Peça de teatro: ENTRE NÓS

Peça de teatro: ENTRE NÓS

Em 2012, Entre Nós, uma peça de teatro, foi vencedora em três categorias do Prêmio Braskem de Teatro, prêmios que correspondiam como: Melhor Espetáculo, Melhor Ator – Igor Epifânio – e Melhor Texto.

A peça contou com a participação de João Sanches, com texto, direção, figurino e iluminação, Igor Epifânio e Anderson Dy Souza, no elenco, e Leonardo Bittencourt responsável pela trilha sonora, apresentada ao vivo.

entrenos

Você pode ver o trailer da peça aqui.

Assisti à peça Entre Nós, em uma apresentação feita no teatro Baração, na cidade de Maringá. O teatro estava lotado por um público, em sua maioria, jovem.

Já na fila para adentrar ao teatro, os jovens presentes comentavam sobre a peça e seus atores. Eu estava bem curiosa ouvindo os comentários, como não tinha lido nada sobre a peça, nem sobre os atores, fiquei inquieta para que começasse logo.

Quando abriu a porta para que o público pudesse se acomodar em seus lugares, percebi uma disputa pelos melhores lugares, já que as cadeiras não eram numeradas. Chegando próximo da entrada, uma surpresa boa: o ator Igor, cumprimentava um a um dos que formariam a plateia. Em seguida, uma outra surpresa: o ator Anderson, estava do lado de dentro do teatro fazendo o mesmo. Fiquei encantada com a atitude dos atores. O espetáculo me conquistou antes mesmo de começar, até porque, além da recepção calorosa, os organizadores tiveram uma preocupação em proporcionar uma interprete da Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS.

Encontrei um lugar para sentar que eu pudesse ter uma visão total do palco e, ao pensar que nada mais me surpreenderia, vi que no palco não tinha cenário, apenas um guitarrista (Leonardo Bittencourt), uma mesa com uma espécie de máquina para fazer alguns tipos de efeitos, como fumaça, e mais os dois jovens e talentosos atores, Igor Epifânio e Anderson Dy Souza. Ao pensar que a peça se iniciaria como acontece em geral nas peças, isto é: as luzes se acendem e os atores começam o trabalho; ali não. Os atores já estavam no palco e começaram a conversar com a plateia, se apresentaram, então, começaram a falar sobre diversidade sexual, parecia quase uma palestra, para nos contextualizar.

Um pequeno contexto (quase igual ao da peça, rsrsrs):

 A peça trata da questão de diversidade sexual. Mas, o que é a tal diversidade? Procurei no Michaelis, que define di.ver.si.da.de como: sf (lat diversitate) 1 Qualidade daquele ou daquilo que é diverso. 2 Diferença, dessemelhança: Diversidade de interpretações. 3 Variedade: Diversidade de dons. 4 Contradição, oposição. Antôn (acepção 2): unidade; (acepção 4): harmonia.

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Ao pensar nessa definição, caio no termo homossexualismo que, hoje, pensando em nosso contexto histórico-político, com qualquer Bolsonaro disseminando discursos de ódio, está em discussão (o que é super válido, não é?). Refletindo, então, na formação da palavra citada, vemos que o sufixo –ismo (homossexualismo), se refere a tipos específicos de doença, utilizado pelo discurso médico principalmente para identificar o sujeito homossexual.

 O sufixo –ismo reforçou na representação da palavra os pressupostos da época (religioso-moralista, médico-patológico, jurídico-criminal) para os relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, ou seja, algo de natureza anormal, essencialmente patológico, doente, desviante, perverso, pecaminoso (FURLANI, 2007, p. 153).

Então, a descrição médica do sujeito homossexual criou uma posição social desse sujeito, na sociedade da época, mas que persiste no imaginário de muitas pessoas da nossa sociedade contemporânea.

Por sorte, em 1985, o Conselho Federal de Medicina, no Brasil, anulou o parágrafo 302.0 do Código Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial de Saúde (OMS), para que, perante a Lei, o homossexual não fosse visto como uma pessoa doente, que pode ser ‘curada’. Entretanto, apesar dessa medida, percebemos que a heterossexualidade ainda é a relação “normal” ou “regra”, pois, infelizmente, na nossa sociedade a criança nasce e é educada para seguir o gênero “correto” e, a partir disso, ela é obrigada a sentir atração pelo sexo oposto.

A peça

amor

A peça é encenada por dois atores, Igor Epifânio e Anderson Dy Souza, que tentam inventar, na hora, uma história de amor entre dois jovens gays. Para isso, eles se revezam na criação de treze personagens, enfrentam uma série de situações conflitantes e engraçadas até decidirem o destino dos protagonistas Rodrigo e Fabinho, num diálogo direto com a plateia e com intervenções de música ao vivo.

Entre Nós é uma comédia sobre a diversidade sexual, que deixa o público encantado e eufórico do começo ao fim. Os atores arrancam muitos risos da plateia. Com um enredo metalinguístico e didático, a peça instiga o público a aceitar uma relação entre dois garotos que ainda estão cursando o ensino médio.

Assim, inicia-se a obra:

ATOR1
Bom dia a todos.
ATOR2
Bom dia.
ATOR1
Eu sou o Ator 1.
ATOR2
Eu sou o Ator 2.
GUITARRISTA
Eu sou o guitarrista.
ATOR1
E nós estamos aqui pra…
ATOR2
Pra falar sobre Diversidade.
ATOR1
Diversidade é uma palavra ótima.
ATOR2
Eu adoro essa palavra.
ATOR1
Mas nós estamos aqui para…
ATOR2
Para falar, especificamente, sobre Diversidade Sexual.
ATOR1
Sexual também uma palavra ótima.
ATOR2
Mas o tema Diversidade Sexual tem lá as suas polêmicas.
ATOR1
O que é curioso, porque se tem uma coisa que quase todo mundo gosta é de sexo.
ATOR2
Sexo é um assunto polêmico. Mexe com a intimidade das pessoas.
ATOR1
Juntando com o quesito Diversidade então, é polêmica que não acaba mais.
ATOR2
Porque diversidade aí não significa apenas as infinitas posições sexuais.
ATOR1
Diversidade aí significa, principalmente, as diversas manifestações da sexualidade humana.
ATOR2
As diversas práticas sexuais entre as pessoas.
ATOR1
Práticas sexuais ENTRE as pessoas ou práticas sexuais DAS pessoas? Porque você sabe que tem gente que curte um jumento, uma galinha…
ATOR2
Eu não acho interessante abordar a questão “sexo com animais”.
ATOR1
Mas essa questão diz respeito ao tema diversidade sexual. No interior mesmo, muita gente…
ATOR2
Diz respeito sim. Mas talvez seja mais interessante abordar a questão das diversas combinações sexuais entre seres HUMANOS.
Ok. Por falar em partes envolvidas, é bom lembrar que o tema diversidade sexual não está relacionado ao ato sexual propriamente dito.
ATOR1
Com certeza. A questão são as relações afetivas como um todo. Os diversos tipos de envolvimento.
ATOR2
Isso! Na verdade, é sobre isso que nós estamos aqui para falar. Sobre os diversos tipos de envolvimento.
ATOR1
Na verdade verdadeira, nós NÃO estamos aqui para falar, nós somos atores e estamos aqui para fazer uma peça.
ATOR2
Mas, para isso, precisamos falar.
ATOR1
Sim, mas a gente pode abordar o tema através de uma história. Interpretando
personagens.
ATOR2
Sim! Claro. Pro pessoal não achar que é uma palestra.
ATOR1
Se bem que todo mundo sabe que isso aqui é uma peça.
ATOR2
E que já começou.
ATOR1
O que ninguém sabe é qual é a história dessa peça.
ATOR2
Mas estamos aqui pra isso. Pra contar a história dessa peça
ATOR1
Pra fazer a história dessa peça.
ATOR2
Ok. Então vamos à história.
ATOR1
Ok. A história
ATOR2
Então.
ATOR1
A história…
ATOR2
?
ATOR1

ATOR2
Sim?
ATOR1
Pois é.
ATOR2
Ah…
Vamos fazer uma história de amor?

Você pode encontrar o diálogo aqui

Como vocês podem ver, aos poucos, dá-se sentido à estória e se desenvolve os personagens Rodrigo e Fabinho. O que parecia uma palestra, transforma-se numa narrativa bem-humorada, que agradou ao público presente.

E nesse ‘quase’ improviso, os atores Igor e Anderson, sem troca de figurinos, interpretam uma garota assanhadinha, um colega da escola homofóbico, uma mãe super protetora, um pai machista e uma diretora de uma escola cristã “sem preconceitos, mas com princípios”, uma cafetina e também o pai e uma mãe de um colega de sala, entre outros.

Com isso, percebo uma pluralidade de olhares sobre o tema. A diversidade de olhares, com uma simplicidade tocante, pois o enredo mostra ao público cenas quotidianas, comuns, que acontecem a qualquer pessoa, independente do seu gênero, mas que, normalmente, situações como as apresentadas atingem de maneira mais forte, mais dura, minorias como a mulher, o gay, o pobre.

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Fotos: Mariana Kateivas

O final da peça é inovador e surpreendente (é muita surpresa, minha gente), porque os atores deixam a plateia decidir: Fabinho e Rodrigo ficam juntos com um beijaço ou finaliza a peça e cada um faz a sua interpretação, uma estratégia bem machadiana, como se o autor chamasse o narratário (no caso o público), para decidir o desfecho de toda trama, pensaram em Dom Casmurro, é? Assim como o leitor do livro do Machado de Assis, nessa apresentação, também tivemos a chance de decidirmos: merece beijo ou não merece? (riso!), só que a diferença está na chance do final se concretizar, naquele momento.

Cena final:

ATOR2
Você perdeu. Vai ter o beijo.
ATOR1
Tudo bem. Eu sou um ator. Se é pra beijar, eu beijo.
ATOR2
Ótimo.
Tenho até uma proposta de texto.
Uma poesia de Fernando Pessoa.
Música, Guitarrista.
FABINHO
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto…
ATOR1
Esse soneto é de Vinicius de Moraes
ATOR2
É?
ATOR1
Não dá pra confiar cem por cento no Google.
ATOR2
Mas a poesia é bonita.
ATOR1
Que tal a gente tentar ser só um pouquinho menos óbvio? A gente pode improvisar uma música com os finais de todos os personagens, é melhor.
ATOR2
Ao invés de uma, vamos fazer várias cenas?
ATOR1
Não. Apenas uma cena musicada.
Olha. De boa, para uma peça sobre diversidade, eu acho que gente ficou muito concentrado no casal gay adolescente.
ATOR2
Você queria o quê? Um casal gay da terceira idade? Um casal de lésbicas? Uma trama com travestis? Transexuais? Eu adoraria, mas você resiste em interpretar um beijo gay, quem dirá…
ATOR1
Eu não resisto não! Eu já disse que beijo!
Olha, deixa a música pra lá.
É pra beijar, eu vou beijar.
Pronto.
Eu vou te beijar AGORA!
ATOR2
Calma. Tem que pensar como introduzir a cena primeiro
ATOR1
Não importa mais como introduzir. O importante agora é dar o beijo e pronto
ATOR2
Como introduzir é importante sim. Até porque são os personagens que se beijam!
ATOR1
No final das contas, dá no mesmo
Aliás.
Fala a verdade. Essa história de personagem é papo furado.
Você quer é que eu te beije! É isso!
Pronto. Falei.
E vocês apoiando, né?
ATOR2
Não venha não. Todo mundo aqui sabe que a gente está interpretando personagens.
A história é que pede um beijo.
ATOR1
A história, a plateia e você também!
ATOR2
Não adianta tentar me constranger.
ATOR1
Você está constrangido?
ATOR2
Você está tentando, mas não está conseguindo
ATOR1
Eu estou tentando te beijar. Mas quem está resistindo agora é você.
ATOR2
Não se preocupe com o beijo – se concentre na cena.
ATOR1
Rapaz, a cena é essa:

(O ATOR1 beija o ATOR2 surpreendentemente. A partir daí, os dois não param mais de se beijar. O GUITARRISTA (que merece um super destaque, já que produziu uma trilha sonora de alta qualidade) toca um fundo musical para a cena e tenta encerrar a peça. Mas os dois atores continuam se beijando.)

GUITARRISTA
Meninos, tá bom.
Já deu.
Galera, a peça acabou.
Meninos, tá demais..
Muito obrigado a todos.
Foi um prazer.
Meninos…

 Diante de uma votação o público maringaense escolheu o beijo. E que beijo!

bj

Foto: Mariana Kateivas

Programa Petróbras

O espetáculo foi selecionado pelo Programa Petrobrás Distribuidora de Cultura 2015/2016, e, foi apresentado para mais de 30 escolas, 17 teatros, dois países, 15 cidades, em sete estados brasileiros, somando um público de 100 mil pessoas. Além disso, foram convidados para 28ª edição do Festival Internacional de Teatro Hispânico de Miami, que acontece de 11 a 28 de julho. Uma baita iniciativa!

O vídeo é um breve documentário sobre a ação educativa do espetáculo Entre nós.