CD: Olho de Dentro, Bruna Moraes

Lead title: Os sentimentos. Quer coisa mais humana que isso? Se delicie, sinta, com Olho de Dentro.

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Kuarup Music, RS18,90

Introdução/Contextualização:

Bruna Moraes é uma artista nata: cantora, instrumentista, compositora e intérprete de apenas 21 anos. Pelos seus admiradores, é comparada a Elis Regina e sua filha Maria Rita. Nascida em São Paulo, em um meio familiar musical, começou a estudar violão aos 11 anos, quando estava na 5ª série, na Escola de Música do Estado de São Paulo.

Foi lá, inclusive, que ela conheceu quem, hoje, são seus parceiros, formando uma equipe talentosa: “A ideia do disco era introduzir minhas canções, compostas dos 14 aos 17, e registrá-las ao lado dos meus parceiros Ítalo Lencker, Peter Mesquita, Fábio Leandro e muitos outros queridos em minha vida”, afirmou em uma entrevista. Entre os 14 e 16 anos, Bruna já cantava em bares, sempre acompanhada dos pais.

Seu primeiro trabalho saiu em 2014, quando tinha apenas 19 anos (mas, só a conheci no dia 17 do mês de março), produzido por Pedro Baldanza intitulado Olho de Dentro, pela gravadora Kuarup, um selo independente que lançou importantes álbuns da MPB, entre eles, Cartola Ao Vivo, do Cartola, numa tiragem de 1000 cópias.

Análise da obra no geral:

 Classificando o todo, é um disco de gênero MPB, com melodias envolventes, cativadoras. Seu repertório já é múltiplo, com regravações, parcerias, composições de sua própria autoria (oito das 13 faixas) e proporciona um passeio, uma mescla, por ritmos e temas bem brasileiros, embora ainda reduzido sua tracklist dispõe de 13 faixas. Deparamo-nos com uma intersecção de elementos da cultura afro-brasileira, nordestina, religiosa muito presente por causa da ligação forte de Bruna com a religião umbanda, pois ela é umbandista. Há referências à natureza, às culturas e aos sentimentos relacionados com o nosso país.

O CD se divide em músicas que farão você sair dançando pela casa, de músicas para refletir ou de músicas para sentir. Em algum momento, mesmo que alguma letra seja profunda, a instrumentalização a deixa leve, o que proporciona um contrabalanço, um equilíbrio entre a composição e a música. Por outro lado, vem à interpretação de Bruna com uma voz que atinge direto a mente e o peito. A paulistana usufrui de todos seus dotes artísticos, cujo resultado é um trabalho maduro, coeso, alegre, sereno e sóbrio.

Análise das letras (Conteúdo-Temas-Composição):

Várias temáticas são bem presentes nas músicas de Olho de Dentro, como o amor, a natureza, a negritude (por meio de personagens negros brasileiros), religião, etc. Além disso, em determinadas músicas a jovem tenta igualar-se aos maiorais e aos artistas consagrados, em histórias que retratam situações não tão comuns nas gerações atuais e sim em outras gerações. Em algumas canções, a instrumentista assume o papel masculino, quando a personagem lírica é feminina, mas a cantora/compositora está ali: “Quase tudo o que escrevi, é verídico”, revelou.

É comum elementos da natureza servirem de apoio a compositora, talvez, por não encontrar nomes/palavras técnicas para explicar o que se passa no seu interior. E, ao utilizar essa técnica ‘natural’, surge uma identificação entre os elementos (cantora x natureza x orgânico), para, com isso, poder expressar-se totalmente. Além de, assim, conseguir deixá-las mais líricas e belas. Imagina se houvesse vários nomes científicos? Muitas das letras são curtas de 3 a 4 estrofes, porém por causa de seu conteúdo, surtem o efeito esperado de te tocar e de te fazer refletir, às vezes até mais do que o esperado, ou seja, cumprem bem o seu papel.

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Análise do artista como intérprete das suas canções (Voz, notas, modo de cantar e tons):

Bruna não interpreta nenhum personagem. Seu eu está presente em cada parte do trabalho. A jovem artista usa, sem esforço, a variação de tons a favor de sua interpretação, porque ela dispõe de uma técnica vocal sem igual. Por isso, levita, transborda, exorta, toca pela sua voz, sem exageros. Em certos momentos, até manipula muitas onomatopeias, seguindo o som de algum determinado instrumento. Por outro lado, em alguns instantes desempenha alguns tons mais graves, porque a música pede isso, com o propósito de representar sua dor. Sem esquecer-se de brincar com sua voz, brincar com sua música, fazendo algumas entonações aleatórias, principalmente em Bolinha de Papel (Clique no nome para ouvir).

Análise da instrumentalização no geral e faixa-a-faixa:

A instrumentalização, como dito antes, é bem brasileira, por pertencer necessariamente a ritmos típicos do Brasil, como o baião, o xote e o samba: composta por violões, pandeiro, bateria, acordeom/sanfona, baixo, piano, teclado, tambores (rebolo e tumbadoras), chocalho, ganzá, cascata, pau-de-chuva, moringa, baqueta comum e baqueta vassoura.

Classificando com nomes técnicos: há diversos instrumentos de origem indígena e africana de percussão dividos em dois estilos: condução que servem para, obviamente, conduzir ou mover um ritmo e os de efeito para dar uma ênfase a mais na música e, assim, criar efeitos específicos, muito comuns em sonoplastia teatral.

Zóio de Foia faixa assinada por ela e abre o disco.

É um xote nordestino composto por triângulo, piano, violão, sanfona/acordeom, baixo, bateria e chocalho. A letra descreve e revela métodos muito utilizados pelos nordestinos ou demais brasileiros com o intuito de pagarem promessas ou de fazerem mandingas em busca de conquistar a pessoa amada:

Se preciso for eu subo
A escada do senhor do Bonfim de joelhos
(…)
Ponho seu nome na boca do sapo
Faço a mandinga que for pra te ganhar (…)

Até a linguagem está em uma variação linguística regional e social com o emprego do substantivo zóio (olho), do pronome pessoal nóis e do verbo no infinitivo sem o R final, prolongá:

E muita cria prá nóis se prolongá

Foi proposital? Foi. Mas, que deu um charme a mais…  Ah, isso deu (risos).

 Iansã (segunda faixa)

Se constitui de piano, ganzá, baixo, bateria, violão e tambores (rebolo ou tumbadoras). A canção já se inicia descrevendo o clima do momento. Pode ser um clima atmosférico externo/temporal ou um clima interior/depressivo:

Um vento forte estampa a chuva
Raios e ventos, trovões do Norte
O meu vendaval tem punhais em mão

E, em seguida, uma oferenda ou uma invocação do orixá:

Os olhos da mãe são meus olhos no clarão
Relampeia aqui dentro, em mim

Pede para ter a proteção, para que viva, se manifeste em Bruna. No final:

Iansã e eu seremos um só

Muito Mais (terceira faixa)

Contém apenas baixo, bateria, violão e piano. Descreve de forma sublime e elegante o que o amor causa e faz com o eu lírico. Muito Mais é a música com a letra mais simples de todas, porque sua composição não é realizada com palavras canônicas, “difíceis”, e, por ser assim, facilita seu acesso e entendimento. Apesar da simplicidade (nunca será algo negativo), os versos te tocam de um jeito impagável, principalmente se você deixar ser levado pelo embalo do ritmo e a descrição, por você, ser imaginada. Os últimos versos da 1º estrofe revelam:

E enche meus olhos
De água e sal

Em qual música você já ouviu isso? Eu só ouvia a palavra ‘lágrimas’, quando se referia a chorar.

Quando ela pede implorando:

Diga logo se vai ficar
Tenho pressa.

 Quer dizer: quando Moraes se apaixona não gosta de esperar. Se ela ama é para ficar junto logo, deixando subentendido: “Quero ficar logo com você. Não me deixe aqui sentindo tudo isso, sem você”.

Sem Fantasia (quarta faixa)

Regravação de Chico Buarque, única música com uma parceira, um dueto. Essa remasterização coube ao repertório, ficou de acordo com o todo da produção, não se destoou e com uma nova roupagem ficou um tango. A música concilia violão, baixo, sanfona, piano, bateria sempre bem leve e baquetas vassoura. Torna-se quase um fado português pela interpretação. Aqui, como é uma parceria com seu namorado, Lenine Guarani, conhecemos os dois lados do casal, individual e conjuntamente. Os dois, claro, querem um ao outro, sempre fazendo pedidos e revelando o seu íntimo, seus sentimentos. Uma letra poderosa, forte e profunda.

Na Vazante (quinta faixa)

Contempla piano, violão, moringa (feito de barro), pau-de-chuva, baixo, bateria, sons de pássaros, caxixi, cascata (feito de cascas de castanhas), rebolo e tumbadoras. Percebi que é a mais rica no que concerne elementos instrumentais, que, aliás, correspondem a algumas palavras cantadas, como chuva e mar (elementos naturais). Isso a deixou lúdica, sensitiva, e tangível. É passível de diferentes interpretações.

Bem Verde (sexta faixa)

Possui violão, baixo, bateria, chocalho, teclado e pandeiro. Imagino-a na janela de frente para a praça, esperando alegre seu amor pela rua passar. Sua estrutura possui somente uma estrofe de 11 versos, é a faixa que dá nome ao disco e o verso que proporcionou foi: Quem não vê não tem olho de dentro.

 Há três leituras feitas por mim em seu nome pensando também com a letra. Nos versos abaixo, você percebe as palavras verde e bem distantes uma da outra e no verso acima o verbo conjugado vê.

A cor do seu cheiro verde
Sei lá, quando será
Que meu bem vem

Primeira leitura/interpretação, que é mais óbvia: há um advérbio bem intensificando o adjetivo verde.

Segunda leitura/interpretação, que é mais centrada: o bem (o amado) ou o amor do eu-lírico é correspondido desta maneira, geralmente ouvimos “benhê”, não?

Terceira leitura/interpretação, que é mais viajada com um trocadilho pensando em toda a letra: Ver separado da sílaba de fica somente o verbo Ver. Portanto, como o advérbio bem pode ser um substantivo demonstrando como o eu lírico trata o seu amado, fica correspondido como Ver meu bem chegar.

Alguém Dirá (sétima faixa)

Uma balada somente ao piano, formosa, linda e elegante. Sua instrumentalização serviu como uma divisão de duas partes no trabalho ou para indicar que chegou à metade da audição, porque contém somente um instrumento diferente do resto anterior já ouvido e o que virá em seguida. É uma reflexão pessoal, expondo o que fez e o que quer fazer.

Carne e Fogo (oitava faixa)

Um baião com teclados, baixo, bateria, pandeiro, violão e tambores. A letra traz suposições e certezas ditas por ela, uma pessoa consciente do que é capaz e do que possui na conquista. O advérbio “quando” é muito usado, logo se identifica que ainda não a possui (a sua conquista), por exemplo:

Quando você vir
E não der mais pra segurar
Quando minha pele
Te deixar com água na boca
Vai ser impossível
Esquecer esse meu gosto voraz

Bolinha de Papel (nona faixa)

Um samba com violões e pandeiro e letra do sambista Geraldo Pereira. Engraçado, pensar em um homem com medo de levar um fora, de ser descartado como uma bolinha de papel, geralmente homens se dizem valentões, mas aqui vemos o outro lado da moeda. De segundo momento ele explicita seus argumentos para obter a mão de sua pretendente dizendo:

Tiro você do trabalho
Dou-lhe amor e sossego
Vou ao banco e tiro tudo pra gente gastar

 Algo que via somente na geração passada, do meu avô, é o uso de um bloco de notas pequeno, uma caderneta no bolso para anotar gastos mensais na venda e de questões bancárias e isso está presente nessa faixa nos dois últimos versos:

Posso, Oh Julieta, lhe mostrar a caderneta
Se você duvidar

Chorei num Samba (décima faixa)

Composta em parceira com Ítalo Lencker, claro, que também é um sambinha com violão, piano, ganzá, cuíca, baixo e bateria. Abre animada, em clima de festa até os 20 segundos, após quatros compassos diminui o ritmo, ficando só o violão, um tambor, piano e a cuíca. E é assim também a letra: começa relatando como ficaram os elementos naturais após um relacionamento que se desfez e o eu lírico chorou:

Todo o céu
Azulou as mãos
Estampou os vãos
E caiu no fio
     (…)
Chorei
Sem águas pra correr no teu mar
Meus canteiros só choram no fim

Até a última estrofe que vem com a superação:

Chorei
Só há de se esperar tempo bom
E enfim, azul de novo em céu
Correndo nuvens no meu jardim.

Melodia: Antes de entrar no refrão, ela vai progredindo, com um suspense, até chegar ao clímax, bem rápido junto com a voz cantando gritado o verso “correndo nuvens no meu jardim”, assim entra no refrão. Após a segunda parte que se encerra com ele há a ponte musical (bridge) somente de onomatopeias aliadas ao violão até retornar à conclusão/refrão/superação novamente.

Levante do Borel (décima primeira faixa)

É uma música de Taiguara (falecido músico de MPB, bossa nova e samba), cedida e ofertada pela gravadora que detinha o direito autoral. Essa canção se constitui de violão, cavaquinho, baixo, caxixi, palmas, bateria, chocalho, cuíca, pandeiro, apitos e coral em uma roda de um levante. Canta e exulta a memória de um personagem importante, o Zumbi dos Palmares, mas, antes, há alusão e intertextualidade com o poema Navio Negreiro, de Castro Alves, citado logo no início. Além de produzir uma releitura parodiada de uma cantiga infantil, modificando seus dois últimos versos:

Olha a palma, palma, palma…
Olha o pé, pé, pé…
Roda, roda, roda, menina
Que veio lá da Guiné

Se você preferir parar de ouvir o disco por aqui, ele encerrará de forma alegre e feliz. Agora, se continuar com as duas faixas bônus há muito mais a ser explorado e falado.

Iemanjá (décima segunda faixa)

Contém bateria, piano, violão, caxixi, baixo, tambores e para efeito utiliza-se sons do prato da bateria para lembrar ondas do mar. Pode ser uma oferenda feita de presente ao orixá. Durante todo o momento de canto, a voz está sempre delicada, tem-se novamente uma invocação:

Ó doce água
Ó doce água
Iemanjá

 Logo depois, a saudação carrega sons vocálicos mantidos em notas seguras:

Adoyê, odoyá (lê-se odiê-odoiá)
Adoyê, odoyá
Iiiiiieeeeemaaanjáááá

Adoyê, odoyá
Adoyê, odoyá
Iiiiiieeeeemaaanjáááá

 Em Iemanjá, você vê as pessoas cantando, dançando, exaltando e saudando o orixá. Na hora de dizer o nome, separado por sílabas, é o momento que a personagem vem descendo a ladeira. As notas seguradas em sons fonéticos vocálicos /a/ “aaaaaa”, cujo emprego cria uma aura cósmica na canção, para criar a alusão de ver e acompanhar uma procissão.

Pode-se dizer que há dois momentos na música, o introdutório/vocativo, enquanto que o segundo se inicia aos 02min15seg, com chocalho, tambores e baixo, além do canto de sereia, a qual representa uma progressão natural na faixa, nada forçada. Belíssima. É preciso informa-los que não é de hoje que essa divindade, Iemanjá, está presente na música brasileira. Ela está desde 1943 com É Doce Morrer no Mar, de Dorival Caymmi.

Because Ousa (décima terceira faixa)

É um bolero com acordeom, bateria, baixo e guitarra. Em Because Ousa, o eu-lírico joga sua frustração toda para fora, ela transborda pra não explodir. Mandando a real para o cara. Ah, o que o amor não faz… Não é mesmo? Me recordou, inclusive, uma outra canção de Maria Gadú em A História de Lily Braun.

Outro trocadilho no CD:

Because, em suas disposições, fica como um nome próprio de alguém que não pode ou não quis ser revelado, mas se você traduzir em todas às vezes que aparece, verá que faz sentido ele estar ali no lugar do porque para respostas. Por exemplo, ao final das estrofes, um estribilho:

Because (porque) ousa me fazer sofrer
(…)

Uma estrofe falando diretamente com ele:

Because (Porque), você não percebe a nobreza do meu grande amor
Because (Porque), você se atreve a querer questionar meu valor
Because (Porque), você só me causa fúria, injúria e dor
Because (Porque), assim não dá pé, não tem nem perdão, nem porque

Bruna penetra

Resumão (Avaliação geral):

 Após toda essa apresentação, percepções e análises, concluí: Bruna Moraes não se restringe em se abrir, em se entregar e se revelar aos seus ouvintes, por isso, é uma “musa em flor”, que está se desabrochando ao mundo aos poucos. Veja bem, precisa do olho de dentro para entender suas canções, pois é uma expressividade que vem da alma, precisamos ir além do óbvio. Nessa obra, a garota ainda não se demonstrou completamente a que veio, teremos ótimas surpresas em suas próximas produções, com certeza.

É um disco muito rico, devido às influências presentes, como já ditas, nordestinas, africanas e religiosas. Além de ter, nas músicas citadas, um arranjo entre letras e instrumentos, que corroboram à atribuição de sentido às canções. É muito rico, do mesmo modo como o nosso país, rico em cultura, em belezas naturais e em sentimentos. Não é à toa que o elemento da natureza está presente até na capa solar e a apresenta pensativa, em cor viva. Amarelo, inclusive, que simboliza o ouro, as riquezas, como na nossa bandeira nacional.

Admito: Não consigo dar uma pontuação, deixo em aberto. Ouça e avalie você mesmo. Quando você ouvir, tenho certeza que se questionará com incredulidade: “ela não pode ter só 18 anos quando o gravou”. Como disse Renata após ouvir:”Ela é um prodígio”.  Aqui você consegue ver todo o encarte e ficha técnica, além de poder ouvi-lo: AQUI

PS: Na ficha técnica tem bandolim, se alguém souber em qual música, me avise nos comentários.

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