Netflix: algumas dicas, parte II

Netflix: algumas dicas, parte II

Eu sei que vocês se lembram sobre a minha promessa de postar mais dicas de filmes disponíveis na Netflix, num post anterior, certo? Essa proposta rolou, porque algumas pessoas sempre me perguntavam: o que tem de legal para assistir na Netflix, rê? E, assim, de cara, é sempre difícil indicar algo, ainda mais quando não sabemos o gosto (referente ao gênero do filme) da pessoa. Então, a ideia é válida, para que as pessoas saibam que na plataforma tem sim filmes interessantes e tem sim filmes bons, além das séries, e, com tudo listadinho, cada pessoinha encontrará os longas de sua preferência.

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É sempre um ótimo programa, não é?

Para fazer isso, precisei, primeiramente, selecionar os títulos que eu colocaria aqui como opção. As escolhas não são imparciais, elas estão carregadas (muito carregadas) da minha preferência e da minha experiência com determinados filmes, por isso, a maior lista de todas, conforme o gênero proposto pela Netflix, é o bendito drama. Quem me conhece sabe o quanto eu gosto de dramas (desde na questão artística, quanto na questão vivência), então foi difícil fazer uma lista reduzida, mas espero que compreendam.

  • Clube de compras Dallas

Sabe aquele filme que parece que o ator nasceu para interpretar o personagem? Então, Matthew McConaughey (aquele ator das comédias românticas), com direção de  Jean-Marc Vallée, interpretou tão bem o Ron Woodroof que chega ser sofrível assisti-lo em cena, com seus 20 quilos a menos. O homem, que é caubói, sofre com a doença mais temida em 1985, a Aids. Nessa época, em acreditava-se que a doença era exclusividade de homens gays e usuários de drogas injetáveis. Surge, então, um personagem machista, homofóbico e preconceituoso, que começa a contrabandear remédios para conseguir manter sua vida. Inicialmente, seu propósito é ajudar a si mesmo, mas, com o tempo, ele começa a revende-los à outras pessoas soropositivas e, com isso, cria o Clube de Compras Dallas. Com isto, alguns aspectos vitais de sua trajetória se tornam evidentes, como o seu ativismo não proposital e sua luta contra as indústrias farmacêuticas que distribuíam drogas mortais para os doentes, com ajuda de uma transexual Rayon, interpretada por Jared Leto.

Penso que, além das atuações geniais, o filme merece ser visto por suscitar uma série de questões problemáticas, desde do tratamento da Aids, como lidar, etc., até as relações intersociais que mantemos todos os dias.

Resenhas: cinemaqui e hopeinlove

Outros títulos que se assemelham em temática: 50% (nesse filme, o personagem tem câncer e o roteiro é lindo!), On the road (passa-se em uma época em que muita coisa é liberada, quase como acontece no Compras Dallas), Discurso do Rei (também é uma ficção-biografia e também foi indicado ao Oscar), Frida (também é uma biográfico e maravilhoso), O jogo da Imitação (também é baseado em fatos, também foi indicado ao Oscar), Não estou lá (GRANDE produção biográfica sobre o MARAVILHOSO Bob Dylan), Piaf: um hino ao amor (Possivelmente, quem assistir, vai chorar do início ao fim, de tão lindo que é e por ter um roteiro muito bem trabalhado, sobre a emblemática Piaf), Coco antes de Chanel (Atuação: Audrey Tautou, biografia bem construída, no filme), Amadeus (produção maravilhosamente desenvolvida sobre a história da vida de MOZART. Nem preciso falar sobre a trilha sonora, certo?).

  • Educação (An Education)

Eu amo esse filme. A temática é o velho discurso que envolve o dilema sobre o verdadeiro banco de aprendizado: escola ou a vida, mas, apesar de ser um tema batido, temos a maravilhosa Carey Mulligan, que nos encanta, que nos leva e nos amarra na trama. Uma moça ingênua, que só estudava e nunca saia, sonhava com a França e com homens românticos. Toda seu ‘mundo’ se transforma, quando ela se apaixona pelo charmoso David (Peter Sarsgaard). Homem mais velho, com mais experiência que ela, que a envolve em sua vida confusa. Não vou falar sobre o desfecho – que é muito lindo – porque as pessoas não gostam de spoiler.

O que posso dizer é: super me identifico com a personagem, a trilha sonora e a fotografia são ótimas, o elenco e o figurino foram composto com esmero e se passa em Londres.

Resenha: moviesense

Outros títulos: pensando no lance adolescente-problemas-fase-difícil-com-filmes-ótimo-para-ver, temos o filme Inquietos (é bem adolescente, mas é uma graça de belo. A personagem tem câncer terminal, mas de um jeito bem diferente – e melhor – que a Culpa é das estrelas), Em busca por uma nova chance (também é interpretado pela linda Carey Mulligan, e é sobre o amor entre dois jovens: o menino morre, a mina fica sozinha e grávida. O legal é acompanhar a história do casal, em flashback, e ver, em tempo ‘real’ o drama que a garota sofre para convencer os pais do rapaz que ela carrega o neto deles), Se enlouquecer não se apaixone (é lindo e tem o Zach fofíssimo Galifianakis. A história é sobre um garoto que acaba internado na ala psiquiátrica, junto com adultos, e acaba se apaixonando por uma garota bem perturbada), Bling Ring (filme da legal Sofia Copola, que conta a história de uma gang de adolescentes – que existiu mesmo – que assaltam as casas das celebridades de Hollywood. A trilha sonora é bem boa), Eu matei minha mãe (uma resenha legal aqui. É um filme que discorre sobre uma relação entre mãe e filho-homossexual. Ótimas atuações e é intenso), Preciosa (um filme sobre a vida e problemáticas de uma garota negra, de 16 anos, ambientada em 1987, que era abusada pela mãe e violentada pelo pai), Vantagens de ser invisível (indie, bonito de ver, e é sobre um garoto que se sente deslocado, que não tem facilidade para interagir até que ele encontra os amigos ideais para ele). Amor a distância (não é tão adolescente, porque os personagens são mais velhos, mas é tão lindinho fofinho delícia, como uma temática tão comum para os jovens…)

  • Onde os fracos não tem vez (No Country for Old Men)

Meu preferido dos Irmãos Coen. Sem sombra de dúvida. Penso, inclusive, que eles quase chegaram à genialidade com essa produção. Tenho quase uma reverência ao Javier Bardem em sua atuação como Anton Chigurh, um assassino que mata muito e sabe matar e tem uma arma muito muito engenhosa.

Não tem como, em poucas palavras, dizer o quanto o jogo de imagens, com o manuseio da câmera, é muito bem trabalhado, como a mente doentia é extremamente explorada e exposta, por meio do personagem de Bardem, ator maravilhoso que dá ao personagem características impecáveis, como, o jeito de antar, o olhar objetivo, os movimentos, a voz, o cabelo…, o filme tem um humor peculiar.

O filme, localizado no Texas, mostra a trajetória de um assassino (que não é o personagem principal, mas é aquele que rouba a cena), na década de 80. Llewelyn Moss (Josh Brolin), encontra um traficante de drogas no deserto e resolve pegar uma valise cheia de dinheiro que foi encontrada no local. Logo, Anton Chigurh, o tal assassino sem piedade, é enviado para matar Moss e pegar o dinheiro. Entretanto, para chegar em Moss, o psicótico Chigurh precisará passar pelo xerife local, Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones).

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O longa é uma baita tensão, com uma trama profundamente imanente e uma metáfora de transcendência. Não tem como falar muito sobre essa obra. Mas, quem puder, super assista.

Resenhas: discutindocinema, ccine10 e contracampo

Filmes quase semelhantes: Biutiful (é denso pra caramba, não tem muito o lance de assassinato e sangue, mas serve para transtornar. É mais uma coisa sobre pós-morte. O delicioso deste filme é poder deitar e ver um cara que manda muito bem na atuação: Javier Bardem-deuso), Millennium: Os homens que não amavam as mulheres, O silêncio dos inocentes (o personagem principal é bem psicopata), Precisamos falar sobre o Kevin (GENIAL de bom, não consigo nem falar o que é melhor nesse longa. Tem a Tilda!), Old Boy (O melhor da trilogia da vingança), Entre segredos e mentiras (filme todo loucão, com o meu mais maravilhoso Ryan Gosling e Kirsten Dunst), Donnie Darko (não é sobre um assassinato, mas é sobre um garoto que sofre alguns transtornos psicológicos).

  • Tudo sobre a minha mãe

Um filme espanhol, de 1999,  dirigido pelo grandioso Pedro Almodóvar. O filme lida aborda temas complexos como a AIDS, o travestivismo, a identidade sexual, a religião, a fé e  até mesmo o existencialismo.

A trama conta com personagens femininos, mulheres super fortes, que enfrentam lindamente o machismo, o preconceito e etc, por meio do seguinte enredo: No dia de seu aniversário, Esteban (Eloy Azorín) ganha de presente da mãe, Manuela (Cecilia Roth), uma ida para ver a nova montagem da peça “Um bonde chamado desejo”, estrelada por Huma Rojo (Marisa Paredes). Após a peça, ao tentar pegar um autográfo de Huma, Esteban é atropelado e termina por falecer. Manuela resolve então ir de encontro ao pai, que vive em Barcelona, para dar-lhe a notícia, quando encontra no caminho o travesti Agrado (Antonia San Juan), a freira Rosa (Penélope Cruz) e a própria Huma Rojo.

Os cenários do filme trazem o estilo de Almódovar, além da prova do amor do diretor pelas mulheres, que chega ao ponto de subtendermos que ‘os homens não são necessários’ (El País).

O que antes era excessivamente bizarro e cafona dá lugar à problemas do mundo moderno revestidos de uma nova postura, não que Almodóvar tenha perdido seu fetiche pelo bizarro e pelo cafona, porém o que vemos aqui é seu lado humano em personagens cheios de sensibilidade (Ebah).

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Filmes com alguma semelhança: A pele que habito (mesmo diretor), A escolha de Sofia (personagem principal é mulher e de uma força gigantesca), Histórias Cruzadas (personagens principais são mulheres e negras, com um enredo envolvente), A troca (mulher, mãe, Angelina Jolie: pura emoção de chorar).

  • Adam

Faz muito tempo que vi esse filme e até hoje ele me encanta. Foi surpreendente vê-lo disponível na Netflix, porque, quando eu quis assisti-lo, foi muito difícil para conseguir o download. Agora é facilzinho.

O longa-metragem é sobre o Adam (Hugh Dancy, que destrói na atuação), um portador da Síndrome de Asperger, que perdeu o pai recentemente. Paralelamente, ele desenvolve um relacionamento com sua vizinha, Beth (Rose Byrne). Com ela, os espectadores aprendem um pouco mais sobre a síndrome, de maneira bem didática, clara e sensível.

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Algumas informações sobre filme e a síndrome: trabalhosgratuitos psicologacuritiba

Filmes que se aproximam, por conta do romance-não-tão-leve-assim: Mesmo se nada der certo (lindo!!), Entre irmãos (A mulher é casada, o marido vai pra guerra. A família acha que ele morreu, a mulher tem um romance com o cunhado. O marido-da-guerra volta da batalha!), Azul é a cor mais quente (não gosto desse filme por vááários fatores, mas acho que o pessoal precisa assisti-lo, para ver esses váááários fatores e problematizar), Como não perder essa mulher (o filme, inicialmente, parece bobo, mas a discussão que ele trava, com o lance de homens x pornografia, é muito válida), Direito de amar (dirigido pelo Tom Ford, história de dois homens apaixonados. Fotografia e trilha sonora impecáveis), Peixe grande (Tim Burton), Um conto chinês (filme ótimo!), Shame (um dos filmes que já vi que tem a cena de sexo mais intensa e sofrida, além de ter um nu frontal do maravilhoso Michael Fassbender e abordar temas como vício em sexo e incesto), Minha vida sem mim.

  • Paris, Texas

Paris, Texas conta a história de Travis, um homem que, depois de estar desaparecido por mais de quatro anos, é reencontrado pelo irmão Walt num hospital na região desértica do Texas, próximo à fronteira com o México. Maltrapilho e com amnésia, é levado por Walt para a sua casa em Los Angeles, onde reencontra Hunter, seu filho de sete anos que foi abandonado pela mãe, Jane. Inicialmente estranhos, Travis e Hunter iniciam uma reaproximação que culmina num a grande amizade e também no desejo secreto de reencontrar Jane e reconstruir sua verdadeira família.

O bom do filme, além da fotografia, trilha sonora, enquadramentos e atuação, é a discussão sobre o papel do pai numa sociedade burguesa-paternalista.

O filme é lindo e super vale a pena vê-lo, desde que não se deixe iludir pelo machismo, por fazer parte do contexto sócio-histórico e ideológico da época, retratado no filme (a mãe abandonar o filho é loucura, enquanto que o pai, ao abandonar o filho, é visto como sofredor, etc.).

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Filmes com alguma semelhança: Deus da carnificina (duas famílias que brigam por seus filhos, com um enredo que não muda de espaço, como Dogville e até mesmo Oito odiados), Álbum de família (com Meryl Streep como matriarca do grupo familiar), Ida (filme independente, ganhou Oscar, e mostra o percurso de uma mulher, criada em um orfanato e prestes a entrar para a ordem, descobre segredos de seus antepassados, na Polônia, durante a ocupação Nazista).

  • Antes da meia-noite

trechos-de-antes-do-amanhecer-antes-do-por-do-sol-e-antes-da-meia-noite-1370037807190_300x420O último filme da Trilogia do Antes, de Richard Linklater, que trabalha com a temática relacionamentos. Com vista nisso, o trabalho mostra Celini e Jesse (Julie Delpy e Ethan Hawke), dois jovens que tiveram o seu primeiro encontro num comboio entre Budapeste e Viena (Antes do Amanhecer, 1995). Nove depois, ao visitarem Paris (Antes do Anoitecer, 2004), ambos se reencontrarem, em um momento totalmente diferente que o anterior. Por fim, em Antes da meia-noite (2013), 18 anos após o primeiro encontro deles, Celine e Jesse aparecem casados, com duas crianças e de férias em Messinia, Grécia. Durante todo esse percurso apresentado, podemos ver de pertinho o desenvolvimento dos seus laços, a construção de uma vida, o convívio cotidianamente, os encontros e os desencontros do casal. No último filme, por exemplo, vemos a realidade do dia-a-dia das suas vidas e, apesar de ainda se amarem, questionam os motivos pelos quais se aproximaram.

Qualquer pessoa que se preze, que tenha tempo e disposição, precisa assistir esses filmes, não só por serem maravilhosos, mas por marcarem uma nova abordagem do tema ‘relacionamentos’.

Até hoje um tipo de histórias de amor predomina no cinema: o amor romântico. Aquele em que a mocinha inocente conhece o amor de sua vida, e após alguns empecilhos eles descobrem que são feitos um para o outro e vivem felizes para sempre. Mesmo com este tipo de história sendo predominante, nos últimos anos tivemos filmes como “500 Dias Com Ela”, “Amor” e até mesmo “Frozen” que fogem desse padrão e mostram o amor de uma maneira mais próximo da realidade. Mas poucos filmes conseguiram retratar o que o amor realmente é quanto a “Trilogia do Antes”, de Richard Linklater (altamenteacido).

Além disso, o longa é resultado de uma dedicação sem tamanho, do diretor e dos atores, pois sua produção foi realizada com verdadeiros 9 anos de intervalo entre uma filmagem e outra. Tudo isso para dar uma verossimilhança e um aspecto real do relacionamento do casal, até porque, é visível o amadurecimento e o envelhecimento natural de cada um dos atores.  Por isso, a trama se tornou uma das mais belas e reflexivas histórias de amor do cinema contemporâneo, já que cada encontro e cada filme têm sido marcados pela idade, maturidade e necessidades dos protagonistas que, se antes eram pautadas pela impulsividade e necessidades românticas, tornaram-se cada vez mais dominadas pelo pragmatismo.

Não preciso dizer que eu amo esses atores e seus respectivos personagens, certo? Guardo com um carinho todo especial os sentimentos que essa obra despertou em mim, além da expectativa, da espera, da paciência, que tive entre uma estreia e outra.

Sinto dizer que, na Netflix, só o último filme está disponível para acessoApesar disso, vale total o esforço de procurar os dois filmes anteriores e assisti-los, para seguir a ordem da obra certinho.

Resenhas: cinemadetalhado, cinema.uol e uai

Filme que tem uma temática muito próxima: Apenas uma vez (relacionamento, abordagem bem contemporânea e linda, com uma trilha sonora impecável).

  • Tomboy

Amo de paixão filmes com atuações infantis. Ver a molecada dando show de atuação é gratificante pra caramba. Principalmente, quando temos temas polêmicos que exigem uma caracterização, uma performance mais forte. E é exatamente isso que encontramos em Tomboy.01
Selecionei as imagens que colocarei no post e já comecei a fungar, querendo chorar mesmo, porque, galera, é isso que o filme é: um baita soco no estomago.

O filme foi escrito e dirigido pela francesa Céline Sciamma (Garotos não choram). Ele narra a história de uma menina de dez anos, Laure (Zoé Héran), que se comporta de uma maneira, que relacionamos ao gênero masculino. Ela é dedicada à mãe, ao pai e à irmã menor, Jeanne (Malon Levana). Devido ao seu comportamento, suas roupas e gestos, Laure começa a viver duas vidas: dentro de casa é a menina, enquanto fora é um menino.

Tudo no filme é produzido e abordado com uma delicadeza e calma sem igual, sem querer polemizar, mas apresentar um assunto que não costumamos discutir com frequência: a descoberta da sexualidade na pré-adolescência.

Resenhas: cinepipocacult e pitangadigital

Filmes com alguma semelhança: Albert Nobbs (não é criança atuando, mas a temática é muito próxima) e A menina no país das maravilhas (uma criança que atua lindamente a personagem Phoebe, uma menina que se esconde em suas fantasias, até chegar ao ponto de confundir a realidade com seus sonhos. Trailer). Beasts of no Nation (filme original Netflix, que narra a história e percurso de um menino, separado da família durante a guerra civil africana, e que se torna um garoto-soldado, ao lado de mercenários. Um baita golpe  na alma esse longa).

Um beijo e um queijo e até a próxima e é isso aí.

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Filme: O Homem Que Era O Super-Homem

Filme: O Homem Que Era O Super-Homem

Todos nós amamos heróis. Todos temos primeiras lembranças um tanto quanto embaçadas das primeiras vezes que os vimos. Eu lembro do Batman nas manhãs de sábado na televisão. Eu lembro do meu irmão mais velho me contando sobre o Wolverine e da primeira vez que vi o Ciclope. Do filme do Super-Homem tarde da noite e eu correndo com uma toalha em volta do pescoço imaginando voar. Lembro de ir até a biblioteca quando a minha irmã tinha de fazer algum trabalho para a faculdade e ficar na sessão infantil lendo os gibis velhos (alguns faltando páginas, outros riscados) do Homem-Aranha.

Os homens que eram super-homens e os falsos heróis no cinema hoje

Em 2004, Homem-Aranha 2 estreou nos cinemas. Nos meses que antecederam sua estreia, lembro-me de ir repetidas vezes à locadora alugar o primeiro filme, eu não me cansava de rever, mesmo a repetida lição de moral de que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Era tão impressionante quanto o filme do Superman tinha sido quando o assisti na televisão pela primeira vez aos 5 anos de idade. E então eu finalmente fui ao cinema e a Tia May eventualmente diz:

Ele reconhece um herói quando vê um. Existem poucos personagens lá fora, voando por aí daquele jeito, salvando velhas garotas como eu. E Deus sabe, crianças como o Henry precisam de um herói. Pessoas corajosas e altruístas, dando exemplo para todos nós. Todo mundo ama um herói. Pessoas se alinham por eles, torcem por eles, gritam seus nomes. E anos depois, elas vão contar como ficaram na chuva por horas só por um relance daquele que as ensinou como aguentar firme por um segundo a mais. Eu acredito que exista um herói em todos nós, que nos mantém honestos, nos dá força, nos enobrece, e finalmente permite que morremos com orgulho. Mesmo que às vezes temos de ser firmes, e desistir daquilo que mais queremos. Mesmo dos nossos sonhos.

Essa semana eu revi O Homem Que Era O Super-Homem, um filme sul-coreano de 2008, dirigido por Yoon-Chul Chung, que conta a história de um homem que dizia ser o próprio Super-Homem. Dessa maneira, ele passa o dia andando pelas ruas da comunidade onde vive, procurando por uma chance de ajudar quem quer que seja, desde senhoras carregando sacolas pesadas, até assaltos, entre outras. Todos o encaram como um homem louco, menos as crianças que gostam de ouvir suas histórias como o Superman.

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É curioso como um homem, sul-coreano, vestindo uma camiseta havaiana, consegue nos convencer de que estamos assistindo um filme do Superman. Nisso podemos destacar tanto a direção quanto a atuação. Jeong-min Hwang, no papel principal, tem em seu olhar, seu sorriso, e sua postura, os mesmos traços do Superman clássico que todos conhecemos e identificamos, tanto nos quadrinhos e desenhos animados, quanto em seus primeiros filmes encenado por Christopher Reeve. E ao mesmo tempo essa postura de super-homem é quebrada quando o vemos humano, se machucando ou brincando com as crianças, por exemplo. Nisso podemos afirmar que ele é sim de fato, louco, ou (e eu prefiro assim) dizer que é o Clark Kent nele. Desde a sua primeira cena no filme, onde ele (mais rápido que uma bala!) salva a jornalista que o acompanha no decorrer do filme, com uma pose clássica de Super-Homem, sabemos, este é o Super-Homem! Mas é claro, nós mesmos desconfiamos de que, bom, talvez ele não seja de fato o Superman, e essa é a grande questão da história.

O filme utiliza de muitas imagens fantásticas e líricas, pode-se dizer, para mostra como o SUPER do herói pode existir em uma pessoa aparentemente comum, aos olhos dos que acreditam, como na cena em que ele finalmente voa. Descobrimos duas tragédias na vida deste Super-Homem, e que uma delas aconteceu porque nenhuma pessoa quis se arriscar para salvar a vida de outras pessoas, e desta forma ele dedica sua vida a fazer o oposto do que aquelas pessoas fizeram com ele.

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Atualmente temos um Superman diferente no cinema. O novo homem de aço da DC/Warner não tem cores, não tem sorriso ou carisma, e ao invés disso ele veste seu corpo numa roupa escura, e seu rosto num semblante triste. A mãe (que se chama Martha) deste Clark Kent, diferente da Tia May daquele Peter Parker, ensina seu filho que ele não deve nada às pessoas deste mundo. Enquanto o novo Batman (com uma Martha como mãe também) segue o mesmo modelo triste e escuro. A motivação do Batman para lutar sempre foi um otimismo insano de que seus atos fariam do mundo um lugar melhor, como Grant Morrison sintetiza muito bem em Corporação Batman, quando Bruce Wayne conversa sobre a morte de seus pais com o Comissário Gordon:

Eu olhei para aquele buraco nas coisas tantas e tantas vezes, até machucar, Jim… E sabe o que eu encontrei lá? Nada…
… E espaço suficiente para conter tudo.

Mas este novo Batman se motiva pelo fato de que o mundo não muda e criminosos não acabam então ele precisa matar a todos. Um Batman niilista? Ok, mas, mesmo desta forma, não faz muito sentido. Talvez seja o reflexo de novos tempos como muitos fãs tentam argumentar. Talvez. Seria uma pena.

Eu por outro lado, gosto de acreditar que heróis são e sempre serão aquilo que a Tia May descreveu no segundo filme do Homem-Aranha e que encaixou perfeitamente como a explicação do porquê esses personagens significam tanto para mim, e para muitos. E que me mostrou que sim, aquele coreano de camisa havaiana é o Superman, e que não, estes novos batman e superman não são nem O Batman nem O Superman. Talvez seja uma questão ideológica (apesar de que os novos filmes da Warner são ruins também tecnicamente), e se for, que o novo filme da Marvel Studios, Capitão América: Guerra Civil consiga fazer o Homem-Aranha representar algo bom, algo como o que um herói deve ser mesmo em tempos difíceis, mesmo em novos tempos.

(Filme completo no YouTube)