CD: A Sociedade do Espetáculo, O Teatro Mágico

Lead title: Uma sociedade é composta e formada por seres humanos, com isso surgem as relações, as manifestações e os hábitos sociais configurando e caracterizando uma cultura. Quer se aprofundar nessa minha afirmação? Então, venha ouvir A Sociedade do Espetáculo. A casa é sua!

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Introdução/Contextualização:

Um dos maiores nomes do cenário musical alternativo, com uma base sólida de admiradores, O Teatro Mágico, como quase todos devem saber, é um grupo liderado por Fernando Anitelli que mistura circo, teatro, poesia, política e, claro, música. Tudo isso está presente em A Sociedade do Espetáculo, terceiro disco e último trabalho de uma trilogia do grupo iniciada com Entrada para raros (2003) e Segundo ato (2008). Ele foi lançado de forma independente no dia 6 de setembro de 2011.

“Esse é um álbum que consolida as questões da pluralidade, das parcerias e do colaborativo”, sintetiza Fernando Anitelli sobre as participações especiais. O CD contou com a presença de Sérgio Vaz (em Felicidade?), Pedro Munhoz (em Canção da terra), Alessandro Kramer (em Eu não sei na verdade quem eu sou), Nô Stopa (em Folia no quarto), Leoni e do saxofonista da Dave Matthews Band, Jeff Coffin.

Além da contratação de um produtor, o Daniel Santiago, algo inédito na carreira do grupo, e que foi determinante para que a banda chegasse a uma síntese sonora maior. Outros dois músicos completam a lista dos ecléticos convidados do terceiro disco do grupo paulista: o gaitista Gabriel Grossi (em Até quando…) e o baterista Rafael dos Santos, na época, recente integrante da trupe. Masterizado no estúdio Sterling Sound, em Nova York, pelo engenheiro de som Chris Athens.

O conceito deste disco tem inspiração no livro La société du spectacle, do filósofo francês Guy Debord. No livro, o filósofo faz uma crítica teórica sobre a sociedade de consumo, a sociedade ocidental e o capitalismo. Assim, desta obra, além do título, a banda tirou ideias, que podem ser percebidas nas letras das músicas, e na capa, onde desenhos lembram ilustres conhecidos, como Nelson Mandela, Fidel Castro, Karl Marx e até mesmo Chapolin Colorado.

“Algumas ilustrações realmente são aquilo que você está vendo, outras são só sugestões. A ideia é justamente essa: confundir. Elas representam a sociedade do espetáculo que, na verdade, somos todos nós”, explica Anitelli, vocalista e mentor da banda, sobre a arte visual da capa.

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Análise da obra no geral:

Com som mais amadurecido e várias letras politizadas proporcionando reflexões sobre os tempos modernos com o repertório, basicamente, recaindo na alienação, no consumo e no mundo moderno globalizado, mais do que sobre políticas públicas, o CD segue o estilo leve, harmônico e poético do grupo.

As influências para o disco são muitas e misturam folk rock e pop rock à MPB, com uma vibe acústico, além de claras referências à literatura. Essa parafernália ideológica, essa cativante sonoridade melódica interiorana, estabelece um clima ambiente, com ela você se sente em casa, mesmo com alguns assuntos que causam certo desconforto.

Os instrumentos também estão muito bem encaixados e produzem um som descomplicado, franco, sem exageros ou truques musicais. Por outro lado, o resultado final, bruto e completo, peca pelo excesso de músicas, algumas poderiam ter ficado de fora. Penso que devido a todo estudo realizado, eles tinham muito conteúdo para expor e nós, ouvintes, podemos nos perder no meio disso tudo. Destaque para os vocais de Fernando Anitelli, que alterna timbres suaves com alguns esparsos momentos de aspereza.

Análise das letras (Conteúdo, Temas e Composição):

Primeira vez que o ouvi eu tinha 15 anos e de acordo com minha maturidade e conhecimento de mundo tive uma leitura, nem entendia as letras em sua completude. Retornando a ouvi-lo, agora mais velho, consequentemente com conhecimento de mundo mais maduro, surgiu uma leitura totalmente nova. Se você tem um pouco de conhecimento sobre história, filosofia, sociologia compreenderá de onde surgiu e de onde Fernando se inspirou para criar, para compor.

Na obra algumas letras são extensas com os versos curtos, apresentando verbos no infinitivo, característicos de Anitelli, dominando as letras politicamente engajadas: “semear o amor” “apoderar-se de si”, “resistir”, “ser plural”, “repartir o acúmulo”… Em vez de ordenar ao rebanho que faça o que ele diz, ele prefere sugerir, com sutileza, um comportamento coletivo, colaborativo, compartilhado. Quando você pensa no que eles querem passar, quando você leva pra interpretação, tudo se amplia, como um universo além, ligado ao universo do disco.

Podemos dividir as faixas de acordo com seu foco temático:

O Ser Humano presente em: Além, porém, aqui; Da Entrega; Transição; Eu Não Sei Na Verdade Quem Eu Sou; Novo Testamento; e Nas Margens de Mim.

A Sociedade em: Amanhã, será?; Felicidade; O Que Se Perde Enquanto os Olhos Piscam; Folia no Quarto; e Esse Mundo Não Vale o Mundo.

O Ser e A Sociedade em: Canção da Terra,

Amor/Relações Humanas em: Quermesse; Nosso Pequeno Castelo; Fiz uma Canção pra Ela; Tática e Estratégia; e Você me Bagunça.

Entre os temas das 16 canções e três vinhetas (interludes), contam-se menções ao Movimento Sem-Terra (em Canção da Terra), referências às revoltas populares no Oriente Médio em que depuseram ditadores (em Amanhã… Será?), críticas à “heterointolerância branca” (em Esse mundo não vale o mundo), canções suavemente feministas, e assim por diante, assuntos que estão bem em voga atualmente.

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Análise da instrumentalização:

A instrumentalização em geral é composta por cordofones (violões, baixo, guitarras, e violino), percussão (bateria, tambores-guizá e pandeiro) aerofones (flautas, acordeon), idiofones (triângulo, carrilhão, cascata, caxixi), teclado percussor, slide guitar e palmas. Logo nas quatro primeiras músicas a maior parte deles já está presente.

Dessa vez não entregarei tudo e não explanarei sobre todas as canções, a partir de todas análises anteriores você já tem uma base e aprofundamento que te auxiliará na audição e bem como, na sua leitura e interpretação. Está bem? Descreverei somente algumas:

A 1º faixa intitulada Proscênio, é uma intro. Inicialmente, ouvimos alguns cochichos e pessoas se acomodando, em seguida, uma campainha avisando que o espetáculo vai começar. Logo a cortina se abre para as infinitas possibilidades de imaginações que acontecerão em sua mente por causa do canto de Fernando Anitelli, e aí, meu caro, nesse segundo, já não tem mais volta, porque se escuta:

Senhoras e senhores
Respeitável público pagão
Bem-vindos ao Teatro Mágico

Com o título “Proscênio”, ele está nos situando, pois é o nome que denomina o espaço entre o palco e a plateia. É ali, onde está o anfitrião.

“Nosso Pequeno Castelo” possui uma levada mais swingada, nordestina, e a voz em dueto é de Ivan Parente, que, como Galldino (violinista) disse, tem registro de voz agudo, algo feminino.

Em “O Novo Testamento” o arranjo tem inspiração do funk carioca, do pop, com beatbox, bateria, baixo, teclados, agogô e tambores.

“Felicidade”, com sua letra que mais parece uma anedota, também é um questionamento de conceitos e papéis sociais.

“Tática e Estratégia” tem a letra em dois idiomas, português e espanhol, por isso a levada latina na música.

“Folia no quarto”, com uma melodia muito bem construída essa faixa contém a única voz feminina do CD, de Nô Stopa, filha do cantor e compositor Zé Geraldo. Quem sente tanta falta da infância se identificará com ela, sempre me deixa nostálgico. Engraçado isso, porque o disco fala de coisas atuais e vem essa pra te deixar assim.

A partir daqui os próprios irão nos dizer sobre algumas músicas (coletei de uma entrevista):

“Amanhã… Será?” – A inspiração, aqui, são as mobilizações populares em países do Oriente Médio, na Espanha e no Brasil. Os integrantes do Teatro Mágico costumam frequentar as marchas em São Paulo caracterizadas, em contato direto e íntimo com a multidão. “Essa revolução, na verdade, é interior”, filosofa Fernando.

“Quem diz que a revolução está saindo da internet está enganado, ela ainda vem do povo, a rede é só uma ferramenta. A insurreição está em nós e a primavera árabe traduziu isso muito bem”, diz Anitelli sobre a terceira faixa do CD.

Em “O Novo Testamento”, opção do funk explicada pelo coprodutor do disco e coautor da faixa, Daniel Santiago, músico do celebrado quinteto de Hamilton de Holanda: “O ritmo veio da capoeira, do maculelê, é totalmente brasileiro. Funk definitivamente é uma linguagem e uma manifestação cultural brasileira, veio pra ficar”.

“Fiz uma Canção pra Ela” – Parceria de Fernando com Galldino é uma canção de amor com viés politizado: “Fiz uma canção pra ela/ na mais bela tradução de igualdade e autonomia/ ao teu corpo e coração”. “A mulher não tem autonomia sobre o próprio corpo, quando se fala de aborto, de postura”, argumenta Fernando. “Se a menina usa roupa curta, tem culpa por ser estuprada?, peraí. É uma canção de amor à mulher, mas colocando ela como liberta, não como uma mulher que precisa ser protegida, carente, solitária, pobre, fraca, indefesa, santa, mãe. É amor, mas de igual pra igual”.

“Esse Mundo Não Vale o Mundo” – “Esta hetero-intolerância branca te faz refém”, diz a canção que trata de temas que várias do gênero pop em geral simulam não gostar. “Contaminam o chão família e tradição”, provoca o rock meio celta (segundo Fernando) que fala de “ter direito ao corpo” e à “terra-mãe que nos pariu”.

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Resumão:

Olha só, mais uma vez a sociedade e seus os acontecimentos, influenciando o indivíduo inserido num determinado contexto a produzir coisas de volta pra sociedade por meio da arte, independente do tipo ou modalidade. Diante disso, surge a seguinte questão: A vida imita a arte ou a arte imita a vida? Essa clássica questão já dividiu várias opiniões e, certamente, continuará dividindo, porém o que parece correto é que ambas se inter-relacionam, levando a uma resposta dicotômica, ou seja, tanto a arte influencia a vida como o inverso. Esse é o poder dela, de nos causar o efeito catártico, da catarse. O álbum serve, também, para perceber como arte é atemporal, as reflexões sobre os tempos modernos, incluindo o homem moderno, suas atitudes e comportamentos refletem bem, não só o ano da publicação dessa resenha, mas de muitas décadas, marcadas por revoluções, conquistas e muito mais.

Será que A Sociedade do Espetáculo consistirá em mais uma obra que se expressará através dos tempos e será que ela não ficará presa só no contexto da época de produção? Para refletirmos, fica esse questionamento final.

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Dou uma pontuação de 4 estrelas de 5.

Na discografia de O Teatro Mágico, ainda se inclui “Grão do Corpo” (2014) e “Allehop” (2016).