CD: Amor Geral, Fernanda Abreu

O Lead title dessa semana vem do Instagram da própria artista: Amor entre os homens: eterno enigma a ser decifrado. https://www.instagram.com/p/BE1ZevGIEDt/?taken-by=fernandaabreureal

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Introdução/Contextualização:

No dia 20 de maio de 2016, Fernanda Abreu lançou Amor Geral, o oitavo álbum de estúdio da sua carreira pelo seu próprio selo, chamado Garota Sangue Bom, em parceria e com distribuição pela Sony Music após um período de dez anos sem um disco de inéditas. Ele levou dois anos e meio para ser finalizado e contou com parceiros antigos da cantora para sua produção, como o produtor Liminha, o DJ Memê, Laufer e o compositor Fausto Fawcett. Também há novos parceiros, como os compositores Qinho, Donatinho e Tuto Ferraz, e os produtores Wladimir Gasper, Sergio Santos, Rodrigo Campello e T.R.U.E. Ela ficou a cargo e responsável pela produção executiva e direção musical do CD e a mixagem foi feita por Sérgio Santos e Vitor Farias, enquanto a masterização ficou a cargo do Tom Coyne (Sterling Sound, NY).

O álbum veio precedido da música de trabalho Outro Sim. (Clique aqui para ver toda a ficha técnica)

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Capa do single

Ele foi lançado durante o programa Vídeo Show (Rede Globo) e, em seguida, publicado no canal VEVO da artista. Por conta disso, ela causou uma euforia nas redes sociais e uma expectativa quanto ao lançamento do álbum, evidenciando seu papel na música brasileira e chamando atenção para o seu retorno ao mundo fonográfico. Além disso, ela recebeu muitos elogios e saudações, até mesmo por quem ainda não a conhecia.

O conceito da produção me remeteu a outro clipe, o “Limpido” (2013) da Laura Pausini, lançado para divulgar sua coletânea em comemoração aos 20 anos de sua carreira e aos seus antigos sucessos.

Análise da obra no geral:

Durante o seu período de hiato, sem nenhum CD de inéditas, foi o momento que eu estava me inserindo nesse mundo do meio musical e, por isso, não acompanhei o processo de nenhum trabalho dela anterior a 2008. Todavia, em 2015 ela anunciou seu retorno aos estúdios via a rede social facebook e a partir daí a ansiedade e a expectativa era tremenda e pude acompanhar o tão desejado processo de lançamento e divulgação de ao menos um projeto da sua carreira longeva. Quando a hashtag #FernandaAbreuNoVideoShow entrou no Trending Topics do Twitter no dia 15 de abril desse ano fiquei em êxtase, porque sabia de toda influência, reverência e respeito entre o público, a mídia e a crítica especializada sobre seus trabalhos e sobre a própria Fernanda e logo em seguida encontrei, em um tweet aleatório, o link direcionado para a página do videoclipe de Outro Sim e essa nova empreitada artística tão atual, não tinha como vir em outro momento. Por sinal, toda aclamação merecida em torno desse disco é reflexo do quanto a música pop brasileira estava carente das músicas dela que sempre priorizou pela qualidade, inovação, inventividade, versatilidade e criatividade, pois cada disco veio com um conceito novo.

Agora, depois de tanto tempo, nos presenteou novamente com um ótimo CD. Na sua distinção, ele é sofisticado, de uma elegância e muito verdadeiro. Uma produção polida, com batidas infecciosas, já que ela sempre usou de uma unidade intercultural, de incursões ao funk, sempre de forma natural, sem parecerem forçadas. Na música pop-comercial desde os anos 2000 é raridade encontrar nas rádios brasileiras alguém que sempre mantém a qualidade poética e reflexiva em suas letras em sintonia com o balanço sofisticado dos arranjos. Aguerrida e com autonomia suficiente para oferecer música de qualidade, ela sempre se diferencia e ocupa o topo das artistas autênticas, passa longe de ser uma pseudoartista. Marca característica de Abreu é a cuidadosa curadoria de transpirar a máxima legal e o essencial em cada pedaço, em cada parte, de suas obras.

De mãos dadas com o eletrônico, Fernanda conseguiu transformar a dor, as vivências e suas percepções em pop. O álbum contém canais diferentes de eras da música, incluindo a moderna, a retrô, a década de 1980 e 1990, enquanto os humores do álbum variam e se inclinam de baladas lentas para mid-tempos até para up-tempos. O registro reflete uma renovação no som da artista, mas ao mesmo tempo há uma assinatura do estilo que a cantora desenvolveu em seus discos anteriores, ou seja, a sua essência ainda continua presente. Harmonizando uma mistura de elementos de uma série de gêneros, incluindo soul, dub, elementos eletrônicos, percussão tribal, groove disco e, claro, como ela foi a maior saudosista do funk carioca, ele também não podia faltar. As músicas são magistralmente trabalhadas e suntuosamente produzidas com cada elemento em perfeito equilíbrio – letra, melodia e produção – para mim, particularmente, não tem nada fora do lugar. Talvez eu até possa dizer: “é Fernanda em sua melhor forma.” Foi um retorno muito esperado e ainda bem que ela supriu as expectativas e trouxe um álbum agradável.

Mesmo que o todo pareça muito esparso e aleatório algumas vezes, olhando superficialmente, há todo um conceito regendo a obra – falarei mais a frente sobre ele. Certamente, com a finalidade a que Abreu se propôs, isso faz cada canção ser tipos diferentes de pensamentos e, como consequência, elas demonstram fortes abordagens dos diferentes estados de espírito, diferentes emoções, por isso te faz sentir coisas diferentes por meio de cada faixa. Assim sendo, a produção possui uma diversificação rítmica, de métrica, de assuntos, de sons e gêneros, evidenciando mais uma vez quanto nós somos plurais, por essa razão o trabalho não podia ser redondo, fechado em si, mas geral. Penso que ela não quis limitar, uma vez que todos possuem o amor, ele é geral. Além de que com maior variedade rítmica, o álbum fica menos monótono, são várias as extensões temáticas.
. Não custa avisar: ele é ideal para audição com fones de ouvido por causa dessa riqueza sonora e pelos sons que viajam pelos dois lados do estéreo do objeto para, assim, você poder apreciar, curtir e desvendar os mínimos detalhes de cada faixa a todo o momento.

Análise das letras (Conteúdo-Temas-Composição):

Entre 2008 a 2014 Fernanda Abreu passou por diversas situações em diferentes momentos, como a separação de um casamento de 27 anos com o artista plástico Luis Stein, a perda de sua mãe, após um coma de seis anos e o encontro de um novo namorado, o baterista Tuto Ferraz, além dos fatos sociais com o advento da intolerância no meio digital. Tudo isso está presente nesse disco, por esses motivos ele pode ser considerado o álbum mais intimista da sua carreira com canções muito pessoais para a artista, sem as crônicas características em terceira pessoa dos projetos anteriores.

No release publicado no site oficial, ela afirmou: “Amor Geral” é um álbum fortemente autobiográfico onde o tema é o amor. Centrado não em mim, mas no outro. O outro como ponto de partida e o amor como ponto de chegada. Afinal são as pessoas que nos fazem sentir vivos e amados (ou desamados). É um disco sobre a vida onde o amor, que parece um tema banal, se afirma como a força fundamental que não deixa esmorecer a nossa fome de viver. Produzido no eixo RJ-SP, urbano por natureza, o disco seguiu musicalmente esse sentimento do eu-coletivo. Convidei vários produtores (já que cada faixa pedia arranjos e sonoridades diferentes), músicos, compositores, técnicos e amigos para contribuírem na gestação do álbum.”

Sendo dessa vez um disco autobiográfico, nessa produção as letras se concentram em momentos, sensações, experiências e em 10 canções a Garota Sangue Bom imprime histórias vividas e reflexões com letras auto-reflexivas-pessoais de endereçamento ao seu passado e ao seu presente. Ela captou bem o espírito dessa época, do momento atual. Há também uma ênfase na complexidade das relações humanas, com o amor e a sexualidade sendo um foco temático particular para algumas das canções que expressam o sentimento um pouco amargo, tocando em “um amor que é a dor”. Em outro trecho do release, Abreu expõe: Temos vivido dias de intolerância, ódio e agressividade desnecessários. As discordâncias e divergências existem e, nesse cenário, termos a capacidade de ouvir é tão importante quanto falar! “Não é fácil aceitar alguém e ser aceito pelo outro também.” Em uma entrevista ela acrescenta: “O disco é um antídoto contra esse momento de intolerância”.

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Fernanda Abreu lança “Amor Geral” uma década após o último CD Foto: Gio Paganini/Divulgação/ Arte: Giovanni Bianco

Análise do projeto visual:

Toda a arte e a produção visual foram dirigidas por Giovanni Bianco e as fotos são do profissional Gui Paganini. A capa, como você viu no início do texto, tem Fernanda com uma imprensa na pele, especificamente na mão direita. Em uma entrevista ao Programa do Jô ela falou que “os seres humanos, seres históricos, imprimem nas pessoas a sua história e a história do mundo vem imprensa em você também.” Em contrapartida, eu pensei o seguinte: Dado que a obra reflete a época atual e como os discursos populares não são mais feitos oralmente em sua maioria, mas, sim, pelas mãos, são elas que digitam todas as palavras, portanto, toda a mensagem, antes oral, neste momento vem transmitida por elas, por esses membros humano. Quase toda expressividade dos brasileiros referentes a determinados assuntos está vindo das mãos e dos emojis, caiu um pouco a frequência de conversas por olhares e das expressões faciais físicas hoje em dia, talvez até por isso no clipe de Outro Sim ela está com as mãos completamente vermelhas, em razão de ser uma cor forte, chamativa e vibrante, além do vermelho ser a cor do amor, da vida e do sangue pulsando. Se você assistir ele novamente, perceberá que Fernanda dança com as mãos, os seus primeiros movimentos corporais são com as mãos. Inclusive, é a parte principal do corpo onde o sentido do tato é mais perceptível.

Análise do artista como intérprete das suas canções (Voz, notas, modo de cantar e tons):

No álbum contém vocais da artista abordando diferentes humores, como o ferido, o libidinoso, o sereno, sofrido, o natural, o animado e o etéreo. Vocalmente, para contribuir para os efeitos de sentido, há várias canções com algum efeito na voz dela, não está tão limpa, alguns desses efeitos, como uma determinada música pede, ela está até sensual. Interessante notar que os backing vocals em Tambor, Deliciosamente e Antídoto são masculinos, ficou como músicas da época/era Motown. Várias vezes você encontra vozes dobradas em overdub ou reverberadas, com delay (em looping) e, novamente, em alguns de seus trabalhos, ela fez uso de codificadores vocais, como, por exemplo, do vocoder e da talkbox.

Análise da instrumentalização especificamente:

Na resenha sobre “A Sociedade do Espetáculo” há meus comentários e minhas descrições, além dos comentários e das descrições do próprio artista, não é? Nesse texto, essa etapa será da mesma maneira.

PS1: Os comentários da Fernanda também estão no release publicado na internet, ele pode ser lido na íntegra por este link: http://www.fernandaabreu.com.br/amor-geral/#

Outro Sim
Primeira faixa do disco foi produzida por Wladimir Gasper, acrescida de samples adicionais por Jonas Chagas e tem como produtor vocal Felipe Abreu.
Em sua composição, ela inicia com uma voz masculina, dizendo diversos: ”Ô”. Essa voz sai em um lado de cada vez, em cada lado diferente do estéreo e em seguida surge um som de algo eletrônico em processo ao fundo, sendo carregado/ativado/iniciado e/ou ligado para já aos 04 segundos entrar a bateria comum e o sintetizador. Um entrando paralelo e após o outro para formar a pequena introdução, mas isso não quer dizer que todos eles não permaneçam na canção.
Toda a música é basicamente eletrônica, apesar de apresentar instrumentos orgânicos. Além dos instrumentos já citados, há baixo, programadores, teclados, chocalho, drum machine e também dois tipos de vozes do Pedro Bernardes no vocoder em estrofes específicas para complementar o vocal principal da Fernanda, a dupla Daft Punk usa muito desse codificador vocal.
Durante a 3º e a 4º estrofe parece haver palmas abafadas. Tento decupar as bases e cada som, seja ele agudo ou grave, para descrever cada parte, mas é difícil. São muitos elementos de efeitos que entram e saem criados por Sérgio Santos (figura central do disco pela participação em seis das 10 faixas, e outros músicos e produtores) que se combinam e se mesclam. Isso criou uma variação muito grande, geralmente a cada duas ou três estrofes o ritmo varia em decidas e subidas.
Praticamente, pode-se dizer que é dividida em duas partes iguais, canta-se direto as seis estrofes pela primeira vez e depois ela repete as seis estrofes novamente. A letra não tem a estrutura comum-básica-habitual: estrofe 1, est. 2, pré-refrão (em algumas), refrão, est. 3, est. 4, refrão, ponte musical e refrão/final. Sua forma é: estrofe 1-2-3-4 e refrão 1-2 (2x/bis). Como para o refrão a faixa troca de ritmo, podem, sim, serem consideradas refrão mesmo que não pareça. O ouvinte decide. Porém, antes dele começar, há um efeito sonoro, “tin-tin”, de uma caixa registradora, depois da bateria. Eu fiquei pensando no motivo dela ter usado isso: Pensei algo como uma crítica, algo sobre o capital, em um ser que só pensa no dinheiro e não importa se está lidando com outro ser humano. A maioria dos conflitos são por causa do dinheiro, se você sempre for buscar a raiz do problema… Ah, meu caro… (sem trocadilhos)
Liricamente, Fernanda prova a pluralidade mundial, não só humana, mas de todas as espécies de seres vivos, de objetos, de países, de espaços, de estações, de possibilidades, de coisas e afins e enfins… Existe uma infinidade de “outros” no mundo, até o sim dela é outro:
A outro tanto a ti quanto a mim
Um outro bem, um outro amor, outro sim
Não é fácil aceitar alguém
E ser aceito pelo outro também

https://www.instagram.com/p/BEWP5K3IEGE/

Adendo: No videoclipe, se você assisti-lo de novo, aparecem diversas formas geométricas contrastando com a cantora e com os dançarinos (humanos), me parece também uma figura de linguagem, olha só: como a indústria e todas as religiões querem que você se encaixe em padrões, o videoclipe faz uma crítica, mostrando que podemos fazer diversos movimentos, há muitas possibilidades disponíveis a nós e que, você se moldar estaticamente a algo, não funciona. Nunca funcionou. Somos plurais e diversificados! Claro que tudo isso não deve ser deturpado, tudo tem que estar de acordo com os Direitos Humanos, com a ética e moralidade de cada país.

Continuando: É como se ela, também, dissesse: “Estou de volta outra vez (outrora), com mais outros discursos, com outras atitudes, com outros gestos, com outras histórias, com outras experiências, o que culminou em outra música e em outro videoclipe”. Até nessa resenha, aparece um outro instrumento, aparece outra palavra em algum outro verso das outras canções. Sempre e em qualquer lugar haverá um outro ou uma outra.

Durante as estrofes do refrão ela faz um jogo com palavras que estão intimamente interligadas e, ainda por cima, rimam:
Outra favela, novela
Outro barraco, buraco
Outra cachaça, manguaça em outro bar
(…)
Outra cabeça, sentença (Sempre que vejo esse verso me vem a música “Admirável Gado Novo” do Zé Ramalho, vem as chacinas sob os povos negros, os feminicídios e se você for um ser pensante para algumas culturas, principalmente do sexo biológico feminino, você possui uma sentença e, com isso, me vem à mente a garota Malala Yousafzai junto de toda sua história.)

(…)
Outro sentido ou saída
Outra maneira ou medida
De dar a volta por cima, querendo dá

“Querendo dar a volta por cima” pode ser mais uma pessoa querendo passar por cima dos outros ou um indivíduo que nasceu num lugar não muito propício para um bom desenvolvimento ou uma vida digna, com emprego estabilizado, por esse motivo quer dar a volta por cima de um estigma muito presente em países subdesenvolvidos ou qualquer sujeito que passa ou passou por uma crise, assim, precisa “dar a volta”.

Pra não dizer que nada se repete na música, apenas durante a finalização, justamente essa  frase, “querendo dar”, é repetida por cinco vezes até ficar somente os sons vocálicos /aaaaaa/ repetidos em números iguais da frase anterior.

Tambor (feat. Afrika Bambaataa)
Segunda faixa do disco foi produzida por Sérgio Santos e composta por um trio: Fernanda Abreu, Jovi Joviniano e Gabriel Moura.
Esses dias atrás eu vi um documentário em algum canal educativo do governo brasileiro apresentando o instrumento “Tambor” para diferentes culturas, o que ele é e o que seu som representa, em quais momentos se usa e os motivos do uso. Infelizmente não me recordo do nome e nem do canal. Só me lembro de que depois de assisti-lo e ouvir o início dessa música com a palavra “tambor” repetida por três vezes, cheguei a essa conclusão: o rapper e Abreu podem não só estar dizendo somente o nome da música, mas chamando tudo o que envolve esse instrumento tão importante para diversas manifestações culturais. Inclusive, em toda a letra Fernanda o exalta, expondo em quais lugares ele está presente. No release há o seguinte: “A faixa é uma homenagem ao Tambor, expressão primeira da cultura negra e da comunicação entre os homens.
Tá no enredo, tá no samba do terreiro
Na marujada, na avenida, na congada
(…)
Unicamente no refrão releva exatamente quem é, ou melhor, o que é:
E quando toca o tambor
É festa, eu canto, eu danço

(…)

Sonoricamente, a música se inicia com o som de um berimbau e logo surge a batida dos tambores com a percussão tribal também transitando pelo fone de ouvido em conjunto com a bateria eletrônica. Após essa introdução, o convidado manda seu nome e de Fernanda enquanto o instrumento descrito em toda a letra é anunciado.
Quando a canção toma forma, na primeira e na segunda estrofe ela se constitui de uma voz realizando um beatbox (fazendo a batida em ritmo de funk, assim, ele substituiu alguma percussão) dois violões conduzindo no canal direto, baixo e um agogô. Quando chega ao refrão, inclui um batidão no centro que o deixa em estilo total do funk carioca.
Antes de entrar na segunda parte, um cantor volta a chamar pelo outro com um som orgânico de fundo e com o berimbau em destaque. Diferentemente da primeira parte, a segunda tem um loop que entra e sai. É música pra tocar em qualquer balada.

Contêm três pontes musicais, com essa atitude, há uma transição de vários ritmos na música e só resta a você curtir e se movimentar junto, não dá pra ficar parado. (Risos) Uma delas é para o participante, outra para ela e a última quase não possui vocal algum, isto é, mais instrumental. A primeira começa aos 02min26seg em estilo funk nova-iorquino com um break e com uma levada kuduro para abrir espaço para o rap que Fernanda faz logo em seguida. Como é característico nesse gênero musical, o rapper ordena pelos seguintes versos traduzidos:
Há baile funk nessa casa
Você tem que mexer
Você tem que tremer
Você tem que quebrar

Ainda bem que eles estão em inglês na versão original, porque, mesmo que o cantor esteja muito animado e fez a diferença na música, esses versos quebraram um pouco toda a mensagem que ela queria passar nas duas partes anteriores. Segunda ponte, como disse, é o rap. Muito pop. Quando ela acaba tudo se transforma em um samba-pop, por causa do violão, mas ele se constitui de palmas, os tambores e da bateria eletrônica como se tivesse formado um circulo e alguém está dentro dele, dançando.

 PS2: A canção “Tambor” — um passeio pela história e pelas ancestralidades do funk carioca, com participação de Afrika Bambaataa — conversa com o disco “Da lata” (1995), possui até um rap feito pela Abreu, como em várias canções antigas.

 PS3: Parece que as faixas são enormes com essas duas descrições anteriores, mas não são. É que há muito mesmo a ser dito por elas, vários instrumentos e conteúdos nas letras, é tudo muito expansivo.

Deliciosamente
Terceira faixa do disco foi produzida por Liminha e composta por um trio: Fernanda Abreu, Alexandre Vaz e Jorge Ailton.
Ela já abre com um toque como um raio de um sintetizador/programador pra anunciar que chegou a fase com levada disco groove do álbum, feita muito pelo Jota Quest aqui no Brasil. A canção possui guitarra, baixo, teclados, pandeiro e bateria, incorporados às batidas funky hook e também, como já foi dito, às batidas grooves disco. É bem puxada para o charm e romântica dançante, há, também, na base um piano Fender Rhodes flutuando pelos dois canais, marcação de palmas eletrônicas no meio do refrão, graves, frases de synth e efeitos. Nada fora do lugar, tudo bem encaixado e colocado no momento exato. Até agora só foram acertos. Ah! Já ia me esquecendo: tem harpa chinesa na ponte musical, aos 02min37seg.
Em sua letra apaixonada, os compositores sem delimitar questões genéricas, só querem deixar o amor acontecer independente de classe social, sexo, idade, cor ou religião. Se é amor, tudo é válido, só querem sentir e deixar rolar, acontecer:
Deliciosamente
Boca, pele, mão
Tudo o que se quer dizer
Falar ao coração
(…)
Tudo o que te der prazer
Sem classificação
No início de cada estrofe, há advérbios indicando a forma, a maneira, como eles querem que tudo isso aconteça: perigosamente, demoradamente, religiosamente e deliciosamente. Ao final da estrofe 2, há os versos “Universo paralelo / Outra dimensão”. Devido a sua sonoridade e efeitos ela te transporta mesmo a outro lugar, pode ser à uma discoteca.

Saber Chegar
Quarta faixa do disco foi produzida por Liminha e composta por Fernanda Abreu, Donatinho, Tibless e Play.
É uma faixa lenta (slowed-down version) e dançante como a anterior, ela contém um piano viajante no começo, carrilhão abrindo espaço para voz da cantora, Fender Rhodes, sintetizadores/programadores, mellotron, estalos de dedos (eles remetem a algo burlesco), baixo, um tambor bem levinho, drum machine, bateria comum, chocalho, frases de synths em momentos específicos, guitarra base e efeitos. Ela apresenta uma camada sobreposta ao vocal principal, isso quer dizer, a voz de Fernanda está com dobras e tem algo carnal, leve-sensual, no vocal dessa música. Logo no inicio quem se apresenta é o vocal de Donatinho numa talkbox passeando pelo estéreo e ela se encerra da mesma forma que começou.
Liricamente, a letra fala, além da imprevisibilidade e da falta de controle quando o assunto é amor, a nós, homens, sobre os momentos de flertes. Ela é um recado, em uma vibe positiva, direcionado para aqueles que querem obrigar alguém a ficar com ele mesmo não sendo recíproco, mostrando que tudo pode valer a pena. É só saber chegar!

Antídoto
Quinta faixa do disco foi produzida pelo Rodrigo Campello e composta somente pela Fernanda Abreu.
É uma faixa experimental neo-pop-soul suavemente produzida com elementos de acústica. Em sua composição instrumental se constitui de harmônio, Rhodes, violão, sintetizadores, bateria comum e bateria eletrônica (drum machine). No seu início, parece que ela está despertando e olhando todo o espaço ao seu redor para depois começar a cantar. Enquanto o prato da bateria é batido bem leve ao fundo a partir da 2º estrofe, marcando o compasso, parece que são pequenos passos que ela dá, caminhando por um campo ou por um caminho, como diz na letra, até chegar ao céu. As disposições de cada instrumento, principalmente da harpa e do harmônio, cria uma ambientação muito vantajosa, favorável e conveniente ao que a letra se propõe.
A música envolve a voz de Abreu cantando melancolicamente através de uma névoa de efeitos, com a sua voz encharcada de reverb, apoiado e bem ambientado sonoramente por um piano, percussão leve, frases de synth no canal esquerdo, mellotron, loops e efeitos. Crua, real e agradavelmente fresca. Na segunda parte, surgem alguns backing vocals com vozes masculinas passeando pelos dois lados e isso a deixou com uma cara de músicas da era Motown e ainda angelical.
A letra de Antídoto é suave e discreta, busca a transcendência da dor pela beleza sentida no coração. Ela contou como foi processo de composição: “Numa das madrugadas tristes que passei pensando na condição terrível em que minha mãe se encontrava (num coma há anos), peguei o violão, deitada na cama, e comecei a tocar uns acordes que já vieram acompanhados de melodia e letra juntos. Nunca tinha me acontecido isso antes.”
A harpa chinesa ou cítara tocada por Rodrigo Campello traduz essa busca com toque etéreo que faz a canção subir ao céu na escalada imaginada nos poéticos versos do tema. Tem um refrão bem construído e produzido com destreza. A partir dessa letra tão atual, eu quero ver quem não se identifica:
Quero a poesia como companhia
Artifícios não
(…)
Quero um antídoto que cure a tristeza
Tarja preta não

O Que Ficou?
Sexta faixa do disco foi produzida pela T.R.U.E e composta por Fernanda Abreu, Thiago Silva e Qinho.
Estruturalmente, começa somente com o piano Fender Rhodes e logo se apresenta um breve teclado enquanto se ouve uma respiração cansada até os 24seg. Ela consta em sua instrumentalização de, principalmente, bateria eletrônica (drum machine), baixo, sintetizador e efeitos. A música tem um ritmo centrado no piano de Gui Marques. Muito calma, sensível e modesta.
Vocalmente, Abreu usa de tons suaves e discretos, possui um ar leve e delays na voz, por esse motivo produz efeitos de ecos. Uma vez que a letra é em primeira pessoa, ela indica um fluxo de consciência pela falta de refrão e possui somente um conjunto de versos de um modo semelhante ao hip-hop. Fernanda canta os versos de forma contínua, quase sem pausa, como um trem de pensamento, antes de terminar abruptamente.
A letra envolve as inconstâncias da vida. Uma espécie de acerto de contas com um amor que se foi e, ao final, expressa algumas dúvidas, além de revelar coisas e fatos que esse amor fez, ocasionou e provocou no eu lírico. Ela disse o seguinte: “Escrevi a letra pro Luiz Stein, que foi meu marido por 27 anos e é pai das minhas duas filhas.”
Em O que ficou? parece que ela está se vendo em frente ao espelho, olhando não só sua aparência, mas olhando para dentro de si, dentro da sua mente.

Double Love Amor em Dose Dupla
Sétima faixa do disco foi produzida por Sérgio Santos e composta pelos parceiros de longa data, Fausto Fawcett e Laufer.
Com duas músicas anteriores em slowed-down version, ela coloca na tracklist uma que já anima novamente. A canção possui baixo, bateria, beats de funk, teclados, sintetizadores, efeitos e guitarra no refrão. Em outras palavras: Fernanda com voz sedutora vai do rap das estrofes ao canto do refrão com a voz multiplicada e viajante pelos dois lados. Uma guitarra solta frases no canal esquerdo e, tem vocal em destaque, trocando de canais, seduzindo em um momento com:
je t’aime, moi nons plus.
Déjà vu. Moi nons plus.
Deixa vir. Vem meu amor.
Sentir o calor. Double Love.

Ela é pop-rock, rap e hip-hop junto ao funk, basicamente. Que mistura boa é essa? Nas palavras de Fernanda: “Tem uma malícia dançante e pulsante.” Já começa direto pulsante com as batidas da bateria em grande destaque, com o sintetizador e o baixo. Enquanto ela conversa com alguém citado somente como “Você”, a instrumentalização fica calma, simples e com volume baixo, mas quando chega ao refrão… Já volta o batidão com uma guitarra nervosa e o vocal. Possui a ponte musical formada por uma quebrada beatbox aliada ao sintetizador muito popular no passinho, no funk, depois dos versos em francês.

Por Quem?
Oitava faixa do disco foi produzida pelo Tuto Ferraz e composta por Fernanda Abreu e Qinho.
A canção é a única do CD que já tem uma entrada com bateria limpa e com diversos efeitos sonoros de aplicativos digitais para ajudar na criação de sentido e no entendimento da música, inclusive, ela abre com o ringtone do Skype. (será que ela pagou à empresa para usá-lo?) Alguns desses sons são de teclas – meio redundante – sendo tocadas, programas sendo abertos, arquivos sendo arrastados e outros até de redes sociais. Tem uma levada disco-funky, proporcionada pela bateria, por discretas guitarras funk na levada, baixo, Fender Rhodes, chocalho (ganzá ou caxixi) e por várias frases diferentes de teclado de acordo com cada estrofe. Vocalmente, Qinho faz, de novo, o uso do vocoder brincando pelos dois canais, em alguns momentos até acompanha Fernanda na voz. Todavia, na segunda repetição do refrão, ela própria faz uso da talkbox, falando sempre “hardware” (ferragens) e “software” (programas) após alguns versos. A estrofe pós-refrão vem antes da ponte musical (bridge) e se diverge do todo, porque ela é bem mais orgânica, ela abre mais espaço para tambores, bateria e guitarras mais limpas, apesar de conter os efeitos do synth, no estilo de rodas de manifestações culturais ou religiosas. Muitas vezes, elas são feitas para iniciar ou encerrar algum processo, para fazer pedidos ou para rituais de oferenda e sacrifício, o que condiz com a letra – falarei mais adiante dela. Em seguida, para anunciar a ponte musical, colocaram o som de aviso de mensagem do WhatsApp aos 02min30seg e ainda possui um vocal com a talkbox sozinho acompanhado de sons de registros fotográficos e por um novo som agudo, feito por uma espécie de xilofone, do chocalho, da bateria e do baixo.
A letra romântica de Por Quem? faz referência ao mundo digital, o que condiz com a voz robótica inspirada na dupla Daft Funk e ao uso dos ringtones das redes sociais. Do mesmo modo que em O Que Ficou?, aqui ela também expressa algumas dúvidas. Em outra parte do release, revelou: “Mais uma letra tentando driblar a dureza de uma separação. Digerir, administrar e computar esse momento, com amor e leveza, é sempre um desafio.”
Para encerrar, o último som que se ouve é o de uma lixeira de algum computador sendo limpa. Talvez, para indicar que ela conseguiu processar a separação, conseguiu deletar esse momento de dureza.

Se ela não fosse autobiográfica, daria pra afirmar: ela foi feita pensando nos casais que surgem via mundo virtual, pelos encontros via aplicativos, como o Tinder, e, assim, desenvolvendo novas formas de se relacionar e de se envolver em um relacionamento amoroso.

 PS4: A elegância funky de Por quem? é filha de SLA radical dance disco club (1990).

Valsa do Desejo
Nona faixa do disco foi produzida pelo Tuto Ferraz e composta pela Fernanda Abreu e por Tuto Ferraz.
A música é uma piano-balada-retrô-intimista-orquestrada, porque é composta por um arranjo de cordas e também se complementa com alguns elementos eletrônicos, ou melhor, de bateria eletrônica. Esta é a faixa do casal. Combina o orgânico do quarteto de cordas e piano com discretas programações. Muito bem arranjada. Na segunda parte, têm momentos de um cello no canal esquerdo, as cordas envolvem a voz dela, que contêm efeitos em momentos determinados, numa cama romântica e sensível.  Veja os  elementos se coincidindo: a canção tem um compasso 4 por 4 (4X4), assim, ela é completa, como a forma geométrica quadrada, ou seja, quando ela encontrou o Tuto, os dois se completaram. Aliás e, por sinal, em uma valsa, os movimentos, para fazer uma volta completa, para formar o quadrado, dá um tempo de oito, assim: um-e-dois, três-e-quatro, cinco-e-seis e sete-e-oito. Oito, que é o símbolo do infinito, deixando subentendido: um amor eterno.  Será que ela pensou em tudo isso mesmo? No release: “Inspirada no meu momento amoroso e apaixonada, eu escrevi essa letra e comecei a criar a melodia acappella dançando uma valsa em casa. Fui pra SP e pedi ajuda pro Tuto, que sentou ao piano e criou essa harmonia linda e densa que, somada ao arranjo de cordas, criou a atmosfera que eu queria.
Liricamente, são somente pedidos dela a ele:
Me olha, imagina
Pra eu me sentir despida
(…)
Me beija de língua
Pra eu me sentir perdida

Amor Geral
Décima e última faixa do disco foi produzida por Sérgio Santos e composta pela Fernanda Abreu, Fausto Fawcett e Pedro Bernardes.
Ela disse: “Vinheta final, espécie de epílogo. Sintetiza a onda musical do disco misturando eletrônica com timbres e sons orgânicos. Como não podia deixar de ser, o samba aparece aqui, nas entrelinhas como parte do meu DNA. Samba urbano.”
Abreu usa, como música de fundo para o seu discurso e/ou desabafo, um sintetizador, drum machine e voz com efeito em eco. Ela recita a letra com efeitos de delay (parecem diversas Fernandas, juntas, ao seu redor) e um violão em estilo latino grave com teor mais sexual. Quando ela pede para ouvir o coração do mundo batendo, entra zabumba e tamborim, formando o seu samba urbano. Muito interessante ela ter encerrado com Amor Geral. Há variações de tons, às vezes a música está leve outras vezes pesada, há o sentir e o delicado em diferentes instrumentos.
Fernanda encerra com um discurso que resume tudo o que ouvimos nas faixas anteriores de forma clara, objetiva e sem figuras de linguagem. Ela soube deixar o seu recado, mesmo tratando de um tema tão amplo, com possibilidades de, a partir dele, discutir e debater tantos assuntos.

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Resumão (Avaliação Geral):

Em síntese, ela teve uma visão concisa de como seu trabalho deveria soar, de como ele deveria ser e o que ele deveria passar, foi o que deu uma unidade conceitual ao álbum. Sendo produtora executiva e diretora musical tudo saiu como ela esperava, como o público esperava e não deu outra, é um som dos melhores. Durante alguns relatos do release divulgado no seu site para a imprensa, ela descreve: É algo que me preocupei no disco: a frequência. Se você ouvir de fone, vai perceber que tem desde subgrave até agudo, passando por todas as frequências. Os arranjos têm que ter isso para ficar bacana. Se a música tem isso, você consegue levar a pessoa para uma viagem mais interessante.

Depois desse tempo em que Abreu ficou afastada, sem um trabalho de inéditas, muitas coisas aconteceram com o mundo e ela, claro, como o ser humano inserido nesse contexto, participou, acompanhou e vivenciou diversos momentos diferentes, inclusive em sua vida pessoal, como foi explanado durante toda a resenha. Mesmo assim, ela não se perdeu, ela soube delinear, delimitar, criar e seguir o caminho que ela construiu para a sua produção, tudo está dentro dos trilhos. Fernanda mesma disse em uma entrevista que tinha muito, agora, a dizer a essa nova geração que ainda não a conhecia. Ela é uma mulher consciente, que reconhece e sabe onde está inserida, está ligada com o que acontece ao seu redor e até se sentiu, olha só, na obrigação de transmitir uma mensagem, essa que traz o maior sentimento em todo o conceito da obra, o amor.
Diferentemente de Mahmundi, ela não contou o amor em um único ser, devido a isso sua obra não ficou redonda, fechada, completa em si mesma refletido em toda instrumentalização/produção, tudo não seguiu a linearidade concernente ao conceito proposto por ela e sem as faixas destoarem umas das outras. Por isso, até penso que seu som veio modificado, comparado as obras antigas, para atender os gêneros que estão em alta atualmente e, por meio deles, ela não causaria um estranhamento. À primeira impressão, eles já se identificariam com o som, com esse meio, com essa liga e um pequeno vínculo já se cria entre os ouvintes e ela. As belezas escancaradas das faixas têm o potencial de abrir os corações do povo para as possibilidades estéticas mais amplas de culturas fora de sua experiência habitual, do que só se ouve nas rádios e nos aparelhos televisivos (nos canais de televisão). Dessa maneira, ela pôde falar tranquilamente o que desejava. Sem chegar com o pé na porta, sem chegar metendo o dedo na cara de alguém, sem chegar criticando alguém, ou seja, criando conflitos desnecessários. Simplesmente, usou da sua arte, de artifícios líricos, para se expressar e como, consequentemente, somos seres racionais, a partir das nossas expressões nessas atuais arenas ideológicas o ouvinte escuta e logo começa a se relacionar, a dialogar, a refletir e também, claro, como não seria de se estranhar, a se posicionar, contrário ou favoravelmente.

Aqui, quanto somente à instrumentalização, ela segue uma ordem rítmica de três partes, criando uma estrutura, um desenho. Ele começa decaindo e depois volta a subir. Em outras palavras: De acordo com a audição de cada canção e como elas foram colocadas na lista de faixas, elas formam uma linha imaginária, como num gráfico, de tal forma que ela é delineada descendo até a metade do disco com a música O Que Ficou? e depois, com a seguinte, essa linha volta a subir. Esse percurso é todo influenciado pelos ritmos de cada uma. O trabalho começa animado, depois fica mais romântico e da segunda metade em diante volta para as batidas, para o ritmo mais acelerado, para as chamadas up-tempos. Metaforicamente, todo o processo de crise no mundo, tem um início que desencadeia determinadas “coisas”, faz os sistemas e a humanidade, ligadas a eles, irem decaindo também, até que com estratégias, relações humanas, mudanças, períodos de turbulência, incluindo até mesmo tragédias, tudo contribui para começar a entrar nos eixos outra vez e, assim, voltar a se reerguer e fazer o desenho do disco subir sua linha, novamente. Na história da humanidade, isso já aconteceu incontáveis vezes, nem que seja com um sujeito social, uma empresa ou até mesmo com uma nação ou organização inteira. Dessa forma, restará só o aprendizado (no caso, a última faixa do CD) e devido a tudo, eu repito: ele pode não ser redondo, fechado em si mesmo ou completo, a humanidade não pára, ela está sempre em contínuos/constantes períodos de transições, sejam elas internas ou externas, leves ou intensas, extremas ou ínfimas. Só nos resta saber viver e aprender a lidar com tudo isso.

CD: Mahmundi, Mahmundi

Lead title: Já adianto: o disco conta uma história, me acompanhe para saber se ela terá um final feliz.

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Introdução/Contextualização:

Mahmundi é o codinome artístico adotado por Marcela Vale (vocal, bateria, sintetizadores, percussão), cantora, musicista e compositora de 29 anos da nova safra de artistas brasileiros. Desde 2010 ela já buscava uma carreira solo, mas só em 2012 lançou o seu primeiro EP de forma independente, o Efeito das Cores. Depois de integrar uma banda, a Velho Irlandês, de trabalhar como técnica de som no espaço cultural Circo Voador e lançar independentemente dois EPs, Mahmundi com todo esse acúmulo de experiências e amadurecimento junto com seus parceiros Lucas de Paiva (teclados, pianos, Rhodes, programações e samplers) e Felipe Vellozo (baixo e efeitos) se sentiu pronta pra lançar seu primeiro LP (long play) de estreia, o homônimo Mahmundi lançado no dia 06 de maio de 2016.

Das dez composições entregues pela cantora, apenas cinco foram produzidas especialmente para o registro. Quase sempre, Calor do Amor e Desaguar, resgatadas de Efeito das Cores; e Leve foi inicialmente apresentada no EP Setembro, todas elas receberam uma nova roupagem, um upgrade, sendo retrabalhadas.

Atualmente, o álbum está disponível apenas em formato digital para todas as plataformas principais do ramo e muito em breve ele chegará a seu formato físico pela Skol Music/Stereomono. Produzido pela própria Mahmundi sob a direção artística de Carlos Eduardo Miranda, com supervisão de Alexandre Kassin.

Análise da obra no geral:

É muito difícil classificar algo definitivamente (formar uma opinião definitiva) e generalizar, porque muitos estilos se fundem, se interligam e se mesclam. Nesse, por exemplo, você encontra upbeats, synthpop, trip hop, trance, new wave, indie e R&B com uma melodiosidade característica de sons industriais e menos orgânicos, embora vários apareçam apenas brevemente para dar algum efeito numa passagem específica. De maneira geral, o álbum está repleto de faixas de fácil assimilação, de digestão e assim acessíveis aos mais variados públicos e contato no que tange ao aspecto auditivo. Nem por isso perdem seu sentido, suas atrações. Todos esses gêneros e estilos mesclados produziram uma sonoridade oitentista no álbum, vários especialistas classificam isso desde 2012 como a retromania. Mesmo assim o álbum escapa da sina de soar datado, mesmo que o arranjo da maioria das dez composições autorais reprocesse o som sintetizado dos anos 80. Corroborando ao conteúdo das letras, na instrumentalização há a consonância nos momentos alegres e tranquilos. Por outro lado, nos momentos tristes há a dissonância para deixar o som mais instável. Até o próprio estilo musical trance é classificado em geral, com a maioria das canções calmas e de efeito lento em constante na energia-alma e no estado de pensamento. A tradução literal do termo trance para português é transe.

Ela amadureceu muito dos dois EPs para Mahmundi, esse novo álbum. A música dela no novo disco encontra-se um pouco mais ousada, com ideias mais interessantes. A cantora trabalha com boas bases eletrônicas e ritmos empolgantes em canções como Eterno Verão, Desaguar e Calor do Amor. Isso, porque quando o ouvi pela primeira vez foi sem pretensão alguma, sem saber qual a sua sonoridade específica e tive uma audição de um som que exala o frescor e alegria nos arranjos cheios de ousadia e boas referências nas canções. Na parte da tracklist, Mahmundi traz alguns bons complôs eletrônicos, casados com sacadas rítmicas bem inteligentes, por isso a presença das várias faixas empolgantes e profundas que chamam muita atenção ao envolver o ouvinte do início ao fim. A produtora é uma das que pegaram o bonde da retromania e fez de seu som uma experiência atual, coerente e bastante autêntica.

Sem saber em qual das etapas eu devo colocar essa análise a deixo aqui, mas você entenderá os motivos dessa conclusão posteriormente, digamos que por enquanto ela ficará subentendida: Em razão de a obra musical sempre ter, necessariamente, a sua representação direta também no trabalho visual, por exemplo, na capa, no encarte e na contracapa, muito do disco já está nele de forma simplista e minimalista. Como ele foi feito no Brasil e a artista é carioca o clima é total praiano, quando você o visse na prateleira da loja a capa já te revelaria isso devido ao fundo solar, em tom laranja, isto é, em tom veranesco do disco. Contudo, a sombra em perfil da cantora representa “silenciosamente” o lado sóbrio de algumas composições.

Análise das letras (Conteúdo-Temas-Composição):

Nesta produção, como eu já revelei, você irá acompanhar uma história, com início (introdução), meio (desenvolvimento) e fim (conclusão), uma trama em primeira pessoa relatando uma trajetória romântica do lado feminino de um casal. Desse modo, o seu mais profundo eu, o seu interior, seu subconsciente está sempre presente. O ouvinte passará, também, a conhecer quase todo esse percurso e pensamentos, de forma muito clara e íntima quando ela nos quer revelar, quando se sente à vontade para nos revelar. Por ter um tema tão subjetivo, as letras são intensas, minuciosas e reveladoras, explorando diferentes paisagens sonoras e assuntos; revelando inúmeros focos temáticos, como desejo, amor, aventuras, vontades, pegação, desilusão, lamúrias, a penumbra e o poente. Regendo o álbum, tudo se projeta como uma colcha de retalhos sentimentais e declarações românticas em tom confessional. Várias letras possuem as palavras Mar, Verão, Vento, Noite, Dia e Amanheceu, usadas para nos situar. Uma vez que acompanharemos todo o seu percurso, passaremos pelo momento em que Mahmundi se apaixona, do momento de conseguir estar ao lado da sua paixão e até dos pontos altos e baixos desse romance.

Análise do artista como intérprete das suas canções (Voz, notas, modo de cantar e tons):

Mahmundi não possui uma extensão vocal tão elevada e nem por isso usou de artifícios tecnológicos, como o Auto-Tune, para alcançar notas que não executaria facilmente, como já ouvi cantores usando e com isso deixando o seu trabalho muito artificial. Os produtores souberam colocar bem os tons e as notas dos instrumentos de acordo com sua voz, ela foi honesta consigo mesma e é sinal de que sabe da fonte que está bebendo, certamente as músicas se adaptaram à realidade extensiva da cantora.

Dado que todo o conhecimento com relação à história é em primeira pessoa e, portanto, entramos no subconsciente de Marcela, há a presença da técnica overdub na maior parte do álbum, produzindo camadas (ao menos duas, contando com lead vocals) sobrepostas de sua voz, proporcionando suporte e texturas. Argumento repetido: Além disso, há efeitos sonoros encontrados em diversas canções, que, por meio de eco ou de vozes distorcidas, encontramos um efeito auditivo de como se estivéssemos mesmo em alguma mente ou no cérebro de alguém, revelando e descobrindo o seu eu mais profundo.

Análise do projeto profundamente:

A música que abre o álbum é intitulada Hit, ela de prontidão nos fornece a marcação temporal principal da obra logo no primeiro verso: “final de verão”. Mesmo com o ditado “amor de verão não sobe a serra”, ela se apegou a alguém e passa a canção inteira descrevendo isso em tom de diálogo:

Fiz um hit pra entoar você
As horas parecem não ter fim
Na cidade…

Partindo pra segunda chamada Azul, que aliás me inquietou o fato de que em nenhum momento essa palavra aparece na letra, somente no título. E não é que faz sentido ser intitulada assim? Vamos entender o porquê: “A cor azul significa tranquilidade, serenidade e harmonia, mas também está associada à frieza, monotonia e depressão. Simboliza a água, o céu e o infinito. Um ambiente azul favorece o exercício intelectual e tranquiliza.” Corroborando esse significado com o do gênero trance da música e ainda com a letra se confirma que deveria mesmo se chamar assim.

Até agora as duas primeiras músicas têm marcação temporal: Essa noite acontecer. Na letra dessa faixa a cantora entrega seu desejo de tê-lo de volta depois do verão. Ela tem certeza que vai conseguir depois dessa noite relatada:

Quando tudo terminar
Essa noite acontecer
Na verdade, é pra dizer
Que meu coração te chama

Imaginando que a quem ela se apegou está na sua frente ouvindo toda declaração demora, exatamente, 10 segundos para entrar no refrão e é esse o tempo da decisão. Com essa atitude, o tom vocal sobe, o modo de cantar fica mais agressivo e quase grita pra ele implorando:

Te espero, te espero, te espero
Não váááá
É tudo sobre um dia aqui

Em seguida, para marcar o tempo passando ao fundo o sintetizador é tocado como se estivesse falhando, ele inicia aos 00:54 segundos.

Na ponte musical (bridge) aos 03:40 depois dessa toda revelação de amor ela está esperando a resposta dele e somente alguns instrumentos permanecem tocando, porque cada um representa algo: a bateria o coração ou o ponteiro do relógio passando pelos segundos, o synth e o baixo representa os pensamentos, o subconsciente.

Em Eterno Verão só para nos enganar ela inicia com sons graves do piano, em notas terça menor e acordes menores, mais escuros e também com o baixo causando a sensação de tensão e angústia. Como não tivemos a resposta do rapaz na música anterior, eu, pelo menos, fiquei curioso em saber como seria a próxima canção, pelo título “Eterno Verão”, pensei o seguinte: “Quer ver que o cara a marcou tanto e, assim, ela não conseguiu se desprender daquele verão? Por isso ele se tornou eterno.” E por causa das disposições dos dois instrumentos, logo concluí: “Vai ser outra revelando desejo e sofrimento.” Na verdade, foi só uma estratégia para nos enganar. Logo depois, já se anima, muda o ritmo e a sua levada. Porque, adivinhe só? Ela conseguiu! Não foi só naquela noite em Azul. Os dois estão juntos, mas precisa esperar até o refrão para tudo se confirmar, especificamente no último verso dele:

E é tão fácil
É tão mágico
Se perder numa canção
Com você


O eterno verão que ela se refere em vários momentos é a lembrança e a sensação causada pelo relacionamento do casal no eu lírico, por isso, também, a levada mais animada. Esse solo de guitarra colocado na música aos 01:59 minutos  foi de uma maneira muito inteligente.

Dando continuidade, Desaguar é a quarta faixa e se comparar com as músicas anteriores tem um uso maior de instrumentos e uma melodia que caminha junto com a voz, ótima. Tem um refrão muito legal, pra ser cantado em qualquer lugar, passa uma vibe positiva. Posto que tinha o desejo de encontrar um lugar pra descansar na canção anterior, nessa ela encontra.

Em Meu Amor você encontra influência de algo meio soul, groove, R&B, um funk norte-americano. Algo por aí. Tem uma base repetitiva e um ritmo pouco empolgante. Ela inicia num ritmo mais lento, talvez pra alusão do despertar, do acordar sempre mais preguiçoso. Essa é a continuação de Desaguar, depois da noite que passaram juntos. A letra mantém sempre o vocativo do título. Passado um tempo juntos, dessa noite juntos (de relação), depois do que aconteceu em Desaguar, amanheceu, a hora está passando e ela precisa ir embora:

Meu amor, eu me vou
Preciso refazer o meu lar.

Até agora, em nenhuma vez vimos o lado dele, somente o dela. Na letra inteira é ela explicando seus motivos por ir embora, mas não são muitos, porque a sua estrutura é composta por uma estrofe de 11 versos. Olha só o significado do número 11: “É um número espiritual e de intuição. O 11 é o idealismo, o perfeccionismo e a colaboração. É um número de forte magnetismo e caracteriza as pessoas idealistas, inspiradoras, de sensibilidade extrema”. Tudo a ver com a letra e com Marcela Vale. Mais um aspecto externo corroborando ao todo da obra.

Novamente, no final afirma ser eterno:

Nesse inverso dessa noite sem fim
É eterno, é eterno

Na segunda parte, quando o ritmo fica mais rápido, ela pode já estar se arrumando pra sair, enquanto conversa com ele.

Em Calor do Amor ela está tão feliz por esse romance estar presente em sua vida que toda instrumentalização, produção, melodia, ritmo e letra foram feitos também pra transmitir o que está sentindo e essa música, sim, te contagia. Aos poucos você já se pega balançando o pé. Esse é o calor do amor! Se você perceber, mais uma com marcação temporal, só que nessa é um dia completo, na 1° estrofe tem “Amanheceu o dia” e depois na penúltima “a noite chegou“.

Leve somente construída por quatro toques de guitarra tocados paralelamente, ou seja, com uma instrumentalização bem simples e o destaque para sua voz, que se desenvolve muito bem, explorando a voz mais limpa do que nas anteriores, a canção é mais uma a criar um clima muito legal na audição. A instrumentalização vai se construindo aos poucos e como as anteriores, a letra também corresponde ao arranjo: dado que ela está leve, tudo ao seu redor fica leve:

Seus olhos riam pra mim
Seus olhos riram pra me mostrar
A sua beleza e assim me encantar
(…)
Leve, eu ficarei mais leve
Me leve, me leve, eu ficarei mais leve

Infelizmente, como eu disse, “amor de verão não sobe a serra” e dessa vez não foi diferente. Nas faixas anteriores não sabemos completamente tudo o que aconteceu entre os dois, detalhadamente, por isso, muitas coisas ficam subentendidas e a partir de agora em Quase Sempre só sabemos que não há mais um casal:

Quase sempre nos damos conta
Só depois
Que estamos sós e que já não somos dois
(…)

No refrão ela questiona:
Cadê você para o jantar?
Preparei um mesa farta
E o que sobra é a sua falta

O que aconteceu, será? Até a sua construção já é mais melancólica, bucólica e esse sentimento incomodando, a arranhando, deixando marcas é feito pelo chocalho, um chiado em toda música.  É uma bela balada pautada pela saudade que demonstra um lado mais sentimental da cantora, com uma letra singela e é outra canção que demonstra o upgrade da cantora com relação às suas baladas.

Em sequência, Wild (selvagem, em inglês) corrobora com a introdução dela constituída por um som mais “sujo” feito por tambores tribais e um som metálico batido até os 14 segundos para tudo ficar em silêncio e logo retornar, é a penúltima faixa do álbum e o piano a deixa mais dramática:

Tudo fora do lugar
Longe daqui
Só quero estar
Num lugar mais breve pra viver

Olha só agora:
Longe do tempo ruim (marcação temporal, mas pelo término, com certeza é interior)
Longe daqui

Novamente, ela:

Só me interessa
Um dia mais perto de você
(…)
Quero um dia breve pra viver
Sobre você e me distrair

(…)
Sobre você que me faz feliz

Sentimento é o resultado final, literalmente, de tudo o que passou. Após as suas experiências, ela está definindo a todo o momento o que é o sentimento amor:

O amor é um mar difícil
Tão fácil de se ver e admirar

Todo amor tem um artifício
Que não acaba e ninguém pode mudar

Você pensa que por ser a última ela já superou? Nada disso, tem uma estrofe ainda:

Guardo tanto tempo em mim
Tudo só pra te mostrar
Que vai valer a pena de verdade

Que o amor é tudo que me interessa

Devido às duas anteriores serem melancólico-dramáticas essa já possui um som mais otimista, penso que ela está perto de superar. Não superou completamente, ainda, mas está quase. Encerrou bonito. Essa música em sua completude tem cara de música final.

Pontos negativos:

Quando vai chegando ao final dá para perceber na primeira audição, às músicas caem um pouco na qualidade e fica também um pouco tedioso a ouvi falar mais e mais sobre o amor. Um disco inteiro sobre isso é um pouco cansativo. Em outras palavras: Ouvi-la só falando do sentimento amor e suas causas, como desilusões, desejos, sofrimentos, lembranças por tanto tempo pode ser um pouco entediante, poderia ter variado nos focos temáticos. Talvez seja só pelo fato de eu tê-lo estudado a fundo, porque quando você o escuta executando alguma atividade ou só pra passar o tempo, todo o ar de extrema romanticidade passa quase despercebido.

Resumão:

Em síntese, como toda experiência a fez bem e como ela soube usá-las a seu favor, esse álbum é mais do que adequado para ser seu debut, afinal ela traz tudo que testou antes nos EPs e mais um pouco, tudo fruto de um mundo vivido, o mundo de Marcela. É como se fosse uma coletânea de hits que ela passou colecionando nos últimos quatro anos. Por se tratar de uma obra relatada em primeira pessoa, as suas experiências, o disco é redondinho, fechado em si mesmo, até nos gêneros musicais, arranjos e construção musical, eles não se destoam de uma música para a outra.

Acompanhar uma fase, um ciclo de alguém não é fácil, sempre terá seus percalços. Isso é com todos, mas sempre depois de cada experiência e processo, aprendemos muito, não é mesmo? Tiramos tanto daquilo, nos faz evoluir quanto seres humanos. Mahmundi, além da sua experimentação ainda dividiu conosco seus momentos de desejos, de alegrias, seus anseios e suas tristezas. Pode ser que não seja verídico? Claro, mas muitos já passaram por isso, com certeza. Foi algo acontecido com um indivíduo específico, porém a partir do momento que se externalizou se torna de qualquer um.

Tão bom ver brasileiros fazer músicas de qualidade sem soar cópias baratas, rasas ou farofas, proporcionando uma quebra de barreiras entre as fronteiras e isso deixa o projeto, simultaneamente, internacional devido ao som e nacional por causa das letras em português. Para a arte não há limites.

CD: A Sociedade do Espetáculo, O Teatro Mágico

Lead title: Uma sociedade é composta e formada por seres humanos, com isso surgem as relações, as manifestações e os hábitos sociais configurando e caracterizando uma cultura. Quer se aprofundar nessa minha afirmação? Então, venha ouvir A Sociedade do Espetáculo. A casa é sua!

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Introdução/Contextualização:

Um dos maiores nomes do cenário musical alternativo, com uma base sólida de admiradores, O Teatro Mágico, como quase todos devem saber, é um grupo liderado por Fernando Anitelli que mistura circo, teatro, poesia, política e, claro, música. Tudo isso está presente em A Sociedade do Espetáculo, terceiro disco e último trabalho de uma trilogia do grupo iniciada com Entrada para raros (2003) e Segundo ato (2008). Ele foi lançado de forma independente no dia 6 de setembro de 2011.

“Esse é um álbum que consolida as questões da pluralidade, das parcerias e do colaborativo”, sintetiza Fernando Anitelli sobre as participações especiais. O CD contou com a presença de Sérgio Vaz (em Felicidade?), Pedro Munhoz (em Canção da terra), Alessandro Kramer (em Eu não sei na verdade quem eu sou), Nô Stopa (em Folia no quarto), Leoni e do saxofonista da Dave Matthews Band, Jeff Coffin.

Além da contratação de um produtor, o Daniel Santiago, algo inédito na carreira do grupo, e que foi determinante para que a banda chegasse a uma síntese sonora maior. Outros dois músicos completam a lista dos ecléticos convidados do terceiro disco do grupo paulista: o gaitista Gabriel Grossi (em Até quando…) e o baterista Rafael dos Santos, na época, recente integrante da trupe. Masterizado no estúdio Sterling Sound, em Nova York, pelo engenheiro de som Chris Athens.

O conceito deste disco tem inspiração no livro La société du spectacle, do filósofo francês Guy Debord. No livro, o filósofo faz uma crítica teórica sobre a sociedade de consumo, a sociedade ocidental e o capitalismo. Assim, desta obra, além do título, a banda tirou ideias, que podem ser percebidas nas letras das músicas, e na capa, onde desenhos lembram ilustres conhecidos, como Nelson Mandela, Fidel Castro, Karl Marx e até mesmo Chapolin Colorado.

“Algumas ilustrações realmente são aquilo que você está vendo, outras são só sugestões. A ideia é justamente essa: confundir. Elas representam a sociedade do espetáculo que, na verdade, somos todos nós”, explica Anitelli, vocalista e mentor da banda, sobre a arte visual da capa.

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Análise da obra no geral:

Com som mais amadurecido e várias letras politizadas proporcionando reflexões sobre os tempos modernos com o repertório, basicamente, recaindo na alienação, no consumo e no mundo moderno globalizado, mais do que sobre políticas públicas, o CD segue o estilo leve, harmônico e poético do grupo.

As influências para o disco são muitas e misturam folk rock e pop rock à MPB, com uma vibe acústico, além de claras referências à literatura. Essa parafernália ideológica, essa cativante sonoridade melódica interiorana, estabelece um clima ambiente, com ela você se sente em casa, mesmo com alguns assuntos que causam certo desconforto.

Os instrumentos também estão muito bem encaixados e produzem um som descomplicado, franco, sem exageros ou truques musicais. Por outro lado, o resultado final, bruto e completo, peca pelo excesso de músicas, algumas poderiam ter ficado de fora. Penso que devido a todo estudo realizado, eles tinham muito conteúdo para expor e nós, ouvintes, podemos nos perder no meio disso tudo. Destaque para os vocais de Fernando Anitelli, que alterna timbres suaves com alguns esparsos momentos de aspereza.

Análise das letras (Conteúdo, Temas e Composição):

Primeira vez que o ouvi eu tinha 15 anos e de acordo com minha maturidade e conhecimento de mundo tive uma leitura, nem entendia as letras em sua completude. Retornando a ouvi-lo, agora mais velho, consequentemente com conhecimento de mundo mais maduro, surgiu uma leitura totalmente nova. Se você tem um pouco de conhecimento sobre história, filosofia, sociologia compreenderá de onde surgiu e de onde Fernando se inspirou para criar, para compor.

Na obra algumas letras são extensas com os versos curtos, apresentando verbos no infinitivo, característicos de Anitelli, dominando as letras politicamente engajadas: “semear o amor” “apoderar-se de si”, “resistir”, “ser plural”, “repartir o acúmulo”… Em vez de ordenar ao rebanho que faça o que ele diz, ele prefere sugerir, com sutileza, um comportamento coletivo, colaborativo, compartilhado. Quando você pensa no que eles querem passar, quando você leva pra interpretação, tudo se amplia, como um universo além, ligado ao universo do disco.

Podemos dividir as faixas de acordo com seu foco temático:

O Ser Humano presente em: Além, porém, aqui; Da Entrega; Transição; Eu Não Sei Na Verdade Quem Eu Sou; Novo Testamento; e Nas Margens de Mim.

A Sociedade em: Amanhã, será?; Felicidade; O Que Se Perde Enquanto os Olhos Piscam; Folia no Quarto; e Esse Mundo Não Vale o Mundo.

O Ser e A Sociedade em: Canção da Terra,

Amor/Relações Humanas em: Quermesse; Nosso Pequeno Castelo; Fiz uma Canção pra Ela; Tática e Estratégia; e Você me Bagunça.

Entre os temas das 16 canções e três vinhetas (interludes), contam-se menções ao Movimento Sem-Terra (em Canção da Terra), referências às revoltas populares no Oriente Médio em que depuseram ditadores (em Amanhã… Será?), críticas à “heterointolerância branca” (em Esse mundo não vale o mundo), canções suavemente feministas, e assim por diante, assuntos que estão bem em voga atualmente.

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Análise da instrumentalização:

A instrumentalização em geral é composta por cordofones (violões, baixo, guitarras, e violino), percussão (bateria, tambores-guizá e pandeiro) aerofones (flautas, acordeon), idiofones (triângulo, carrilhão, cascata, caxixi), teclado percussor, slide guitar e palmas. Logo nas quatro primeiras músicas a maior parte deles já está presente.

Dessa vez não entregarei tudo e não explanarei sobre todas as canções, a partir de todas análises anteriores você já tem uma base e aprofundamento que te auxiliará na audição e bem como, na sua leitura e interpretação. Está bem? Descreverei somente algumas:

A 1º faixa intitulada Proscênio, é uma intro. Inicialmente, ouvimos alguns cochichos e pessoas se acomodando, em seguida, uma campainha avisando que o espetáculo vai começar. Logo a cortina se abre para as infinitas possibilidades de imaginações que acontecerão em sua mente por causa do canto de Fernando Anitelli, e aí, meu caro, nesse segundo, já não tem mais volta, porque se escuta:

Senhoras e senhores
Respeitável público pagão
Bem-vindos ao Teatro Mágico

Com o título “Proscênio”, ele está nos situando, pois é o nome que denomina o espaço entre o palco e a plateia. É ali, onde está o anfitrião.

“Nosso Pequeno Castelo” possui uma levada mais swingada, nordestina, e a voz em dueto é de Ivan Parente, que, como Galldino (violinista) disse, tem registro de voz agudo, algo feminino.

Em “O Novo Testamento” o arranjo tem inspiração do funk carioca, do pop, com beatbox, bateria, baixo, teclados, agogô e tambores.

“Felicidade”, com sua letra que mais parece uma anedota, também é um questionamento de conceitos e papéis sociais.

“Tática e Estratégia” tem a letra em dois idiomas, português e espanhol, por isso a levada latina na música.

“Folia no quarto”, com uma melodia muito bem construída essa faixa contém a única voz feminina do CD, de Nô Stopa, filha do cantor e compositor Zé Geraldo. Quem sente tanta falta da infância se identificará com ela, sempre me deixa nostálgico. Engraçado isso, porque o disco fala de coisas atuais e vem essa pra te deixar assim.

A partir daqui os próprios irão nos dizer sobre algumas músicas (coletei de uma entrevista):

“Amanhã… Será?” – A inspiração, aqui, são as mobilizações populares em países do Oriente Médio, na Espanha e no Brasil. Os integrantes do Teatro Mágico costumam frequentar as marchas em São Paulo caracterizadas, em contato direto e íntimo com a multidão. “Essa revolução, na verdade, é interior”, filosofa Fernando.

“Quem diz que a revolução está saindo da internet está enganado, ela ainda vem do povo, a rede é só uma ferramenta. A insurreição está em nós e a primavera árabe traduziu isso muito bem”, diz Anitelli sobre a terceira faixa do CD.

Em “O Novo Testamento”, opção do funk explicada pelo coprodutor do disco e coautor da faixa, Daniel Santiago, músico do celebrado quinteto de Hamilton de Holanda: “O ritmo veio da capoeira, do maculelê, é totalmente brasileiro. Funk definitivamente é uma linguagem e uma manifestação cultural brasileira, veio pra ficar”.

“Fiz uma Canção pra Ela” – Parceria de Fernando com Galldino é uma canção de amor com viés politizado: “Fiz uma canção pra ela/ na mais bela tradução de igualdade e autonomia/ ao teu corpo e coração”. “A mulher não tem autonomia sobre o próprio corpo, quando se fala de aborto, de postura”, argumenta Fernando. “Se a menina usa roupa curta, tem culpa por ser estuprada?, peraí. É uma canção de amor à mulher, mas colocando ela como liberta, não como uma mulher que precisa ser protegida, carente, solitária, pobre, fraca, indefesa, santa, mãe. É amor, mas de igual pra igual”.

“Esse Mundo Não Vale o Mundo” – “Esta hetero-intolerância branca te faz refém”, diz a canção que trata de temas que várias do gênero pop em geral simulam não gostar. “Contaminam o chão família e tradição”, provoca o rock meio celta (segundo Fernando) que fala de “ter direito ao corpo” e à “terra-mãe que nos pariu”.

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Resumão:

Olha só, mais uma vez a sociedade e seus os acontecimentos, influenciando o indivíduo inserido num determinado contexto a produzir coisas de volta pra sociedade por meio da arte, independente do tipo ou modalidade. Diante disso, surge a seguinte questão: A vida imita a arte ou a arte imita a vida? Essa clássica questão já dividiu várias opiniões e, certamente, continuará dividindo, porém o que parece correto é que ambas se inter-relacionam, levando a uma resposta dicotômica, ou seja, tanto a arte influencia a vida como o inverso. Esse é o poder dela, de nos causar o efeito catártico, da catarse. O álbum serve, também, para perceber como arte é atemporal, as reflexões sobre os tempos modernos, incluindo o homem moderno, suas atitudes e comportamentos refletem bem, não só o ano da publicação dessa resenha, mas de muitas décadas, marcadas por revoluções, conquistas e muito mais.

Será que A Sociedade do Espetáculo consistirá em mais uma obra que se expressará através dos tempos e será que ela não ficará presa só no contexto da época de produção? Para refletirmos, fica esse questionamento final.

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Dou uma pontuação de 4 estrelas de 5.

Na discografia de O Teatro Mágico, ainda se inclui “Grão do Corpo” (2014) e “Allehop” (2016).

CD: A Casa Amarela, Veveta e Saulinho

 

Introdução/Contextualização:

No dia 17 de outubro de 2008 os amigos e parceiros musicais, Ivete Sangalo e Saulo Fernandes lançaram o primeiro projeto infantil de suas carreiras, intitulado A Casa Amarela, em todo o Brasil. Eles adotaram seus apelidos de infância que dão bem o tom do CD infantil lançado. O álbum foi indicado ao Grammy Latino 2009 na categoria: Melhor Álbum Infantil.

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Com a direção assinada por Alexandre Lins e composto por onze faixas inéditas em 31 minutos, trata-se de um trabalho que certamente teve grande aceitação junto ao público consumidor, mas muito mais pelo inquestionável prestígio atual da dupla do que pela homogeneidade do trabalho apresentado.

Análise da obra no geral:

Se sua infância e/ou adolescência foi durante os anos 80, 90, 2000 ou 2010 sabe muito bem que o universo infantil musical envolve, basicamente, músicas pop-comercial, para exemplificar alguns: Trem da alegria 80’s, Chiquititas 90’s, Turma do Balão Mágico, Eliana, Angélica, Xuxa, Mara Maravilha, Sandy & Junior, Trem da alegria 2000, Vitor & Vitória, Carrossel 2010, Chiquititas 2014, e sabe também que é raro encontrar produções MPB-infantil com conteúdos tão enriquecedores e relevantes, só pra citar temos Saltimbancos, Xico Bezerra, Vinicius de Moraes, Palavra Cantada, Adriana Partimpim, Pato Fu, Banda de Boca com MPB Pras Crianças, as trilhas sonoras de Sítio do Pica Pau Amarelo, Bia Bedran, Hélio Ziskind, Castelo Rá-Tim-Bum, Jair Oliveira com Grandes Pequeninos, são músicas que não chegam aos ouvidos da grande massa popular, é seleto, se estreita, infelizmente.

O álbum A Casa Amarela possui características dos dois grupos, mesmo assim não espere por um grande CD (e aqui não falo nem da pequena quantidade de faixas, nem da curta duração das mesmas). É que as composições soam insossa (não todas!), chegando a soar tatibitati. A criatividade das canções, lamentavelmente, fica a desejar em algumas específicas e não é porque se trata de um álbum voltado para as crianças que as ideias devem ser rasas, porque já encontramos produções para as crianças com criatividade e com discernimento, inclusive várias estão citadas na lista acima. Sonoricamente, o disco mistura MPB à músicas clássicas. O som, no geral, é leve, agradável. Os cantores assinam 8 das 11 faixas e dividem os vocais apenas na primeira canção, Bichos. A faixa Sono conta com a especial participação de Xuxa e o reggae está presente em É Bom Viajar.

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 Análise das letras (Conteúdo, Temas e Composição):

Após a análise das letras das músicas Frufru, Fantasia, Mundo de Lela e Casa Amarela de Veveta e Saulinho constatei que elas apresentam eu líricos infantis consumistas, mimados e de classe alta. Assim, o CD não ensina, não estimula, não apresenta diferentes culturas às crianças e foi produzido para um grupo seleto de brasileiros, não foi feito para todo o tipo de público.

Acabaram limitando-o e talvez essa nem foi a intenção. Só faltou um pouco de estudo, aprofundamento e inspiração, seria até mais salutar para todos, para as crianças e para eles próprios. Os cantores têm potencial, sabemos disso, para fazer um disco bem legal como intérprete de músicas infantis sem ser infantistóides.

Em contrapartida, na outra metade do projeto encontramos salvações, letras que não limita, que retratam a beleza de ser criança, com suas imaginações, como em Bicho, Sensacional, É Bom Viajar, Maria Flor e Enfim Vencer

Análise do artista como intérprete das suas canções (Voz, notas, modo de cantar e tons):

Pra interpretação, os cantores fizeram tudo bem singelo, pra conquistar o público infantil ou até mesmo em geral, não foi tão necessário realizar todos aqueles melismas. Parece que foi sem pretensão? De maneira alguma, dá pra perceber que estavam curtindo, se divertindo e fazendo aquilo com muito gosto e prazer. A Ivete e o Saulo, juntos, é gol sempre – quem não se lembra de Não Precisa Mudar (2006)? -, não há como resistir aos seus timbres afinados e calorosos. Cantando canções de forma suave (“Maria Flor” e “Fantasia”, respectivamente), o que ressalta os bonitos timbres vocais de ambos.

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Análise da instrumentalização especificamente:

Da instrumentalização eles tem muito do que se orgulhar, pense numa produção cuidadosa, parecem trilhas sonoras de filmes de animação. Dentro da obra, temos até bossa nova, jazz e soul, essa construção musical proporcionada pelos metais (instrumentos de sopro), piano Yamaha (clássico/comum), piano Rhodes, teclado Celesta, teclado Escaleta, bateria, baixo, contrabaixo, violinos e violão.

Clique no nome para ouvir:

Bicho é um ótimo jazz.

Se inicia com um metal, deixando um suspense e uma introdução para a criação. Posteriormente, já se apresenta tudo o que temos direito, incluindo piano Rhodes, maior variedade de metais, baixo, contrabaixo, bateria e guitarra. Por incrível que pareça, é a única em que os dois artistas cantam juntos, dividem os vocais.

Fantasia

Foi uma boa escolha colocá-la na lista de faixas como a seguinte e a próxima de Bicho, porque completa a primeira. É uma bossa nova e uma das que parecem música de trilha sonora. Somente Saulo canta e é constituída por piano Rhodes, celesta, violinos, violão e flautas. O eu lírico gosta de cultura pop, de super-heróis:

Se eu pudesse me vestia
Todo dia                              
Cada dia uma fantasia diferente
Ser um super-homem
Ou um lobisomem
Mas também
Eu me transformava
Num robô

 Em Frufru Ivete divide os vocais com uma menina, chamada por ela de Lelé. A canção possui saxofone, baixo, guitarra, bateria, piano Rhodes, palmas e um coral infantil. Como exposto anteriormente, essa é uma das que apresenta eu líricos um pouco mimados:

Tudo que eu gosto
Tem frufru
Tudo que eu quero
Tem detalhe
A lantejoula
Pode ser azul
Mas o lacinho
Tem que ser rosa

A Casa Amarela

Nessa é Saulo quem canta e nas duas estrofes primeiras ele afirma que seu pai pintou a casa de amarelo, em seguida no refrão revela que foi apenas um sonho e que nele os seus pais o tratavam como um rei. Vê se pode? Ela tem guitarra, pandeiro, baixo, agogô, xilofone e trombone. Nos 02:05 os instrumentistas tocam, logicamente, vários instrumentos, entretanto de forma aleatória e se encaixou ao todo. É gostoso ouvir essa “bagunça-organizada”.

Mundo de Lela

Sonoricamente, é outro jazz e também parece música de trilha sonora de filmes da Disney pela instrumentalização totalmente orquestrada e arranjada. Liricamente, apresenta uma rotina de preparação para algum compromisso no período da manhã. Esse eu lírico infantil, de início, parece mais uma criança um pouco mimada, leia e repare nos verbos:

Peço pra mamãe
Pegar o meu vestido
(…)

Também traz
Aquele seu perfume
(…)
A sandália?
Pega a cor-de-rosa
(…)
Oh, papai
Vem correndo me pegar
(…)
Você demora de chegar
Fico emburrada
(…)

Ela fala como se sua mãe fosse uma sua serva ou estou lendo errado? Somente ouvindo, nem parece isso, Ivete canta de forma suave Só quando acompanhei pela letra, me veio essa leitura.

Sensacional

É a minha preferida, parece que foi tirada da animação Ratatouille. Ela possui na instrumentalização acordeon, bandolim, trombone, flauta e bateria. Essa também é em primeira pessoa, mas bem diferente os gostos desse eu lírico:

Gosto de sentir
O vento forte
Carregando tudo
Pelo ar
Me levando alto
Num instante
Sinto a alegria
De voar

 Me lembrou Peter Pan.

É Bom Viajar é um reggae. Ela tem bateria, guitarra, teclado, agogô e reco-reco, além de barulhos de brinquedos que precisam de dar corda para funcionar.

Em Funk do Xixi batidas eletrônicas aliadas a de percussão e metais formam o arranjo. Como é comum nesses estilos de música há muita repetição dos versos para grudar na cabeça. É uma sátira, porém mesmo assim não é tão boa, não acrescenta tanto, acaba destoando e não faria falta no contexto da obra.

Maria Flor

Como foi Saulo que a compôs, é um diálogo dele com sua filha, mas quem canta é Ivete. Muito bonita e singela:

Nasceu uma flor
Aqui no meu jardim
Uma rosa pequenina
Me dizendo assim

Pai, estou aqui

Vim pra te amar
Você e mamãe
São os meus presentes
De Deus

Em sua instrumentalização possui apenas o piano Rhodes e escaleta. Ah, que sensação boa ela proporciona. Ouça ela!

Sono

Sua sonoridade é composta somente pelo Celesta. Liricamente, da mesma forma que a maior parte das outras faixas é em primeira pessoa e descreve o que acontece quando está com sono:

Quando estou com sono
Esfrego os olhos
Não me entrego nunca

Enfim Vencer

É a mais madura em seu conteúdo, deixará você com uma reflexão para encerrar a delicadeza do acalanto que é essa canção. Constitui de violão, piano, assovio e celesta de início para introduzi-la. Ela segue os fatos linearmente, em cada estrofe algo diferente é narrado. A penúltima estrofe intermediária é uma oração:

Oh, amado Deus
Dá-me mais
Força pra seguir
Ao lado seu
Me ensina
Perdoar a quem
Um dia me fez
Algum mal
Ou quis magoar
Mostra como
Faz o amor
Planta
No seu coração
Uma flor

Resumão:

 A Casa Amarela pode não ser a maior, mas isso não quer dizer que ela seja pequena. Com construções melódicas pouco definidas e ideias de letra quase sempre não desenvolvidas a contento contribuem para que o resultado final fique aquém do esperado, mesmo se reconhecendo que, em si, a ideia é bacana.

A primeira impressão foi tão boa, foi a de um disco divertido, porém depois (muito) pueril e a dupla, apesar de bem intencionadas (prefiro acreditar nisso) não o foram. Todavia,  lembre-se que foi somente metade do disco, por causa do conteúdo de algumas letras, ainda se têm as vozes e a instrumentalização. Eu gostava muito desse CD até perceber isso nas letras, problematizando. Isso não quer dizer que não mais o ouço, tanto que tenho até minhas preferidas. Novamente, olhe pela instrumentalização que rica.

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Dou uma pontuação de 3,0 estrelas de 5.

Conto: Esquece, Marcelino Freire

Lead Title: Quem dera se tudo isso fosse uma realidade distante ou inexistente.

Pré-aviso: Como tudo não é um mar de rosas, cheio de sentimentos, principalmente cheio de amor, escrevo sobre algo que precisa ser dito, divulgo essa resenha que necessita, posteriormente, de sua reflexão.

Introdução/Contextualização:

Marcelino_Freire_02Marcelino Freire nasceu em Sertânia, interior de Pernambuco, em 1967. Entre seus livros publicados, se destacam Angu de Sangue (2000) e Nossos ossos (2013), representando temas sociais brasileiros contemporâneos-modernos sempre em tom crítico. A atuação social e literária de Freire é reflexo de suas experiências de vida, como ele mesmo revelou.

O conto Esquece encontra-se no livro Contos Negreiros, publicado em 2005, pela editora Record. O livro reúne 16 contos, na realidade, chamados de cantos em razão da marcante oralidade, do falar popular. A edição tem capa dura com apresentação de Xico Sá. Além de ganhar o Prêmio Jabuti, na categoria contos, em 2006.

Percepções:

O conto (canto III) em análise tem uma estrutura simples, curta e homogênea de apenas nove parágrafos, sua escrita possui também frases curtas e dinâmicas, imagens breves e com certa virulência, porque rapidamente você está dentro da história, do espaço e do tempo.

É interessante notar que os parágrafos são paralelos, se você pegá-los individualmente nenhum irá fazer falta para o outro, cada um por si só tem sentido completo, mas na ordem que estão dispostos reproduz a ordem cronológica dos acontecimentos da diegese: O 1º fato: o assaltante à espreita na escolha da vítima; partindo pro 2º fato: o assalto e assim por diante: a confusão gerada por ele, a chegada da polícia (“querendo salvar o patrimônio do bacana”), a revista na rua, a prisão e o depósito “outra vez” na cela.

Com cada fato declarado sequencialmente, sem pausas dentro dos parágrafos, porque não têm vírgulas, representa e proporciona a alusão, da correria da cidade urbana moderna, cheia de imediatismo – tudo tem que ser agora – não há intervalos. Para exemplificar, o 3º parágrafo:

 Violência é ele ficar assustado porque a gente é negro ou porque a gente chega assim nervoso e ponto de bala cuspindo gritando que ele passe a carteira e passe o relógio enquanto as bocas buzinam desesperadas. (pág. 31)

Isso provoca, inclusive, que os fatos imaginados por você enquanto o lê, passem também depressa, mudando de espaço/cenário/cena a cada parágrafo rapidamente.

Ele foi escrito como uma matéria comum, como uma carta sem sua estrutura completa ou, até mesmo, como um post respondendo a pergunta O que é violência pra você? Ou seja, o assunto abordado é violência urbana. Um assunto que sempre está em voga na sociedade. Com isso, durante a sua leitura, os fatores externos que provocaram e influenciaram o momento de escrita do autor vêm a nós fácil-fácil. Não é difícil imaginá-los, porque você os presencia, algo do tipo, ali ao lado, na esquina da sua casa, até mesmo discursos em redes sociais vêm à sua mente. Ele (o assunto) já se tornou banal pra sociedade, de tão enraizado que está, com isso o autor nem precisou contextualizar, introduzir e teorizar, simplesmente o início é igualmente como no fim, sempre iniciando cada parágrafo com: Violência é… E, em seguida, seus motivos. O conto começa direto, sem rodeios.

No momento de leitura, nem parece um texto escrito, parece bem mais com um discurso oral, uma fala entre um interlocutor e os receptores, isto é, os leitores.

Há uma modalidade de narração recorrente na obra do autor, configurando um tipo de narrador que mimetiza uma espécie de diálogo imaginário, uma fala responsiva que cria um efeito de oralidade como uma mímica a dominar toda a diegese. (BALDAN, 2011)

 Essa questão da oralidade faz lembrar das formas de se transmitir conhecimentos em eras passadas: um anfitrião, um ancestral, da aldeia passava para todos os outros habitantes seus conhecimentos, sejam eles crenças, mitos, sempre tentando responder algum fato. É o que também se vê aqui em “Esquece”, digamos que seja uma história didática.

Não há um mediador, um personagem nomeado. Nós sabemos qual a sua realidade, classe social e etnia por causa de suas afirmações dentro do texto. Essa escolha deixa claro que é um discurso de qualquer cidadão, qualquer um pode de maneiras diferentes ou idênticas se identificar com a narração. Marcelino cedeu aos negros um poder de fala, deu voz a quem é calado, julgado e apedrejado pela própria sociedade ao invés de ofertá-lo suporte.

A obra de Marcelino Freire guarda a memória de um desafio como molde cultural de percepção e interpretação da realidade, e o faz respondendo pelo lado do outro, não mais dominado e fraco, mas como uma personagem que argumenta e se defende, expondo a sua voz e as suas razões. É uma espécie de singularização da voz, mas que, imediatamente, reverte à coletivização das vozes da necessidade e da carência. Mais do que o homem comum, do homem que não costuma ter voz e que, portanto, é falado pelo outro, segundo os valores e esperanças do outro que o vê. E a voz que ressoa desse homem comum é uma voz desconfortável, que desacomoda os saberes cristalizados por séculos de vozes direitas, brancas e razoáveis. (BALDAN, 2011)

Logo, percebemos pela sua linguagem um homem (no caso, o autor) está falando pelo outro, se colocando no lugar de um negro, de classe baixa, da periferia e ficcional, porque está escrito sem gírias e de forma reflexiva, mas ao mesmo tempo coloquial, sem deixar o estilo de linguagem do dia a dia. Usando, excessivamente, no lugar do pronome pessoal “nós” a forma “a gente”. Simultaneamente, o narrador descreve/relata e faz seu discurso revelando suas posições e opiniões.

Sempre, desde o início da literatura, é o rico, é o capital tentando, veja bem, tentando relatar e se colocar no lugar do oprimido. Aqui as coisas mudam, há uma inversão de perspectivas, agora nós sabemos o outro lado, estamos ouvindo de alguém que, aliás, não deveria, mas está por baixo. “A voz que narra é a voz que sofre o que está narrado.”

A escolha da focalização que desconforta o leitor e humaniza o outro lado que é visto como o lado marginal, o reverso da violência. Focalizar o assaltante é mais do que admitir que haja outro ponto de vista: é fazer com que a voz revoltada fique ecoando nos ouvidos dos leitores.

Freire prova com sua escrita que a violência, a criminalidade e a periferia estão presentes de modo recorrente no cotidiano das grandes cidades, assim como a desigualdade, o preconceito, a discriminação, e a injustiça social. Um fator leva ao outro. Essa desigualdade social no texto está sempre permeada por questões dicotômicas polarizadas: polícia-ladrão, negro-branco, pobre-rico, oportunidades-inoportunidades e tantas outras possíveis de identificar.

Apesar disso, no fim, como sempre em qualquer discurso a maior parte é tudo da boca pra fora, nada muda e nada é colocado em prática… Desse modo, ano após ano as mesmas coisas se repetem. Por isso, o último parágrafo tem somente uma palavra: Esquece, isto é, “Deixa pra lá! Quem se importa, não é mesmo?”

Resumão:

É bom ver a literatura contemporânea trabalhando temas sociais de forma honesta e pura, porque em outros períodos literários  você encontra tantas coisas possíveis de serem problematizadas na própria história, até mesmo na obra em si. Não obstante, aqui já foi diferente, a obra faz o extraliterário ser problematizado. Parece um texto tão simples, porém passe para o externo e perceba como tudo se amplia e se expande.

Infelizmente, esse tipo de literatura já não vende tanto, na era moderna histórias românticas voltadas aos adolescentes e jovens é bem mais vendido/consumido, parando no topo das listas dos mais vendidos, principalmente se recebeu uma adaptação para o cinema. Também, o que se retrata nesses tipos de histórias está sempre escancarado em jornais e nos noticiários, quando alguém compra um livro sempre é com a intenção e argumentação de espairecer ou fugir um pouco desse mundo. Enquanto algumas produções fazem os leitores voar e, portanto, ficar nas nuvens, essa de Marcelino os coloca de volta ao chão e ainda os faz “incorporar” esse personagem tão significativo.

O livro não é tão extenso, é curto, mas com muito “pano pra manga”, recomendo muito a sua leitura.

Referências:

BALDAN, M. L. O. G. A escrita dramática da marginalidade em Marcelino Freire. Ipotesi, Juiz de Fora, v.15, n.2 – Especial, p. 71-80, jul./dez. 2011

Videoclipe: Runnin’ (Lose it All) [ft. Beyoncé & Arrow Benjamin], Naughty Boy.

Lead title: Amor submerso. O que uma produção pode nos proporcionar?

Introdução/Contextualização:

Ouvimos e vimos a beleza desse clipe subaquático de Runnin (Lose it All), parceira musical de Naughty Boy, Beyoncé e Arrow Benjamin, simultaneamente na noite de quinta-feira (17/07/2015), dia em que foi liberada na íntegra nos serviços de download e streaming e, como de costume no Reino Unido,  o vídeo foi divulgado na conta VEVO do produtor britânico. A música recebeu críticas positivas dos maiores sites e críticos especializados, mais precisamente pelo arranjo e vocais.

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A belíssima produção audiovisual foi dirigida por Charlie Robins (o mesmo do clipe Not Letting Go, do rapper Tinie Tempah e Love Again, de Rae Morris) e as belas imagens e coreografias são responsabilidade da cinegrafista especializada em filmagens debaixo d’água Julie Gautier, fundadora da Les Films Engloutis, que co-dirigiu Ocean Gravity com Guillaume Nery, inclusive o vídeo é inspirado nesse curta-metragem.

O vídeo foi filmado em Rangiroa, nordeste de Tahiti, na Polinésia Francesa ao longo de quatro dias.

Discutindo a concepção do vídeo, Robins disse: “A fim de alcançar o efeito que estávamos dispostos a realizar, tivemos que filmar no meio de três correntes: uma rápida, uma profunda e uma outra muito perigosa em uma lagoa, esta foi a que deu-nos o impulso para a frente visto por você no clipe. Os atores não usaram tanques para o ar, portanto tudo que você vê foi feito prendendo a respiração, às vezes até seis minutos a uma hora. Eu ainda não consigo acreditar como eles fazem isso.” Incrível, não?

Percepção própria sobre a obra:

O vídeo em si se passa embaixo da água e mostra um casal, interpretado por praticantes de mergulho livre Guillaume Nery e Alice Modolo, correndo para se encontrar no fundo do oceano. Por outro lado, se você pensar em figuras de linguagem, mais especificamente em questões metafóricas, perceberá que o casal separado está afogado em mágoas, tristezas e perdidos. Por isso, as primeiras imagens são do ambiente marítimo, em seguida imagens do casal parado em uma posição recolhida e tristes, sofrendo as dores da separação.

Com a tradução da letra prova-se que a representação visual é a mesma que está relatada nos primeiros versos:

Estas quatro paredes mudaram a forma como eu me sinto
A forma como eu me sinto, estou aqui parado
E nada mais importa agora, você não está aqui.

Quando chega ao refrão e a cantora afirma:

Não vou mais fugir de mim mesma
Juntos vamos vencer tudo
(…)
Estou pronta para enfrentar tudo
Se eu me perder, eu perco tudo (essa é a frase que mais ecoa e a mais marcante: If I lose myself, I lose it all).

Assim, decidem ir um ao encontro do outro, até mesmo quando se reencontram giram em círculo, pensando se é isso mesmo o que querem, até que na hora da reconciliação – o que foi difícil, um caminho não muito transitável, com vários obstáculos – o vídeo já está no final e, quase como num passe de mágica, todo aquele sentimento some, na verdade, os próprios atores somem, se elevam.

Podemos usar o mesmo argumento de algumas outras resenhas aqui: clipe minimalista, porque só tem um pano de fundo e dois personagens, mas que é tão rico, se você pensar nos sentidos ofertados pela figura de linguagem. Simples e bonito.

Todo o produto final foi muito bem coreografado e trabalhado, visto que há ângulos improváveis da questão do peso e baixa gravidade corporal embaixo da água, de quando estamos submersos. Além da interessante premissa, a coreografia, captação de imagens e edição que explora incrivelmente os ângulos. E as posições de câmera? Estrategicamente direcionadas e movimentadas, tudo para dar a sensação de que estamos participando das cenas. A fotografia é linda, enquanto que foi bem cuidadosa a edição.

PS: O clipe casa muito com a letra da canção, como percebido, e até o diretor falou que é mesmo metafórico.

Ao aliar as figuras de linguagens, percebemos que se cria uma linda produção, composição e interpretação, que beira o lirismo, a poesia, já que possui vários sentidos, várias interpretações, vários olhares, que ocorrem por intermédio das diversas metáforas e jogos imagéticos presentes na produção musical/visual.

Música: Ecos de Amor, Jesse y Joy

Pré-aviso: Essa resenha foi produzida em agosto de 2015, mas nunca divulgada.

Lead Title: Com essa música foi AMOR À PRIMEIRA OUVIDA.

Capa
A música foi um dos maiores sucessos latinos no Spotify em 2015.

 

Após o estrondoso sucesso e momento de consolidação da dupla de irmãos mexicanos Jesse y Joy com o disco Con Quién se Queda el Perró? (2011), que aliás recebeu cinco indicações ao Latin Grammy, eles retornam agora com um novo single, intitulado Ecos de Amor.

A nova canção é composta e interpretada apenas por Joy e foi produzida pelo seu irmão Jesse com o renomado produtor britânico Fraser T. Smith. Inclusive, ele já produziu músicas para grandes sucessos de Sam Smith, Ellie Goulding, Adele e tantos outros.

Esse single foi escolhido como carro-chefe para o álbum Un Besito Más, lançado mundialmente no dia 04 de dezembro de 2015 pela Warner Music. A canção foi lançada no dia 14 de agosto, causou barulho na indústria latina e teve seu clipe dirigido por Sam Bayer, que estreou na carreira assinando Smell Like Teen Spirit, do Nirvana, em 1991.

A letra fala sobre um amor eterno que transpassará qualquer limite e durará para sempre, ao menos é isso que Joy deseja, já que não encontra mais ao seu lado sua paixão e em toda a letra acompanhamos ela relatando como está passando e enfrentando essa fase de sua vida.

Eu estou simplesmente viciado em Ecos de Amor. Ela é incrível! Quase entro em transe quando a ouço. O eco dos backing vocals ao fundo também dá a alusão de transe com os “oooooooh”. Demais, demais, demais.

No começo, parece que será como as músicas do CD anterior, que os artistas não saíram de sua zona de conforto, porque inicia da mesma forma que a maioria das antigas: com o piano e um arranjo de cordas composto de violinos e violoncelo. Logo na primeira palavra dita por Joy, tem-se o violão para complementar. Porém, engana-se quem pensa que será sempre assim, pois, posteriormente, toca a guitarra produzindo uma sonoridade quase country e ela cresce de uma forma estrondosa, magnífica.

O que ajuda a canção a progredir é a bateria, o arranjo de cordas e a guitarra, esses são os instrumentos que se destacam mais. No entanto, todos os outros instrumentos, como o piano, o baixo, pandeiro e o chocalho contribuem muito, fundem-se, misturam-se e cria essa melodia que ouvimos.

Música impecável, de produção grandiosa. Repito: ela é incrível. E a voz e a letra? Perfeitas. A interpretação da Joy demonstra um sofrimento por um amor grande e forte. Foi uma escolha certeira como primeiro single, uma flecha direta no meu coração, pois já na primeira ouvida, me apaixonei.

Deixe-se levar, deixe seu corpo se levar pela música e pela instrumentalização, você perceberá que há várias formas de entrar no ritmo.

Parece-me que Joy canta calmamente no começo, apenas pensando e relembrando dos momentos com seu amado, mas, no momento de progressão e evolução, que a música “cresce”, a intérprete já está em prantos com uma tempestade lá fora e em seu interior, vista através da janela.

5-estrelas

Dou uma pontuação de 5,0 estrelas.

A discografia de Jesse & Joy inclui ainda os álbuns de estúdio Ésta Es Mi Vida (2006) e Eletricidad (2009), o EP Esto Es Lo Que Soy (2008), a coletânea Eletricidad: Super 6 Tracks, e o live Soltando Al Perro (2013).