são idosas, aposentadas, sem lar (mudam-se, juntas, para a casa da praia), sem ocupação (no caso da Grace, por sempre ter vivido com o marido, ela nem se conhece, processo que começa após a sua aproximação com Frankie) e sozinhas.

Produzida por Marta Kauffman (de Friends) e Howard J. Morris, Gracie and Frankie conta com um grupo de atores excepcionalmente bom, sendo os veteranos: Lily Tomlin (76 anos), como Frankie, Sam Waterston (75 anos), como Sol, Martin Sheen (75 anos), como Robert e Jane Fonda (79 anos), como Grace. É uma delícia vê-los atuar. São atores extremamente talentosos, que se preparam muito para estarem nesta produção, por exemplo, Fonda fez curso de atuação, mesmo com todas as suas experiências, para se sentir segura para interpretar o papel. Além disso, a afinidade dos quatro explode na tela e nos contagia, faz com que possamos acreditar em uma amizade, uma vida, e, inclusive, na possibilidade da existência de várias oportunidades/novidades na vida, independente do tempo.

A amizade de Kauffman e Fonda existe desde 1980, quando ambas atuaram no filme “9 to 5“. Na série, como eu já disse, as personagens das duas atrizes não se suportam, principalmente pela discrepância entre o estilo de vida das duas.

Frankie é uma senhora hippie, artista, que fuma maconha, que teve um casamento cheio de amor, pratica yoga, desconhece o uso da tecnologia, cheia das ideias revolucionárias e das frases de efeito. Já Grace, é o contrário. Ela foi uma mulher bem sucedida na carreira profissional, construiu uma empresa (que, depois de sua aposentadoria, Brienne – uma das filhas – gerencia), teve um casamento um tanto infeliz, criou umas filhas sem muito amor (tem uma cena na qual Frankie acusa a mulher de não ser capaz de amar incondicionalmente), faz várias dietas, é viciada em martíni, seco e com duas azeitonas.

920x920

Mesmo com todos esses desencontros, Grace e Frankie dão um show de maravilhosidade. Enquanto buscam seus lugares no mundo, as personagens transam, visitam amigos de longa data, tomam porre para esquecer os problemas, fazem canal no YouTube, fumam maconha e bebem chá de procedência questionável, têm frio na barriga em encontros com novos paqueras, cozinham seus próprios frangos com batatas, tem suas discussões, seus momentos de pura amizade e companheirismo, fazem planos, têm ideias (como um lubrificante orgânico para as mulheres que ficam “secas” depois da menopausa e um vibrador para as mulheres que sofrem de artrite!) e, inclusive, saem pra balada para comemorar a noite do “sim”.

Essas ideias apresentadas pelas protagonistas servem para discussão sobre como as pessoas idosas são tratadas por nós atualmente, isto é, são vistas como incomodas, antiquadas, “caretas” etc., o que pode ser um engano, pois, embora haja limites, problemas (Robert sofre um ataque cardíaco, Grace quase quebra o quadril) e dificuldades (não saber usar o notebook, por exemplo), eles são sim, pessoas interessantes e que têm muita coisa a oferecer, desde que a sociedade saiba como tratá-las.

grace-and-frankiejane-fonda-ryan-gosling-chair-grace-frankie-set-080714-1-640x427

Além do mais, a comédia da produção é finíssima, compensa pelas vááárias risadas que ela garante. A relação pai x filhos, filhos x mãe, ex-marido x ex-mulher, meio-irmãos x meio-irmãs é ótima! Tira lágrimas dos olhinhos de quem sonha com uma família peculiar e cheia de amor.

Por fim, vale a pena destacar que, mesmo com todos os problemas que as duas mulheres enfrentaram para superar todas as dificuldades que surgiram (até mesmo a morte de algumas pessoas queridas, cujo acontecimento acarretou no pensamento: posso ser a próxima a morrer!), elas seguiram em frente. Deram um jeito. Aprenderam, adaptaram-se, respeitaram as decisões e escolhas do outro. Cresceram. Encontraram-se, riram, divertiram-se muito e ainda ficaram unidas. E penso que ver esse processo todo, ver a luta constante de mulheres fragilizadas, tanto pelas circunstâncias, como pelo tempo, é inspirador. É reconfortante. Dá esperanças…

grace-et-frankie-700x357

grace_s1_004_hA.JPG
 Sam Waterston and Martin Sheen in the Netflix Original Series “Grace and Frankie”. Photo by Melissa Moseley for Netflix.

Assista o trailer da segunda temporada:

Vale lembrar, por fim fim fim mesmo, que a série é um tanto fictícia mesmo. Até porque, em uma realidade como a nossa, dificilmente chegaremos à uma idade como a das protagonistas, com dinheiro, boa aposentadoria, morando à beira praia, com tempo para pensar em “que roupa vou usar pro encontro com meu próximo namorado?”. Mesmo assim, o mundo irreal é delicioso, chega a dar um certo conforto, um certo aconchego ao pensar que a vida futura pode, talvez, muito talvez mesmo, ser doce. Nem que seja você com a sua melhor amiga por perto (:

giphy

Próxima temporada foi confirmada para 2017. Agora é só aguardar.

Série: Mr. Robot

Série: Mr. Robot

“Algumas vezes sonho em salvar o mundo. Salvar todos da mão invisível. A que nos marca com um crachá de empregado. A que nos força a trabalhar para eles. A que nos controla todos os dias sem nós sabermos disso. Mas não posso pará-la. Não sou tão especial. Sou um anônimo. Estou sozinho.
[…]
Alguma coisa disso é real? Olhe para isso. Olhe! Um mundo construído em fantasia. Emoções sintéticas em forma de pílulas. Guerra psicológica em forma de propagandas. Produtos químicos que alteram a mente em forma de… comida! Seminários de lavagem cerebral em forma de mídia. Bolhas de controle em forma de redes sociais. De verdade? Quer falar sobre realidade?” (Elliot, Mr. Robot)

maxresdefault

Faz tempo que não escrevo sobre algo publicável, não é mesmo? Mas hoje pensei em uma série, que há alguns meses ensaio para falar sobre ela. Devo adiantar que, mesmo assistindo várias séries como habitual, nenhuma me impressionou tanto quanto Mr. Robot.

Mr. Robot, produção da emissora norte-americana USA e criação de Sam Esmail, mostra Elliot Alderson (Rami Malek), um engenheiro de segurança da informação, que, nas horas vagas, trabalha como um hacker “bem intencionado”. De início, percebemos que há algo meio incomum com o rapaz, pois, logo em sua primeira aparição, que é filmada de maneira não cronológica, ele é perseguido por vários homens de ternos preto, que, talvez, nem existam. Além disso, o perturbado personagem faz de nós uma espécie de “amigo imaginário”, o qual serve como fio condutor para a narrativa de Elliot e também como testemunha de alguns fatos apresentados por ele.

mr-robot-3-580x293

Diferente de House of Cards,  a quebra da quarta parede é feita para que haja uma ligação entre Elliot seus espectadores, mas não com uma comunicação direta, como ocorre com Frank, mas sim por meio de uma comunicação realizada a partir de pensamentos e narrativas em off.  Isso funciona, aqui, porque Elliot é um personagem extremamente depressivo, ele não manteria uma conversa agradável com o telespectador, como o personagem espirituoso Underwood, de House of Cards.

1f7647ca-2d77-4dd4-bbcb-4dea36e1c6b4-1020x612

A série é permeada por uma trama complexa (com vocabulários técnicos da informática, telas pretas de comando etc.), que se desdobra em camadas e amplia o roteiro a cada episódio, seja pelos capítulos que se passam na mente drogada de Elliot ou pelos quais descobrimos a real natureza do protagonista. Enquanto a produção se “esconde” atrás da mente do hacker, ela aproveita para discutir várias críticas sobre o sistema capitalista, presente, principalmente, em grandes corporações, referenciando, desse modo, produções como The Matrix, V for Vendetta, 1984. Mesmo sendo críticas facilmente refutadas, é interessante ver uma produtora como a USA tocando em assuntos como esse, ainda mais com o foco em uma área tecnológica.

tumblr_nymuwrF2p71rsyukao1_500

Além da sua temática, Mr. Robot conta ainda com figuras igualmente interessantes e interpretadas por pessoas muito talentosas – e desconhecidas -, como Tyrell Wellick (Martin Wallström), Angela Moss (Portia Doubleday), o próprio Mr. Robot (Christian Slater) e  Whiterose (B.D. Wong), que contribuem para que a série tenha uma imprevisibilidade a cada episódio/momento. Um destaque super válido é a atuação de Rami Malek pois o ator, semi-desconhecido, fez um trabalho digno, marcante e super maduro. É impossível, portanto, não se cativar pela paranoia (desequilíbrio, em alguns casos) tão bem atuada pelo ator.

Mesmo com um quadro de atores tão geniais, os aspectos técnicos – da direção, da fotografia, do figurino à trilha sonora – merecem destaque também, por jamais subjugar a inteligência e senso crítico de seu espectador. Embora não seja uma obra prima visual como Hannibal ou Breaking Bad, vemos, em Mr. Robot, belos enquadramentos, com ângulos diferentes, que servem, em determinados momentos, para ilustrar o sentimento de superioridade ou inferioridade de um personagem. Há destaque ainda nos bem construídos diálogos e até nos títulos episódicos nomeados, pensados para que parecessem arquivos de vídeo.

Temos, dessa maneira, nessa produção, várias coisas que contribuem para sua maravilhosidade: um quadro grandioso de atores, uma direção primorosa e fatores estéticos geniais. Entretanto sua beleza, por incrível que pareça, vai além disso, porque há cenas, quando Elliot faz uso de algumas substâncias alucinógenas, que parece que estamos assistindo um filme gravado por Gaspar Noé. Temos a mostra do relacionamento entre Tyrell e sua esposa, que não consegui determinar o quão doentia é, e não sei dizer se ela se encaixaria numa relação dominadora/dominado. Há ainda a presença de um ator trans, Whiterose, (o Hacker do tempo), que drena a cabeça de qualquer pessoa, com um diálogo de 3 minutos, sobre, é claro, a concepção do tempo.

Não dá pra deixar de avisá-los, que a série é um tanto parecida com o filme Fight Club. Essa semelhança não é mero acaso, pois ela traz inúmeras referências externas no decorrer do drama. A temática de Mr. Robot é a mesma de Clube da Luta, o objetivo da fsociety é o mesmo que o do Projeto Caos, a narrativa de amigo imaginário é muito semelhante a narrativa em off do estilo “Eu sou o Câncer de Jack”, os valores anticapitalista e extremos são os mesmos em ambos e existe na fsocietyaté uma versão da 1° e 2° regra do filme. Depois disso tudo, o episódio 8 apresenta o Elliot e seu plot-twist. E isso dá até dor no estômago no espectador, pela mudança brusca de narrativa e perspectiva (nesse ponto, vale a pena voltar ao início da série e rever os episódios). No entanto, de modo diferente do filme de David Fincher, Mr. Robot, faz questão de tratar a revelação do plot-twist não como fim, mas como um meio, para que, no decorrer da segunda metade da temporada, a trama se desenvolva e reste “pontas soltas” para a segunda temporada da produção (que teve estréia, no Brasil, no dia 14 de julho).

Algumas resenhas sobre o filme: omelete, ligadoemsérie, businessinsider

lead_960 (1)
Esse home é tão maravilhoso que eu ficaria aqui colocando fotos dele até amanhã!

Netflix: algumas dicas, parte II

Netflix: algumas dicas, parte II

Eu sei que vocês se lembram sobre a minha promessa de postar mais dicas de filmes disponíveis na Netflix, num post anterior, certo? Essa proposta rolou, porque algumas pessoas sempre me perguntavam: o que tem de legal para assistir na Netflix, rê? E, assim, de cara, é sempre difícil indicar algo, ainda mais quando não sabemos o gosto (referente ao gênero do filme) da pessoa. Então, a ideia é válida, para que as pessoas saibam que na plataforma tem sim filmes interessantes e tem sim filmes bons, além das séries, e, com tudo listadinho, cada pessoinha encontrará os longas de sua preferência.

netflix-3-1200x630-c
É sempre um ótimo programa, não é?

Para fazer isso, precisei, primeiramente, selecionar os títulos que eu colocaria aqui como opção. As escolhas não são imparciais, elas estão carregadas (muito carregadas) da minha preferência e da minha experiência com determinados filmes, por isso, a maior lista de todas, conforme o gênero proposto pela Netflix, é o bendito drama. Quem me conhece sabe o quanto eu gosto de dramas (desde na questão artística, quanto na questão vivência), então foi difícil fazer uma lista reduzida, mas espero que compreendam.

  • Clube de compras Dallas

Sabe aquele filme que parece que o ator nasceu para interpretar o personagem? Então, Matthew McConaughey (aquele ator das comédias românticas), com direção de  Jean-Marc Vallée, interpretou tão bem o Ron Woodroof que chega ser sofrível assisti-lo em cena, com seus 20 quilos a menos. O homem, que é caubói, sofre com a doença mais temida em 1985, a Aids. Nessa época, em acreditava-se que a doença era exclusividade de homens gays e usuários de drogas injetáveis. Surge, então, um personagem machista, homofóbico e preconceituoso, que começa a contrabandear remédios para conseguir manter sua vida. Inicialmente, seu propósito é ajudar a si mesmo, mas, com o tempo, ele começa a revende-los à outras pessoas soropositivas e, com isso, cria o Clube de Compras Dallas. Com isto, alguns aspectos vitais de sua trajetória se tornam evidentes, como o seu ativismo não proposital e sua luta contra as indústrias farmacêuticas que distribuíam drogas mortais para os doentes, com ajuda de uma transexual Rayon, interpretada por Jared Leto.

Penso que, além das atuações geniais, o filme merece ser visto por suscitar uma série de questões problemáticas, desde do tratamento da Aids, como lidar, etc., até as relações intersociais que mantemos todos os dias.

Resenhas: cinemaqui e hopeinlove

Outros títulos que se assemelham em temática: 50% (nesse filme, o personagem tem câncer e o roteiro é lindo!), On the road (passa-se em uma época em que muita coisa é liberada, quase como acontece no Compras Dallas), Discurso do Rei (também é uma ficção-biografia e também foi indicado ao Oscar), Frida (também é uma biográfico e maravilhoso), O jogo da Imitação (também é baseado em fatos, também foi indicado ao Oscar), Não estou lá (GRANDE produção biográfica sobre o MARAVILHOSO Bob Dylan), Piaf: um hino ao amor (Possivelmente, quem assistir, vai chorar do início ao fim, de tão lindo que é e por ter um roteiro muito bem trabalhado, sobre a emblemática Piaf), Coco antes de Chanel (Atuação: Audrey Tautou, biografia bem construída, no filme), Amadeus (produção maravilhosamente desenvolvida sobre a história da vida de MOZART. Nem preciso falar sobre a trilha sonora, certo?).

  • Educação (An Education)

Eu amo esse filme. A temática é o velho discurso que envolve o dilema sobre o verdadeiro banco de aprendizado: escola ou a vida, mas, apesar de ser um tema batido, temos a maravilhosa Carey Mulligan, que nos encanta, que nos leva e nos amarra na trama. Uma moça ingênua, que só estudava e nunca saia, sonhava com a França e com homens românticos. Toda seu ‘mundo’ se transforma, quando ela se apaixona pelo charmoso David (Peter Sarsgaard). Homem mais velho, com mais experiência que ela, que a envolve em sua vida confusa. Não vou falar sobre o desfecho – que é muito lindo – porque as pessoas não gostam de spoiler.

O que posso dizer é: super me identifico com a personagem, a trilha sonora e a fotografia são ótimas, o elenco e o figurino foram composto com esmero e se passa em Londres.

Resenha: moviesense

Outros títulos: pensando no lance adolescente-problemas-fase-difícil-com-filmes-ótimo-para-ver, temos o filme Inquietos (é bem adolescente, mas é uma graça de belo. A personagem tem câncer terminal, mas de um jeito bem diferente – e melhor – que a Culpa é das estrelas), Em busca por uma nova chance (também é interpretado pela linda Carey Mulligan, e é sobre o amor entre dois jovens: o menino morre, a mina fica sozinha e grávida. O legal é acompanhar a história do casal, em flashback, e ver, em tempo ‘real’ o drama que a garota sofre para convencer os pais do rapaz que ela carrega o neto deles), Se enlouquecer não se apaixone (é lindo e tem o Zach fofíssimo Galifianakis. A história é sobre um garoto que acaba internado na ala psiquiátrica, junto com adultos, e acaba se apaixonando por uma garota bem perturbada), Bling Ring (filme da legal Sofia Copola, que conta a história de uma gang de adolescentes – que existiu mesmo – que assaltam as casas das celebridades de Hollywood. A trilha sonora é bem boa), Eu matei minha mãe (uma resenha legal aqui. É um filme que discorre sobre uma relação entre mãe e filho-homossexual. Ótimas atuações e é intenso), Preciosa (um filme sobre a vida e problemáticas de uma garota negra, de 16 anos, ambientada em 1987, que era abusada pela mãe e violentada pelo pai), Vantagens de ser invisível (indie, bonito de ver, e é sobre um garoto que se sente deslocado, que não tem facilidade para interagir até que ele encontra os amigos ideais para ele). Amor a distância (não é tão adolescente, porque os personagens são mais velhos, mas é tão lindinho fofinho delícia, como uma temática tão comum para os jovens…)

  • Onde os fracos não tem vez (No Country for Old Men)

Meu preferido dos Irmãos Coen. Sem sombra de dúvida. Penso, inclusive, que eles quase chegaram à genialidade com essa produção. Tenho quase uma reverência ao Javier Bardem em sua atuação como Anton Chigurh, um assassino que mata muito e sabe matar e tem uma arma muito muito engenhosa.

Não tem como, em poucas palavras, dizer o quanto o jogo de imagens, com o manuseio da câmera, é muito bem trabalhado, como a mente doentia é extremamente explorada e exposta, por meio do personagem de Bardem, ator maravilhoso que dá ao personagem características impecáveis, como, o jeito de antar, o olhar objetivo, os movimentos, a voz, o cabelo…, o filme tem um humor peculiar.

O filme, localizado no Texas, mostra a trajetória de um assassino (que não é o personagem principal, mas é aquele que rouba a cena), na década de 80. Llewelyn Moss (Josh Brolin), encontra um traficante de drogas no deserto e resolve pegar uma valise cheia de dinheiro que foi encontrada no local. Logo, Anton Chigurh, o tal assassino sem piedade, é enviado para matar Moss e pegar o dinheiro. Entretanto, para chegar em Moss, o psicótico Chigurh precisará passar pelo xerife local, Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones).

giphy (2)

O longa é uma baita tensão, com uma trama profundamente imanente e uma metáfora de transcendência. Não tem como falar muito sobre essa obra. Mas, quem puder, super assista.

Resenhas: discutindocinema, ccine10 e contracampo

Filmes quase semelhantes: Biutiful (é denso pra caramba, não tem muito o lance de assassinato e sangue, mas serve para transtornar. É mais uma coisa sobre pós-morte. O delicioso deste filme é poder deitar e ver um cara que manda muito bem na atuação: Javier Bardem-deuso), Millennium: Os homens que não amavam as mulheres, O silêncio dos inocentes (o personagem principal é bem psicopata), Precisamos falar sobre o Kevin (GENIAL de bom, não consigo nem falar o que é melhor nesse longa. Tem a Tilda!), Old Boy (O melhor da trilogia da vingança), Entre segredos e mentiras (filme todo loucão, com o meu mais maravilhoso Ryan Gosling e Kirsten Dunst), Donnie Darko (não é sobre um assassinato, mas é sobre um garoto que sofre alguns transtornos psicológicos).

  • Tudo sobre a minha mãe

Um filme espanhol, de 1999,  dirigido pelo grandioso Pedro Almodóvar. O filme lida aborda temas complexos como a AIDS, o travestivismo, a identidade sexual, a religião, a fé e  até mesmo o existencialismo.

A trama conta com personagens femininos, mulheres super fortes, que enfrentam lindamente o machismo, o preconceito e etc, por meio do seguinte enredo: No dia de seu aniversário, Esteban (Eloy Azorín) ganha de presente da mãe, Manuela (Cecilia Roth), uma ida para ver a nova montagem da peça “Um bonde chamado desejo”, estrelada por Huma Rojo (Marisa Paredes). Após a peça, ao tentar pegar um autográfo de Huma, Esteban é atropelado e termina por falecer. Manuela resolve então ir de encontro ao pai, que vive em Barcelona, para dar-lhe a notícia, quando encontra no caminho o travesti Agrado (Antonia San Juan), a freira Rosa (Penélope Cruz) e a própria Huma Rojo.

Os cenários do filme trazem o estilo de Almódovar, além da prova do amor do diretor pelas mulheres, que chega ao ponto de subtendermos que ‘os homens não são necessários’ (El País).

O que antes era excessivamente bizarro e cafona dá lugar à problemas do mundo moderno revestidos de uma nova postura, não que Almodóvar tenha perdido seu fetiche pelo bizarro e pelo cafona, porém o que vemos aqui é seu lado humano em personagens cheios de sensibilidade (Ebah).

Resenhas: contracampo, hojeviviumfilme

Filmes com alguma semelhança: A pele que habito (mesmo diretor), A escolha de Sofia (personagem principal é mulher e de uma força gigantesca), Histórias Cruzadas (personagens principais são mulheres e negras, com um enredo envolvente), A troca (mulher, mãe, Angelina Jolie: pura emoção de chorar).

  • Adam

Faz muito tempo que vi esse filme e até hoje ele me encanta. Foi surpreendente vê-lo disponível na Netflix, porque, quando eu quis assisti-lo, foi muito difícil para conseguir o download. Agora é facilzinho.

O longa-metragem é sobre o Adam (Hugh Dancy, que destrói na atuação), um portador da Síndrome de Asperger, que perdeu o pai recentemente. Paralelamente, ele desenvolve um relacionamento com sua vizinha, Beth (Rose Byrne). Com ela, os espectadores aprendem um pouco mais sobre a síndrome, de maneira bem didática, clara e sensível.

Adam600

adam-movie-shoot_mg_92031

filmes_574_Adam 10

Algumas informações sobre filme e a síndrome: trabalhosgratuitos psicologacuritiba

Filmes que se aproximam, por conta do romance-não-tão-leve-assim: Mesmo se nada der certo (lindo!!), Entre irmãos (A mulher é casada, o marido vai pra guerra. A família acha que ele morreu, a mulher tem um romance com o cunhado. O marido-da-guerra volta da batalha!), Azul é a cor mais quente (não gosto desse filme por vááários fatores, mas acho que o pessoal precisa assisti-lo, para ver esses váááários fatores e problematizar), Como não perder essa mulher (o filme, inicialmente, parece bobo, mas a discussão que ele trava, com o lance de homens x pornografia, é muito válida), Direito de amar (dirigido pelo Tom Ford, história de dois homens apaixonados. Fotografia e trilha sonora impecáveis), Peixe grande (Tim Burton), Um conto chinês (filme ótimo!), Shame (um dos filmes que já vi que tem a cena de sexo mais intensa e sofrida, além de ter um nu frontal do maravilhoso Michael Fassbender e abordar temas como vício em sexo e incesto), Minha vida sem mim.

  • Paris, Texas

Paris, Texas conta a história de Travis, um homem que, depois de estar desaparecido por mais de quatro anos, é reencontrado pelo irmão Walt num hospital na região desértica do Texas, próximo à fronteira com o México. Maltrapilho e com amnésia, é levado por Walt para a sua casa em Los Angeles, onde reencontra Hunter, seu filho de sete anos que foi abandonado pela mãe, Jane. Inicialmente estranhos, Travis e Hunter iniciam uma reaproximação que culmina num a grande amizade e também no desejo secreto de reencontrar Jane e reconstruir sua verdadeira família.

O bom do filme, além da fotografia, trilha sonora, enquadramentos e atuação, é a discussão sobre o papel do pai numa sociedade burguesa-paternalista.

O filme é lindo e super vale a pena vê-lo, desde que não se deixe iludir pelo machismo, por fazer parte do contexto sócio-histórico e ideológico da época, retratado no filme (a mãe abandonar o filho é loucura, enquanto que o pai, ao abandonar o filho, é visto como sofredor, etc.).

Resenha: telacritica

Filmes com alguma semelhança: Deus da carnificina (duas famílias que brigam por seus filhos, com um enredo que não muda de espaço, como Dogville e até mesmo Oito odiados), Álbum de família (com Meryl Streep como matriarca do grupo familiar), Ida (filme independente, ganhou Oscar, e mostra o percurso de uma mulher, criada em um orfanato e prestes a entrar para a ordem, descobre segredos de seus antepassados, na Polônia, durante a ocupação Nazista).

  • Antes da meia-noite

trechos-de-antes-do-amanhecer-antes-do-por-do-sol-e-antes-da-meia-noite-1370037807190_300x420O último filme da Trilogia do Antes, de Richard Linklater, que trabalha com a temática relacionamentos. Com vista nisso, o trabalho mostra Celini e Jesse (Julie Delpy e Ethan Hawke), dois jovens que tiveram o seu primeiro encontro num comboio entre Budapeste e Viena (Antes do Amanhecer, 1995). Nove depois, ao visitarem Paris (Antes do Anoitecer, 2004), ambos se reencontrarem, em um momento totalmente diferente que o anterior. Por fim, em Antes da meia-noite (2013), 18 anos após o primeiro encontro deles, Celine e Jesse aparecem casados, com duas crianças e de férias em Messinia, Grécia. Durante todo esse percurso apresentado, podemos ver de pertinho o desenvolvimento dos seus laços, a construção de uma vida, o convívio cotidianamente, os encontros e os desencontros do casal. No último filme, por exemplo, vemos a realidade do dia-a-dia das suas vidas e, apesar de ainda se amarem, questionam os motivos pelos quais se aproximaram.

Qualquer pessoa que se preze, que tenha tempo e disposição, precisa assistir esses filmes, não só por serem maravilhosos, mas por marcarem uma nova abordagem do tema ‘relacionamentos’.

Até hoje um tipo de histórias de amor predomina no cinema: o amor romântico. Aquele em que a mocinha inocente conhece o amor de sua vida, e após alguns empecilhos eles descobrem que são feitos um para o outro e vivem felizes para sempre. Mesmo com este tipo de história sendo predominante, nos últimos anos tivemos filmes como “500 Dias Com Ela”, “Amor” e até mesmo “Frozen” que fogem desse padrão e mostram o amor de uma maneira mais próximo da realidade. Mas poucos filmes conseguiram retratar o que o amor realmente é quanto a “Trilogia do Antes”, de Richard Linklater (altamenteacido).

Além disso, o longa é resultado de uma dedicação sem tamanho, do diretor e dos atores, pois sua produção foi realizada com verdadeiros 9 anos de intervalo entre uma filmagem e outra. Tudo isso para dar uma verossimilhança e um aspecto real do relacionamento do casal, até porque, é visível o amadurecimento e o envelhecimento natural de cada um dos atores.  Por isso, a trama se tornou uma das mais belas e reflexivas histórias de amor do cinema contemporâneo, já que cada encontro e cada filme têm sido marcados pela idade, maturidade e necessidades dos protagonistas que, se antes eram pautadas pela impulsividade e necessidades românticas, tornaram-se cada vez mais dominadas pelo pragmatismo.

Não preciso dizer que eu amo esses atores e seus respectivos personagens, certo? Guardo com um carinho todo especial os sentimentos que essa obra despertou em mim, além da expectativa, da espera, da paciência, que tive entre uma estreia e outra.

Sinto dizer que, na Netflix, só o último filme está disponível para acessoApesar disso, vale total o esforço de procurar os dois filmes anteriores e assisti-los, para seguir a ordem da obra certinho.

Resenhas: cinemadetalhado, cinema.uol e uai

Filme que tem uma temática muito próxima: Apenas uma vez (relacionamento, abordagem bem contemporânea e linda, com uma trilha sonora impecável).

  • Tomboy

Amo de paixão filmes com atuações infantis. Ver a molecada dando show de atuação é gratificante pra caramba. Principalmente, quando temos temas polêmicos que exigem uma caracterização, uma performance mais forte. E é exatamente isso que encontramos em Tomboy.01
Selecionei as imagens que colocarei no post e já comecei a fungar, querendo chorar mesmo, porque, galera, é isso que o filme é: um baita soco no estomago.

O filme foi escrito e dirigido pela francesa Céline Sciamma (Garotos não choram). Ele narra a história de uma menina de dez anos, Laure (Zoé Héran), que se comporta de uma maneira, que relacionamos ao gênero masculino. Ela é dedicada à mãe, ao pai e à irmã menor, Jeanne (Malon Levana). Devido ao seu comportamento, suas roupas e gestos, Laure começa a viver duas vidas: dentro de casa é a menina, enquanto fora é um menino.

Tudo no filme é produzido e abordado com uma delicadeza e calma sem igual, sem querer polemizar, mas apresentar um assunto que não costumamos discutir com frequência: a descoberta da sexualidade na pré-adolescência.

Resenhas: cinepipocacult e pitangadigital

Filmes com alguma semelhança: Albert Nobbs (não é criança atuando, mas a temática é muito próxima) e A menina no país das maravilhas (uma criança que atua lindamente a personagem Phoebe, uma menina que se esconde em suas fantasias, até chegar ao ponto de confundir a realidade com seus sonhos. Trailer). Beasts of no Nation (filme original Netflix, que narra a história e percurso de um menino, separado da família durante a guerra civil africana, e que se torna um garoto-soldado, ao lado de mercenários. Um baita golpe  na alma esse longa).

Um beijo e um queijo e até a próxima e é isso aí.

Re

Filme: Minha vida sem mim

Filme: Minha vida sem mim

Essa é você. De olhos fechados, na chuva. Nunca pensou que fosse fazer algo assim. Você nunca se viu como, não sei como você se descreveria, como uma dessas pessoas que gostam de olhar para a lua ou que passam horas contemplando as ondas ou o pôr do sol. Deve saber de que tipo de pessoa estou falando. Talvez não saiba. Seja como for, você gosta de ficar assim, lutando contra o frio e sentindo a água penetrando por sua camisa e tocando sua pele. E da sensação do chão ficando fofo debaixo dos seus pés. E do cheiro. E do som da chuva batendo nas folhas. De todas as coisas que estão nos livros que você não leu. Essa é você (Minha vida sem mim, 2003).

Em uma destas minhas andanças pela Netflix, para fazer esta lista aqui, encontrei um filme que fazia muito tempo que procurava para ver. O filme é: Minha vida sem mim.

O longa-metragem, filmado em 2003, com direção e roteiro de Isabel Coixet e produzido pela El Deseo, produtora dos irmãos Agustín e Pedro Almodóvar, aborda a história de Ann (Sarah Polley)que aos 17 anos teve sua primeira filha e se casou com o único homem que teve contato físico e amou. Com Don (Scott Speedman), o marido desempregado que se transforma em construtor de piscinas, e suas duas pequenas crianças, ela mora em um trailer, no fundo do quintal de sua mãe. A jovem, então com 23 anos, trabalha a noite e cuida das filhas durante o dia. O casal parece apaixonado e em sincronia, apesar das dificuldades (que ela nunca reclama para ele), só que, determinado dia, ela desmaia e sua mãe leva-a ao hospital. Chegando lá, ao fazer uns exames, os médicos descobrem que Ann estava com um câncer nos dois ovários e, por suas células serem jovens, a doença já estava se espalhando para os outros órgãos, o que dificultou o encontro de um tratamento para retardar sua morte. Ann, ao saber do diagnóstico, opta por não fazer tratamento algum (exceto os analgésicos para aliviar a dor) e não contar para família. Essas decisões fizeram com que ela, paulatinamente, fosse se despedindo dos entes queridos e fizesse também uma lista de coisas para fazer antes de morrer, além de organizar a continuidade da sua vida sem sua existência.

Agora você tem vontade de tomar todas as drogas do mundo. Mas elas não vão mudar a sensação de que toda sua vida foi um sonho e só agora você está acordando.

O interessante desta lista dela é que os objetivos não eram formados por atos heroicos ou de conquista gigantesca, não! Eram coisas comuns que, devido o seu amadurecimento precoce e todos os afazeres que vieram com a fase adulta, ela não teve oportunidade de fazer, como beijar outros rapazes, se apaixonar por alguém diferente, dizer às filhas que as amava, levar as crianças à praia e até mesmo encontrar uma nova esposa para seu marido.

tumblr_mcs3ikuJxU1qbwxizo1_500

Ao contrário do que se espera em uma situação como essa, Ann não se desesperou, na sua narração (a história é narrada pela garota, então há um fluxo de consciência intercalado com acontecimentos diários e diálogos), ela continuou com sua vida normalmente, sem o desespero frente ao fim. Ela era menina que nunca ousou, que nunca falava o que pensava ou questionava alguém. Ela simplesmente ouvia todos, enquanto que ninguém ouvia o que ela queria dizer.

Quer saber por que estou vomitando? Quer mesmo saber? Estou vomitando porque, aos 8 anos ouvi minha melhor amiga dizer a todos que eu era uma vagabunda. Estou vomitando porque, aos 15 não fui convidada para a única festa à qual eu já quis ir na vida. E, aos 17, tive meu primeiro bebê e tive de crescer da noite para o dia. E não tenho mais sonhos. Sem sonhos, não dá para viver. Estou vomitando pois não vejo meu pai desde que foi preso. Não tenho nada dele, nem sequer uma droga de postal…E, em todos os comerciais estão todos felizes e, o dia todo, minhas filhas cantam as músicas idiotas desses comerciais idiotas […].

O momento em que Ann acorda é quando ela percebe que só terá dois – as vezes três – meses de vida. E é quando ela passa a gravar fitas com despedidas/congratulações/justificativas/declarações de amor para as filhas, para o marido, para a mãe e para o Lee (Mark Ruffalo).

cap009_sized

Lee, interpretado fofamente, é a pessoa pela qual Ann conquista, para também se apaixonar por ele. O interessante dessa relação é que, diferente das que permeavam seu dia-a-dia, com Lee, ela poderia se abrir e falar qualquer coisa que ela quisesse, mas ela se cala. Não derrama nele todos os dramas, todas as solidões e problemas cotidianos, ela só ama. E recebe amor. Algumas pessoas podem dizer que essa atitude dela corresponde à traição ou ao egoísmo, em contrapartida, só consigo ver uma mulher, prestes a morrer, que quer ter experiências que a rotina ou as circunstâncias da vida tiraram dela. Vejo uma mulher que ama seu marido (e é amada por ele), que ama suas filhas, mas que precisa de mais. De emoção. Ela precisa sair do trailer. Ela precisa sentir. Ela precisa fazer algo. É isso que, mesmo de maneira limitada, ela consegue alcançar no transcorrer do filme.

Alguns de nós não podem levar o tipo de vida que algumas pessoas querem. Por mais que a gente tente não consegue… É difícil, sabe… amar alguém e não conseguir fazer a pessoa feliz. É como se você amasse essa pessoa, mas não conseguisse amá-la como ela deseja.

tumblr_md35mdnlAD1qbwxizo1_500

Vemos então, em tons pasteis, com mudanças e enquadramentos de câmeras que aproximam o personagem dos telespectadores, uma história que não é sobre morte, nem sobre a doença (um toque genial do roteiro). É um drama, mas não é um dramalhão. É quase clichê, mas não é piegas. É realista e verossímil. O filme é, sobretudo, a respeito do amor, dos sonhos, sobre a saudade (a única coisa que podemos deixar às pessoas que nos amam). Nobreza é isso: reconhecer nossa efemeridade e esperar que a saudade que fica, ao partirmos, seja bela, já que, conforme o filme nos mostra, a vida não é para sempre, o que é definido talvez seja só a saudade, a nostalgia.

Você reza para que essa seja sua vida sem você. Reza para que as meninas amem essa mulher que tem o mesmo nome que você e para que seu marido também acabe amando-a. E para que eles morem na casa ao lado e as meninas brinquem de casinha no trailer… E mal se lembrem da mãe delas que dormia de dia e fazia passeios de jangada com elas, na cama. Você reza para que tenham momentos de felicidade tão intensa que faça todos os problemas deles parecerem insignificantes. Você não sabe para quem está rezando , mas reza. Você nem se quer lamenta a vida que não vai ter porque você já estará morta e os mortos não sentem nada e nem lamentam.

O filme não é algo OH MEU DEUS É ARREBATADOR RUPTURA PURA GENTE QUE COISA OUSADA, mas também não é um drama qualquer. É o típico filme que nos tira da nossa zona de conforto. Que nos leva a refletir: o que estou fazendo com minha vida? se eu morresse daqui dois meses, o que eu faria agora? o que eu deixaria para trás? para quem? o que seria da minha vida sem mim? Pensar nisso é mais pesado do que a proposta do filme. Além disso, o filme tem o beijo mais desesperado que eu já vi, no final, com aquela mistura de choro, beijo e fim eminente, sabem?

tumblr_m7bz6nrmrq1qfh5bjo1_500

Ps. A trilha sonora tem The Beach Boys, God only knows. O que faz o choro ser lírico (riso)

Assistam, depois me digam qual foi a experiência de vocês!
Beijos,
Re.

 

Netflix: algumas dicas, parte I

Netflix: algumas dicas, parte I

Todo mundo deve concordar comigo que, enquanto a nossa internet é ilimitada, a linda Netflix é uma das coisas mais bonitas que inventaram, para os amantes da sétima arte, certo?

O problema, para alguns que utilizam esse provedor global de filmes e séries, é encontrar, entre tantas opções, algo para assistir. Pensando nisso, vou criar numa lista de filmes que já assisti, que gosto e que estão lá só esperando o clique de vocês, tudo bem?

  • Bonequinha de Luxo

Filme estrelado por Audrey maravilhosa Hepburn que interpreta uma garota de programa nova-iorquina que quer casar-se com um milionário. Uma personagem inocente, mas ambiciosa, que toma seus cafés da manhã em frente à famosa joalheria Tiffany’s, na intenção de fugir dos problemas, por ficar próxima aos diamantes. Seus planos mudam quando conhece Paul Varjak (George Peppard), jovem escritor, com quem a mulher se envolve. Apesar do interesse em Paul, Holly reluta em se entregar a um amor que contraria seus objetivos de tornar-se rica. O filme é baseado em um livro com o título original Breakfast at Tiffany. O destaque desse filme concentra-se na atuação da Audrey Hepburn, porque ela se entrega de tal maneira à interpretação, que consegue mostrar ao telespectador uma jovem extremamente doce e carismática, com um jeitinho sonhador, confuso e engraçado.

boneq

Uma boa resenha sobre o filme, você encontra em leitoresdepressivos

Se vocês gostam de filmes clássicos, na Netflix tem títulos como: Janela Indiscreta, Johnny & June, Um corpo que cai, Thelma & Louise, A onda, Um drink no Inferno, Psicose, Ladrão de Casaca, Aconteceu naquela noite, Juventude Transviada, Touro Indomável, O sol é para todos, Joe Kidd, Três homens em conflito, Perseguidor Implacável, O Grande Gatsby (de 1974).

  • Manhattan

Para quem gosta do Woody Allen, a Netflix disponibiliza alguns filmes do diretor. O meu preferido dele é Manhattan, pois mostra o cuidado visual com que foi filmado, com destaque à magnífica fotografia de Gordon Willis, que filma as sombras com uma incrível beleza, além de que o filme tem a qualidade de ser um Film Noir. O longa se desenvolve em torno de um roteirista de televisão (Isaac, personagem do Woody), que está divido entre a namorada, de 17 anos, e um romance com a amante do melhor amigo, o que suscita, em Isaac, várias questões existenciais, como a famosa pergunta: “Por que vale a pena viver?”, que leva à resposta do personagem de Woody Allen citando “Groucho Marx, Joe Di Maggio, o segundo movimento da sinfonia ‘Júpiter’, de Mozart, Louis Armstrong, ‘A Educação Sentimental’, de Flaubert, os filmes suecos, Marlon Brando, Frank Sinatra, as maçãs e peras pintadas por Cézanne, os caranguejos do restaurante Sam Wo e o rostinho de Tracy”. Tudo isso na cidade de Nova Iorque.

Boas resenhas sobre o filme: ajanelaencantada e planocritico

Vocês ainda podem encontrar outros títulos desse diretor, como: Para Roma com amor (eu não gosto desse filme, mas vale ver para criticar, riso), Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (que é ótimo! Depois de Manhattan, é meu preferido!), Você vai conhecer o homem dos seus sonhos, O escorpião de Jade, Blue Jasmine (aquele que venceu um dos Oscar, recentemente), Amante a domicilio (que tem uma ideia muito boa pro enredo, sem contar que o protagonista é maravilhoso), Meia-noite em Paris (que é bonzinho) e um documentário sobre ele: Woody Allen: um documentário.

  • Taxi Driver

Taxi Driver, depois do Poderoso Chefão, está entre minhas preferências de filmes estrelados por De Niro. É um baita clássico, com cenas geniais, que até faz parte da cultura popular ocidental.

O filme, de 1976, filmado por ninguém menos que Martin Scorsese, gira em torno da trama de um ex-fuzileiro (interpretado por Robert De Niro) que busca um sentido para a sua vida, caindo, por isso, em questões quase obsessivas, como as tentativas falhadas de criar laços: Primeiro por uma moça que ele leva para assistir um filme pornográfico, depois por um candidato politico. Entretanto, as relações interpessoais do personagem não funcionam muito bem.

AC-N-taxi-driver-taschen3

Taxi_Driver

taxi-driver-1976-de-martin-scorsese

Resenhas sobre o filme: conversasdecinema e cafecomfilme

  • Último tango em Paris

Não preciso dizer que gosto do Marlon Brando, não só pelo seu jeito ‘anarquista’ para atuar, mas também pelo ótimo resultado em Poderoso Chefão e no filme Último tango em Paris (filme gravado concomitantemente com as filmagens do Poderoso Chefão).

O filme é um drama erótico franco-italiano de 1972 gravado em 35 mm, dirigido por Bernardo Bertolucci (o mesmo de The Dreamers). O enredo se baseia em Paul (Brando), um americano de meia-idade em Paris, que se encontra, num apartamento anunciado para aluguel, com uma jovem parisiense de espírito livre, Jeannie (Schneider). Sem se conhecerem, começam a ter relações sexuais no local. Paul exige que eles não troquem qualquer tipo de informação um do outro, nem mesmo seus nomes e, depois disso, os encontros se tornam frequentes até que eles se desencontram, nesse relacionamento doentio, desiludem-se  e rola uma tragédia. O lance do filme, que eu particularmente gosto, é notar como Brando desenvolve personagens (Paul x Corleone) tão distintos, num mesmo período. Dizem que, assim como em filmes anteriores, o ator se recusou a decorar suas falas em várias cenas. Ao invés disso, ele escrevia as falas em cartazes espalhados pelo set de filmagem e deixava o problema de não enquadrá-los na câmera para Bertolucci e Storaro. Outro destaque é a tão famosa – e polêmica – cena de sexo anal que rola em determinado momento do longa, que vale a pena ver para problematizar.

  • Trainspotting

Filme de 1996, foi baseado em livro homônimo de Irvine Welsh, com roteiro de John Hodge narra a história sob a perspectiva de Mark Renton (Ewan McGregor), um jovem escocês que, para escapar da vida entediante e frustrante de sua cidade, se entrega ao uso da heroína ao lado dos amigos Spud (Ewen Bremner), Lizzy (Pauline Lynch), Sick Boy (Jonny Lee Miller) e Tommy (Kevin McKidd).

Não gosto muito desse filme (acho que sobre a temática tem alguns outros melhores, como Enter the Void, do Gaspar Noé – já que é pra ser pesado, vamos ser pesado, né?), mas acho que tem pessoas que se interessariam em saber que ele está disponível na Netflix.

Trainspotting-capa

Resenhas bem desenvolvidas: obviousmag e cinemaedebate

  • Django

Um dos meus preferidos do Tarantino, Django está todo lindo e novinho na Netflix!  Filme de 2013, é ambientado no sul dos Estados Unidos dois anos antes da Guerra Civil. Estrelado por Jamie Foxx, como o Django, o longa traz como personagem um escravo cujo histórico brutal com seus ex-senhores o coloca cara a cara com o caçador de recompensas alemão, dr. King Schultz (Christoph Waltz – o mesmo que interpreta o general alemão, em Bastardos Inglórios).  Django, em determinado momento, é ‘livre’ pelo alemão e juntos vão atrás do  único objetivo do ex-escravo: encontrar e resgatar Broomhilda, a esposa que ele havia perdido para o tráfico de escravos há muito tempo. A busca deles acaba levando-os até Calvin Candie (Leo DiCaprio), o proprietário de Candyland. Explorando a fazenda sob falsos pretextos, Django e Schultz despertam a desconfiança de Stephen (Samuel L. Jackson), o fiel escravo doméstico de Candie, o que desencadeará algumas ações que culminarão em um final grandioso.

O que posso falar é: o filme conta com uma trilha sonora genial, fotografia linda, atuações GRAN-DE-O-SAS (Leo até cortou a mão em uma cena, com cacos de vidro, mas, mesmo assim, continuou atuando lindamente, usando seu sangue para incrementar uma cena do janar!). Figurino e roteiro maravilhosos. E ainda traz um Tarantino sendo explodido.

Django-Livre

Além do Django, é possível ver outros filmes do diretor, como o Kill Bill (o 1º e o 2º), Pulp Fiction, Um Drink no Inferno, Bastardos Inglórios e o Cães de Aluguel (WOW!!!)

Resenha: UOL

  • Drive e O Profissional

No gênero ação, vocês poderão encontrar filmes como Jogos Vorazes (visto com um olhos atentos para a ambientalização, o filme é ótimo), Clube da Luta, V de Vingança, Matriz (todos eles), Into the Wild (baita fotografia e trilha sonora, sem contar a atuação do mocinho), Star Wars, Scarface (Al Pacino em toda sua glória), Invasão a Casa Branca, Senhor dos Anéis, O Hobbit IOs Irmãos Grimm (não faz muito jus à história dos irmãos, mas é um filme legal por conta das cenas do gênero fantástico-maravilhoso), Os indomáveis, Cão de briga (é super legal ver as cenas de luta protagonizadas por Jet Li), e, entre eles temos dois filmes que merecem destaque: Drive e O Profissional.

O primeiro, um filme estadunidense de 2011, dirigido por Nicolas Winding Refn, tem como protagonista o MARAVILHOSO DEUSO Ryan Gosling.

drive-31Durante o dia, o motorista, personagem do Gosling trabalha como mecânico e dublê automobilista de filmes de Hollywood, mas, no período noturno, ele se dedica como piloto de fuga para bandidos e mafiosos. É também vizinho de Irene (Carey Mulligan, a maravilhosa de Educação), uma garçonete que é casada e tem um filho com um presidiário. Ao aproximar-se da moça e da criança, o maravilhoso-drive começa a criar um forte relacionamento com ambos até a volta do marido de Irene. Percebendo a situação difícil de ex-preso, o protagonista se dispõe a ajudá-lo num assalto que pagaria sua dívida aos criminosos. Só que o golpe dá errado, o que coloca em risco as vidas do motorista, Irene e seu filho, o que faz com que o bom-moço-com-cara-de-anjo se transforme e vire um baita dum lutador-matador-pancadaria-mesmo.

drive-filme-5

Resenha legal: pitangadigital

O segundo filme, O profissional, no Netflix é a versão não-estendida, mas que, mesmo assim, é genial de assistir.

O filme conta com duas atuações primorosas: Nathalie Portman (com 11 anos), na personagem de Mathilda e o Jean Reno, que interpreta o quase paternal Leon. Leon é um assassino profissional que conhece Mathilda, uma garota de doze anos de idade que vive com a sua família “problemática”. Um dia, a família da garota é assassinada e ela se refugia com Léon e tenta convencê-lo a lhe ensinar seu “ofício” para que ela possa vingar a morte do irmão. Em determinado momento, Leon mata um dos policiais envolvidos na morte da família de Mathilda, o que desencadeia uma perseguição enfurecida dos colegas desse policial. Este matador profissional arrisca sua vida numa tentativa de escapar de uma cilada e salvar Mathilda.

É um daqueles filmes que nos fazem soluçar de puro desespero-melancolia no final, sabe?

Resenhas: pontojao e apogeudoabismo

  • Melancolia

Melancolia (2011) é um longa-metragem de um dos meus diretores contemporâneos favorito: Lars Von Trier. Pelo nome, penso que vocês já imaginam que esse não é um filme que te fará rir, porque não é mesmo. Quando Lars o produziu, a intenção era de fazer uma continuação para a futura trilogia advinda do filme Dogville, mas, devido ao período de uma grande depressão do diretor, ele optou para filmar essa grande obra melancólica.

Esse filme é extremamente lindo, tanto no conteúdo, quanto no efeito visual: “Melancolia, começa em ultra slow motion, num prelúdio do que acontecerá mais adiante. O resultado é um filme visualmente muito elaborado, com inspiração em pinturas pré-rafaelitas e alemãs, música de Beethoven (como a “Nona sinfonia“) e traduzindo a habitual visão niilista do diretor sobre a vida e as relações humanas. Não escapa nem o destino do planeta” (G1).

Resenhas/análises/artigo sobre o filme: pepsic, virgula.uol, espacoacademico escrevalolaescreva

  • Smashed

É um filme que eu vi faz um tempo, mas encontrei por acaso na internet. É uma produção com grande potencial, pois traz, com uma abordagem bem sutil, os problemas que pessoas com vício em bebidas alcoólicas enfrentam e o que podem fazer para superá-lo. Parece um enredo batido,  porém a direção, a fotografia e os atores contribuem para que o filme seja um tanto quanto ‘inovador’ nessa temática.

A trama gira em torno de um casal composto por Kate (Mary Elisabeth Winstead), uma jovem professora primária e Charlie (Aaron Paul – o Jesse maravilhoso do Breaking Bad). A primeira vista,a vida deles parece nos eixos, mas ao observarmos com atençãoé possível percebermos as graves falhas no relacionamento dos dois. Kate e seu marido são jovens boêmios que celebram a vida de forma exagerada noite após noite. Até um dia em que ela acorda, na rua, sozinha, sem recordar do dia anterior, por ter passado a noite fumando crack. Então, ela resolve se livrar do vício, só que o marido não aceita acompanhá-la e a problemática se instala!

Resenhas: criticadaquelefilme e cinepop

  • Jeff e as armações do destino

Desde How I met your mother, eu adoro o ator Jason Segel (O Marshall da série). Jeff (Jason Segel) é um grandalhão de trinta anos, mas que ainda mora com a mãe (Susan Sarandon), onde ele passa o dia fumando maconha, assistindo TV e ponderando sobre a vida. Ao receber uma ligação por engano à procura de um Kevin, ele acredita que isso possa estar relacionado a uma série de eventos que são mais do que apenas coincidências. Em busca de um sentido para essa ordenação, Jeff encontra seu irmão Pat (Ed Helmes) e o ajuda a descobrir se a cunhada (Judy Greer) está tendo um caso. Enquanto isso, Sharon (a mãe) tenta lidar com misteriosas mensagens instantâneas de um admirador secreto no escritório onde trabalha (poseseneuroses).

O legal do filme é a proposta de demonstrar a incapacidade de alguns homens em se comportarem como adultos. Não é inovador, certo? Mas o Jason coube certinho no personagem e deu um charme legal pro filme.

Resenhas legais: resenhafilme e ovodefantasma

Nessa linha de comediazinha bonita de ver, temos ainda, na Netflix: As vantagens de ser invisível, Little miss sunshine, About time, A delicadez da amor (com a deusa Audrey Tautou), Procura-se um amigo para o fim do mundo (MARAVILHOSO!), Intocáveis (não é bem uma comédia, mas você ri e chora na mesma proporção nesse filme francês), Juno, Jovens adultos, Amar… não tem preço (também com a Audrey), O terminal, Os acompanhantes, Por uma vida melhor, De caso com o acaso.

  • O verão de Skylab

Para fechar essa primeira parte, bem bem genérica, de ‘dicas na Netflix’, sugiro que vocês assistam O verão de Skylab.

De modo geral, esse filme traz a história de Albertine. Em julho de 1979, ela era uma menina de dez anos, quando os seus parentes se reunem na casa de campo da família para celebrar o aniversário da avó. Para completar, naquele verão, todos acreditavam que um pedaço do Skylab – estação espacial da NASA que se desintegrou quando sua órbita decaiu – irá cair nas suas cabeças.

Qual é a graça desse filme? Vou dizer que: Sabem a Céline, da trilogia “Antes do amanhecer”, interpretada pela Julie Delphy? Então, essa maravilhosa atriz é também roteirista e diretora excepcional. Tão genial que, além desse que tem disponível na Netflix,   ela também desenvolveu  o cultuado filme Dois Dias em Paris, de 2007 .O Verão de Skylab, é um  projeto bastante pessoal, pois a francesa resgata suas memórias de infância, reúne um enorme elenco e realiza um filme leve e cheio de graça sobre uma família. A fotografia e figurino e diálogos e elenco e toda a produção do filme são lindos de se apaixonar. Sem contar que é possível ver, nesse filme, a cultura familiar francesa e, de certa forma, identificarmo-nos com o nosso próprio meio social-familiar, mesmo com nosso jeito brasileiro (e até mais conservador que a família do filme, pensando que caracteriza a década de 70-80, na França) e singularidades, sempre teremos as memórias infantis, que guardam o primeiro beijo, a primeira dança, os momentos com a família reunida, as brigas,  discussões políticas, os primos infernais…

Resenhas: folha.uol e cinemacomrapadura

Pensei em fazer mais três etapas desta ‘lista’ de filmes: dramasuspense/românticos/brasileiros e séries. Lembrando que isso tudo é só opinião, eu posso achar legal, vocês não e etc., mas acho que o lance mesmo é indicar, para que vocês vejam e depois podemos até conversar sobre os filmes. Legal né? :*

Aproveitem o feriado!

Paulo Lins x Clarice Lispector

Paulo Lins x Clarice Lispector

Donzelas e jovens são raptados; meninos são arrancados dos braços dos pais; mães sofrendo os caprichos dos vencedores; templos e casas saqueados; praticam-se morticínios e incêndios. Finalmente, armas, cadáveres, sangue e lamentos por toda a parte (A cidade de Deus, Agostinho).

Quem assistiu Cidade de Deus,  de 2002, dirigido por Fernando Meirelles , baseado no livro homônimo, de Paulo Lins, com certeza se lembra da primeira cena do longa. O primeiro trecho que Meirelles grava é a cena que abre espaço para o desenrolar da narrativa, pois, de um lado está Zé Pequeno, no meio está uma galinha e Busca-Pé e, depois do garoto, encontra-se a polícia. Essa sequência é um flashforwardisto é, diferente dos flashbacks, essa estratégia antecipa ao telespectador acontecimentos futuros, que, no caso  do filme, seria a guerra.
cidade-de-deus-todos

Quem leu o livo, inclusive, sabe que a cena que estou referindo não ocorre no início da narrativa, mas quase no finalzinho. A escolha de mostrar os fatos posteriores, foi do diretor e/ou do roteirista do filme. Além dessa mudança, o leitor também nota que a mesma cena do filme, que se inicia com a perseguição de uma galinha, no livro, a mesma cena é retratada, mas diz respeito à perseguição de um galo.

No momento em que vi a parte inicial do filme (essa do vídeo acima), eu pensei: Gente, isso é Clarice Lispector! Vocês conhecem o conto Uma galinha, da Clarice? Caso não conheçam, vale super a pena dar uma lida.
O que quero dizer aqui é o seguinte, temos, no longa-metragem uma cena que se aproxima muito da descrita pela escritora Clarice, porque a galinha do conto, assim como a ave que aparece no filme, também sente a necessidade de fugir por perceber que sua hora de morrer está próxima:

Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço […] A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça […] Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado […] E então parecia tão livre. Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. (LISPECTOR, 1998, p. 30).

A semelhança nos dois textos, tanto o verbal quanto o não-verbal, além da fuga da galinha, está também nos caminhos que as aves escolheram, de maneira arbitrária, de tomar, elas voam pelos telhados, lutam por suas vidas sozinhas, até cansarem, e também na escolha de se cozinhar carne de galinha nos domingos:

Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã (LISPECTOR, 1998, p.30).

No domingo, em vez de comprar a maldita carne de porco, de que ele tanto gostava e que ela odiava, optou pela galinha, prato predileto da esposa (LINS, 2002).

Além disso, se formos procurar no livro Cidade de Deus, encontramos vários trechos que fazem referência à ave, seja de maneira literal, como “haveria de estourar a boa pra poder comprar uma chácara no interior, viver o resto da vida criando galinha numa boa” (LINS, 2012) ou para caracterizar a mulher:

— Uma galinha comprando outra! — disse Ana Rubro Negra, finalizando uma conversa sem delongas com o feirante que lhe vendia um frango na feira de domingo […] — Comia meu cu dizendo que me amava e agora roba meu dinheiro na maior cara de pau! Filho da puta! Tu me largou porque eu não botei na tua bunda quando você me pedia, sua galinha… Tu é galinha igual a mim… (LINS, 2012).

ou para xingar um homem:

— Deixa que eu rumo uma mulher para rumar a casa, morou, cumpádi? Não quero viado lá em casa, não. Se tu fosse homem, tudo certo, mas tu é maior bichona, descarado, sem-vergonha, puto, galinha, marica… (LINS, 2012).

Ao pensar nessa personificação da ave, na obra de Lins, vemos que no conto de Lispector também podemos pressupor essa característica, visto que a autora descreve a sua personagem com trejeitos encontrados na mulher do século passado, por exemplo, em trechos como: “Parecia calma”, “não souberam dizer se era gorda ou magra”, “hesitante e trêmula”, “a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça”, “estúpida, tímida e livre”, “a galinha é um ser”, “surpreendida, exausta”. Cuja importância só aparece ao ser mãe: “De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada […] — Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem!“. Percebe-se, assim, a mulher que, apesar de seus sentimentos e opiniões, ela deveria aceitar o que lhe era imposto, sendo, portanto, uma mulher tolhida, que precisava aceitar o sistema, por não tinha voz nem vez.

cidade de deus

Por conta da personificação e da significação pejorativa da palavra galinha, é que podemos observar, na obra do autor paulista, a presença dela em momentos em que a mulher é vista ou tida como uma ‘puta’ ou então como algo material a ser ‘comido’, como nos trechos a seguir:

Resignação, solidão, ódio, medo. Juntou esses sentimentos que estavam trancados em seu quarto e os jogou pela janela, vestiu-se de modo provocativo, pintou-se e foi à feira comprar galinha (LINS, 2012).

[…]

Seu Zé Maria, morador do Bloco Oito, gostava de beber na praça Principal da favela. Era ali que, machucando uma moela de galinha e tomando um birinaite, observava as mulheres e sentenciava quem era boazuda e quem não era (LINS, 2012).

Ao levarmos em consideração a semântica de cunho sexual/pejorativo que gira em torno da palavra em questão, podemos pressupor que na fala de Zé Miúdo, quando ele ordena “soca o dedo na galinha” e ri de sua ‘piada’, o rapaz insinua um ato sexual, já que poderíamos pensar no revólver (onde é para apertar o gatilho – “socar o dedo”), como uma arma potente, próximo à figura de um pênis (joga bala-munição/joga o sêmen), que também pode machucar. Vemos essa relação ainda, quando a personagem do conto de Lispector recebe uma inspeção para saber se é magra ou não: “Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra”.

Por fim, ao vermos o filme e o livro ao qual o longa se baseou, a cena da galinha na obra cinematográfica não existe, pois a personagem que protagoniza esse episódio, no livro, é o galo, que, no texto narrativo, não morre, só as galinhas compradas por Zé Miúdo (Zé Pequeno, no filme) é que viram comida: (Colocarei aqui, a parte toda que descreve a cena da fuga do galo, quem não quiser ler, veja só as partes grifadas)

— Cocoricó, coricó! — fez o galo de Almeidinha olhando cabreiro para Zé Miúdo, que havia mandado Otávio comprar dez quilos de batata e cinco galinhas para completar o almoço. Otávio saiu correndo. Não via a hora do almoço tão falado durante a semana. O galo, de tanto ouvir comentários a propósito de sua existência, antes mesmo de o sol nascer, tratou de bicar, malandramente, o barbante que o prendia a um pedaço de bambu fincado no chão, até que ele ficasse suficientemente fraco para rebentar ao mínimo puxão. Iria fugir, porém, só depois que Almeidinha lhe jogasse os milhos de que tanto gostava, o que ainda não havia acontecido.
É certo que o galo de Almeidinha não entendia bem as coisas, por ter raciocínio de galo, mas ao olhar aquele monte de crioulos com as bocas cheias de dente, bebendo cerveja, olhando à socapa para ele, fumando maconha e dizendo que não iriam cheirar para não perder o apetite, não cantou, como de costume. Ficou ali na dele esperando a refeição.
Otávio chegou de táxi com as cinco galinhas enroladas em jornais, patas amarradas. Marcelinho Baião ajudou o menino a levar as galinhas até a cozinha. Miúdo mandou que jogassem as galinhas no terreiro para o galo dar-lhes uma bimbada e morrer feliz. O bandido acreditava que assim a sua carne ficaria mais macia e saborosa. A mulher de Almeidinha dizia que o galo deveria ser o primeiro a entrar na panela, por ser o seu cozimento mais difícil. O galo, esquecendo-se de tudo, pulou em cima de uma galinha e logo procurou outra e todos bateram palmas, enquanto Almeidinha aguardava com uma enorme faca na mão. O galo não dava chance às galinhas. Mesmo com a certeza de que tudo era pertinente ao seu cozimento, achava que iria morrer e ao mesmo tempo não achava. Coisa de galo. Mas ao ver, de relance, a faca sendo sustentada por aquele que durante toda a sua vida acreditara ser seu amigo, certificou-se de que tudo ali concorria para o seu falecimento. Na primeira tentativa, livrou-se do barbante, que foi ficando mais fraco no momento em que executava a galinha, saçaricou entre os convidados e saiu quebrando pelas vielas.
A quadrilha saiu atrás do galo, porém galo de favela é arisco como o cão: entrava e saía das vielas, ágil como uma onça, fingia que ia e não ia, fingia que ia e ia, corria agachadinho para não ser percebido de longe, nas quinas das esquinas botava só meio rosto à vista para ver se tudo estava limpeza, vez por outra alçava voos de quinze a vinte metros, corria desesperadamente para os Blocos Novos, dificultava a sua captura. A quadrilha gargalhava enquanto perseguia o almoço. Miúdo, ao dobrar uma viela, trombou com um vendedor de panela e foi ao chão junto com ele. Levantou-se de supetão, mandou o sujeito tomar no cu e ordenou aos berros: Senta o dedo no galo! E começou o tiroteio. O galo voou por sobre o braço esquerdo do rio enquanto em seus ouvidos zuniam tiros que esburacavam o chão, passou entre o Bloco Sete e o Bloco Oito. Também, em pequenos voos, poderia subir o Morrinho ou quebrar para a praça dos Apês, ficou com a primeira opção. Nunca se ouviram tantos tiros nos Apês. Mesmo as pessoas que sempre botavam o rosto na janela em dia de tiroteio, para dar uma espiadinha, desta vez não ousaram, tiveram medo de bala perdida. A quadrilha se empenhava em resgatar o galo. Quem o matasse, aumentaria o conceito com Miúdo, que, ainda no beco, dava coronhadas no paneleiro para ele nunca mais trombar com a sua pessoa e nem revidar seus xingamentos.
O galo entrou no meio de um goiabal, onde nem a luz do sol penetrava direito, procurando o esconderijo ideal, mas, ao contrário do que intuiu, a quadrilha de Miúdo se encafuou ali dentro dando tiros ao léu. O bruto, sem poder voar, entrou em pânico, aumentou a velocidade naquele terreno acidentado e se machucou, mas sem tempo para sentir dor. Depois de alguns minutos, os tiros cessaram. Ele se entocou debaixo de umas folhas secas e esperou seus inimigos desistirem de capturá-lo. O galo, depois de uma hora, desentocou-se, encaminhou-se para o sítio de um casarão abandonado, correu por toda a sua extensão, saiu na Edgar Werneck e sumiu dali para sempre.

Diferente da galinha do conto, o galo consegue escapar vivo, como Clarice Lispector marca, já que a galinha é estúpida, diferente do galo que é vitorioso: “não vitoriosa como seria um galo em fuga […] Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista”, galo que, nas duas obras, são personificados como o homem, aquele que subjuga as mulheres, que tem o seu ‘jeito’ de ser homem, ser esperto e confiar em si mesmo,  consegue ser livre dos ‘barbantes’.

Penso que a figura dessa ave é emblemática sim, pois não deve ser por acaso que podemos vê-la de maneira bem destacada no cartaz do filme Cidade de Deus

CidadedeDeus

Estou viajando? Em todo caso, o legal é que fica aí a ideia para refletirmos e compararmos as figuras simbólicas nas obras citadas.