Filme: Gummo

Filme: Gummo

Life is beautiful. Really, it is. Full of beauty and illusions. Life is great. Without it, you’d be dead. (Tradução livre: A vida é Bela. Realmente, é. Cheia de beleza e ilusões. A vida é ótima. Sem isso, você estaria morto, Gummo, 1997).

Eu não sei se fiz uma boa escolha para estrear aqui no blog, mas, como foi dito em uma postagem aqui na página, temos o intuito de externalizar aquilo que assistimos, ouvimos ou lemos. Por isso,escolhi o filme Gummo, que assisti estes dias atrás e me despertou a necessidade de escrever sobre ele. Sabe aqueles filmes que a você assiste e fica por dias na sua cabeça? Esse é um deles. Tentarei passar para o papel as sensações que esse filme me causou.

Digo de antemão que Gummo foi feito para chocar e as mentes mais preparadas e principalmente os estômagos mais preparados podem ser pegos de surpresa. (confesso que não sou nenhum pouca preparada nos dois sentidos). Confesso que não é fácil digeri-lo,pois é um filme difícil (não sei o que vai ser desta resenha). Escrevendo-a, agora, lembrando e assistindo novamente algumas cenas, sinto uma náusea que faz meu estômago embrulhar.

gummo-movie-poster-1997-1020236356

O longa foi lançado em 1997, sendo o primeiro filme dirigido por Harmony Korine, mesmo autor de Kids. Sua estréia na direção com Gummo recebeu críticas negativas do público e dos críticos, mas,curiosamente, arrancou elogios de ninguém menos que o grande cinegrafista Jean-Luc Godard.

Gummo começa com a voz rouca de um garoto, que narra acontecimentos sobre um tornado (verídico) que devastou a cidade de Xenia, Ohio, nos Estados unidos. Durante a narração, várias cenas cabreiras que mostram os efeitos que o tornado causou a cidade, gravadas em vídeos amadores, vão passando…

No início, a partir dessas imagens, somos conduzidos às primeiras cenas, para conhecer as várias personalidades, as várias histórias, aleatórias, que permeiam o longa-metragem. Essas tiradas mostram, por exemplo, o que as pessoas fazem para matar o tempo inseridas em um ambiente pós-apocalíptico, procurando, talvez, por algo que faça sentido ou alguém para descontar toda a raiva sentida (e acumulada) por viver em uma cidade caótica e doente.

Diante disso, notamos que todos os personagens têm uma problemática, são crianças jogadas no mundo sem nenhum laço familiar, alguns são anões, outros são portadores de doenças ou albinos e, ainda, há um menino de 13 anos, mais ou menos, que, em particular, me chamou muita a atenção,já que ele anda sozinho, a esmo, com uma orelha de coelho pela cidade, com um Marlboro vermelho em mãos e um semblante sério e triste.

Gummo1

Nesse ínterim, entre todo o caos, a cidade Xenia nos é apresentada. Ela é uma cidade condenada e, consequentemente, os seus habitantes também. Podemos ver que o desastre não foi só material, por destruir uma cidade inteira, mas também psicológico, visto que nos deparamos com vários personagens que cometem atos imorais perante o olhar da sociedade, mas que são (quase) justificáveis considerando a circunstância em que vivem. Vemos, assim, cenas que vão desde caçar e matar gatos por hobby,a atitude – doentia – de dois meninos, que pagam para fazer sexo com uma menina portadora de síndrome de down até a reação dos personagens diante de uma situação que eles se deparam, como quando dois meninos invadem uma casa e encontram uma senhora que sobrevive com ajuda de aparelhos: Tummler, um dos meninos, desliga o aparelho e usa do discurso – para alguns um assunto polêmico, para outros um ato de amor – de que viver naquelas condições é algo mais triste que a própria morte. Pode ser chocante ver um adolescente com tal mentalidade, mas, para ele, em sua visão de mundo e o contexto em que ele está inserido, é apenas uma atitude racional.

Percebemos, então, que o sentido do filme é fazer com que o público se sinta o mais desconfortável possível, Korine joga todas essas situações na nossa cara e diz “lidecom isso, sociedade”.Por meio depersonagens estranhos demais e cenas incoerentes, se formos comparar com a realidade social, (mas que provém dela, porque podemos facilmente encontrar – ou imaginar – pessoas e situações como aquelas, na vida real) faz com que a obra de Korine se torne surreal, mas verossímil.

8

O criador filmou e dirigiu essa obra com uma equipe de não-atores, livres para ‘atuarem’ e darem vida aos seus papéis. O interessante, ainda, é saber que Korine raramente cortava as cenas gravadas.Com essa estratégia, o responsável por esse longa mergulha no submundo, na subcultura retratando, de forma crua, os mais diversos grupos sociais, como crianças abandonadas, skinheads, homossexuais, prostitutas, alcoólatras, etc.

Entre este amontoado de imagens, encontramos também resquícios simbólicos que nos levam à presença religiosa no filme, como algumas imagens de demônios aparecem aleatoriamente ao som de um metal pesado, enquanto uma portadora de problemas mentais diz para sua amiga que ela deve rezar.

Além disso, falando em metais pesados, a trilha sonora escolhida também tem o papel muito importante nessa montanha russa de sensações que é Gummo, a trilha vai do calmo, do feliz ao trash metal. As minhas preferidas são: Crying, de Roy Orbison e Everyday, de Buddy Holly, uma das mais calmas, porque, acredite, depois de tanto soco no estômago, ouvir uma música calma no filme é como estar assistindo no YouTube bebês fofinhos dando risada. Ah, e claro, Like a Prayer, da Madonna.

Enfim, acho que não sou mais capaz de escrever além disso sobre esse filme. No entanto, espero que este texto desperte a curiosidade em alguém e que assista e comente e acrescente algo a mais. Gummoé inspirador, é muito mais que um enredo sobre várias personagens, é sobre a sociedade, é sobre nós mesmos. Um filme daqueles que a gente leva para sempre.

  • Para quem interessar, tive como base para fazer a resenha, esse texto aqui (está em inglês, mas é de fácil compreensão).

 

 

Anúncios

Netflix: algumas dicas, parte II

Netflix: algumas dicas, parte II

Eu sei que vocês se lembram sobre a minha promessa de postar mais dicas de filmes disponíveis na Netflix, num post anterior, certo? Essa proposta rolou, porque algumas pessoas sempre me perguntavam: o que tem de legal para assistir na Netflix, rê? E, assim, de cara, é sempre difícil indicar algo, ainda mais quando não sabemos o gosto (referente ao gênero do filme) da pessoa. Então, a ideia é válida, para que as pessoas saibam que na plataforma tem sim filmes interessantes e tem sim filmes bons, além das séries, e, com tudo listadinho, cada pessoinha encontrará os longas de sua preferência.

netflix-3-1200x630-c
É sempre um ótimo programa, não é?

Para fazer isso, precisei, primeiramente, selecionar os títulos que eu colocaria aqui como opção. As escolhas não são imparciais, elas estão carregadas (muito carregadas) da minha preferência e da minha experiência com determinados filmes, por isso, a maior lista de todas, conforme o gênero proposto pela Netflix, é o bendito drama. Quem me conhece sabe o quanto eu gosto de dramas (desde na questão artística, quanto na questão vivência), então foi difícil fazer uma lista reduzida, mas espero que compreendam.

  • Clube de compras Dallas

Sabe aquele filme que parece que o ator nasceu para interpretar o personagem? Então, Matthew McConaughey (aquele ator das comédias românticas), com direção de  Jean-Marc Vallée, interpretou tão bem o Ron Woodroof que chega ser sofrível assisti-lo em cena, com seus 20 quilos a menos. O homem, que é caubói, sofre com a doença mais temida em 1985, a Aids. Nessa época, em acreditava-se que a doença era exclusividade de homens gays e usuários de drogas injetáveis. Surge, então, um personagem machista, homofóbico e preconceituoso, que começa a contrabandear remédios para conseguir manter sua vida. Inicialmente, seu propósito é ajudar a si mesmo, mas, com o tempo, ele começa a revende-los à outras pessoas soropositivas e, com isso, cria o Clube de Compras Dallas. Com isto, alguns aspectos vitais de sua trajetória se tornam evidentes, como o seu ativismo não proposital e sua luta contra as indústrias farmacêuticas que distribuíam drogas mortais para os doentes, com ajuda de uma transexual Rayon, interpretada por Jared Leto.

Penso que, além das atuações geniais, o filme merece ser visto por suscitar uma série de questões problemáticas, desde do tratamento da Aids, como lidar, etc., até as relações intersociais que mantemos todos os dias.

Resenhas: cinemaqui e hopeinlove

Outros títulos que se assemelham em temática: 50% (nesse filme, o personagem tem câncer e o roteiro é lindo!), On the road (passa-se em uma época em que muita coisa é liberada, quase como acontece no Compras Dallas), Discurso do Rei (também é uma ficção-biografia e também foi indicado ao Oscar), Frida (também é uma biográfico e maravilhoso), O jogo da Imitação (também é baseado em fatos, também foi indicado ao Oscar), Não estou lá (GRANDE produção biográfica sobre o MARAVILHOSO Bob Dylan), Piaf: um hino ao amor (Possivelmente, quem assistir, vai chorar do início ao fim, de tão lindo que é e por ter um roteiro muito bem trabalhado, sobre a emblemática Piaf), Coco antes de Chanel (Atuação: Audrey Tautou, biografia bem construída, no filme), Amadeus (produção maravilhosamente desenvolvida sobre a história da vida de MOZART. Nem preciso falar sobre a trilha sonora, certo?).

  • Educação (An Education)

Eu amo esse filme. A temática é o velho discurso que envolve o dilema sobre o verdadeiro banco de aprendizado: escola ou a vida, mas, apesar de ser um tema batido, temos a maravilhosa Carey Mulligan, que nos encanta, que nos leva e nos amarra na trama. Uma moça ingênua, que só estudava e nunca saia, sonhava com a França e com homens românticos. Toda seu ‘mundo’ se transforma, quando ela se apaixona pelo charmoso David (Peter Sarsgaard). Homem mais velho, com mais experiência que ela, que a envolve em sua vida confusa. Não vou falar sobre o desfecho – que é muito lindo – porque as pessoas não gostam de spoiler.

O que posso dizer é: super me identifico com a personagem, a trilha sonora e a fotografia são ótimas, o elenco e o figurino foram composto com esmero e se passa em Londres.

Resenha: moviesense

Outros títulos: pensando no lance adolescente-problemas-fase-difícil-com-filmes-ótimo-para-ver, temos o filme Inquietos (é bem adolescente, mas é uma graça de belo. A personagem tem câncer terminal, mas de um jeito bem diferente – e melhor – que a Culpa é das estrelas), Em busca por uma nova chance (também é interpretado pela linda Carey Mulligan, e é sobre o amor entre dois jovens: o menino morre, a mina fica sozinha e grávida. O legal é acompanhar a história do casal, em flashback, e ver, em tempo ‘real’ o drama que a garota sofre para convencer os pais do rapaz que ela carrega o neto deles), Se enlouquecer não se apaixone (é lindo e tem o Zach fofíssimo Galifianakis. A história é sobre um garoto que acaba internado na ala psiquiátrica, junto com adultos, e acaba se apaixonando por uma garota bem perturbada), Bling Ring (filme da legal Sofia Copola, que conta a história de uma gang de adolescentes – que existiu mesmo – que assaltam as casas das celebridades de Hollywood. A trilha sonora é bem boa), Eu matei minha mãe (uma resenha legal aqui. É um filme que discorre sobre uma relação entre mãe e filho-homossexual. Ótimas atuações e é intenso), Preciosa (um filme sobre a vida e problemáticas de uma garota negra, de 16 anos, ambientada em 1987, que era abusada pela mãe e violentada pelo pai), Vantagens de ser invisível (indie, bonito de ver, e é sobre um garoto que se sente deslocado, que não tem facilidade para interagir até que ele encontra os amigos ideais para ele). Amor a distância (não é tão adolescente, porque os personagens são mais velhos, mas é tão lindinho fofinho delícia, como uma temática tão comum para os jovens…)

  • Onde os fracos não tem vez (No Country for Old Men)

Meu preferido dos Irmãos Coen. Sem sombra de dúvida. Penso, inclusive, que eles quase chegaram à genialidade com essa produção. Tenho quase uma reverência ao Javier Bardem em sua atuação como Anton Chigurh, um assassino que mata muito e sabe matar e tem uma arma muito muito engenhosa.

Não tem como, em poucas palavras, dizer o quanto o jogo de imagens, com o manuseio da câmera, é muito bem trabalhado, como a mente doentia é extremamente explorada e exposta, por meio do personagem de Bardem, ator maravilhoso que dá ao personagem características impecáveis, como, o jeito de antar, o olhar objetivo, os movimentos, a voz, o cabelo…, o filme tem um humor peculiar.

O filme, localizado no Texas, mostra a trajetória de um assassino (que não é o personagem principal, mas é aquele que rouba a cena), na década de 80. Llewelyn Moss (Josh Brolin), encontra um traficante de drogas no deserto e resolve pegar uma valise cheia de dinheiro que foi encontrada no local. Logo, Anton Chigurh, o tal assassino sem piedade, é enviado para matar Moss e pegar o dinheiro. Entretanto, para chegar em Moss, o psicótico Chigurh precisará passar pelo xerife local, Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones).

giphy (2)

O longa é uma baita tensão, com uma trama profundamente imanente e uma metáfora de transcendência. Não tem como falar muito sobre essa obra. Mas, quem puder, super assista.

Resenhas: discutindocinema, ccine10 e contracampo

Filmes quase semelhantes: Biutiful (é denso pra caramba, não tem muito o lance de assassinato e sangue, mas serve para transtornar. É mais uma coisa sobre pós-morte. O delicioso deste filme é poder deitar e ver um cara que manda muito bem na atuação: Javier Bardem-deuso), Millennium: Os homens que não amavam as mulheres, O silêncio dos inocentes (o personagem principal é bem psicopata), Precisamos falar sobre o Kevin (GENIAL de bom, não consigo nem falar o que é melhor nesse longa. Tem a Tilda!), Old Boy (O melhor da trilogia da vingança), Entre segredos e mentiras (filme todo loucão, com o meu mais maravilhoso Ryan Gosling e Kirsten Dunst), Donnie Darko (não é sobre um assassinato, mas é sobre um garoto que sofre alguns transtornos psicológicos).

  • Tudo sobre a minha mãe

Um filme espanhol, de 1999,  dirigido pelo grandioso Pedro Almodóvar. O filme lida aborda temas complexos como a AIDS, o travestivismo, a identidade sexual, a religião, a fé e  até mesmo o existencialismo.

A trama conta com personagens femininos, mulheres super fortes, que enfrentam lindamente o machismo, o preconceito e etc, por meio do seguinte enredo: No dia de seu aniversário, Esteban (Eloy Azorín) ganha de presente da mãe, Manuela (Cecilia Roth), uma ida para ver a nova montagem da peça “Um bonde chamado desejo”, estrelada por Huma Rojo (Marisa Paredes). Após a peça, ao tentar pegar um autográfo de Huma, Esteban é atropelado e termina por falecer. Manuela resolve então ir de encontro ao pai, que vive em Barcelona, para dar-lhe a notícia, quando encontra no caminho o travesti Agrado (Antonia San Juan), a freira Rosa (Penélope Cruz) e a própria Huma Rojo.

Os cenários do filme trazem o estilo de Almódovar, além da prova do amor do diretor pelas mulheres, que chega ao ponto de subtendermos que ‘os homens não são necessários’ (El País).

O que antes era excessivamente bizarro e cafona dá lugar à problemas do mundo moderno revestidos de uma nova postura, não que Almodóvar tenha perdido seu fetiche pelo bizarro e pelo cafona, porém o que vemos aqui é seu lado humano em personagens cheios de sensibilidade (Ebah).

Resenhas: contracampo, hojeviviumfilme

Filmes com alguma semelhança: A pele que habito (mesmo diretor), A escolha de Sofia (personagem principal é mulher e de uma força gigantesca), Histórias Cruzadas (personagens principais são mulheres e negras, com um enredo envolvente), A troca (mulher, mãe, Angelina Jolie: pura emoção de chorar).

  • Adam

Faz muito tempo que vi esse filme e até hoje ele me encanta. Foi surpreendente vê-lo disponível na Netflix, porque, quando eu quis assisti-lo, foi muito difícil para conseguir o download. Agora é facilzinho.

O longa-metragem é sobre o Adam (Hugh Dancy, que destrói na atuação), um portador da Síndrome de Asperger, que perdeu o pai recentemente. Paralelamente, ele desenvolve um relacionamento com sua vizinha, Beth (Rose Byrne). Com ela, os espectadores aprendem um pouco mais sobre a síndrome, de maneira bem didática, clara e sensível.

Adam600

adam-movie-shoot_mg_92031

filmes_574_Adam 10

Algumas informações sobre filme e a síndrome: trabalhosgratuitos psicologacuritiba

Filmes que se aproximam, por conta do romance-não-tão-leve-assim: Mesmo se nada der certo (lindo!!), Entre irmãos (A mulher é casada, o marido vai pra guerra. A família acha que ele morreu, a mulher tem um romance com o cunhado. O marido-da-guerra volta da batalha!), Azul é a cor mais quente (não gosto desse filme por vááários fatores, mas acho que o pessoal precisa assisti-lo, para ver esses váááários fatores e problematizar), Como não perder essa mulher (o filme, inicialmente, parece bobo, mas a discussão que ele trava, com o lance de homens x pornografia, é muito válida), Direito de amar (dirigido pelo Tom Ford, história de dois homens apaixonados. Fotografia e trilha sonora impecáveis), Peixe grande (Tim Burton), Um conto chinês (filme ótimo!), Shame (um dos filmes que já vi que tem a cena de sexo mais intensa e sofrida, além de ter um nu frontal do maravilhoso Michael Fassbender e abordar temas como vício em sexo e incesto), Minha vida sem mim.

  • Paris, Texas

Paris, Texas conta a história de Travis, um homem que, depois de estar desaparecido por mais de quatro anos, é reencontrado pelo irmão Walt num hospital na região desértica do Texas, próximo à fronteira com o México. Maltrapilho e com amnésia, é levado por Walt para a sua casa em Los Angeles, onde reencontra Hunter, seu filho de sete anos que foi abandonado pela mãe, Jane. Inicialmente estranhos, Travis e Hunter iniciam uma reaproximação que culmina num a grande amizade e também no desejo secreto de reencontrar Jane e reconstruir sua verdadeira família.

O bom do filme, além da fotografia, trilha sonora, enquadramentos e atuação, é a discussão sobre o papel do pai numa sociedade burguesa-paternalista.

O filme é lindo e super vale a pena vê-lo, desde que não se deixe iludir pelo machismo, por fazer parte do contexto sócio-histórico e ideológico da época, retratado no filme (a mãe abandonar o filho é loucura, enquanto que o pai, ao abandonar o filho, é visto como sofredor, etc.).

Resenha: telacritica

Filmes com alguma semelhança: Deus da carnificina (duas famílias que brigam por seus filhos, com um enredo que não muda de espaço, como Dogville e até mesmo Oito odiados), Álbum de família (com Meryl Streep como matriarca do grupo familiar), Ida (filme independente, ganhou Oscar, e mostra o percurso de uma mulher, criada em um orfanato e prestes a entrar para a ordem, descobre segredos de seus antepassados, na Polônia, durante a ocupação Nazista).

  • Antes da meia-noite

trechos-de-antes-do-amanhecer-antes-do-por-do-sol-e-antes-da-meia-noite-1370037807190_300x420O último filme da Trilogia do Antes, de Richard Linklater, que trabalha com a temática relacionamentos. Com vista nisso, o trabalho mostra Celini e Jesse (Julie Delpy e Ethan Hawke), dois jovens que tiveram o seu primeiro encontro num comboio entre Budapeste e Viena (Antes do Amanhecer, 1995). Nove depois, ao visitarem Paris (Antes do Anoitecer, 2004), ambos se reencontrarem, em um momento totalmente diferente que o anterior. Por fim, em Antes da meia-noite (2013), 18 anos após o primeiro encontro deles, Celine e Jesse aparecem casados, com duas crianças e de férias em Messinia, Grécia. Durante todo esse percurso apresentado, podemos ver de pertinho o desenvolvimento dos seus laços, a construção de uma vida, o convívio cotidianamente, os encontros e os desencontros do casal. No último filme, por exemplo, vemos a realidade do dia-a-dia das suas vidas e, apesar de ainda se amarem, questionam os motivos pelos quais se aproximaram.

Qualquer pessoa que se preze, que tenha tempo e disposição, precisa assistir esses filmes, não só por serem maravilhosos, mas por marcarem uma nova abordagem do tema ‘relacionamentos’.

Até hoje um tipo de histórias de amor predomina no cinema: o amor romântico. Aquele em que a mocinha inocente conhece o amor de sua vida, e após alguns empecilhos eles descobrem que são feitos um para o outro e vivem felizes para sempre. Mesmo com este tipo de história sendo predominante, nos últimos anos tivemos filmes como “500 Dias Com Ela”, “Amor” e até mesmo “Frozen” que fogem desse padrão e mostram o amor de uma maneira mais próximo da realidade. Mas poucos filmes conseguiram retratar o que o amor realmente é quanto a “Trilogia do Antes”, de Richard Linklater (altamenteacido).

Além disso, o longa é resultado de uma dedicação sem tamanho, do diretor e dos atores, pois sua produção foi realizada com verdadeiros 9 anos de intervalo entre uma filmagem e outra. Tudo isso para dar uma verossimilhança e um aspecto real do relacionamento do casal, até porque, é visível o amadurecimento e o envelhecimento natural de cada um dos atores.  Por isso, a trama se tornou uma das mais belas e reflexivas histórias de amor do cinema contemporâneo, já que cada encontro e cada filme têm sido marcados pela idade, maturidade e necessidades dos protagonistas que, se antes eram pautadas pela impulsividade e necessidades românticas, tornaram-se cada vez mais dominadas pelo pragmatismo.

Não preciso dizer que eu amo esses atores e seus respectivos personagens, certo? Guardo com um carinho todo especial os sentimentos que essa obra despertou em mim, além da expectativa, da espera, da paciência, que tive entre uma estreia e outra.

Sinto dizer que, na Netflix, só o último filme está disponível para acessoApesar disso, vale total o esforço de procurar os dois filmes anteriores e assisti-los, para seguir a ordem da obra certinho.

Resenhas: cinemadetalhado, cinema.uol e uai

Filme que tem uma temática muito próxima: Apenas uma vez (relacionamento, abordagem bem contemporânea e linda, com uma trilha sonora impecável).

  • Tomboy

Amo de paixão filmes com atuações infantis. Ver a molecada dando show de atuação é gratificante pra caramba. Principalmente, quando temos temas polêmicos que exigem uma caracterização, uma performance mais forte. E é exatamente isso que encontramos em Tomboy.01
Selecionei as imagens que colocarei no post e já comecei a fungar, querendo chorar mesmo, porque, galera, é isso que o filme é: um baita soco no estomago.

O filme foi escrito e dirigido pela francesa Céline Sciamma (Garotos não choram). Ele narra a história de uma menina de dez anos, Laure (Zoé Héran), que se comporta de uma maneira, que relacionamos ao gênero masculino. Ela é dedicada à mãe, ao pai e à irmã menor, Jeanne (Malon Levana). Devido ao seu comportamento, suas roupas e gestos, Laure começa a viver duas vidas: dentro de casa é a menina, enquanto fora é um menino.

Tudo no filme é produzido e abordado com uma delicadeza e calma sem igual, sem querer polemizar, mas apresentar um assunto que não costumamos discutir com frequência: a descoberta da sexualidade na pré-adolescência.

Resenhas: cinepipocacult e pitangadigital

Filmes com alguma semelhança: Albert Nobbs (não é criança atuando, mas a temática é muito próxima) e A menina no país das maravilhas (uma criança que atua lindamente a personagem Phoebe, uma menina que se esconde em suas fantasias, até chegar ao ponto de confundir a realidade com seus sonhos. Trailer). Beasts of no Nation (filme original Netflix, que narra a história e percurso de um menino, separado da família durante a guerra civil africana, e que se torna um garoto-soldado, ao lado de mercenários. Um baita golpe  na alma esse longa).

Um beijo e um queijo e até a próxima e é isso aí.

Re

Netflix: algumas dicas, parte I

Netflix: algumas dicas, parte I

Todo mundo deve concordar comigo que, enquanto a nossa internet é ilimitada, a linda Netflix é uma das coisas mais bonitas que inventaram, para os amantes da sétima arte, certo?

O problema, para alguns que utilizam esse provedor global de filmes e séries, é encontrar, entre tantas opções, algo para assistir. Pensando nisso, vou criar numa lista de filmes que já assisti, que gosto e que estão lá só esperando o clique de vocês, tudo bem?

  • Bonequinha de Luxo

Filme estrelado por Audrey maravilhosa Hepburn que interpreta uma garota de programa nova-iorquina que quer casar-se com um milionário. Uma personagem inocente, mas ambiciosa, que toma seus cafés da manhã em frente à famosa joalheria Tiffany’s, na intenção de fugir dos problemas, por ficar próxima aos diamantes. Seus planos mudam quando conhece Paul Varjak (George Peppard), jovem escritor, com quem a mulher se envolve. Apesar do interesse em Paul, Holly reluta em se entregar a um amor que contraria seus objetivos de tornar-se rica. O filme é baseado em um livro com o título original Breakfast at Tiffany. O destaque desse filme concentra-se na atuação da Audrey Hepburn, porque ela se entrega de tal maneira à interpretação, que consegue mostrar ao telespectador uma jovem extremamente doce e carismática, com um jeitinho sonhador, confuso e engraçado.

boneq

Uma boa resenha sobre o filme, você encontra em leitoresdepressivos

Se vocês gostam de filmes clássicos, na Netflix tem títulos como: Janela Indiscreta, Johnny & June, Um corpo que cai, Thelma & Louise, A onda, Um drink no Inferno, Psicose, Ladrão de Casaca, Aconteceu naquela noite, Juventude Transviada, Touro Indomável, O sol é para todos, Joe Kidd, Três homens em conflito, Perseguidor Implacável, O Grande Gatsby (de 1974).

  • Manhattan

Para quem gosta do Woody Allen, a Netflix disponibiliza alguns filmes do diretor. O meu preferido dele é Manhattan, pois mostra o cuidado visual com que foi filmado, com destaque à magnífica fotografia de Gordon Willis, que filma as sombras com uma incrível beleza, além de que o filme tem a qualidade de ser um Film Noir. O longa se desenvolve em torno de um roteirista de televisão (Isaac, personagem do Woody), que está divido entre a namorada, de 17 anos, e um romance com a amante do melhor amigo, o que suscita, em Isaac, várias questões existenciais, como a famosa pergunta: “Por que vale a pena viver?”, que leva à resposta do personagem de Woody Allen citando “Groucho Marx, Joe Di Maggio, o segundo movimento da sinfonia ‘Júpiter’, de Mozart, Louis Armstrong, ‘A Educação Sentimental’, de Flaubert, os filmes suecos, Marlon Brando, Frank Sinatra, as maçãs e peras pintadas por Cézanne, os caranguejos do restaurante Sam Wo e o rostinho de Tracy”. Tudo isso na cidade de Nova Iorque.

Boas resenhas sobre o filme: ajanelaencantada e planocritico

Vocês ainda podem encontrar outros títulos desse diretor, como: Para Roma com amor (eu não gosto desse filme, mas vale ver para criticar, riso), Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (que é ótimo! Depois de Manhattan, é meu preferido!), Você vai conhecer o homem dos seus sonhos, O escorpião de Jade, Blue Jasmine (aquele que venceu um dos Oscar, recentemente), Amante a domicilio (que tem uma ideia muito boa pro enredo, sem contar que o protagonista é maravilhoso), Meia-noite em Paris (que é bonzinho) e um documentário sobre ele: Woody Allen: um documentário.

  • Taxi Driver

Taxi Driver, depois do Poderoso Chefão, está entre minhas preferências de filmes estrelados por De Niro. É um baita clássico, com cenas geniais, que até faz parte da cultura popular ocidental.

O filme, de 1976, filmado por ninguém menos que Martin Scorsese, gira em torno da trama de um ex-fuzileiro (interpretado por Robert De Niro) que busca um sentido para a sua vida, caindo, por isso, em questões quase obsessivas, como as tentativas falhadas de criar laços: Primeiro por uma moça que ele leva para assistir um filme pornográfico, depois por um candidato politico. Entretanto, as relações interpessoais do personagem não funcionam muito bem.

AC-N-taxi-driver-taschen3

Taxi_Driver

taxi-driver-1976-de-martin-scorsese

Resenhas sobre o filme: conversasdecinema e cafecomfilme

  • Último tango em Paris

Não preciso dizer que gosto do Marlon Brando, não só pelo seu jeito ‘anarquista’ para atuar, mas também pelo ótimo resultado em Poderoso Chefão e no filme Último tango em Paris (filme gravado concomitantemente com as filmagens do Poderoso Chefão).

O filme é um drama erótico franco-italiano de 1972 gravado em 35 mm, dirigido por Bernardo Bertolucci (o mesmo de The Dreamers). O enredo se baseia em Paul (Brando), um americano de meia-idade em Paris, que se encontra, num apartamento anunciado para aluguel, com uma jovem parisiense de espírito livre, Jeannie (Schneider). Sem se conhecerem, começam a ter relações sexuais no local. Paul exige que eles não troquem qualquer tipo de informação um do outro, nem mesmo seus nomes e, depois disso, os encontros se tornam frequentes até que eles se desencontram, nesse relacionamento doentio, desiludem-se  e rola uma tragédia. O lance do filme, que eu particularmente gosto, é notar como Brando desenvolve personagens (Paul x Corleone) tão distintos, num mesmo período. Dizem que, assim como em filmes anteriores, o ator se recusou a decorar suas falas em várias cenas. Ao invés disso, ele escrevia as falas em cartazes espalhados pelo set de filmagem e deixava o problema de não enquadrá-los na câmera para Bertolucci e Storaro. Outro destaque é a tão famosa – e polêmica – cena de sexo anal que rola em determinado momento do longa, que vale a pena ver para problematizar.

  • Trainspotting

Filme de 1996, foi baseado em livro homônimo de Irvine Welsh, com roteiro de John Hodge narra a história sob a perspectiva de Mark Renton (Ewan McGregor), um jovem escocês que, para escapar da vida entediante e frustrante de sua cidade, se entrega ao uso da heroína ao lado dos amigos Spud (Ewen Bremner), Lizzy (Pauline Lynch), Sick Boy (Jonny Lee Miller) e Tommy (Kevin McKidd).

Não gosto muito desse filme (acho que sobre a temática tem alguns outros melhores, como Enter the Void, do Gaspar Noé – já que é pra ser pesado, vamos ser pesado, né?), mas acho que tem pessoas que se interessariam em saber que ele está disponível na Netflix.

Trainspotting-capa

Resenhas bem desenvolvidas: obviousmag e cinemaedebate

  • Django

Um dos meus preferidos do Tarantino, Django está todo lindo e novinho na Netflix!  Filme de 2013, é ambientado no sul dos Estados Unidos dois anos antes da Guerra Civil. Estrelado por Jamie Foxx, como o Django, o longa traz como personagem um escravo cujo histórico brutal com seus ex-senhores o coloca cara a cara com o caçador de recompensas alemão, dr. King Schultz (Christoph Waltz – o mesmo que interpreta o general alemão, em Bastardos Inglórios).  Django, em determinado momento, é ‘livre’ pelo alemão e juntos vão atrás do  único objetivo do ex-escravo: encontrar e resgatar Broomhilda, a esposa que ele havia perdido para o tráfico de escravos há muito tempo. A busca deles acaba levando-os até Calvin Candie (Leo DiCaprio), o proprietário de Candyland. Explorando a fazenda sob falsos pretextos, Django e Schultz despertam a desconfiança de Stephen (Samuel L. Jackson), o fiel escravo doméstico de Candie, o que desencadeará algumas ações que culminarão em um final grandioso.

O que posso falar é: o filme conta com uma trilha sonora genial, fotografia linda, atuações GRAN-DE-O-SAS (Leo até cortou a mão em uma cena, com cacos de vidro, mas, mesmo assim, continuou atuando lindamente, usando seu sangue para incrementar uma cena do janar!). Figurino e roteiro maravilhosos. E ainda traz um Tarantino sendo explodido.

Django-Livre

Além do Django, é possível ver outros filmes do diretor, como o Kill Bill (o 1º e o 2º), Pulp Fiction, Um Drink no Inferno, Bastardos Inglórios e o Cães de Aluguel (WOW!!!)

Resenha: UOL

  • Drive e O Profissional

No gênero ação, vocês poderão encontrar filmes como Jogos Vorazes (visto com um olhos atentos para a ambientalização, o filme é ótimo), Clube da Luta, V de Vingança, Matriz (todos eles), Into the Wild (baita fotografia e trilha sonora, sem contar a atuação do mocinho), Star Wars, Scarface (Al Pacino em toda sua glória), Invasão a Casa Branca, Senhor dos Anéis, O Hobbit IOs Irmãos Grimm (não faz muito jus à história dos irmãos, mas é um filme legal por conta das cenas do gênero fantástico-maravilhoso), Os indomáveis, Cão de briga (é super legal ver as cenas de luta protagonizadas por Jet Li), e, entre eles temos dois filmes que merecem destaque: Drive e O Profissional.

O primeiro, um filme estadunidense de 2011, dirigido por Nicolas Winding Refn, tem como protagonista o MARAVILHOSO DEUSO Ryan Gosling.

drive-31Durante o dia, o motorista, personagem do Gosling trabalha como mecânico e dublê automobilista de filmes de Hollywood, mas, no período noturno, ele se dedica como piloto de fuga para bandidos e mafiosos. É também vizinho de Irene (Carey Mulligan, a maravilhosa de Educação), uma garçonete que é casada e tem um filho com um presidiário. Ao aproximar-se da moça e da criança, o maravilhoso-drive começa a criar um forte relacionamento com ambos até a volta do marido de Irene. Percebendo a situação difícil de ex-preso, o protagonista se dispõe a ajudá-lo num assalto que pagaria sua dívida aos criminosos. Só que o golpe dá errado, o que coloca em risco as vidas do motorista, Irene e seu filho, o que faz com que o bom-moço-com-cara-de-anjo se transforme e vire um baita dum lutador-matador-pancadaria-mesmo.

drive-filme-5

Resenha legal: pitangadigital

O segundo filme, O profissional, no Netflix é a versão não-estendida, mas que, mesmo assim, é genial de assistir.

O filme conta com duas atuações primorosas: Nathalie Portman (com 11 anos), na personagem de Mathilda e o Jean Reno, que interpreta o quase paternal Leon. Leon é um assassino profissional que conhece Mathilda, uma garota de doze anos de idade que vive com a sua família “problemática”. Um dia, a família da garota é assassinada e ela se refugia com Léon e tenta convencê-lo a lhe ensinar seu “ofício” para que ela possa vingar a morte do irmão. Em determinado momento, Leon mata um dos policiais envolvidos na morte da família de Mathilda, o que desencadeia uma perseguição enfurecida dos colegas desse policial. Este matador profissional arrisca sua vida numa tentativa de escapar de uma cilada e salvar Mathilda.

É um daqueles filmes que nos fazem soluçar de puro desespero-melancolia no final, sabe?

Resenhas: pontojao e apogeudoabismo

  • Melancolia

Melancolia (2011) é um longa-metragem de um dos meus diretores contemporâneos favorito: Lars Von Trier. Pelo nome, penso que vocês já imaginam que esse não é um filme que te fará rir, porque não é mesmo. Quando Lars o produziu, a intenção era de fazer uma continuação para a futura trilogia advinda do filme Dogville, mas, devido ao período de uma grande depressão do diretor, ele optou para filmar essa grande obra melancólica.

Esse filme é extremamente lindo, tanto no conteúdo, quanto no efeito visual: “Melancolia, começa em ultra slow motion, num prelúdio do que acontecerá mais adiante. O resultado é um filme visualmente muito elaborado, com inspiração em pinturas pré-rafaelitas e alemãs, música de Beethoven (como a “Nona sinfonia“) e traduzindo a habitual visão niilista do diretor sobre a vida e as relações humanas. Não escapa nem o destino do planeta” (G1).

Resenhas/análises/artigo sobre o filme: pepsic, virgula.uol, espacoacademico escrevalolaescreva

  • Smashed

É um filme que eu vi faz um tempo, mas encontrei por acaso na internet. É uma produção com grande potencial, pois traz, com uma abordagem bem sutil, os problemas que pessoas com vício em bebidas alcoólicas enfrentam e o que podem fazer para superá-lo. Parece um enredo batido,  porém a direção, a fotografia e os atores contribuem para que o filme seja um tanto quanto ‘inovador’ nessa temática.

A trama gira em torno de um casal composto por Kate (Mary Elisabeth Winstead), uma jovem professora primária e Charlie (Aaron Paul – o Jesse maravilhoso do Breaking Bad). A primeira vista,a vida deles parece nos eixos, mas ao observarmos com atençãoé possível percebermos as graves falhas no relacionamento dos dois. Kate e seu marido são jovens boêmios que celebram a vida de forma exagerada noite após noite. Até um dia em que ela acorda, na rua, sozinha, sem recordar do dia anterior, por ter passado a noite fumando crack. Então, ela resolve se livrar do vício, só que o marido não aceita acompanhá-la e a problemática se instala!

Resenhas: criticadaquelefilme e cinepop

  • Jeff e as armações do destino

Desde How I met your mother, eu adoro o ator Jason Segel (O Marshall da série). Jeff (Jason Segel) é um grandalhão de trinta anos, mas que ainda mora com a mãe (Susan Sarandon), onde ele passa o dia fumando maconha, assistindo TV e ponderando sobre a vida. Ao receber uma ligação por engano à procura de um Kevin, ele acredita que isso possa estar relacionado a uma série de eventos que são mais do que apenas coincidências. Em busca de um sentido para essa ordenação, Jeff encontra seu irmão Pat (Ed Helmes) e o ajuda a descobrir se a cunhada (Judy Greer) está tendo um caso. Enquanto isso, Sharon (a mãe) tenta lidar com misteriosas mensagens instantâneas de um admirador secreto no escritório onde trabalha (poseseneuroses).

O legal do filme é a proposta de demonstrar a incapacidade de alguns homens em se comportarem como adultos. Não é inovador, certo? Mas o Jason coube certinho no personagem e deu um charme legal pro filme.

Resenhas legais: resenhafilme e ovodefantasma

Nessa linha de comediazinha bonita de ver, temos ainda, na Netflix: As vantagens de ser invisível, Little miss sunshine, About time, A delicadez da amor (com a deusa Audrey Tautou), Procura-se um amigo para o fim do mundo (MARAVILHOSO!), Intocáveis (não é bem uma comédia, mas você ri e chora na mesma proporção nesse filme francês), Juno, Jovens adultos, Amar… não tem preço (também com a Audrey), O terminal, Os acompanhantes, Por uma vida melhor, De caso com o acaso.

  • O verão de Skylab

Para fechar essa primeira parte, bem bem genérica, de ‘dicas na Netflix’, sugiro que vocês assistam O verão de Skylab.

De modo geral, esse filme traz a história de Albertine. Em julho de 1979, ela era uma menina de dez anos, quando os seus parentes se reunem na casa de campo da família para celebrar o aniversário da avó. Para completar, naquele verão, todos acreditavam que um pedaço do Skylab – estação espacial da NASA que se desintegrou quando sua órbita decaiu – irá cair nas suas cabeças.

Qual é a graça desse filme? Vou dizer que: Sabem a Céline, da trilogia “Antes do amanhecer”, interpretada pela Julie Delphy? Então, essa maravilhosa atriz é também roteirista e diretora excepcional. Tão genial que, além desse que tem disponível na Netflix,   ela também desenvolveu  o cultuado filme Dois Dias em Paris, de 2007 .O Verão de Skylab, é um  projeto bastante pessoal, pois a francesa resgata suas memórias de infância, reúne um enorme elenco e realiza um filme leve e cheio de graça sobre uma família. A fotografia e figurino e diálogos e elenco e toda a produção do filme são lindos de se apaixonar. Sem contar que é possível ver, nesse filme, a cultura familiar francesa e, de certa forma, identificarmo-nos com o nosso próprio meio social-familiar, mesmo com nosso jeito brasileiro (e até mais conservador que a família do filme, pensando que caracteriza a década de 70-80, na França) e singularidades, sempre teremos as memórias infantis, que guardam o primeiro beijo, a primeira dança, os momentos com a família reunida, as brigas,  discussões políticas, os primos infernais…

Resenhas: folha.uol e cinemacomrapadura

Pensei em fazer mais três etapas desta ‘lista’ de filmes: dramasuspense/românticos/brasileiros e séries. Lembrando que isso tudo é só opinião, eu posso achar legal, vocês não e etc., mas acho que o lance mesmo é indicar, para que vocês vejam e depois podemos até conversar sobre os filmes. Legal né? :*

Aproveitem o feriado!

Filme: O Homem Que Era O Super-Homem

Filme: O Homem Que Era O Super-Homem

Todos nós amamos heróis. Todos temos primeiras lembranças um tanto quanto embaçadas das primeiras vezes que os vimos. Eu lembro do Batman nas manhãs de sábado na televisão. Eu lembro do meu irmão mais velho me contando sobre o Wolverine e da primeira vez que vi o Ciclope. Do filme do Super-Homem tarde da noite e eu correndo com uma toalha em volta do pescoço imaginando voar. Lembro de ir até a biblioteca quando a minha irmã tinha de fazer algum trabalho para a faculdade e ficar na sessão infantil lendo os gibis velhos (alguns faltando páginas, outros riscados) do Homem-Aranha.

Os homens que eram super-homens e os falsos heróis no cinema hoje

Em 2004, Homem-Aranha 2 estreou nos cinemas. Nos meses que antecederam sua estreia, lembro-me de ir repetidas vezes à locadora alugar o primeiro filme, eu não me cansava de rever, mesmo a repetida lição de moral de que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Era tão impressionante quanto o filme do Superman tinha sido quando o assisti na televisão pela primeira vez aos 5 anos de idade. E então eu finalmente fui ao cinema e a Tia May eventualmente diz:

Ele reconhece um herói quando vê um. Existem poucos personagens lá fora, voando por aí daquele jeito, salvando velhas garotas como eu. E Deus sabe, crianças como o Henry precisam de um herói. Pessoas corajosas e altruístas, dando exemplo para todos nós. Todo mundo ama um herói. Pessoas se alinham por eles, torcem por eles, gritam seus nomes. E anos depois, elas vão contar como ficaram na chuva por horas só por um relance daquele que as ensinou como aguentar firme por um segundo a mais. Eu acredito que exista um herói em todos nós, que nos mantém honestos, nos dá força, nos enobrece, e finalmente permite que morremos com orgulho. Mesmo que às vezes temos de ser firmes, e desistir daquilo que mais queremos. Mesmo dos nossos sonhos.

Essa semana eu revi O Homem Que Era O Super-Homem, um filme sul-coreano de 2008, dirigido por Yoon-Chul Chung, que conta a história de um homem que dizia ser o próprio Super-Homem. Dessa maneira, ele passa o dia andando pelas ruas da comunidade onde vive, procurando por uma chance de ajudar quem quer que seja, desde senhoras carregando sacolas pesadas, até assaltos, entre outras. Todos o encaram como um homem louco, menos as crianças que gostam de ouvir suas histórias como o Superman.

amanwhowassuperman

É curioso como um homem, sul-coreano, vestindo uma camiseta havaiana, consegue nos convencer de que estamos assistindo um filme do Superman. Nisso podemos destacar tanto a direção quanto a atuação. Jeong-min Hwang, no papel principal, tem em seu olhar, seu sorriso, e sua postura, os mesmos traços do Superman clássico que todos conhecemos e identificamos, tanto nos quadrinhos e desenhos animados, quanto em seus primeiros filmes encenado por Christopher Reeve. E ao mesmo tempo essa postura de super-homem é quebrada quando o vemos humano, se machucando ou brincando com as crianças, por exemplo. Nisso podemos afirmar que ele é sim de fato, louco, ou (e eu prefiro assim) dizer que é o Clark Kent nele. Desde a sua primeira cena no filme, onde ele (mais rápido que uma bala!) salva a jornalista que o acompanha no decorrer do filme, com uma pose clássica de Super-Homem, sabemos, este é o Super-Homem! Mas é claro, nós mesmos desconfiamos de que, bom, talvez ele não seja de fato o Superman, e essa é a grande questão da história.

O filme utiliza de muitas imagens fantásticas e líricas, pode-se dizer, para mostra como o SUPER do herói pode existir em uma pessoa aparentemente comum, aos olhos dos que acreditam, como na cena em que ele finalmente voa. Descobrimos duas tragédias na vida deste Super-Homem, e que uma delas aconteceu porque nenhuma pessoa quis se arriscar para salvar a vida de outras pessoas, e desta forma ele dedica sua vida a fazer o oposto do que aquelas pessoas fizeram com ele.

a_man_who_was_superman_265109

Atualmente temos um Superman diferente no cinema. O novo homem de aço da DC/Warner não tem cores, não tem sorriso ou carisma, e ao invés disso ele veste seu corpo numa roupa escura, e seu rosto num semblante triste. A mãe (que se chama Martha) deste Clark Kent, diferente da Tia May daquele Peter Parker, ensina seu filho que ele não deve nada às pessoas deste mundo. Enquanto o novo Batman (com uma Martha como mãe também) segue o mesmo modelo triste e escuro. A motivação do Batman para lutar sempre foi um otimismo insano de que seus atos fariam do mundo um lugar melhor, como Grant Morrison sintetiza muito bem em Corporação Batman, quando Bruce Wayne conversa sobre a morte de seus pais com o Comissário Gordon:

Eu olhei para aquele buraco nas coisas tantas e tantas vezes, até machucar, Jim… E sabe o que eu encontrei lá? Nada…
… E espaço suficiente para conter tudo.

Mas este novo Batman se motiva pelo fato de que o mundo não muda e criminosos não acabam então ele precisa matar a todos. Um Batman niilista? Ok, mas, mesmo desta forma, não faz muito sentido. Talvez seja o reflexo de novos tempos como muitos fãs tentam argumentar. Talvez. Seria uma pena.

Eu por outro lado, gosto de acreditar que heróis são e sempre serão aquilo que a Tia May descreveu no segundo filme do Homem-Aranha e que encaixou perfeitamente como a explicação do porquê esses personagens significam tanto para mim, e para muitos. E que me mostrou que sim, aquele coreano de camisa havaiana é o Superman, e que não, estes novos batman e superman não são nem O Batman nem O Superman. Talvez seja uma questão ideológica (apesar de que os novos filmes da Warner são ruins também tecnicamente), e se for, que o novo filme da Marvel Studios, Capitão América: Guerra Civil consiga fazer o Homem-Aranha representar algo bom, algo como o que um herói deve ser mesmo em tempos difíceis, mesmo em novos tempos.

(Filme completo no YouTube)

Paulo Lins x Clarice Lispector

Paulo Lins x Clarice Lispector

Donzelas e jovens são raptados; meninos são arrancados dos braços dos pais; mães sofrendo os caprichos dos vencedores; templos e casas saqueados; praticam-se morticínios e incêndios. Finalmente, armas, cadáveres, sangue e lamentos por toda a parte (A cidade de Deus, Agostinho).

Quem assistiu Cidade de Deus,  de 2002, dirigido por Fernando Meirelles , baseado no livro homônimo, de Paulo Lins, com certeza se lembra da primeira cena do longa. O primeiro trecho que Meirelles grava é a cena que abre espaço para o desenrolar da narrativa, pois, de um lado está Zé Pequeno, no meio está uma galinha e Busca-Pé e, depois do garoto, encontra-se a polícia. Essa sequência é um flashforwardisto é, diferente dos flashbacks, essa estratégia antecipa ao telespectador acontecimentos futuros, que, no caso  do filme, seria a guerra.
cidade-de-deus-todos

Quem leu o livo, inclusive, sabe que a cena que estou referindo não ocorre no início da narrativa, mas quase no finalzinho. A escolha de mostrar os fatos posteriores, foi do diretor e/ou do roteirista do filme. Além dessa mudança, o leitor também nota que a mesma cena do filme, que se inicia com a perseguição de uma galinha, no livro, a mesma cena é retratada, mas diz respeito à perseguição de um galo.

No momento em que vi a parte inicial do filme (essa do vídeo acima), eu pensei: Gente, isso é Clarice Lispector! Vocês conhecem o conto Uma galinha, da Clarice? Caso não conheçam, vale super a pena dar uma lida.
O que quero dizer aqui é o seguinte, temos, no longa-metragem uma cena que se aproxima muito da descrita pela escritora Clarice, porque a galinha do conto, assim como a ave que aparece no filme, também sente a necessidade de fugir por perceber que sua hora de morrer está próxima:

Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço […] A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça […] Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado […] E então parecia tão livre. Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. (LISPECTOR, 1998, p. 30).

A semelhança nos dois textos, tanto o verbal quanto o não-verbal, além da fuga da galinha, está também nos caminhos que as aves escolheram, de maneira arbitrária, de tomar, elas voam pelos telhados, lutam por suas vidas sozinhas, até cansarem, e também na escolha de se cozinhar carne de galinha nos domingos:

Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã (LISPECTOR, 1998, p.30).

No domingo, em vez de comprar a maldita carne de porco, de que ele tanto gostava e que ela odiava, optou pela galinha, prato predileto da esposa (LINS, 2002).

Além disso, se formos procurar no livro Cidade de Deus, encontramos vários trechos que fazem referência à ave, seja de maneira literal, como “haveria de estourar a boa pra poder comprar uma chácara no interior, viver o resto da vida criando galinha numa boa” (LINS, 2012) ou para caracterizar a mulher:

— Uma galinha comprando outra! — disse Ana Rubro Negra, finalizando uma conversa sem delongas com o feirante que lhe vendia um frango na feira de domingo […] — Comia meu cu dizendo que me amava e agora roba meu dinheiro na maior cara de pau! Filho da puta! Tu me largou porque eu não botei na tua bunda quando você me pedia, sua galinha… Tu é galinha igual a mim… (LINS, 2012).

ou para xingar um homem:

— Deixa que eu rumo uma mulher para rumar a casa, morou, cumpádi? Não quero viado lá em casa, não. Se tu fosse homem, tudo certo, mas tu é maior bichona, descarado, sem-vergonha, puto, galinha, marica… (LINS, 2012).

Ao pensar nessa personificação da ave, na obra de Lins, vemos que no conto de Lispector também podemos pressupor essa característica, visto que a autora descreve a sua personagem com trejeitos encontrados na mulher do século passado, por exemplo, em trechos como: “Parecia calma”, “não souberam dizer se era gorda ou magra”, “hesitante e trêmula”, “a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça”, “estúpida, tímida e livre”, “a galinha é um ser”, “surpreendida, exausta”. Cuja importância só aparece ao ser mãe: “De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada […] — Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem!“. Percebe-se, assim, a mulher que, apesar de seus sentimentos e opiniões, ela deveria aceitar o que lhe era imposto, sendo, portanto, uma mulher tolhida, que precisava aceitar o sistema, por não tinha voz nem vez.

cidade de deus

Por conta da personificação e da significação pejorativa da palavra galinha, é que podemos observar, na obra do autor paulista, a presença dela em momentos em que a mulher é vista ou tida como uma ‘puta’ ou então como algo material a ser ‘comido’, como nos trechos a seguir:

Resignação, solidão, ódio, medo. Juntou esses sentimentos que estavam trancados em seu quarto e os jogou pela janela, vestiu-se de modo provocativo, pintou-se e foi à feira comprar galinha (LINS, 2012).

[…]

Seu Zé Maria, morador do Bloco Oito, gostava de beber na praça Principal da favela. Era ali que, machucando uma moela de galinha e tomando um birinaite, observava as mulheres e sentenciava quem era boazuda e quem não era (LINS, 2012).

Ao levarmos em consideração a semântica de cunho sexual/pejorativo que gira em torno da palavra em questão, podemos pressupor que na fala de Zé Miúdo, quando ele ordena “soca o dedo na galinha” e ri de sua ‘piada’, o rapaz insinua um ato sexual, já que poderíamos pensar no revólver (onde é para apertar o gatilho – “socar o dedo”), como uma arma potente, próximo à figura de um pênis (joga bala-munição/joga o sêmen), que também pode machucar. Vemos essa relação ainda, quando a personagem do conto de Lispector recebe uma inspeção para saber se é magra ou não: “Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra”.

Por fim, ao vermos o filme e o livro ao qual o longa se baseou, a cena da galinha na obra cinematográfica não existe, pois a personagem que protagoniza esse episódio, no livro, é o galo, que, no texto narrativo, não morre, só as galinhas compradas por Zé Miúdo (Zé Pequeno, no filme) é que viram comida: (Colocarei aqui, a parte toda que descreve a cena da fuga do galo, quem não quiser ler, veja só as partes grifadas)

— Cocoricó, coricó! — fez o galo de Almeidinha olhando cabreiro para Zé Miúdo, que havia mandado Otávio comprar dez quilos de batata e cinco galinhas para completar o almoço. Otávio saiu correndo. Não via a hora do almoço tão falado durante a semana. O galo, de tanto ouvir comentários a propósito de sua existência, antes mesmo de o sol nascer, tratou de bicar, malandramente, o barbante que o prendia a um pedaço de bambu fincado no chão, até que ele ficasse suficientemente fraco para rebentar ao mínimo puxão. Iria fugir, porém, só depois que Almeidinha lhe jogasse os milhos de que tanto gostava, o que ainda não havia acontecido.
É certo que o galo de Almeidinha não entendia bem as coisas, por ter raciocínio de galo, mas ao olhar aquele monte de crioulos com as bocas cheias de dente, bebendo cerveja, olhando à socapa para ele, fumando maconha e dizendo que não iriam cheirar para não perder o apetite, não cantou, como de costume. Ficou ali na dele esperando a refeição.
Otávio chegou de táxi com as cinco galinhas enroladas em jornais, patas amarradas. Marcelinho Baião ajudou o menino a levar as galinhas até a cozinha. Miúdo mandou que jogassem as galinhas no terreiro para o galo dar-lhes uma bimbada e morrer feliz. O bandido acreditava que assim a sua carne ficaria mais macia e saborosa. A mulher de Almeidinha dizia que o galo deveria ser o primeiro a entrar na panela, por ser o seu cozimento mais difícil. O galo, esquecendo-se de tudo, pulou em cima de uma galinha e logo procurou outra e todos bateram palmas, enquanto Almeidinha aguardava com uma enorme faca na mão. O galo não dava chance às galinhas. Mesmo com a certeza de que tudo era pertinente ao seu cozimento, achava que iria morrer e ao mesmo tempo não achava. Coisa de galo. Mas ao ver, de relance, a faca sendo sustentada por aquele que durante toda a sua vida acreditara ser seu amigo, certificou-se de que tudo ali concorria para o seu falecimento. Na primeira tentativa, livrou-se do barbante, que foi ficando mais fraco no momento em que executava a galinha, saçaricou entre os convidados e saiu quebrando pelas vielas.
A quadrilha saiu atrás do galo, porém galo de favela é arisco como o cão: entrava e saía das vielas, ágil como uma onça, fingia que ia e não ia, fingia que ia e ia, corria agachadinho para não ser percebido de longe, nas quinas das esquinas botava só meio rosto à vista para ver se tudo estava limpeza, vez por outra alçava voos de quinze a vinte metros, corria desesperadamente para os Blocos Novos, dificultava a sua captura. A quadrilha gargalhava enquanto perseguia o almoço. Miúdo, ao dobrar uma viela, trombou com um vendedor de panela e foi ao chão junto com ele. Levantou-se de supetão, mandou o sujeito tomar no cu e ordenou aos berros: Senta o dedo no galo! E começou o tiroteio. O galo voou por sobre o braço esquerdo do rio enquanto em seus ouvidos zuniam tiros que esburacavam o chão, passou entre o Bloco Sete e o Bloco Oito. Também, em pequenos voos, poderia subir o Morrinho ou quebrar para a praça dos Apês, ficou com a primeira opção. Nunca se ouviram tantos tiros nos Apês. Mesmo as pessoas que sempre botavam o rosto na janela em dia de tiroteio, para dar uma espiadinha, desta vez não ousaram, tiveram medo de bala perdida. A quadrilha se empenhava em resgatar o galo. Quem o matasse, aumentaria o conceito com Miúdo, que, ainda no beco, dava coronhadas no paneleiro para ele nunca mais trombar com a sua pessoa e nem revidar seus xingamentos.
O galo entrou no meio de um goiabal, onde nem a luz do sol penetrava direito, procurando o esconderijo ideal, mas, ao contrário do que intuiu, a quadrilha de Miúdo se encafuou ali dentro dando tiros ao léu. O bruto, sem poder voar, entrou em pânico, aumentou a velocidade naquele terreno acidentado e se machucou, mas sem tempo para sentir dor. Depois de alguns minutos, os tiros cessaram. Ele se entocou debaixo de umas folhas secas e esperou seus inimigos desistirem de capturá-lo. O galo, depois de uma hora, desentocou-se, encaminhou-se para o sítio de um casarão abandonado, correu por toda a sua extensão, saiu na Edgar Werneck e sumiu dali para sempre.

Diferente da galinha do conto, o galo consegue escapar vivo, como Clarice Lispector marca, já que a galinha é estúpida, diferente do galo que é vitorioso: “não vitoriosa como seria um galo em fuga […] Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista”, galo que, nas duas obras, são personificados como o homem, aquele que subjuga as mulheres, que tem o seu ‘jeito’ de ser homem, ser esperto e confiar em si mesmo,  consegue ser livre dos ‘barbantes’.

Penso que a figura dessa ave é emblemática sim, pois não deve ser por acaso que podemos vê-la de maneira bem destacada no cartaz do filme Cidade de Deus

CidadedeDeus

Estou viajando? Em todo caso, o legal é que fica aí a ideia para refletirmos e compararmos as figuras simbólicas nas obras citadas.