QUADRINHO: Clube Da Luta 2

Clube da Luta 2 é a continuação direta do livro Clube da Luta, de 1996, escrito por Chuck Palahniuk, que revisita seu maior sucesso com arte de Cameron Stewart. Ainda inédito no Brasil, foi publicado em 10 partes pela editora Dark Horse Comics, entre maio de 2015 e março de 2016.

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Quando, em algum momento de 2014, Chuck Palahniuk anunciou a sequência de Clube da Luta, sua legião de fãs entrou em um misto de êxtase e desgosto. Principalmente pelo fato de que a sequência é (e se você ainda não sabe, segure-se à sua cadeira) UMA HISTÓRIA EM QUADRINHOS!

O autor explicou o motivo posteriormente em uma entrevista, dizendo que a razão (ou uma delas) para fazer da sequência uma graphic novel era que ele ao mesmo tempo queria escrever uma continuação para a história de Tyler Durden, mas não queria que houvessem comparações com Clube da Luta o livro ou Clube da Luta o filme.

Particularmente entendo que esse descontentamento se dá ao fato de que muitas pessoas ainda não olham para histórias em quadrinhos como uma meio a ser levado a sério. A minha primeira resenha aqui foi sobre A Playboy, de Chester Brown, e eu me lembro de ter visto uma entrevistadora de um talkshow canadense, apresentando-o em seu programa para uma conversa sobre a novela gráfica Pagando Por Sexo (Paying For It, a comic-strip memoir about being a john), tendo ainda que fazer aquela tão famosa introdução do tipo Falaremos sobre um quadrinho, mas esse quadrinho é para adultos também! Este quadrinho é coisa séria!, como se um quadrinho de humor e os para o público infantil não pudessem ser levados tão a sério ou postos na mesma mesa que um livro de Dostoievski.

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Talvez esse tipo de ideia tenha causado o desgosto de tantos para com a continuação. Se você alimenta um mínimo de um pensamento deste tipo, talvez seja difícil para você apreciar a sequência de Chuck e Cameron, e talvez as comparações sejam maiores quanto à mídias do que quanto à conteúdo. Quanto à mídia, fiquei contente em ver coisas na obra que só existiriam ali. Certas particularidades de histórias em quadrinhos como um cartunesco passarinho sorridente alegrando um dos painéis ao que se chega ao final da história, que funciona dentro de um gibi, mas não seria o mesmo em um filme ou livro.

Cameron Stewart consegue criar seu próprio mundo de Clube da Luta, à parte do livro e filmes, caracterizando bem os personagens com um visual mais próximo ao que imaginaríamos lendo o primeiro livro e se distanciando das figuras dos atores do filme, ainda que pontualmente trazendo imagens que nos remetem ao Clube da Luta de David Fincher, como o casarão na Paper Street, visualmente igual ao do filme, ou no uso de cores (por Dave Stewart) em tons pastéis contrastando com as cores vibrantes nas roupas de Tyler, ou mesmo nas explosões causadas por este. E assim como no livro, onde imagens eram descritas e davam força às ideias narradas, o mesmo acontece no quadrinho, onde a arte dá lugar às descrições.

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E insistindo em comparações ainda assim, em seu primeiro trabalho com quadrinhos, Palahniuk não perdeu as características de sua narrativa. Você vai encontrar a acidez de sempre tanto nos comentários de Tyler Durden quanto à (nossa) vida de Sebastian (Que é o novo nome inventado do personagem marcado como Jack no primeiro livro), como também nas imagens de cabeças explodindo e sangue por toda parte, entre outras menos óbvias. Clube da Luta foi e é, para o público, um conteúdo ideológico. Sua legião de fãs compra a ideia de Tyler, mesmo quando o protagonista percebe o absurdo de tudo aquilo e renuncia; ou mesmo em proporções diferentes. Nós aceitamos o Tyler como ícone, como nosso amigo imaginário compartilhado, porque ele conversa com cada um da mesma forma pessoal como conversa com o protagonista da história.

A história começa mostrando o que aconteceu com Jack e Marla. Casados, e com um filho, levam uma vida infeliz regada à remédios para adormecer o monstro escondido entre eles, o que afeta a criança e a aproxima de Tyler, sua herança hereditária ou maldição. Com isso como base, a história se desenrola em 10 edições que esmiúçam o imaginário Tyler Durden, como uma ideia, e uma ideia de muitos, e de destino incerto. E esse destino incerto é o final da história, onde esta se mostra ainda mais como um comentário particular do autor quanto à seu personagem mais notável.

Tudo isso porque alguns amigos imaginários nunca vão embora, quer você queria ou não. Então raspe a sua cabeça, prepare a sua mala com duas camisetas pretas, dois pares de calças pretas, um par de coturnos pretos, dois pares de meias pretas e um casaco preto pesado, e leia Clube da Luta 2. Sem se esquecer dos $300 para o seu próprio enterro, e de não falar sobre isso.

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Filme: O Homem Que Era O Super-Homem

Filme: O Homem Que Era O Super-Homem

Todos nós amamos heróis. Todos temos primeiras lembranças um tanto quanto embaçadas das primeiras vezes que os vimos. Eu lembro do Batman nas manhãs de sábado na televisão. Eu lembro do meu irmão mais velho me contando sobre o Wolverine e da primeira vez que vi o Ciclope. Do filme do Super-Homem tarde da noite e eu correndo com uma toalha em volta do pescoço imaginando voar. Lembro de ir até a biblioteca quando a minha irmã tinha de fazer algum trabalho para a faculdade e ficar na sessão infantil lendo os gibis velhos (alguns faltando páginas, outros riscados) do Homem-Aranha.

Os homens que eram super-homens e os falsos heróis no cinema hoje

Em 2004, Homem-Aranha 2 estreou nos cinemas. Nos meses que antecederam sua estreia, lembro-me de ir repetidas vezes à locadora alugar o primeiro filme, eu não me cansava de rever, mesmo a repetida lição de moral de que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Era tão impressionante quanto o filme do Superman tinha sido quando o assisti na televisão pela primeira vez aos 5 anos de idade. E então eu finalmente fui ao cinema e a Tia May eventualmente diz:

Ele reconhece um herói quando vê um. Existem poucos personagens lá fora, voando por aí daquele jeito, salvando velhas garotas como eu. E Deus sabe, crianças como o Henry precisam de um herói. Pessoas corajosas e altruístas, dando exemplo para todos nós. Todo mundo ama um herói. Pessoas se alinham por eles, torcem por eles, gritam seus nomes. E anos depois, elas vão contar como ficaram na chuva por horas só por um relance daquele que as ensinou como aguentar firme por um segundo a mais. Eu acredito que exista um herói em todos nós, que nos mantém honestos, nos dá força, nos enobrece, e finalmente permite que morremos com orgulho. Mesmo que às vezes temos de ser firmes, e desistir daquilo que mais queremos. Mesmo dos nossos sonhos.

Essa semana eu revi O Homem Que Era O Super-Homem, um filme sul-coreano de 2008, dirigido por Yoon-Chul Chung, que conta a história de um homem que dizia ser o próprio Super-Homem. Dessa maneira, ele passa o dia andando pelas ruas da comunidade onde vive, procurando por uma chance de ajudar quem quer que seja, desde senhoras carregando sacolas pesadas, até assaltos, entre outras. Todos o encaram como um homem louco, menos as crianças que gostam de ouvir suas histórias como o Superman.

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É curioso como um homem, sul-coreano, vestindo uma camiseta havaiana, consegue nos convencer de que estamos assistindo um filme do Superman. Nisso podemos destacar tanto a direção quanto a atuação. Jeong-min Hwang, no papel principal, tem em seu olhar, seu sorriso, e sua postura, os mesmos traços do Superman clássico que todos conhecemos e identificamos, tanto nos quadrinhos e desenhos animados, quanto em seus primeiros filmes encenado por Christopher Reeve. E ao mesmo tempo essa postura de super-homem é quebrada quando o vemos humano, se machucando ou brincando com as crianças, por exemplo. Nisso podemos afirmar que ele é sim de fato, louco, ou (e eu prefiro assim) dizer que é o Clark Kent nele. Desde a sua primeira cena no filme, onde ele (mais rápido que uma bala!) salva a jornalista que o acompanha no decorrer do filme, com uma pose clássica de Super-Homem, sabemos, este é o Super-Homem! Mas é claro, nós mesmos desconfiamos de que, bom, talvez ele não seja de fato o Superman, e essa é a grande questão da história.

O filme utiliza de muitas imagens fantásticas e líricas, pode-se dizer, para mostra como o SUPER do herói pode existir em uma pessoa aparentemente comum, aos olhos dos que acreditam, como na cena em que ele finalmente voa. Descobrimos duas tragédias na vida deste Super-Homem, e que uma delas aconteceu porque nenhuma pessoa quis se arriscar para salvar a vida de outras pessoas, e desta forma ele dedica sua vida a fazer o oposto do que aquelas pessoas fizeram com ele.

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Atualmente temos um Superman diferente no cinema. O novo homem de aço da DC/Warner não tem cores, não tem sorriso ou carisma, e ao invés disso ele veste seu corpo numa roupa escura, e seu rosto num semblante triste. A mãe (que se chama Martha) deste Clark Kent, diferente da Tia May daquele Peter Parker, ensina seu filho que ele não deve nada às pessoas deste mundo. Enquanto o novo Batman (com uma Martha como mãe também) segue o mesmo modelo triste e escuro. A motivação do Batman para lutar sempre foi um otimismo insano de que seus atos fariam do mundo um lugar melhor, como Grant Morrison sintetiza muito bem em Corporação Batman, quando Bruce Wayne conversa sobre a morte de seus pais com o Comissário Gordon:

Eu olhei para aquele buraco nas coisas tantas e tantas vezes, até machucar, Jim… E sabe o que eu encontrei lá? Nada…
… E espaço suficiente para conter tudo.

Mas este novo Batman se motiva pelo fato de que o mundo não muda e criminosos não acabam então ele precisa matar a todos. Um Batman niilista? Ok, mas, mesmo desta forma, não faz muito sentido. Talvez seja o reflexo de novos tempos como muitos fãs tentam argumentar. Talvez. Seria uma pena.

Eu por outro lado, gosto de acreditar que heróis são e sempre serão aquilo que a Tia May descreveu no segundo filme do Homem-Aranha e que encaixou perfeitamente como a explicação do porquê esses personagens significam tanto para mim, e para muitos. E que me mostrou que sim, aquele coreano de camisa havaiana é o Superman, e que não, estes novos batman e superman não são nem O Batman nem O Superman. Talvez seja uma questão ideológica (apesar de que os novos filmes da Warner são ruins também tecnicamente), e se for, que o novo filme da Marvel Studios, Capitão América: Guerra Civil consiga fazer o Homem-Aranha representar algo bom, algo como o que um herói deve ser mesmo em tempos difíceis, mesmo em novos tempos.

(Filme completo no YouTube)

QUADRINHO: A Playboy, Chester Brown

QUADRINHO: A Playboy, Chester Brown

Eu encontrei A Playboy acidentalmente quando procurava por gibis dos X-Men em um sebo em São Paulo. O que chamou muito a minha atenção, além da mão em primeiro plano indicando um ato obsceno e a mulher em segundo plano nos encarando fixamente, foi o pequeno nome em branco acima do título: Chester Brown.

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A primeira vez que li Chester Brown foi quando numa tarde preguiçosa no trabalho eu devorei seu livro Pagando Por Sexo, onde ele nos conta sobre sua experiência com prostitutas, e defende a legitimidade do sexo pago. Depois disso eu já li praticamente tudo que ele desenhou/escreveu, e poderia afirmar que me sinto como um amigo íntimo do autor/personagem, não fosse sua assombrosa frieza. Inclusive no prefácio de Pagando Por Sexo, o (meu outro amigo imaginariamente íntimo) legendário cartunista Robert Crumb também se mostra assombrado diante da frieza de Chester.

Mas esse laço com o autor, que também é personagem na maioria de seus livros, dá-se desde a primeira leitura de um de seus quadrinhos autobiográficos. Ele não nos esconde nada, e em contraste a isso, em todas as suas histórias ele está escondendo algo dos outros personagens. Dessa maneira, conseguimos entrar em contato com seus sentimentos mais profundos, e ainda assim o vemos como uma pessoa fria que não esboça nenhum tipo de reação emocional às pessoas ao seu redor.

Em A Playboy encontramos uma figura diabólica do Chester do futuro que nos leva até 1975 onde em uma igreja o jovem Chester, nos seus 15 anos de idade, está entediado e se lembra que no dia anterior tinha visto uma revista Playboy enquanto procurava por gibis na loja Bonimart.

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No dia seguinte ele vai até a loja para comprar a Playboy, depois volta para casa e se masturba, posteriormente se sentindo culpado e se livrando da revista. A partir daí se repete um ciclo de procura pela revista, masturbação, sentimento de culpa, terminando sempre com ele jogando a revista fora.

Desde a primeira vez que compra a revista, o jovem Chester se sente paranoico a todo momento, com medo de que alguém o encontre com a Playboy em mãos, e vergonha por estar fazendo algo que considera (porque consideram) errado e nojento. Dessa maneira, ele mesmo se considera errado e sente nojo de si mesmo. Em determinado momento ele nos revela que se sentiu culpado e estranho ao brincar com seus amigos, pois era o mais velho da turma e carregava aquele condenável segredo em silêncio.

Toda a paranoia que sente com a revista em mãos se torna grande alívio toda vez que se livra dela. E de novo e de novo ele vai crescendo e se livrando da revista todas as vezes. Uma das melhores cenas dessa repetição é quando ele decide se livrar da Playboy na lareira da sala, e seu irmão mais novo se senta ao sofá para assistir televisão. Chester continua sentado próximo à lareira como se brincasse com o fogo, quando na verdade estava queimando página por página da revista. Quase ao fim do filme que o seu irmão assistia, ele termina de queimar a última página, e então mais tarde ao se olhar no espelho percebe que o lado direito de seu rosto tinha uma mancha, como uma leve queimadura de sol. Essa divisão em seu rosto, com um lado manchado e outro não, é quase como uma síntese da história e de como o personagem se sente. Uma divisão entre certo e errado, adulto e criança, profano e sagrado, limpo e maculado.

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Chester cresce e passa a colecionar a Playboy após a morte de sua mãe (que o observa, condenando-o, em cima de uma nuvem no céu), tendo que se livrar de toda a coleção quando seu pai decide que eles vão mudar de casa. Depois, quando passa a morar sozinho, ele retoma a coleção, sempre dando preferência às edições antigas, principalmente as que já teve anteriormente, quando mais jovem. E então quando conhece uma garota e dá início ao seu primeiro namoro sério, mais uma vez se livra de toda sua coleção, para não ter nem de admitir que tem revistas Playboy, nem ter de mentir sobre isso para a namorada.

Ele descobre então, que só consegue manter uma ereção enquanto transa com sua namorada se imaginar que está transando com uma das garotas das capas das suas antigas playboys, e depois que sente mais prazer se masturbando do que fazendo sexo de verdade. Quando o namoro acaba ele retoma a coleção procurando pelas edições antigas novamente, guardando somente as fotos da garota de capa e não a revista toda.

A história é uma confissão honesta sobre a sexualidade do autor, fortemente ligada à revista Playboy, que mesmo quando adulto ainda continua influenciado pelos desejos sexuais da sua adolescência, também mantendo os mesmos sentimentos de vergonha, nojo e medo que sentia quando jovem, mesmo que em um nível menor conforme amadurece.

A capa, como dito no começo, que traz uma mão indicando o ato obsceno e uma gota branca, com uma mulher pelada em segundo plano, faz com que você tenha de ver o livro da mesma forma que o autor via as revistas Playboy, escondido. Acredite, eu tentei ler no metrô e na sala de aula e as pessoas ao meu redor me olhavam com estranhamento, nojo, medo e vergonha. O que talvez mostre que ainda em 2016, como em 1975 na adolescência do autor, ou em 1992 quando o livro foi lançado no Canadá (A edição que eu encontrei no sebo é da editora Conrad, de 2001), as pessoas encaram assuntos relacionados à sexo como um tabu, e não se discute ou, não conversamos sobre isso.