Filme: O Homem Que Era O Super-Homem

Filme: O Homem Que Era O Super-Homem

Todos nós amamos heróis. Todos temos primeiras lembranças um tanto quanto embaçadas das primeiras vezes que os vimos. Eu lembro do Batman nas manhãs de sábado na televisão. Eu lembro do meu irmão mais velho me contando sobre o Wolverine e da primeira vez que vi o Ciclope. Do filme do Super-Homem tarde da noite e eu correndo com uma toalha em volta do pescoço imaginando voar. Lembro de ir até a biblioteca quando a minha irmã tinha de fazer algum trabalho para a faculdade e ficar na sessão infantil lendo os gibis velhos (alguns faltando páginas, outros riscados) do Homem-Aranha.

Os homens que eram super-homens e os falsos heróis no cinema hoje

Em 2004, Homem-Aranha 2 estreou nos cinemas. Nos meses que antecederam sua estreia, lembro-me de ir repetidas vezes à locadora alugar o primeiro filme, eu não me cansava de rever, mesmo a repetida lição de moral de que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Era tão impressionante quanto o filme do Superman tinha sido quando o assisti na televisão pela primeira vez aos 5 anos de idade. E então eu finalmente fui ao cinema e a Tia May eventualmente diz:

Ele reconhece um herói quando vê um. Existem poucos personagens lá fora, voando por aí daquele jeito, salvando velhas garotas como eu. E Deus sabe, crianças como o Henry precisam de um herói. Pessoas corajosas e altruístas, dando exemplo para todos nós. Todo mundo ama um herói. Pessoas se alinham por eles, torcem por eles, gritam seus nomes. E anos depois, elas vão contar como ficaram na chuva por horas só por um relance daquele que as ensinou como aguentar firme por um segundo a mais. Eu acredito que exista um herói em todos nós, que nos mantém honestos, nos dá força, nos enobrece, e finalmente permite que morremos com orgulho. Mesmo que às vezes temos de ser firmes, e desistir daquilo que mais queremos. Mesmo dos nossos sonhos.

Essa semana eu revi O Homem Que Era O Super-Homem, um filme sul-coreano de 2008, dirigido por Yoon-Chul Chung, que conta a história de um homem que dizia ser o próprio Super-Homem. Dessa maneira, ele passa o dia andando pelas ruas da comunidade onde vive, procurando por uma chance de ajudar quem quer que seja, desde senhoras carregando sacolas pesadas, até assaltos, entre outras. Todos o encaram como um homem louco, menos as crianças que gostam de ouvir suas histórias como o Superman.

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É curioso como um homem, sul-coreano, vestindo uma camiseta havaiana, consegue nos convencer de que estamos assistindo um filme do Superman. Nisso podemos destacar tanto a direção quanto a atuação. Jeong-min Hwang, no papel principal, tem em seu olhar, seu sorriso, e sua postura, os mesmos traços do Superman clássico que todos conhecemos e identificamos, tanto nos quadrinhos e desenhos animados, quanto em seus primeiros filmes encenado por Christopher Reeve. E ao mesmo tempo essa postura de super-homem é quebrada quando o vemos humano, se machucando ou brincando com as crianças, por exemplo. Nisso podemos afirmar que ele é sim de fato, louco, ou (e eu prefiro assim) dizer que é o Clark Kent nele. Desde a sua primeira cena no filme, onde ele (mais rápido que uma bala!) salva a jornalista que o acompanha no decorrer do filme, com uma pose clássica de Super-Homem, sabemos, este é o Super-Homem! Mas é claro, nós mesmos desconfiamos de que, bom, talvez ele não seja de fato o Superman, e essa é a grande questão da história.

O filme utiliza de muitas imagens fantásticas e líricas, pode-se dizer, para mostra como o SUPER do herói pode existir em uma pessoa aparentemente comum, aos olhos dos que acreditam, como na cena em que ele finalmente voa. Descobrimos duas tragédias na vida deste Super-Homem, e que uma delas aconteceu porque nenhuma pessoa quis se arriscar para salvar a vida de outras pessoas, e desta forma ele dedica sua vida a fazer o oposto do que aquelas pessoas fizeram com ele.

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Atualmente temos um Superman diferente no cinema. O novo homem de aço da DC/Warner não tem cores, não tem sorriso ou carisma, e ao invés disso ele veste seu corpo numa roupa escura, e seu rosto num semblante triste. A mãe (que se chama Martha) deste Clark Kent, diferente da Tia May daquele Peter Parker, ensina seu filho que ele não deve nada às pessoas deste mundo. Enquanto o novo Batman (com uma Martha como mãe também) segue o mesmo modelo triste e escuro. A motivação do Batman para lutar sempre foi um otimismo insano de que seus atos fariam do mundo um lugar melhor, como Grant Morrison sintetiza muito bem em Corporação Batman, quando Bruce Wayne conversa sobre a morte de seus pais com o Comissário Gordon:

Eu olhei para aquele buraco nas coisas tantas e tantas vezes, até machucar, Jim… E sabe o que eu encontrei lá? Nada…
… E espaço suficiente para conter tudo.

Mas este novo Batman se motiva pelo fato de que o mundo não muda e criminosos não acabam então ele precisa matar a todos. Um Batman niilista? Ok, mas, mesmo desta forma, não faz muito sentido. Talvez seja o reflexo de novos tempos como muitos fãs tentam argumentar. Talvez. Seria uma pena.

Eu por outro lado, gosto de acreditar que heróis são e sempre serão aquilo que a Tia May descreveu no segundo filme do Homem-Aranha e que encaixou perfeitamente como a explicação do porquê esses personagens significam tanto para mim, e para muitos. E que me mostrou que sim, aquele coreano de camisa havaiana é o Superman, e que não, estes novos batman e superman não são nem O Batman nem O Superman. Talvez seja uma questão ideológica (apesar de que os novos filmes da Warner são ruins também tecnicamente), e se for, que o novo filme da Marvel Studios, Capitão América: Guerra Civil consiga fazer o Homem-Aranha representar algo bom, algo como o que um herói deve ser mesmo em tempos difíceis, mesmo em novos tempos.

(Filme completo no YouTube)