Série: Lovesick/Scrotal Recall

Série: Lovesick/Scrotal Recall

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Estes dias, terminei de ver a série Sherlock Holmes. Juro pra vocês que, dentro de mim, tem um turbilhão de coisas pra dizer sobre essa produção. Talvez seja por isso que, até agora, não consegui escrever sobre ela. Nessa onda de série britânica (com todo aquele sotaque lindo e humor delícia), assisti, ontem mesmo, uma série que estreou recentemente na Netflix, que se chama Lovesick.  Em 2014, essa série, que recebeu o nome, inicialmente de Scrotal Recall, foi exibida pela Channel 4. Como ela não atraiu muito público, consequentemente, ela seria cancelada pela emissora, se o nosso tão lindo site de streaming Netflix não tivesse se interessado por ela. Devido a esse interesse, a obra de Tom Edge foi exibida no portal e já tem previsão de estreia para a 2ª temporada. Eba!

Com apenas 6 episódios, de 20/24 minutos cada, é uma série para maratonar, ainda mais com a capacidade britânica de começar e terminar cada capítulo com uma boa coerência. Ela narra a história de Dylan Witter (Johnny Flynn), um jovenzinho de  e poucos anos, que é diagnosticado com clamídia, uma doença sexualmente transmissível.  A partir disso, ele começa a ligar e a se encontrar com antigas namoradinhas, para avisá-las sobre a doença. Desse modo, a série acontece em flashbacks, para mostrar o Dylan do presente e o Dylan de até anos atrás, retratando, assim, cada uma de seus relacionamentos, ao ponto do rapaz começar a repensar suas atitudes e a reavaliar sua vida.

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Para tanto, ele conta com dois melhores amigos: a maravilhosa Evie (Antonia Thomas, de Misfits) e o maravilhoso Luke (Daniel Ings). Luke é o contraste de Dylan. Enquanto o jovem loiro, que precisa de uma boa lavada de cabelo, é meigo, fofo, preocupado com os  seus relacionamentos, ao ponto de não conseguir lidar tão bem com o sexo casual, Luke é o típico lindo, que sabe que é lindo, que se aproveita de seus atributos físico, para conquistar as garotas, transar com elas e sumir antes que elas o conheçam o suficiente para saber que ele é vazio por dentro. Já Evie é o equilíbrio entre os dois. Ela os ajuda a entender as mulheres, ela atua como intermediária entre os problemas Dylan + Luke + mulheres e, assim, leva sua vida de fotografa, até encontrar um cara com quem vai se casar.

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lovesick-serie-netflix-critiqueUm dos pontos positivos é a dinâmica entre o trio principal. Mesmo o Johnny Flynn sendo um ator um tanto apático, ele coube perfeitamente no papel de Dylan, que é tão fofinho que chega a ser meio sem-gracinha. Quem brilha mesmo é Daniel Ings, como Luke. Esperto, super engraçado e completamente perturbado, Luke é o que dá vida à série e à vida de Dylan e Evie. Apesar da série ter seu brilho sozinha, as vezes parece que é o paquerador Luke que a segura.

Lovesick me pegou, de início (e claro), o fato de ser uma série de “comédia romântica” britânica. Depois disso, a ideia da doença do protagonista também é um ponto positivo, pois doenças venéreas ainda são um tabu em nossa sociedade, então, uma produção “romântica”, com a personagem doente, é um tanto audaciosa. Além disso, a série acerta no humor ácido, mas fácil; meio negro, mas sem ser pesado; e diferente de Love (outra série da Netflix que também tem a proposta de ser uma comédia romântica, mas que não produz um riso bobo como a produção britânica). Esse lado cômico é muito bem conduzido, principalmente, como quebras de situações dramáticas. Há também o rompimento do sentimento de leveza em partes inusitadas, principalmente, em seu episódio final, que é desnorteador e deixa a série tão intrigante.

Por fim e não menos importantes, a fotografia, a ambientalização, a trilha sonora (que tem no Spotify e nesse blog também) e o figurino são muito bem construídos. Assim, mesmo com a previsibilidade do romance e os personagens serem bem caricatos, é possível se cativar e torcer por cada um deles. No final, como uma moral, produz-se a sensação de “vivencie todos os sentimentos possíveis em um único episódio e na sua vida”.serie-netflix-lovesick-resenha-scrotal-recall-dancing

A segunda temporada está prometida para novembro, na Netflix.

Série: Grace and Frankie

Série: Grace and Frankie

Frankie: – This is not my recipe. And yes, my vagina can tell.
Brianna: – Ok. Adam, can you please give us a second?
Adam: – Oh, absolutely not. No. (he pick up his phone and start to filming)
Brianna: – What are you doing?
Adam: – Oh, I have a few friends that don’t believe Frankie’s real. So, just go on.
Frankie give a little smile to the camera (Grace and Frankie, 02×08).

Falar sobre idade, sobre a velhice que me aguarda e me espreita, realmente me apavora. Sempre apavorou. Apesar disso, sempre imaginei que esse momento vindouro seria delicioso pela liberdade que a terceira idade pode representar, pois, nesse período da vida, as pessoas deveriam se permitir mais, ousar mais, aproveitar mais… Entretanto, mesmo acreditando nisso, sempre tive uma certa ressalva, porque eu sei que, quando estamos nos 70 anos, a energia, a saúde, o fôlego etc., normalmente, não é o mesmo de agora, no pré-trinta.

Por conta desse meu receio (e medo) dos tempos que virão, eu sempre (sempre mesmo) fugi da série Grace and Frankie, quando via a sugestão na minha página inicial da Netflix. Por quê? Porque sempre pensava: “terei que lidar com a vida idosa um dia, por que observar isso desde agora, não preciso, não quero, ah…certo?” Errado. Devo dizer que essa série maravilhosa prendeu minha atenção por dois dias inteirinhos (tempo necessário para assistir as duas temporadas disponíveis na plataforma), de tanto fascínio e deslumbre.

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Não, não é só Unbreakable ou Sense8 ou Master of none ou as infinitas séries produzidas pelo canal que merecem destaque. Gracie and Frankie também merece ! Talvez eu tenha me apaixonado muito rápido pela série, talvez eu tenha sentido uma certa afinidade, empatia, pelas personagens tão bem construídas, talvez eu esteja só sensível. Mas o lance é: assistam. 

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Ambientada em San Diego, a série tem como trama a vida de duas mulheres, Grace e Frankie, que se aturam pelo bem comum dos maridos, que são sócios em uma empresa de advogados (pessoas bem sucedidas). Grace e Robert têm duas filhas (uma casada e outra solteira – que é ótima, por sinal!), e Frankie e Sol, que também têm dois filhos adotados. Essa família toda cresceu junta, cresceu perto, cresceu unida. Foi aí que, durante um casamento – hétero normativo – de 40 anos, os maridos viveram uma romance escondido durante 20 anos. Isso se deu até o momento em que os dois se deram conta de que já estavam com 70 anos e nunca puderam viver o amor deles livremente. É quando eles resolvem se assumir como casal, para a família, pedem o divórcio, cancelam os cartões de crédito das mulheres, vão morar juntos e viver a vida deles. Entretanto é a partir desse nó que a trama se desenvolve, até porque, as duas senhoras deixadas, são idosas, aposentadas, sem lar (mudam-se, juntas, para a casa da praia), sem ocupação (no caso da Grace, por sempre ter vivido com o marido, ela nem se conhece, processo que começa após a sua aproximação com Frankie) e sozinhas.

Produzida por Marta Kauffman (de Friends) e Howard J. Morris, Gracie and Frankie conta com um grupo de atores excepcionalmente bom, sendo os veteranos: Lily Tomlin (76 anos), como Frankie, Sam Waterston (75 anos), como Sol, Martin Sheen (75 anos), como Robert e Jane Fonda (79 anos), como Grace. É uma delícia vê-los atuar. São atores extremamente talentosos, que se preparam muito para estarem nesta produção, por exemplo, Fonda fez curso de atuação, mesmo com todas as suas experiências, para se sentir segura para interpretar o papel. Além disso, a afinidade dos quatro explode na tela e nos contagia, faz com que possamos acreditar em uma amizade, uma vida, e, inclusive, na possibilidade da existência de várias oportunidades/novidades na vida, independente do tempo.

A amizade de Kauffman e Fonda existe desde 1980, quando ambas atuaram no filme “9 to 5“. Na série, como eu já disse, as personagens das duas atrizes não se suportam, principalmente pela discrepância entre o estilo de vida das duas.

Frankie é uma senhora hippie, artista, que fuma maconha, que teve um casamento cheio de amor, pratica yoga, desconhece o uso da tecnologia, cheia das ideias revolucionárias e das frases de efeito. Já Grace, é o contrário. Ela foi uma mulher bem sucedida na carreira profissional, construiu uma empresa (que, depois de sua aposentadoria, Brienne – uma das filhas – gerencia), teve um casamento um tanto infeliz, criou umas filhas sem muito amor (tem uma cena na qual Frankie acusa a mulher de não ser capaz de amar incondicionalmente), faz várias dietas, é viciada em martíni, seco e com duas azeitonas.

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Mesmo com todos esses desencontros, Grace e Frankie dão um show de maravilhosidade. Enquanto buscam seus lugares no mundo, as personagens transam, visitam amigos de longa data, tomam porre para esquecer os problemas, fazem canal no YouTube, fumam maconha e bebem chá de procedência questionável, têm frio na barriga em encontros com novos paqueras, cozinham seus próprios frangos com batatas, tem suas discussões, seus momentos de pura amizade e companheirismo, fazem planos, têm ideias (como um lubrificante orgânico para as mulheres que ficam “secas” depois da menopausa e um vibrador para as mulheres que sofrem de artrite!) e, inclusive, saem pra balada para comemorar a noite do “sim”.

Essas ideias apresentadas pelas protagonistas servem para discussão sobre como as pessoas idosas são tratadas por nós atualmente, isto é, são vistas como incomodas, antiquadas, “caretas” etc., o que pode ser um engano, pois, embora haja limites, problemas (Robert sofre um ataque cardíaco, Grace quase quebra o quadril) e dificuldades (não saber usar o notebook, por exemplo), eles são sim, pessoas interessantes e que têm muita coisa a oferecer, desde que a sociedade saiba como tratá-las.

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Além do mais, a comédia da produção é finíssima, compensa pelas vááárias risadas que ela garante. A relação pai x filhos, filhos x mãe, ex-marido x ex-mulher, meio-irmãos x meio-irmãs é ótima! Tira lágrimas dos olhinhos de quem sonha com uma família peculiar e cheia de amor.

Por fim, vale a pena destacar que, mesmo com todos os problemas que as duas mulheres enfrentaram para superar todas as dificuldades que surgiram (até mesmo a morte de algumas pessoas queridas, cujo acontecimento acarretou no pensamento: posso ser a próxima a morrer!), elas seguiram em frente. Deram um jeito. Aprenderam, adaptaram-se, respeitaram as decisões e escolhas do outro. Cresceram. Encontraram-se, riram, divertiram-se muito e ainda ficaram unidas. E penso que ver esse processo todo, ver a luta constante de mulheres fragilizadas, tanto pelas circunstâncias, como pelo tempo, é inspirador. É reconfortante. Dá esperanças…

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 Sam Waterston and Martin Sheen in the Netflix Original Series “Grace and Frankie”. Photo by Melissa Moseley for Netflix.

Assista o trailer da segunda temporada:

Vale lembrar, por fim fim fim mesmo, que a série é um tanto fictícia mesmo. Até porque, em uma realidade como a nossa, dificilmente chegaremos à uma idade como a das protagonistas, com dinheiro, boa aposentadoria, morando à beira praia, com tempo para pensar em “que roupa vou usar pro encontro com meu próximo namorado?”. Mesmo assim, o mundo irreal é delicioso, chega a dar um certo conforto, um certo aconchego ao pensar que a vida futura pode, talvez, muito talvez mesmo, ser doce. Nem que seja você com a sua melhor amiga por perto (:

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Próxima temporada foi confirmada para 2017. Agora é só aguardar.

CD: A Sociedade do Espetáculo, O Teatro Mágico

Lead title: Uma sociedade é composta e formada por seres humanos, com isso surgem as relações, as manifestações e os hábitos sociais configurando e caracterizando uma cultura. Quer se aprofundar nessa minha afirmação? Então, venha ouvir A Sociedade do Espetáculo. A casa é sua!

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Introdução/Contextualização:

Um dos maiores nomes do cenário musical alternativo, com uma base sólida de admiradores, O Teatro Mágico, como quase todos devem saber, é um grupo liderado por Fernando Anitelli que mistura circo, teatro, poesia, política e, claro, música. Tudo isso está presente em A Sociedade do Espetáculo, terceiro disco e último trabalho de uma trilogia do grupo iniciada com Entrada para raros (2003) e Segundo ato (2008). Ele foi lançado de forma independente no dia 6 de setembro de 2011.

“Esse é um álbum que consolida as questões da pluralidade, das parcerias e do colaborativo”, sintetiza Fernando Anitelli sobre as participações especiais. O CD contou com a presença de Sérgio Vaz (em Felicidade?), Pedro Munhoz (em Canção da terra), Alessandro Kramer (em Eu não sei na verdade quem eu sou), Nô Stopa (em Folia no quarto), Leoni e do saxofonista da Dave Matthews Band, Jeff Coffin.

Além da contratação de um produtor, o Daniel Santiago, algo inédito na carreira do grupo, e que foi determinante para que a banda chegasse a uma síntese sonora maior. Outros dois músicos completam a lista dos ecléticos convidados do terceiro disco do grupo paulista: o gaitista Gabriel Grossi (em Até quando…) e o baterista Rafael dos Santos, na época, recente integrante da trupe. Masterizado no estúdio Sterling Sound, em Nova York, pelo engenheiro de som Chris Athens.

O conceito deste disco tem inspiração no livro La société du spectacle, do filósofo francês Guy Debord. No livro, o filósofo faz uma crítica teórica sobre a sociedade de consumo, a sociedade ocidental e o capitalismo. Assim, desta obra, além do título, a banda tirou ideias, que podem ser percebidas nas letras das músicas, e na capa, onde desenhos lembram ilustres conhecidos, como Nelson Mandela, Fidel Castro, Karl Marx e até mesmo Chapolin Colorado.

“Algumas ilustrações realmente são aquilo que você está vendo, outras são só sugestões. A ideia é justamente essa: confundir. Elas representam a sociedade do espetáculo que, na verdade, somos todos nós”, explica Anitelli, vocalista e mentor da banda, sobre a arte visual da capa.

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Análise da obra no geral:

Com som mais amadurecido e várias letras politizadas proporcionando reflexões sobre os tempos modernos com o repertório, basicamente, recaindo na alienação, no consumo e no mundo moderno globalizado, mais do que sobre políticas públicas, o CD segue o estilo leve, harmônico e poético do grupo.

As influências para o disco são muitas e misturam folk rock e pop rock à MPB, com uma vibe acústico, além de claras referências à literatura. Essa parafernália ideológica, essa cativante sonoridade melódica interiorana, estabelece um clima ambiente, com ela você se sente em casa, mesmo com alguns assuntos que causam certo desconforto.

Os instrumentos também estão muito bem encaixados e produzem um som descomplicado, franco, sem exageros ou truques musicais. Por outro lado, o resultado final, bruto e completo, peca pelo excesso de músicas, algumas poderiam ter ficado de fora. Penso que devido a todo estudo realizado, eles tinham muito conteúdo para expor e nós, ouvintes, podemos nos perder no meio disso tudo. Destaque para os vocais de Fernando Anitelli, que alterna timbres suaves com alguns esparsos momentos de aspereza.

Análise das letras (Conteúdo, Temas e Composição):

Primeira vez que o ouvi eu tinha 15 anos e de acordo com minha maturidade e conhecimento de mundo tive uma leitura, nem entendia as letras em sua completude. Retornando a ouvi-lo, agora mais velho, consequentemente com conhecimento de mundo mais maduro, surgiu uma leitura totalmente nova. Se você tem um pouco de conhecimento sobre história, filosofia, sociologia compreenderá de onde surgiu e de onde Fernando se inspirou para criar, para compor.

Na obra algumas letras são extensas com os versos curtos, apresentando verbos no infinitivo, característicos de Anitelli, dominando as letras politicamente engajadas: “semear o amor” “apoderar-se de si”, “resistir”, “ser plural”, “repartir o acúmulo”… Em vez de ordenar ao rebanho que faça o que ele diz, ele prefere sugerir, com sutileza, um comportamento coletivo, colaborativo, compartilhado. Quando você pensa no que eles querem passar, quando você leva pra interpretação, tudo se amplia, como um universo além, ligado ao universo do disco.

Podemos dividir as faixas de acordo com seu foco temático:

O Ser Humano presente em: Além, porém, aqui; Da Entrega; Transição; Eu Não Sei Na Verdade Quem Eu Sou; Novo Testamento; e Nas Margens de Mim.

A Sociedade em: Amanhã, será?; Felicidade; O Que Se Perde Enquanto os Olhos Piscam; Folia no Quarto; e Esse Mundo Não Vale o Mundo.

O Ser e A Sociedade em: Canção da Terra,

Amor/Relações Humanas em: Quermesse; Nosso Pequeno Castelo; Fiz uma Canção pra Ela; Tática e Estratégia; e Você me Bagunça.

Entre os temas das 16 canções e três vinhetas (interludes), contam-se menções ao Movimento Sem-Terra (em Canção da Terra), referências às revoltas populares no Oriente Médio em que depuseram ditadores (em Amanhã… Será?), críticas à “heterointolerância branca” (em Esse mundo não vale o mundo), canções suavemente feministas, e assim por diante, assuntos que estão bem em voga atualmente.

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Análise da instrumentalização:

A instrumentalização em geral é composta por cordofones (violões, baixo, guitarras, e violino), percussão (bateria, tambores-guizá e pandeiro) aerofones (flautas, acordeon), idiofones (triângulo, carrilhão, cascata, caxixi), teclado percussor, slide guitar e palmas. Logo nas quatro primeiras músicas a maior parte deles já está presente.

Dessa vez não entregarei tudo e não explanarei sobre todas as canções, a partir de todas análises anteriores você já tem uma base e aprofundamento que te auxiliará na audição e bem como, na sua leitura e interpretação. Está bem? Descreverei somente algumas:

A 1º faixa intitulada Proscênio, é uma intro. Inicialmente, ouvimos alguns cochichos e pessoas se acomodando, em seguida, uma campainha avisando que o espetáculo vai começar. Logo a cortina se abre para as infinitas possibilidades de imaginações que acontecerão em sua mente por causa do canto de Fernando Anitelli, e aí, meu caro, nesse segundo, já não tem mais volta, porque se escuta:

Senhoras e senhores
Respeitável público pagão
Bem-vindos ao Teatro Mágico

Com o título “Proscênio”, ele está nos situando, pois é o nome que denomina o espaço entre o palco e a plateia. É ali, onde está o anfitrião.

“Nosso Pequeno Castelo” possui uma levada mais swingada, nordestina, e a voz em dueto é de Ivan Parente, que, como Galldino (violinista) disse, tem registro de voz agudo, algo feminino.

Em “O Novo Testamento” o arranjo tem inspiração do funk carioca, do pop, com beatbox, bateria, baixo, teclados, agogô e tambores.

“Felicidade”, com sua letra que mais parece uma anedota, também é um questionamento de conceitos e papéis sociais.

“Tática e Estratégia” tem a letra em dois idiomas, português e espanhol, por isso a levada latina na música.

“Folia no quarto”, com uma melodia muito bem construída essa faixa contém a única voz feminina do CD, de Nô Stopa, filha do cantor e compositor Zé Geraldo. Quem sente tanta falta da infância se identificará com ela, sempre me deixa nostálgico. Engraçado isso, porque o disco fala de coisas atuais e vem essa pra te deixar assim.

A partir daqui os próprios irão nos dizer sobre algumas músicas (coletei de uma entrevista):

“Amanhã… Será?” – A inspiração, aqui, são as mobilizações populares em países do Oriente Médio, na Espanha e no Brasil. Os integrantes do Teatro Mágico costumam frequentar as marchas em São Paulo caracterizadas, em contato direto e íntimo com a multidão. “Essa revolução, na verdade, é interior”, filosofa Fernando.

“Quem diz que a revolução está saindo da internet está enganado, ela ainda vem do povo, a rede é só uma ferramenta. A insurreição está em nós e a primavera árabe traduziu isso muito bem”, diz Anitelli sobre a terceira faixa do CD.

Em “O Novo Testamento”, opção do funk explicada pelo coprodutor do disco e coautor da faixa, Daniel Santiago, músico do celebrado quinteto de Hamilton de Holanda: “O ritmo veio da capoeira, do maculelê, é totalmente brasileiro. Funk definitivamente é uma linguagem e uma manifestação cultural brasileira, veio pra ficar”.

“Fiz uma Canção pra Ela” – Parceria de Fernando com Galldino é uma canção de amor com viés politizado: “Fiz uma canção pra ela/ na mais bela tradução de igualdade e autonomia/ ao teu corpo e coração”. “A mulher não tem autonomia sobre o próprio corpo, quando se fala de aborto, de postura”, argumenta Fernando. “Se a menina usa roupa curta, tem culpa por ser estuprada?, peraí. É uma canção de amor à mulher, mas colocando ela como liberta, não como uma mulher que precisa ser protegida, carente, solitária, pobre, fraca, indefesa, santa, mãe. É amor, mas de igual pra igual”.

“Esse Mundo Não Vale o Mundo” – “Esta hetero-intolerância branca te faz refém”, diz a canção que trata de temas que várias do gênero pop em geral simulam não gostar. “Contaminam o chão família e tradição”, provoca o rock meio celta (segundo Fernando) que fala de “ter direito ao corpo” e à “terra-mãe que nos pariu”.

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Resumão:

Olha só, mais uma vez a sociedade e seus os acontecimentos, influenciando o indivíduo inserido num determinado contexto a produzir coisas de volta pra sociedade por meio da arte, independente do tipo ou modalidade. Diante disso, surge a seguinte questão: A vida imita a arte ou a arte imita a vida? Essa clássica questão já dividiu várias opiniões e, certamente, continuará dividindo, porém o que parece correto é que ambas se inter-relacionam, levando a uma resposta dicotômica, ou seja, tanto a arte influencia a vida como o inverso. Esse é o poder dela, de nos causar o efeito catártico, da catarse. O álbum serve, também, para perceber como arte é atemporal, as reflexões sobre os tempos modernos, incluindo o homem moderno, suas atitudes e comportamentos refletem bem, não só o ano da publicação dessa resenha, mas de muitas décadas, marcadas por revoluções, conquistas e muito mais.

Será que A Sociedade do Espetáculo consistirá em mais uma obra que se expressará através dos tempos e será que ela não ficará presa só no contexto da época de produção? Para refletirmos, fica esse questionamento final.

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Dou uma pontuação de 4 estrelas de 5.

Na discografia de O Teatro Mágico, ainda se inclui “Grão do Corpo” (2014) e “Allehop” (2016).

CD: Mind of Mine, ZAYN

Lead title: Pegue seu fone, abra o Spotify, ou o que preferir, e aprecie essa obra que é “Mind of Mine”.

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Capa do álbum gerou comparações com outras do Lil Wayne

Introdução/Contextualização:

Nesta sexta-feira (25/03/2016) chegou às lojas, em formato de CD/Vinil e em todas as plataformas digitais, Mind of Mine, álbum debut de estúdio do cantor e compositor Zayn Malik. Essa estreia marca o início da sua carreira como artista solo, após uma jornada de cinco anos como integrante da boyband One Direction. Agora, o cantor assinado, distribuído e agenciado pela RCA Records, selo da Sony Music.

Mind of Mine veio precedido do single PILLOWTALK, o carro-chefe, que, de maneira rápida, tornou-se um smash hit, porque, em sua primeira semana de lançamento, a composição estreou direto no topo da parada americana de singles, a Billboard Hot 100 e da parada britânica de singles, a UK Singles Chart.

A produção executiva ficou nas mãos de uma pessoa que chamou atenção, pois Malik trabalhou com o produtor Malay, talvez você não conheça por nome, mas ele também esteve por trás de outro grande debut, de outro grande cantor R&B, o channel ORANGE, de Frank Ocean (duas vezes vencedor do Grammy Awards) e de John Legend (possuidor de nove gramofones). Desde que o nome foi revelado, pode-se visualizar o rumo que Zayn tomara em carreira solo.

Análise da obra no geral:

Para todo artista, a primeira produção sempre será um meio de apresentá-lo e inseri-lo à indústria fonográfica, de maneira que ele defina o caminho que quer seguir durante sua carreira artística. Com vista nisso, Zayn revelou que trabalhou com diversos produtores e chegou a escrever em torno de 46 a 47 letras (!!!) para este CD, além de dizer que experimentou diversos estilos, ritmos e gêneros diferentes até encontrar algo que se identificasse: “eu realmente não sei qual é meu estilo ainda. Eu estou apenas mostrando quais são as minhas influências”, admitiu o jovem cantor.

O disco traz uma ÓTIMA combinação de ritmo midtempo, sexy, com uma vibe provocativa, refrães radiofônicos, com vocais grudentos em meio à uma melodia pop, algumas músicas cativam desde o primeiro contato, enquanto que as outras demandam uma insistência de nós, ouvintes, para digeri-las melhor. Classificando o todo, é um R&B contemporâneo, combinado com upbeats e synthpop. Uma ambiciosa produção experimental, complexa, detalhada e até mesmo bem elaborada.

Análise das letras (Conteúdo-Temas-Composição):

Nesta produção de Zayn, você irá viajar pela mente de um jovem de 23 anos, que busca descobrir o seu mais profundo eu, o seu interior, seu subconsciente, por isso, nota-se que não é à toa que no nome do álbum possui a palavra mind (mente, em inglês). O ouvinte passará também a conhecer as histórias e pensamentos, de forma muito clara, de um artista novo que iniciou sua carreira recebendo muita atenção do público e da mídia em geral.

Por ter um tema tão subjetivo, as letras são intensas, minuciosas e reveladoras, explorando diferentes paisagens sonoras e assuntos; revelando inúmeros focos temáticos, como a felicidade, o amor, o desejo, a luxúria, a frustração e os anseios, mas cada canção serve a um único propósito, isto é, estabelecer a identidade de Malik, o que acarreta na identificação de vários jovens com as músicas do álbum Mind of Mine.

Outra característica que contribui para uma efetiva identificação do jovem com as songs, por marcar, de certa maneira, a desorganização da mente de um jovem que ainda está se descobrindo, são as estilizações nos nomes das composições, por exemplo, a música BeFoUr, que, imageticamente, traz uma grafia que, ao meu ver, tem o propósito de referenciar os altos e baixos da vida, não só dos adolescentes, mas de todos nós, seres humanos.

Análise do artista como intérprete das suas canções (Voz, notas, modo de cantar e tons):

Como já era de se esperar, Zayn usa e abusa de todas as suas capacidades e técnicas vocais. Independentemente se são notas baixas ou altas, se o tom é grave ou agudo, ele faz e as executa com maestria, de um jeito promissor, seus vibratos e falsetes possuem uma tessitura de qualidade.

Na maior parte do álbum, em algumas músicas ouvimos camadas (ao menos três, contando com lead vocals) sobrepostas de sua voz, proporcionando suporte e texturas como se pudéssemos tocar nas ondas sonoras que chegam aos nossos ouvidos. Entretanto, não nos iludimos tanto, porque sabemos que esse suporte, ao vivo, será uma função para os backing vocals, mas não deixe a beleza do momento se perder. Além disso, há efeitos sonoros encontrados em diversas canções, que, por meio de eco ou de vozes distorcidas, encontramos um efeito auditivo de como se estivéssemos mesmo em alguma mente ou no cérebro de alguém, revelando e descobrindo o seu eu mais profundo.

Análise da instrumentalização no geral e especificamente:

Em geral, em todas as faixas, a instrumentalização é composta por bateria eletrônica, bateria comum, pianos, teclados, sintetizadores, programadores, baixos e guitarras, ou seja, há músicas mais orgânicas e outras mais eletrônicas.

No entanto algumas músicas especificas possuem, na sua instrumentalização, alguns instrumentos a mais, como é o caso da intro MiNd Of MiNdd. Ela possui o acréscimo de um som orgânico, de um instrumento idiofônico chamado vibrafone, que tem como função marcar o compasso em conjunto com a bateria. Além disso, por ser a primeira faixa do álbum, ela é muito convidativa, não somente pelos versos repetidos sete vezes, com o emprego de verbos no imperativo (aquele que manda), como “Open up and see what’s inside of my mind” (Em tradução livre: abra e veja o que está dentro da minha mente), mas também pelos sons agudos apresentados logo no início que, aliados com as notas do piano, são os primeiros sons que ouvimos ao dar o play.

Outra que é acrescida de um instrumento idiofônico é iT’s YoU, composta somente por um sintetizador, do início, até os 17 segundos, para, em seguida, entrar uma bateria eletrônica e, posteriormente aos 46 segundos, um chocalho. Para compor esse arranjo instrumental, além do vocal, há inclusive um triângulo (aquele usado aqui no Brasil em músicas nordestinas), ele aparece no refrão ao mesmo tempo ao som do piano e em alguns momentos violinos (arranjo de cordas).

PS: Ela foi composta para sua ex-noiva! Note a DR na arte.

Em sHe, inclui-se, em alguns momentos, estalos de dedos. Esse epílogo aos 02m:50s é muito bom, e inclusive me recordou Justin Timberlake, cantor que também tem a mania de colocar epílogos em suas músicas. O epílogo é totalmente orgânico, encerra a faixa e prepara o terreno para a próxima, intitulada como dRuNk, cuja composição é muito boa.

Em sequência, o que dizer de INTERMISSION: fLoWer? Um interlude experimental, com violão acústico em estilo folk, bateria e guitarra, com sons atmosféricos semelhantes a uma espessa neblina. Malik respeitou suas raízes e origens nessa bela poesia islâmica, com a letra em língua Urdu, ela surgiu a partir de um ditado reproduzido por um membro da sua família que costumava dizer a ele, e mostra um vislumbre de sua herança muçulmana, Zayn usou técnicas vocais qawwali, incluindo elisões vocais e gorjeando. A tradução literal merece estar aqui:

    Até a flor deste amor florescer
    Este coração não encontrará paz
    Me dê seu coração
    Me dê seu coração
    Me dê seu coração

fOoL fOr YoU e PILLOWTALK são as mais orgânicas do álbum. A primeira, quando chega no refrão, pressupomos que a construção musical é para cortar o coração, ou machucar a garganta ao cantarmos junto. Tem o piano, a bateria, a guitarra, o baixo e é único o som com cordofones (arranjo de cordas-violinos). Belíssima música, uma power pop ballad. O cantor revelou, inclusive, que recebeu uma influência em particular do John Lennon ao produzi-la. Isso não é ótimo?

Em tRuTh, por sua vez, além da bateria, da guitarra e dos teclados, há ainda sinos abafados antes do refrão e pra encerrar um instrumento lírico, a harpa, com uma letra que traz um desabafo, com descrições e conselhos para alguma garota.

Pontos negativos:

A produção não tem como ser perfeita, certo? Como são tantas músicas, algumas passam despercebidas pelo ouvinte, principalmente se preferir ouvir a versão deluxe (18 faixas). Isso ocorre, talvez, por elas (algumas músicas) não chamarem tanto a atenção ou por ser um ponto baixo no disco. Por isso, esteja atento quando ouvi-lo, ele merece sua atenção.

Além disso, entre algumas músicas e outras, não há aquele tempinho de espera em silêncio, para processarmos a música anterior, elas estão ‘linkadas’ uma nas outras, digamos assim. É o caso, por exemplo, de sHe e dRuNk e algumas outras. Não atrapalha tanto, mas eu, em particular, gostaria que tivesse o tempo de espera.

Resumão:

A liberdade criativa ofertada pela gravadora para o primeiro disco foi certeira. Mostra que o cara é inteligente, sabe o que faz, o que quer fazer e aonde quer chegar.

O minimalismo e o direcionamento artístico estão até na ficha técnica de produtores e compositores, já que são poucos nomes citados. Diferente do que vemos em outros grandes artistas que trabalham com tantos nomes e estilos diferentes, atirando para todos os lados. Arrisco a dizer que é minimalista e grandioso ao mesmo tempo, por causa de todas referencias que encontramos, que ele buscou e pela quantidade de instrumentos harmonizados, mas de forma minimalista. Aqui podemos dizer: “Menos é mais”?

É uma obra digna de um artista “estreante”.

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Dou 4,5 estrelas de 5,0 estrelas (pontos)

Espero que curta e goste do álbum tanto quanto yo e sinta-se à vontade para viajar pela mente de um jovem artista. Até a próxima!