CD: A Casa Amarela, Veveta e Saulinho

 

Introdução/Contextualização:

No dia 17 de outubro de 2008 os amigos e parceiros musicais, Ivete Sangalo e Saulo Fernandes lançaram o primeiro projeto infantil de suas carreiras, intitulado A Casa Amarela, em todo o Brasil. Eles adotaram seus apelidos de infância que dão bem o tom do CD infantil lançado. O álbum foi indicado ao Grammy Latino 2009 na categoria: Melhor Álbum Infantil.

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Com a direção assinada por Alexandre Lins e composto por onze faixas inéditas em 31 minutos, trata-se de um trabalho que certamente teve grande aceitação junto ao público consumidor, mas muito mais pelo inquestionável prestígio atual da dupla do que pela homogeneidade do trabalho apresentado.

Análise da obra no geral:

Se sua infância e/ou adolescência foi durante os anos 80, 90, 2000 ou 2010 sabe muito bem que o universo infantil musical envolve, basicamente, músicas pop-comercial, para exemplificar alguns: Trem da alegria 80’s, Chiquititas 90’s, Turma do Balão Mágico, Eliana, Angélica, Xuxa, Mara Maravilha, Sandy & Junior, Trem da alegria 2000, Vitor & Vitória, Carrossel 2010, Chiquititas 2014, e sabe também que é raro encontrar produções MPB-infantil com conteúdos tão enriquecedores e relevantes, só pra citar temos Saltimbancos, Xico Bezerra, Vinicius de Moraes, Palavra Cantada, Adriana Partimpim, Pato Fu, Banda de Boca com MPB Pras Crianças, as trilhas sonoras de Sítio do Pica Pau Amarelo, Bia Bedran, Hélio Ziskind, Castelo Rá-Tim-Bum, Jair Oliveira com Grandes Pequeninos, são músicas que não chegam aos ouvidos da grande massa popular, é seleto, se estreita, infelizmente.

O álbum A Casa Amarela possui características dos dois grupos, mesmo assim não espere por um grande CD (e aqui não falo nem da pequena quantidade de faixas, nem da curta duração das mesmas). É que as composições soam insossa (não todas!), chegando a soar tatibitati. A criatividade das canções, lamentavelmente, fica a desejar em algumas específicas e não é porque se trata de um álbum voltado para as crianças que as ideias devem ser rasas, porque já encontramos produções para as crianças com criatividade e com discernimento, inclusive várias estão citadas na lista acima. Sonoricamente, o disco mistura MPB à músicas clássicas. O som, no geral, é leve, agradável. Os cantores assinam 8 das 11 faixas e dividem os vocais apenas na primeira canção, Bichos. A faixa Sono conta com a especial participação de Xuxa e o reggae está presente em É Bom Viajar.

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 Análise das letras (Conteúdo, Temas e Composição):

Após a análise das letras das músicas Frufru, Fantasia, Mundo de Lela e Casa Amarela de Veveta e Saulinho constatei que elas apresentam eu líricos infantis consumistas, mimados e de classe alta. Assim, o CD não ensina, não estimula, não apresenta diferentes culturas às crianças e foi produzido para um grupo seleto de brasileiros, não foi feito para todo o tipo de público.

Acabaram limitando-o e talvez essa nem foi a intenção. Só faltou um pouco de estudo, aprofundamento e inspiração, seria até mais salutar para todos, para as crianças e para eles próprios. Os cantores têm potencial, sabemos disso, para fazer um disco bem legal como intérprete de músicas infantis sem ser infantistóides.

Em contrapartida, na outra metade do projeto encontramos salvações, letras que não limita, que retratam a beleza de ser criança, com suas imaginações, como em Bicho, Sensacional, É Bom Viajar, Maria Flor e Enfim Vencer

Análise do artista como intérprete das suas canções (Voz, notas, modo de cantar e tons):

Pra interpretação, os cantores fizeram tudo bem singelo, pra conquistar o público infantil ou até mesmo em geral, não foi tão necessário realizar todos aqueles melismas. Parece que foi sem pretensão? De maneira alguma, dá pra perceber que estavam curtindo, se divertindo e fazendo aquilo com muito gosto e prazer. A Ivete e o Saulo, juntos, é gol sempre – quem não se lembra de Não Precisa Mudar (2006)? -, não há como resistir aos seus timbres afinados e calorosos. Cantando canções de forma suave (“Maria Flor” e “Fantasia”, respectivamente), o que ressalta os bonitos timbres vocais de ambos.

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Análise da instrumentalização especificamente:

Da instrumentalização eles tem muito do que se orgulhar, pense numa produção cuidadosa, parecem trilhas sonoras de filmes de animação. Dentro da obra, temos até bossa nova, jazz e soul, essa construção musical proporcionada pelos metais (instrumentos de sopro), piano Yamaha (clássico/comum), piano Rhodes, teclado Celesta, teclado Escaleta, bateria, baixo, contrabaixo, violinos e violão.

Clique no nome para ouvir:

Bicho é um ótimo jazz.

Se inicia com um metal, deixando um suspense e uma introdução para a criação. Posteriormente, já se apresenta tudo o que temos direito, incluindo piano Rhodes, maior variedade de metais, baixo, contrabaixo, bateria e guitarra. Por incrível que pareça, é a única em que os dois artistas cantam juntos, dividem os vocais.

Fantasia

Foi uma boa escolha colocá-la na lista de faixas como a seguinte e a próxima de Bicho, porque completa a primeira. É uma bossa nova e uma das que parecem música de trilha sonora. Somente Saulo canta e é constituída por piano Rhodes, celesta, violinos, violão e flautas. O eu lírico gosta de cultura pop, de super-heróis:

Se eu pudesse me vestia
Todo dia                              
Cada dia uma fantasia diferente
Ser um super-homem
Ou um lobisomem
Mas também
Eu me transformava
Num robô

 Em Frufru Ivete divide os vocais com uma menina, chamada por ela de Lelé. A canção possui saxofone, baixo, guitarra, bateria, piano Rhodes, palmas e um coral infantil. Como exposto anteriormente, essa é uma das que apresenta eu líricos um pouco mimados:

Tudo que eu gosto
Tem frufru
Tudo que eu quero
Tem detalhe
A lantejoula
Pode ser azul
Mas o lacinho
Tem que ser rosa

A Casa Amarela

Nessa é Saulo quem canta e nas duas estrofes primeiras ele afirma que seu pai pintou a casa de amarelo, em seguida no refrão revela que foi apenas um sonho e que nele os seus pais o tratavam como um rei. Vê se pode? Ela tem guitarra, pandeiro, baixo, agogô, xilofone e trombone. Nos 02:05 os instrumentistas tocam, logicamente, vários instrumentos, entretanto de forma aleatória e se encaixou ao todo. É gostoso ouvir essa “bagunça-organizada”.

Mundo de Lela

Sonoricamente, é outro jazz e também parece música de trilha sonora de filmes da Disney pela instrumentalização totalmente orquestrada e arranjada. Liricamente, apresenta uma rotina de preparação para algum compromisso no período da manhã. Esse eu lírico infantil, de início, parece mais uma criança um pouco mimada, leia e repare nos verbos:

Peço pra mamãe
Pegar o meu vestido
(…)

Também traz
Aquele seu perfume
(…)
A sandália?
Pega a cor-de-rosa
(…)
Oh, papai
Vem correndo me pegar
(…)
Você demora de chegar
Fico emburrada
(…)

Ela fala como se sua mãe fosse uma sua serva ou estou lendo errado? Somente ouvindo, nem parece isso, Ivete canta de forma suave Só quando acompanhei pela letra, me veio essa leitura.

Sensacional

É a minha preferida, parece que foi tirada da animação Ratatouille. Ela possui na instrumentalização acordeon, bandolim, trombone, flauta e bateria. Essa também é em primeira pessoa, mas bem diferente os gostos desse eu lírico:

Gosto de sentir
O vento forte
Carregando tudo
Pelo ar
Me levando alto
Num instante
Sinto a alegria
De voar

 Me lembrou Peter Pan.

É Bom Viajar é um reggae. Ela tem bateria, guitarra, teclado, agogô e reco-reco, além de barulhos de brinquedos que precisam de dar corda para funcionar.

Em Funk do Xixi batidas eletrônicas aliadas a de percussão e metais formam o arranjo. Como é comum nesses estilos de música há muita repetição dos versos para grudar na cabeça. É uma sátira, porém mesmo assim não é tão boa, não acrescenta tanto, acaba destoando e não faria falta no contexto da obra.

Maria Flor

Como foi Saulo que a compôs, é um diálogo dele com sua filha, mas quem canta é Ivete. Muito bonita e singela:

Nasceu uma flor
Aqui no meu jardim
Uma rosa pequenina
Me dizendo assim

Pai, estou aqui

Vim pra te amar
Você e mamãe
São os meus presentes
De Deus

Em sua instrumentalização possui apenas o piano Rhodes e escaleta. Ah, que sensação boa ela proporciona. Ouça ela!

Sono

Sua sonoridade é composta somente pelo Celesta. Liricamente, da mesma forma que a maior parte das outras faixas é em primeira pessoa e descreve o que acontece quando está com sono:

Quando estou com sono
Esfrego os olhos
Não me entrego nunca

Enfim Vencer

É a mais madura em seu conteúdo, deixará você com uma reflexão para encerrar a delicadeza do acalanto que é essa canção. Constitui de violão, piano, assovio e celesta de início para introduzi-la. Ela segue os fatos linearmente, em cada estrofe algo diferente é narrado. A penúltima estrofe intermediária é uma oração:

Oh, amado Deus
Dá-me mais
Força pra seguir
Ao lado seu
Me ensina
Perdoar a quem
Um dia me fez
Algum mal
Ou quis magoar
Mostra como
Faz o amor
Planta
No seu coração
Uma flor

Resumão:

 A Casa Amarela pode não ser a maior, mas isso não quer dizer que ela seja pequena. Com construções melódicas pouco definidas e ideias de letra quase sempre não desenvolvidas a contento contribuem para que o resultado final fique aquém do esperado, mesmo se reconhecendo que, em si, a ideia é bacana.

A primeira impressão foi tão boa, foi a de um disco divertido, porém depois (muito) pueril e a dupla, apesar de bem intencionadas (prefiro acreditar nisso) não o foram. Todavia,  lembre-se que foi somente metade do disco, por causa do conteúdo de algumas letras, ainda se têm as vozes e a instrumentalização. Eu gostava muito desse CD até perceber isso nas letras, problematizando. Isso não quer dizer que não mais o ouço, tanto que tenho até minhas preferidas. Novamente, olhe pela instrumentalização que rica.

3-estrelas1

Dou uma pontuação de 3,0 estrelas de 5.

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