Paulo Lins x Clarice Lispector

Paulo Lins x Clarice Lispector

Donzelas e jovens são raptados; meninos são arrancados dos braços dos pais; mães sofrendo os caprichos dos vencedores; templos e casas saqueados; praticam-se morticínios e incêndios. Finalmente, armas, cadáveres, sangue e lamentos por toda a parte (A cidade de Deus, Agostinho).

Quem assistiu Cidade de Deus,  de 2002, dirigido por Fernando Meirelles , baseado no livro homônimo, de Paulo Lins, com certeza se lembra da primeira cena do longa. O primeiro trecho que Meirelles grava é a cena que abre espaço para o desenrolar da narrativa, pois, de um lado está Zé Pequeno, no meio está uma galinha e Busca-Pé e, depois do garoto, encontra-se a polícia. Essa sequência é um flashforwardisto é, diferente dos flashbacks, essa estratégia antecipa ao telespectador acontecimentos futuros, que, no caso  do filme, seria a guerra.
cidade-de-deus-todos

Quem leu o livo, inclusive, sabe que a cena que estou referindo não ocorre no início da narrativa, mas quase no finalzinho. A escolha de mostrar os fatos posteriores, foi do diretor e/ou do roteirista do filme. Além dessa mudança, o leitor também nota que a mesma cena do filme, que se inicia com a perseguição de uma galinha, no livro, a mesma cena é retratada, mas diz respeito à perseguição de um galo.

No momento em que vi a parte inicial do filme (essa do vídeo acima), eu pensei: Gente, isso é Clarice Lispector! Vocês conhecem o conto Uma galinha, da Clarice? Caso não conheçam, vale super a pena dar uma lida.
O que quero dizer aqui é o seguinte, temos, no longa-metragem uma cena que se aproxima muito da descrita pela escritora Clarice, porque a galinha do conto, assim como a ave que aparece no filme, também sente a necessidade de fugir por perceber que sua hora de morrer está próxima:

Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço […] A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça […] Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado […] E então parecia tão livre. Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. (LISPECTOR, 1998, p. 30).

A semelhança nos dois textos, tanto o verbal quanto o não-verbal, além da fuga da galinha, está também nos caminhos que as aves escolheram, de maneira arbitrária, de tomar, elas voam pelos telhados, lutam por suas vidas sozinhas, até cansarem, e também na escolha de se cozinhar carne de galinha nos domingos:

Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã (LISPECTOR, 1998, p.30).

No domingo, em vez de comprar a maldita carne de porco, de que ele tanto gostava e que ela odiava, optou pela galinha, prato predileto da esposa (LINS, 2002).

Além disso, se formos procurar no livro Cidade de Deus, encontramos vários trechos que fazem referência à ave, seja de maneira literal, como “haveria de estourar a boa pra poder comprar uma chácara no interior, viver o resto da vida criando galinha numa boa” (LINS, 2012) ou para caracterizar a mulher:

— Uma galinha comprando outra! — disse Ana Rubro Negra, finalizando uma conversa sem delongas com o feirante que lhe vendia um frango na feira de domingo […] — Comia meu cu dizendo que me amava e agora roba meu dinheiro na maior cara de pau! Filho da puta! Tu me largou porque eu não botei na tua bunda quando você me pedia, sua galinha… Tu é galinha igual a mim… (LINS, 2012).

ou para xingar um homem:

— Deixa que eu rumo uma mulher para rumar a casa, morou, cumpádi? Não quero viado lá em casa, não. Se tu fosse homem, tudo certo, mas tu é maior bichona, descarado, sem-vergonha, puto, galinha, marica… (LINS, 2012).

Ao pensar nessa personificação da ave, na obra de Lins, vemos que no conto de Lispector também podemos pressupor essa característica, visto que a autora descreve a sua personagem com trejeitos encontrados na mulher do século passado, por exemplo, em trechos como: “Parecia calma”, “não souberam dizer se era gorda ou magra”, “hesitante e trêmula”, “a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça”, “estúpida, tímida e livre”, “a galinha é um ser”, “surpreendida, exausta”. Cuja importância só aparece ao ser mãe: “De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada […] — Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem!“. Percebe-se, assim, a mulher que, apesar de seus sentimentos e opiniões, ela deveria aceitar o que lhe era imposto, sendo, portanto, uma mulher tolhida, que precisava aceitar o sistema, por não tinha voz nem vez.

cidade de deus

Por conta da personificação e da significação pejorativa da palavra galinha, é que podemos observar, na obra do autor paulista, a presença dela em momentos em que a mulher é vista ou tida como uma ‘puta’ ou então como algo material a ser ‘comido’, como nos trechos a seguir:

Resignação, solidão, ódio, medo. Juntou esses sentimentos que estavam trancados em seu quarto e os jogou pela janela, vestiu-se de modo provocativo, pintou-se e foi à feira comprar galinha (LINS, 2012).

[…]

Seu Zé Maria, morador do Bloco Oito, gostava de beber na praça Principal da favela. Era ali que, machucando uma moela de galinha e tomando um birinaite, observava as mulheres e sentenciava quem era boazuda e quem não era (LINS, 2012).

Ao levarmos em consideração a semântica de cunho sexual/pejorativo que gira em torno da palavra em questão, podemos pressupor que na fala de Zé Miúdo, quando ele ordena “soca o dedo na galinha” e ri de sua ‘piada’, o rapaz insinua um ato sexual, já que poderíamos pensar no revólver (onde é para apertar o gatilho – “socar o dedo”), como uma arma potente, próximo à figura de um pênis (joga bala-munição/joga o sêmen), que também pode machucar. Vemos essa relação ainda, quando a personagem do conto de Lispector recebe uma inspeção para saber se é magra ou não: “Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra”.

Por fim, ao vermos o filme e o livro ao qual o longa se baseou, a cena da galinha na obra cinematográfica não existe, pois a personagem que protagoniza esse episódio, no livro, é o galo, que, no texto narrativo, não morre, só as galinhas compradas por Zé Miúdo (Zé Pequeno, no filme) é que viram comida: (Colocarei aqui, a parte toda que descreve a cena da fuga do galo, quem não quiser ler, veja só as partes grifadas)

— Cocoricó, coricó! — fez o galo de Almeidinha olhando cabreiro para Zé Miúdo, que havia mandado Otávio comprar dez quilos de batata e cinco galinhas para completar o almoço. Otávio saiu correndo. Não via a hora do almoço tão falado durante a semana. O galo, de tanto ouvir comentários a propósito de sua existência, antes mesmo de o sol nascer, tratou de bicar, malandramente, o barbante que o prendia a um pedaço de bambu fincado no chão, até que ele ficasse suficientemente fraco para rebentar ao mínimo puxão. Iria fugir, porém, só depois que Almeidinha lhe jogasse os milhos de que tanto gostava, o que ainda não havia acontecido.
É certo que o galo de Almeidinha não entendia bem as coisas, por ter raciocínio de galo, mas ao olhar aquele monte de crioulos com as bocas cheias de dente, bebendo cerveja, olhando à socapa para ele, fumando maconha e dizendo que não iriam cheirar para não perder o apetite, não cantou, como de costume. Ficou ali na dele esperando a refeição.
Otávio chegou de táxi com as cinco galinhas enroladas em jornais, patas amarradas. Marcelinho Baião ajudou o menino a levar as galinhas até a cozinha. Miúdo mandou que jogassem as galinhas no terreiro para o galo dar-lhes uma bimbada e morrer feliz. O bandido acreditava que assim a sua carne ficaria mais macia e saborosa. A mulher de Almeidinha dizia que o galo deveria ser o primeiro a entrar na panela, por ser o seu cozimento mais difícil. O galo, esquecendo-se de tudo, pulou em cima de uma galinha e logo procurou outra e todos bateram palmas, enquanto Almeidinha aguardava com uma enorme faca na mão. O galo não dava chance às galinhas. Mesmo com a certeza de que tudo era pertinente ao seu cozimento, achava que iria morrer e ao mesmo tempo não achava. Coisa de galo. Mas ao ver, de relance, a faca sendo sustentada por aquele que durante toda a sua vida acreditara ser seu amigo, certificou-se de que tudo ali concorria para o seu falecimento. Na primeira tentativa, livrou-se do barbante, que foi ficando mais fraco no momento em que executava a galinha, saçaricou entre os convidados e saiu quebrando pelas vielas.
A quadrilha saiu atrás do galo, porém galo de favela é arisco como o cão: entrava e saía das vielas, ágil como uma onça, fingia que ia e não ia, fingia que ia e ia, corria agachadinho para não ser percebido de longe, nas quinas das esquinas botava só meio rosto à vista para ver se tudo estava limpeza, vez por outra alçava voos de quinze a vinte metros, corria desesperadamente para os Blocos Novos, dificultava a sua captura. A quadrilha gargalhava enquanto perseguia o almoço. Miúdo, ao dobrar uma viela, trombou com um vendedor de panela e foi ao chão junto com ele. Levantou-se de supetão, mandou o sujeito tomar no cu e ordenou aos berros: Senta o dedo no galo! E começou o tiroteio. O galo voou por sobre o braço esquerdo do rio enquanto em seus ouvidos zuniam tiros que esburacavam o chão, passou entre o Bloco Sete e o Bloco Oito. Também, em pequenos voos, poderia subir o Morrinho ou quebrar para a praça dos Apês, ficou com a primeira opção. Nunca se ouviram tantos tiros nos Apês. Mesmo as pessoas que sempre botavam o rosto na janela em dia de tiroteio, para dar uma espiadinha, desta vez não ousaram, tiveram medo de bala perdida. A quadrilha se empenhava em resgatar o galo. Quem o matasse, aumentaria o conceito com Miúdo, que, ainda no beco, dava coronhadas no paneleiro para ele nunca mais trombar com a sua pessoa e nem revidar seus xingamentos.
O galo entrou no meio de um goiabal, onde nem a luz do sol penetrava direito, procurando o esconderijo ideal, mas, ao contrário do que intuiu, a quadrilha de Miúdo se encafuou ali dentro dando tiros ao léu. O bruto, sem poder voar, entrou em pânico, aumentou a velocidade naquele terreno acidentado e se machucou, mas sem tempo para sentir dor. Depois de alguns minutos, os tiros cessaram. Ele se entocou debaixo de umas folhas secas e esperou seus inimigos desistirem de capturá-lo. O galo, depois de uma hora, desentocou-se, encaminhou-se para o sítio de um casarão abandonado, correu por toda a sua extensão, saiu na Edgar Werneck e sumiu dali para sempre.

Diferente da galinha do conto, o galo consegue escapar vivo, como Clarice Lispector marca, já que a galinha é estúpida, diferente do galo que é vitorioso: “não vitoriosa como seria um galo em fuga […] Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista”, galo que, nas duas obras, são personificados como o homem, aquele que subjuga as mulheres, que tem o seu ‘jeito’ de ser homem, ser esperto e confiar em si mesmo,  consegue ser livre dos ‘barbantes’.

Penso que a figura dessa ave é emblemática sim, pois não deve ser por acaso que podemos vê-la de maneira bem destacada no cartaz do filme Cidade de Deus

CidadedeDeus

Estou viajando? Em todo caso, o legal é que fica aí a ideia para refletirmos e compararmos as figuras simbólicas nas obras citadas.

Anúncios