Conto: Esquece, Marcelino Freire

Lead Title: Quem dera se tudo isso fosse uma realidade distante ou inexistente.

Pré-aviso: Como tudo não é um mar de rosas, cheio de sentimentos, principalmente cheio de amor, escrevo sobre algo que precisa ser dito, divulgo essa resenha que necessita, posteriormente, de sua reflexão.

Introdução/Contextualização:

Marcelino_Freire_02Marcelino Freire nasceu em Sertânia, interior de Pernambuco, em 1967. Entre seus livros publicados, se destacam Angu de Sangue (2000) e Nossos ossos (2013), representando temas sociais brasileiros contemporâneos-modernos sempre em tom crítico. A atuação social e literária de Freire é reflexo de suas experiências de vida, como ele mesmo revelou.

O conto Esquece encontra-se no livro Contos Negreiros, publicado em 2005, pela editora Record. O livro reúne 16 contos, na realidade, chamados de cantos em razão da marcante oralidade, do falar popular. A edição tem capa dura com apresentação de Xico Sá. Além de ganhar o Prêmio Jabuti, na categoria contos, em 2006.

Percepções:

O conto (canto III) em análise tem uma estrutura simples, curta e homogênea de apenas nove parágrafos, sua escrita possui também frases curtas e dinâmicas, imagens breves e com certa virulência, porque rapidamente você está dentro da história, do espaço e do tempo.

É interessante notar que os parágrafos são paralelos, se você pegá-los individualmente nenhum irá fazer falta para o outro, cada um por si só tem sentido completo, mas na ordem que estão dispostos reproduz a ordem cronológica dos acontecimentos da diegese: O 1º fato: o assaltante à espreita na escolha da vítima; partindo pro 2º fato: o assalto e assim por diante: a confusão gerada por ele, a chegada da polícia (“querendo salvar o patrimônio do bacana”), a revista na rua, a prisão e o depósito “outra vez” na cela.

Com cada fato declarado sequencialmente, sem pausas dentro dos parágrafos, porque não têm vírgulas, representa e proporciona a alusão, da correria da cidade urbana moderna, cheia de imediatismo – tudo tem que ser agora – não há intervalos. Para exemplificar, o 3º parágrafo:

 Violência é ele ficar assustado porque a gente é negro ou porque a gente chega assim nervoso e ponto de bala cuspindo gritando que ele passe a carteira e passe o relógio enquanto as bocas buzinam desesperadas. (pág. 31)

Isso provoca, inclusive, que os fatos imaginados por você enquanto o lê, passem também depressa, mudando de espaço/cenário/cena a cada parágrafo rapidamente.

Ele foi escrito como uma matéria comum, como uma carta sem sua estrutura completa ou, até mesmo, como um post respondendo a pergunta O que é violência pra você? Ou seja, o assunto abordado é violência urbana. Um assunto que sempre está em voga na sociedade. Com isso, durante a sua leitura, os fatores externos que provocaram e influenciaram o momento de escrita do autor vêm a nós fácil-fácil. Não é difícil imaginá-los, porque você os presencia, algo do tipo, ali ao lado, na esquina da sua casa, até mesmo discursos em redes sociais vêm à sua mente. Ele (o assunto) já se tornou banal pra sociedade, de tão enraizado que está, com isso o autor nem precisou contextualizar, introduzir e teorizar, simplesmente o início é igualmente como no fim, sempre iniciando cada parágrafo com: Violência é… E, em seguida, seus motivos. O conto começa direto, sem rodeios.

No momento de leitura, nem parece um texto escrito, parece bem mais com um discurso oral, uma fala entre um interlocutor e os receptores, isto é, os leitores.

Há uma modalidade de narração recorrente na obra do autor, configurando um tipo de narrador que mimetiza uma espécie de diálogo imaginário, uma fala responsiva que cria um efeito de oralidade como uma mímica a dominar toda a diegese. (BALDAN, 2011)

 Essa questão da oralidade faz lembrar das formas de se transmitir conhecimentos em eras passadas: um anfitrião, um ancestral, da aldeia passava para todos os outros habitantes seus conhecimentos, sejam eles crenças, mitos, sempre tentando responder algum fato. É o que também se vê aqui em “Esquece”, digamos que seja uma história didática.

Não há um mediador, um personagem nomeado. Nós sabemos qual a sua realidade, classe social e etnia por causa de suas afirmações dentro do texto. Essa escolha deixa claro que é um discurso de qualquer cidadão, qualquer um pode de maneiras diferentes ou idênticas se identificar com a narração. Marcelino cedeu aos negros um poder de fala, deu voz a quem é calado, julgado e apedrejado pela própria sociedade ao invés de ofertá-lo suporte.

A obra de Marcelino Freire guarda a memória de um desafio como molde cultural de percepção e interpretação da realidade, e o faz respondendo pelo lado do outro, não mais dominado e fraco, mas como uma personagem que argumenta e se defende, expondo a sua voz e as suas razões. É uma espécie de singularização da voz, mas que, imediatamente, reverte à coletivização das vozes da necessidade e da carência. Mais do que o homem comum, do homem que não costuma ter voz e que, portanto, é falado pelo outro, segundo os valores e esperanças do outro que o vê. E a voz que ressoa desse homem comum é uma voz desconfortável, que desacomoda os saberes cristalizados por séculos de vozes direitas, brancas e razoáveis. (BALDAN, 2011)

Logo, percebemos pela sua linguagem um homem (no caso, o autor) está falando pelo outro, se colocando no lugar de um negro, de classe baixa, da periferia e ficcional, porque está escrito sem gírias e de forma reflexiva, mas ao mesmo tempo coloquial, sem deixar o estilo de linguagem do dia a dia. Usando, excessivamente, no lugar do pronome pessoal “nós” a forma “a gente”. Simultaneamente, o narrador descreve/relata e faz seu discurso revelando suas posições e opiniões.

Sempre, desde o início da literatura, é o rico, é o capital tentando, veja bem, tentando relatar e se colocar no lugar do oprimido. Aqui as coisas mudam, há uma inversão de perspectivas, agora nós sabemos o outro lado, estamos ouvindo de alguém que, aliás, não deveria, mas está por baixo. “A voz que narra é a voz que sofre o que está narrado.”

A escolha da focalização que desconforta o leitor e humaniza o outro lado que é visto como o lado marginal, o reverso da violência. Focalizar o assaltante é mais do que admitir que haja outro ponto de vista: é fazer com que a voz revoltada fique ecoando nos ouvidos dos leitores.

Freire prova com sua escrita que a violência, a criminalidade e a periferia estão presentes de modo recorrente no cotidiano das grandes cidades, assim como a desigualdade, o preconceito, a discriminação, e a injustiça social. Um fator leva ao outro. Essa desigualdade social no texto está sempre permeada por questões dicotômicas polarizadas: polícia-ladrão, negro-branco, pobre-rico, oportunidades-inoportunidades e tantas outras possíveis de identificar.

Apesar disso, no fim, como sempre em qualquer discurso a maior parte é tudo da boca pra fora, nada muda e nada é colocado em prática… Desse modo, ano após ano as mesmas coisas se repetem. Por isso, o último parágrafo tem somente uma palavra: Esquece, isto é, “Deixa pra lá! Quem se importa, não é mesmo?”

Resumão:

É bom ver a literatura contemporânea trabalhando temas sociais de forma honesta e pura, porque em outros períodos literários  você encontra tantas coisas possíveis de serem problematizadas na própria história, até mesmo na obra em si. Não obstante, aqui já foi diferente, a obra faz o extraliterário ser problematizado. Parece um texto tão simples, porém passe para o externo e perceba como tudo se amplia e se expande.

Infelizmente, esse tipo de literatura já não vende tanto, na era moderna histórias românticas voltadas aos adolescentes e jovens é bem mais vendido/consumido, parando no topo das listas dos mais vendidos, principalmente se recebeu uma adaptação para o cinema. Também, o que se retrata nesses tipos de histórias está sempre escancarado em jornais e nos noticiários, quando alguém compra um livro sempre é com a intenção e argumentação de espairecer ou fugir um pouco desse mundo. Enquanto algumas produções fazem os leitores voar e, portanto, ficar nas nuvens, essa de Marcelino os coloca de volta ao chão e ainda os faz “incorporar” esse personagem tão significativo.

O livro não é tão extenso, é curto, mas com muito “pano pra manga”, recomendo muito a sua leitura.

Referências:

BALDAN, M. L. O. G. A escrita dramática da marginalidade em Marcelino Freire. Ipotesi, Juiz de Fora, v.15, n.2 – Especial, p. 71-80, jul./dez. 2011

Paulo Lins x Clarice Lispector

Paulo Lins x Clarice Lispector

Donzelas e jovens são raptados; meninos são arrancados dos braços dos pais; mães sofrendo os caprichos dos vencedores; templos e casas saqueados; praticam-se morticínios e incêndios. Finalmente, armas, cadáveres, sangue e lamentos por toda a parte (A cidade de Deus, Agostinho).

Quem assistiu Cidade de Deus,  de 2002, dirigido por Fernando Meirelles , baseado no livro homônimo, de Paulo Lins, com certeza se lembra da primeira cena do longa. O primeiro trecho que Meirelles grava é a cena que abre espaço para o desenrolar da narrativa, pois, de um lado está Zé Pequeno, no meio está uma galinha e Busca-Pé e, depois do garoto, encontra-se a polícia. Essa sequência é um flashforwardisto é, diferente dos flashbacks, essa estratégia antecipa ao telespectador acontecimentos futuros, que, no caso  do filme, seria a guerra.
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Quem leu o livo, inclusive, sabe que a cena que estou referindo não ocorre no início da narrativa, mas quase no finalzinho. A escolha de mostrar os fatos posteriores, foi do diretor e/ou do roteirista do filme. Além dessa mudança, o leitor também nota que a mesma cena do filme, que se inicia com a perseguição de uma galinha, no livro, a mesma cena é retratada, mas diz respeito à perseguição de um galo.

No momento em que vi a parte inicial do filme (essa do vídeo acima), eu pensei: Gente, isso é Clarice Lispector! Vocês conhecem o conto Uma galinha, da Clarice? Caso não conheçam, vale super a pena dar uma lida.
O que quero dizer aqui é o seguinte, temos, no longa-metragem uma cena que se aproxima muito da descrita pela escritora Clarice, porque a galinha do conto, assim como a ave que aparece no filme, também sente a necessidade de fugir por perceber que sua hora de morrer está próxima:

Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço […] A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça […] Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado […] E então parecia tão livre. Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. (LISPECTOR, 1998, p. 30).

A semelhança nos dois textos, tanto o verbal quanto o não-verbal, além da fuga da galinha, está também nos caminhos que as aves escolheram, de maneira arbitrária, de tomar, elas voam pelos telhados, lutam por suas vidas sozinhas, até cansarem, e também na escolha de se cozinhar carne de galinha nos domingos:

Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã (LISPECTOR, 1998, p.30).

No domingo, em vez de comprar a maldita carne de porco, de que ele tanto gostava e que ela odiava, optou pela galinha, prato predileto da esposa (LINS, 2002).

Além disso, se formos procurar no livro Cidade de Deus, encontramos vários trechos que fazem referência à ave, seja de maneira literal, como “haveria de estourar a boa pra poder comprar uma chácara no interior, viver o resto da vida criando galinha numa boa” (LINS, 2012) ou para caracterizar a mulher:

— Uma galinha comprando outra! — disse Ana Rubro Negra, finalizando uma conversa sem delongas com o feirante que lhe vendia um frango na feira de domingo […] — Comia meu cu dizendo que me amava e agora roba meu dinheiro na maior cara de pau! Filho da puta! Tu me largou porque eu não botei na tua bunda quando você me pedia, sua galinha… Tu é galinha igual a mim… (LINS, 2012).

ou para xingar um homem:

— Deixa que eu rumo uma mulher para rumar a casa, morou, cumpádi? Não quero viado lá em casa, não. Se tu fosse homem, tudo certo, mas tu é maior bichona, descarado, sem-vergonha, puto, galinha, marica… (LINS, 2012).

Ao pensar nessa personificação da ave, na obra de Lins, vemos que no conto de Lispector também podemos pressupor essa característica, visto que a autora descreve a sua personagem com trejeitos encontrados na mulher do século passado, por exemplo, em trechos como: “Parecia calma”, “não souberam dizer se era gorda ou magra”, “hesitante e trêmula”, “a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça”, “estúpida, tímida e livre”, “a galinha é um ser”, “surpreendida, exausta”. Cuja importância só aparece ao ser mãe: “De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada […] — Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem!“. Percebe-se, assim, a mulher que, apesar de seus sentimentos e opiniões, ela deveria aceitar o que lhe era imposto, sendo, portanto, uma mulher tolhida, que precisava aceitar o sistema, por não tinha voz nem vez.

cidade de deus

Por conta da personificação e da significação pejorativa da palavra galinha, é que podemos observar, na obra do autor paulista, a presença dela em momentos em que a mulher é vista ou tida como uma ‘puta’ ou então como algo material a ser ‘comido’, como nos trechos a seguir:

Resignação, solidão, ódio, medo. Juntou esses sentimentos que estavam trancados em seu quarto e os jogou pela janela, vestiu-se de modo provocativo, pintou-se e foi à feira comprar galinha (LINS, 2012).

[…]

Seu Zé Maria, morador do Bloco Oito, gostava de beber na praça Principal da favela. Era ali que, machucando uma moela de galinha e tomando um birinaite, observava as mulheres e sentenciava quem era boazuda e quem não era (LINS, 2012).

Ao levarmos em consideração a semântica de cunho sexual/pejorativo que gira em torno da palavra em questão, podemos pressupor que na fala de Zé Miúdo, quando ele ordena “soca o dedo na galinha” e ri de sua ‘piada’, o rapaz insinua um ato sexual, já que poderíamos pensar no revólver (onde é para apertar o gatilho – “socar o dedo”), como uma arma potente, próximo à figura de um pênis (joga bala-munição/joga o sêmen), que também pode machucar. Vemos essa relação ainda, quando a personagem do conto de Lispector recebe uma inspeção para saber se é magra ou não: “Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra”.

Por fim, ao vermos o filme e o livro ao qual o longa se baseou, a cena da galinha na obra cinematográfica não existe, pois a personagem que protagoniza esse episódio, no livro, é o galo, que, no texto narrativo, não morre, só as galinhas compradas por Zé Miúdo (Zé Pequeno, no filme) é que viram comida: (Colocarei aqui, a parte toda que descreve a cena da fuga do galo, quem não quiser ler, veja só as partes grifadas)

— Cocoricó, coricó! — fez o galo de Almeidinha olhando cabreiro para Zé Miúdo, que havia mandado Otávio comprar dez quilos de batata e cinco galinhas para completar o almoço. Otávio saiu correndo. Não via a hora do almoço tão falado durante a semana. O galo, de tanto ouvir comentários a propósito de sua existência, antes mesmo de o sol nascer, tratou de bicar, malandramente, o barbante que o prendia a um pedaço de bambu fincado no chão, até que ele ficasse suficientemente fraco para rebentar ao mínimo puxão. Iria fugir, porém, só depois que Almeidinha lhe jogasse os milhos de que tanto gostava, o que ainda não havia acontecido.
É certo que o galo de Almeidinha não entendia bem as coisas, por ter raciocínio de galo, mas ao olhar aquele monte de crioulos com as bocas cheias de dente, bebendo cerveja, olhando à socapa para ele, fumando maconha e dizendo que não iriam cheirar para não perder o apetite, não cantou, como de costume. Ficou ali na dele esperando a refeição.
Otávio chegou de táxi com as cinco galinhas enroladas em jornais, patas amarradas. Marcelinho Baião ajudou o menino a levar as galinhas até a cozinha. Miúdo mandou que jogassem as galinhas no terreiro para o galo dar-lhes uma bimbada e morrer feliz. O bandido acreditava que assim a sua carne ficaria mais macia e saborosa. A mulher de Almeidinha dizia que o galo deveria ser o primeiro a entrar na panela, por ser o seu cozimento mais difícil. O galo, esquecendo-se de tudo, pulou em cima de uma galinha e logo procurou outra e todos bateram palmas, enquanto Almeidinha aguardava com uma enorme faca na mão. O galo não dava chance às galinhas. Mesmo com a certeza de que tudo era pertinente ao seu cozimento, achava que iria morrer e ao mesmo tempo não achava. Coisa de galo. Mas ao ver, de relance, a faca sendo sustentada por aquele que durante toda a sua vida acreditara ser seu amigo, certificou-se de que tudo ali concorria para o seu falecimento. Na primeira tentativa, livrou-se do barbante, que foi ficando mais fraco no momento em que executava a galinha, saçaricou entre os convidados e saiu quebrando pelas vielas.
A quadrilha saiu atrás do galo, porém galo de favela é arisco como o cão: entrava e saía das vielas, ágil como uma onça, fingia que ia e não ia, fingia que ia e ia, corria agachadinho para não ser percebido de longe, nas quinas das esquinas botava só meio rosto à vista para ver se tudo estava limpeza, vez por outra alçava voos de quinze a vinte metros, corria desesperadamente para os Blocos Novos, dificultava a sua captura. A quadrilha gargalhava enquanto perseguia o almoço. Miúdo, ao dobrar uma viela, trombou com um vendedor de panela e foi ao chão junto com ele. Levantou-se de supetão, mandou o sujeito tomar no cu e ordenou aos berros: Senta o dedo no galo! E começou o tiroteio. O galo voou por sobre o braço esquerdo do rio enquanto em seus ouvidos zuniam tiros que esburacavam o chão, passou entre o Bloco Sete e o Bloco Oito. Também, em pequenos voos, poderia subir o Morrinho ou quebrar para a praça dos Apês, ficou com a primeira opção. Nunca se ouviram tantos tiros nos Apês. Mesmo as pessoas que sempre botavam o rosto na janela em dia de tiroteio, para dar uma espiadinha, desta vez não ousaram, tiveram medo de bala perdida. A quadrilha se empenhava em resgatar o galo. Quem o matasse, aumentaria o conceito com Miúdo, que, ainda no beco, dava coronhadas no paneleiro para ele nunca mais trombar com a sua pessoa e nem revidar seus xingamentos.
O galo entrou no meio de um goiabal, onde nem a luz do sol penetrava direito, procurando o esconderijo ideal, mas, ao contrário do que intuiu, a quadrilha de Miúdo se encafuou ali dentro dando tiros ao léu. O bruto, sem poder voar, entrou em pânico, aumentou a velocidade naquele terreno acidentado e se machucou, mas sem tempo para sentir dor. Depois de alguns minutos, os tiros cessaram. Ele se entocou debaixo de umas folhas secas e esperou seus inimigos desistirem de capturá-lo. O galo, depois de uma hora, desentocou-se, encaminhou-se para o sítio de um casarão abandonado, correu por toda a sua extensão, saiu na Edgar Werneck e sumiu dali para sempre.

Diferente da galinha do conto, o galo consegue escapar vivo, como Clarice Lispector marca, já que a galinha é estúpida, diferente do galo que é vitorioso: “não vitoriosa como seria um galo em fuga […] Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista”, galo que, nas duas obras, são personificados como o homem, aquele que subjuga as mulheres, que tem o seu ‘jeito’ de ser homem, ser esperto e confiar em si mesmo,  consegue ser livre dos ‘barbantes’.

Penso que a figura dessa ave é emblemática sim, pois não deve ser por acaso que podemos vê-la de maneira bem destacada no cartaz do filme Cidade de Deus

CidadedeDeus

Estou viajando? Em todo caso, o legal é que fica aí a ideia para refletirmos e compararmos as figuras simbólicas nas obras citadas.